SEXTA-FEIRA, 28-07-2017, ANO 18, N.º 6390
Manuel Sérgio
Ética no Desporto
O corpo da mente e a mente do corpo (artigo de Manuel Sérgio, 175)
19:06 - 30-12-2016
Manuel Sérgio
O futebol vive entumescido de notícias sensacionais, que procuram mais alienar do que ensinar, que são mais manipulação do que pedagogia, que resultam mais da tutela do dinheiro do que da vontade de esclarecimento. Escutam-se as entrevistas de alguns especialistas nesta modalidade desportiva e até um ignorante do futebol, como eu, sente goradas todas as tentativas de aprendizagem, diante do primarismo, ou da nula disciplina intelectual, destes famosos entrevistados. Com efeito, o que eles ensinam já eu sei e (podem crer) eu sei muito pouco. É verdade que beneficiei do convívio de figuras que, sacudido o pó do tempo, se revelam fundamentais na evolução do futebol português. Também é verdade que já lecionei em cursos para treinador de futebol. Mas continuo a ter, para mim, que quem não pratica não sabe, por mais insinuante e sinuoso que seja um teórico munido de um currículo igual ao meu. Talvez eu tenha lugar numa equipa multidisciplinar de apoio a um treinador de futebol, ou num gabinete de estudos que, de modo interdisciplinar, sobre o futebol se debruce. E por aí me quedo! Recordo que Nietzsche hipervalorizou o dionisíaco, o biológico, o desejo, a criatividade, uma imparável vontade de viver e subvalorizou o apolíneo, a lei, a norma, a medida que, para ele, representavam uma fuga cobarde perante a vida. Vale a pena escutá-lo: “Eu sou inteiramente o meu corpo e nada mais do que isso. A alma não passa de uma palavra para exprimir qualquer coisa que não sabemos o que é mas que, na realidade, pertence ao corpo”. Freud, com entusiasmo não contido, manifestava uma íntima veneração por Nietzsche: “Trata-se de um filósofo cujas opiniões coincidem, frequentemente, com os laboriosos estudos da psicanálise”. Para mim (e não pretendo ombrear com os génios que venho de citar) tudo o que é corpo é alma e tudo o que é alma é corpo.

No entanto, quanto mais penso em mim, menos me conheço. “A humanidade corre permanentemente o perigo de se atribuir a si própria demasiada importância. No nosso insignificante astro, apenas um entre os biliões da nossa Via Láctea (ela própria apenas uma Via Láctea, entre biliões de outras) deveríamos estar conscientes de que, na história do universo de 13,7 biliões de anos, o nosso planeta Terra existe há cerca de 4,5 biliões de anos; aproximadamente há 3,5 biliões de anos existem formas de vida complexas, mas os primeiros homens primitivos, homens com um andar erecto (Homo erectus) surgiram apenas, há um milhão e meio de anos e só há duzentos mil anos existem seres humanos iguais aos de hoje (Homo sapiens)”. Portanto, segundo o teólogo Hans Kung, no seu livro O princípio de todas as coisas, a humanidade resulta de uma longa e acidentada evolução cósmica, o que equivale a dizer que a evolução da humanidade não se compreende sem o contributo indispensável da dimensão corporal do ser humano. Não obstante, e para que não se diga que sou eu o único autor a insistir neste assunto: a educação física nasceu apenas no século XVIII “y con preocupaciones de todo médicas (…). El término mismo de educación física es de uso tardio, no aparecerá hasta el siglo XVIII en que lo introducirá el médico suizo Ballesteros, en 1762”(Benilde Vásquez, La Educación Física En La Educación Básica, Gymnos Editorial, Madrid, 1989, p. 56). De facto, a cultura europeia era (e continua a ser, sob muitos aspetos) dualista. A passagem do corpo-instrumento a corpo-sujeito foi difícil, digamos mesmo: foi muito difícil. Ainda hoje, no desporto de alto rendimento, a vitória de uns significa a derrota de outros. E, quando se perde mais vezes do que se ganha; quando as expectativas (publicitadas pela Comunicação Social) não se alcançam – as frustrações são muitas, são muitos os motivos de desânimo, desmotivação e até desordens psicológicas, metabólicas e orgânicas.

