QUINTA-FEIRA, 25-05-2017, ANO 18, N.º 6326
Manuel Sérgio
Ética no Desporto
A Filosofia como fundamentação (artigo de Manuel Sérgio, 173)
20:38 - 12-12-2016
Manuel Sérgio
Com a sua cândida boa fé, quero eu dizer: com uma fé robusta na sua prática, muitos atletas pensam que os seus desempenhos lhes bastam, para explicar e compreender o Desporto. Eles têm, de facto, o principal: a prática. Na sóbria pureza da sua linguagem, dizem coisas que, até para nós, estudiosos, são novidade. Há quase 50 anos (estou velho, não há dúvida) venho dizendo: quem só teoriza - não sabe; quem só pratica - repete. Como tenho convivido, desde rapaz, com treinadores e jogadores, nomeadamente de futebol; porque fui colega de desportistas que fazem honra ao desporto nacional (distingo, entre todos, o Mário Moniz Pereira); porque fiz amizade com pioneiros do Desporto, em Portugal, como o engenheiro Vasco Pinto de Magalhães, como o Acácio Rosa, como o Dr. Armando Rocha (presidiu à elaboração do I Plano de Fomento do Desporto Universitário e do I Plano de Fomento Gimnodesportivo) – bem cedo entendi que se descobria, em muitos deles, uma insaciável curiosidade de espírito. Não lhes bastava a prática desportiva, no conhecimento do Desporto, exploravam também outras províncias do saber. Ocorrem-me neste momento os convites que tive a honra de merecer do Prof. Paulo Renato da Costa e Souza (reitor da Unicamp e depois ministro do governo brasileiro, durante a presidência do Prof. Fernando Henrique Cardoso), do Prof. José María Cagigal, inesquecível diretor do INEF de Madrid, e do Dr. Armando Rocha, diretor-geral dos Desportos – os três acentuando que a minha presença, nas instituições de que eram os principais responsáveis, se justificava principalmente, porque era o único filósofo do desporto, vivo, que eles conheciam, em língua portuguesa. Não acrescentaram, por cortesia, por delicadeza, que eu era o único e que o ditado se me aplicava com justeza: “Na terra dos cegos, quem tem um olho é rei!”. Mas eu já tinha bem presentes os meus parcos méritos…

Sou, hoje, fraterno Amigo dos Drs. José Lourenço Pinto, presidente da Associação de Futebol do Porto e jurista de excelência e João de Deus, médico oftalmologista de sólida autoridade, entre os seus pares, e benfiquista entusiasta, mas de um encantador desportivismo. Ambos, portanto, desportistas, mas deixando transparecer uma sedução muito especial pelo mundo das ideias, tornando-as mesmo alimento do espírito. O Dr. João de Deus consultei-o, há meia dúzia de dias e, no meio da conversa que entre nós se estabeleceu imediatamente, lançou-me, a sorrir, esta questão: “Diga-me lá como consegue fundamentar o Desporto, com a Filosofia?”. Assim lhe respondi: “Cada umas das ciências delimita uma determinada parcela da realidade. A Filosofia procura o esclarecimento e a compreensão do todo e não das partes, pois que, como ensinava Ortega y Gasset, onde acaba a Física não terminam as questões. Ciência, sem consciência, ou seja, um mero positivismo não nos ajuda a resolver a grande interrogação que se levanta a cada um de nós: Qual o sentido da vida? A vida humana não passa de uma breve passagem, pela Terra. Não podemos, por isso, aguardar indefinidamente que as ciências nos expliquem o que (ainda) não sabem explicar. Havemos, por isso, de preocupar-nos, tanto com os problemas gnosiológicos, como com as grandes questões medularmente axiológicas, na tentativa insana de resolver o velho enigma do ser humano e do seu destino”. Gotejaram-me no cérebro mais algumas ideias e continuei: “Também no mundo do Desporto há questões que não se limitam ao conhecimento parcelar da realidade; também nele cabe a interrogação: qual o sentido do Desporto, no mundo atual? Também nele deverá emergir a preocupação central de uma ampla e radical análise da condição humana”. O Dr. João de Deus, homem de ciência e de uma impressionante grandeza moral, rematou: “Sim, o Desporto há-de ser bem mais do que dele pretendem dizer alguns dirigentes e comentaristas”…

