QUINTA-FEIRA, 25-05-2017, ANO 18, N.º 6326
Manuel Sérgio
Ética no Desporto
O Desporto: intencionalidade e âmbito (artigo de Manuel Sérgio, 157)
13:28 - 17-08-2016
Manuel Sérgio
No livro da minha autoria, Para uma nova dimensão do Desporto (Junho de 1974), a primeira publicação da Direção-Geral da Educação Física e Desportos, depois da Revolução dos Cravos, aí se encontra o texto seguinte, com o título “O desporto em que eu acredito”.

O texto, portanto, tem mais de 40 anos: “Também concorre ao aperfeiçoamento das características psicológicas de todas as idades e de cada um dos sexos. Nada esquece, no movimento humano, sob o ponto de vista articular, muscular, funcional. Pretende dar ao praticante força, velocidade, “endurance”, resistência, coordenação. Não se limita a fazer bestas esplêndidas, ou mesmo animais racionais com impecável coordenação neuromotora. É mais ambicioso: quer ser um factor de enriquecimento das estruturas sociais, porque reivindica tempo de lazer e nível de vida aceitável de rodos (todos!) os homens, porque se afasta do “panem et circenses” das turbas massificadas e quer ser um meio de o homem se exercitar no uso da liberdade. Este é o desporto em que eu acredito. Conserva intacta a função biológica do desporto percepcionado à maneira antiga. Mas acredita firmemente que tem uma função social e política, por outras palavras: que se situa na esfera da responsabilidade social. Pensando bem talvez possa mesmo adjetivá-lo de político. Porque recusa a esfera do primado do individual, do íntimo, do subjectivo e aceita o predomínio da categoria do encontro e do intersubjetivo. Este é o desporto em que eu acredito”. Mais adiante, acrescentava: “os campeões serão como “tumores malignos” numa sociedade enfraquecida, se a qualidade das suas “performances” e das regalias que lhes são dispensadas contrastar com as carências e a subcultura dos seus concidadãos”.

Principiou a época de 2016/2017 do Nacional de Futebol, nas Ligas 1 e 2. Porto, Sporting e Benfica jogarão, ao longo e ao largo do País, precedidos de um mar imenso de milhares e milhares de adeptos e de bandeiras flutuando, como gritos multicores. São muitos os sócios e simpatizantes dos maiores clubes portugueses que alagam, inundam, submergem as praças e as ruas das cidades onde jogam os “dragões”, as “águias” e os “leões”. Uma maré humana lenta, ruidosa, estrepitosa saúda, vibra, vive os vários momentos do jogo e, com um golo das suas cores, todos confraternizam na mesma alegria de glória e de triunfo. Ferrnando Savater, n’O Meu Dicionário Filosófico (D. Quixote, Lisboa, 2010) tem palavras que me apraz registar, neste momento:

“A ânsia de competir é negativa se impede a cooperação com os demais, se justifica o vale tudo, desde que se ganhe, ou desemboca no abandono depreciativo do próximo menos capaz ou menos afortunado. Mas por outro lado é sintoma de algo excelente: uma sociedade onde se estabeleceu a igualdade política. A competição nasce na sociedade grega como raiz do desaparecimento das antigas jerarquias genealógicas, o que tornou imprescindível inventar outras formas de distinção social (...). Cada grupo necessita de tipos humanos que representem a excelência, dignos de admiração, modelos que encarnem o ideal social de vitalidade de modo global e simultaneamente distinto. Somos iguais, mas não indistintos. Além disso, só se pode competir entre iguais: ninguém pode medir as suas forças com os deuses, nem com o monarca absoluto, ou o representante de uma casta superior. Só quem me reconhece como igual compete comigo e é capaz de camaradagem na rivalidade. A competição é uma força socializadora porque, para competir, precisa-se dos demais: ninguém compete só” (pp. 96/97).

Volto a Fernando Savater: “Cada grupo necessita de tipos humanos que representem a excelência (...), modelos que encarnem o ideal social de vitalidade”. E que (no meu entender) na excelência e no risco, na superação dos limites e das rotinas, mostrem também exemplar fidelidade aos valores de igualdade, de fraternidade, de solidariedade, de respeito pela natureza, pelos outros e por nós mesmos. O desporto deve refletir a necessidade que o ser humano sentiu de converter em valores inteligíveis e plausíveis o que motiva e justifica o seu comportamento, as suas ações. Por isso, as expressões “atividade física” e “educação física” não podem ser o paradigma científico do trabalho e do estudo dos impropriamente denominados “professores de educação física”.

A sua profissão situa-se, pratica e teoricamente, no âmbito da complexidade humana e portanto da responsabilidade ética e política e não só no domínio da obrigação deontológica. Quando hoje se questiona o modelo biomédico tradicional (donde nasce a educação física) que, na doença, não tem em conta as convergências entre biologia e cultura, tenta questionar-se, assim, alguns mitos sobre a “natureza humana”. Não escondo que há doenças de origem totalmente genética onde a influência da cultura ainda não pode determinar-se. “Não há regra sem exceção” diz o povo que afirma, com igual convicção, que “a exceção confirma a regra”.

Assinala Edgar Morin: “A fragmentação e compartimentação do conhecimento em disciplinas não comunicantes tornam-nos inaptos a perceber e conceber os problemas fundamentais e globais. A hiperespecialização destrói o tecido complexo do real, o primado do quantificável oculta as realidades afetivas dos seres humanos” (A Via – para o futuro da humanidade, Edições Piaget, Lisboa, 2016, p. 155). No movimento intencional da transcendência, típico do desporto, onde há biologia há cultura e onde há cultura há biologia. Um modo de conhecimento segmentado, fragmentado produz uma incompreensão generalizada do desporto.

O âmbito do desporto é o humano, na sua integralidade, e a intencionalidade que dele deve emergir é a transcendência em direção ao mais humano. O desporto, ou se transforma num espaço ao serviço, em todas as circunstâncias, da dignidade humana – ou não é desporto!
No desporto, há mais do que desporto – é o ser humano! Todos os campeonatos e taças do mundo não valem uma lágrima humana!

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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