A alta competição desportiva (o alto rendimento desportivo) configura-se, demasiadas vezes, nos antípodas do desporto-educação, do desporto-lazer, do desporto-saúde. Nesta competição desmesurada, mais importante do que a saúde do atleta parece ser o rendimento e o lucro. No neoliberalismo dominante, imperam os valores do mercado, na sociedade toda… até no Desporto! Admiramos os lampejos de génio do Messi, a destreza e a eficácia do Cristiano Ronaldo, a inteligência corporal e quinestésica do Iniesta, mas nem sempre descobrimos, nas suas jogadas espetaculares, um treino tenso e intenso, levado até aos limites das possibilidades de cada um dos atletas; a toma constante de fármacos que bordejam a dopagem; uma doentia pressão psicológica onde os valores-fetiches são quase tudo e a saúde do atleta quase nada. No processo da globalização neoliberal em curso, no economicismo absoluto e no financeirismo hegemónico, na sua promoção está o desporto altamente competitivo. E a ética desportiva? Quem dela se lembra, num espaço de quase completa irracionalidade? Já o escrevi, há muitos anos e volto a repetir-me: uma lágrima humana é mais importante do que todos os campeonatos e taças do mundo! O resultado de uma competição não pode ter importância maior do que a saúde dos praticantes! O dualismo epistémico corpo-alma não passa de um reflexo do dualismo social e político senhor-servo. Não deverá surpreender-nos, por isso, que a medicina e a psicologia e a educação física, no último quartel do século XIX, se estudassem, principalmente, nos laboratórios da Fisiologia. A Revolução Industrial e portanto o ingresso, no seu trabalho diário, de milhares e milhares de operários proletarizados – a Revolução Industrial (e o próprio colonialismo) precisava de erguer o mecanicismo cartesiano a objeto de culto, para que os operários trabalhassem muito e pensassem pouco.

Por mais triunfante que seja o itinerário de um desporto ao serviço do neoliberalismo ou de ditaduras ditas socialistas ou daqueloutras moldadas ao jeito das teocracias, nada pode sobrepor-se ao legítimo anseio de radicar o Desporto na totalidade da vida. Eu digo mais: em tudo o que de mais autêntico a vida tem. De facto, a motricidade, ou seja, o movimento intencional da transcendência, é sempre uma opção. E, porque o Desporto é um dos aspetos da motricidade, a importância das licenciaturas e mestrados e doutoramentos, em Desporto (e portanto na educação pelo e para o Desporto) reside aqui, antes do mais: que os direitos humanos se não transformem em códigos desumanos, quero eu dizer: que a competição não se confunda com clubismo (ou regionalismo) faccioso; que o monoteísmo do mercado não converta os praticantes em singelos títeres, parecendo incapazes de despertarem do “sono dogmático” da apatia, da indiferença, do absentismo; que a prática desportiva não se constitua, unicamente, de referências, atitudes e representações bélicas ou de uma evasão, ou uma fuga, do mundo dos valores da compreensão, tolerância e solidariedade; que, no treino desportivo, não seja a fisiologia a primeira das ciências, pois que no pensar, ser e agir do desportista há mais sabedoria (filosofia) do que saber; que no corpo da mente e na mente do corpo dos desportistas (porque tudo o que é corpo é alma e tudo o que é alma é corpo) brilhem os mais instantes desejos de toda a humanidade, mormente os anseios dos mais pobres, os que têm, pelo muito que sofreram, as chaves do futuro. E se, em 2017, não se procurasse tanto o super-homem de Nietzsche, combativo e feroz, mas o sábio (ou o santo) que luta, convictamente, pela criação de um mundo onde seja possível (e sirvo-me das palavras de Kant) “a paz perpétua para todos os humanos dignos deste nome”?

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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