O Dr. José Lourenço Pinto, espírito de extensa projeção nacional e pessoa de notável fascinação pessoal e porque dirigente desportivo, dá-me a honra de algumas conversas telefónicas, sobre temas de que eu julgo (e posso enganar-me) ter algum (bem pouco) saber. Relembro, neste passo, o poema de José Gomes Ferreira: “Ah! Se acontecesse enfim qualquer coisa! / Se de repente saísse da terra um braço / e tirasse uma rosa / para o espaço!”. Mas, “como íamos dizendo”, o Dr. Lourenço Pinto já me estimulou a uma dissertação sobre esta problemática e adiantou: “O meu Amigo fez da filosofia do desporto um modo de vida. Não sei de qualquer autor, tanto em Portugal, como no estrangeiro, que tenha 50 obras, sobre esta área do conhecimento”. E questionou-me: “Por que se deitou ao estudo da epistemologia do Desporto?”. Remoço-me sempre com esta pergunta e, por isso, embrenhei-me ousadamente na resposta: “Todo o saber é precedido por um saber não científico, um pré-saber, constituído por verdadeiros obstáculos epistemológicos (onde há mais ideologia do que ciência) os quais, para ser superados, exigem cortes epistemológicos, mudanças de paradigma, revoluções científicas. Senti portanto absoluta necessidade de estudar epistemologia, para saber em que condições a ciência é possível, as relações entre ciência e sociedade, a diferença entre o conhecimento comum e o conhecimento científico. E, para tanto, estudei também o Gaston Bachelard, o Louis Althusser, o Karl Popper, o Thomas Kuhn, o Michel Foucault, o Jean Piaget, o Paul Feyerabend e, mais tarde, o Ilya Prigogine. Após três visitas que fiz ao Chile, conheci o Maturana e o Varela…”. Aqui o Dr. Lourenço Pinto atalhou: “E quais as conclusões a que chegou o meu Amigo?”
Em voz pausada, serena, disse-lhe: “Em primeiro lugar, faço minhas as palavras de Gaston Bachelard: “No reino do pensamento, a imprudência é um método plausível”. Em segundo lugar, concordo, sem esforço, que a ciência só nos fornece um conhecimento provisório (Popper), ou um conhecimento aproximado (Bachelard) e que está em constante modificação (Popper) ou em constante retificação (Bachelard). Em terceiro lugar que, no âmbito das ciências hermenêutico-humanas, tendo em conta a complexidade humana, a interdisciplinaridade responde à necessidade de um saber unificado”. As resistências dos treinadores a uma integração criativa de disciplinas diferenciadas; a inércia dos clubes e das instituições universitárias, repetindo o Passado de modo não-criativo; um pedagogismo, onde se cultiva a ideologia e uma pseudo-ciência; o desconhecimento das relações atuais entre as ciências da natureza e as ciências humanas, que o positivismo promove – tudo isto impede a visão de um novo conceito de Homem que sirva de base a um novo treino e a um novo Desporto. Não basta a ciência, ou o real empírico, para liderar um treino. E os valores? Relembro a interrogação de Jean-François Revel, que se julgou, durante muito tempo, com originalidade criadora: para que servem os filósofos? Num desporto (numa sociedade) onde o crescimento é tantas vezes selvagem e cego e onde a competição desemboca numa cultura agressiva; enfim, se a competição sem limites é a lei – a que vem a filosofia, com juízos de valor, sobre o que se deve, ou o que se não deve, fazer? Se vivemos mergulhados numa vida sem finalidade última, proclamada por estruturas alienantes e sem rosto - onde nos leva uma especulação metafísica? Não se trata, de facto, de simples logorreia e verborreia?

Para reencontrar as dimensões humanas esquecidas e perdidas, a filosofia (e a teologia) é o fundamento da emergência de uma prática transformadora. Abre-se a televisão: reinam o sensacionalismo e a banalidade; predominam a vulgaridade e o lugar-comum; as pessoas contentam-se com o “como”, ou os meios, e não com o “porquê”, ou os fins!... Daí, o prazer do diálogo com o Dr. João de Deus e o Dr. Lourenço Pinto. Um médico e um advogado, capazes de assumir o projeto-esperança de um novo humanismo, de um desporto novo!

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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