QUINTA-FEIRA, 25-05-2017, ANO 18, N.º 6326
Manuel Sérgio
Ética no Desporto
A propósito do Euro-2016 (artigo de Manuel Sérgio, 146)
17:06 - 16-06-2016
Manuel Sérgio
Um realismo radicular ao que se passa de relevante, na Europa a que pertencemos, poderá levar-me ao Euro2016 e será, normalmente, encharcados de futebol que sairemos da leitura das minhas fracas ideias. Gostava de ter uma língua imareada, vernácula, funcional, opulenta, para relatar este Europeu de Futebol, partindo das análises, dos comentários, das crónicas, ou até da ficção e da poesia, que acerca dele se escrevem.

Análises, comentários, crónicas e até ficção e poesia da autoria de muitas pessoas que, porque conhecem o Ronaldo, o Messi, o Ibrahimovic, o Pogba, o Rooney, o Bale, etc, podem desconhecer, sem problemas, Simone de Beauvoir, Sartre, Malraux, Camus, Habermas, Paul Ricoeur, etc. Conheci uma geração de jornalistas do jornal A Bola, na qual incluo o treinador e jornalista Fernando Vaz que, porque sabiam esmiuçar as «causas das causas» da classe do Di Stéfano, do Cruyff, do Puskas, do Kubala, do Eusébio, do Bobby Charlton, julgavam precisar, para tanto, do contributo intelectual e político e moral dos mais probamente galardoados escritores e filósofos. Estou a ouvir a contestação ardente de alguns: «Para o futebol do tempo de inesperadas descobertas tecnológicas, do microchip, do acelerador de partículas, da Internet, da televisão digital, para este futebol o que tem a filosofia a dizer?».

Apetece dizer: nada! Nada mesmo! Se vivemos na Sociedade da Informação, no entender de Ortega y Gasset a Informação é, sobre o mais, notícias e da filosofia nem se descortina um leve assomo. Dá, por vezes, a sensação que voltámos ao «pão e jogos» da antiga Roma, como necessidade imprescindível de alienar, disciplinar, adormecer as massas de menor espírito crítico. Como muitos jornalistas d`A Bola, nomeadamente do tempo da ditadura salazarista, não se pretende eliminar, nas minhas palavras, o espetáculo desportivo (o fenómeno cultural de maior magia, no mundo contemporâneo). Pelo contrário, o que eu quero dizer, como o já faço, há muitos anos, é que não há antagonismo radical entre o desporto e a cultura, porque sem a cultura o desporto não se entende e, sem o desporto, a cultura pode esquecer que é, antes do mais, cultura corporal.

«O corpo constitui, em todas as espécies animais, a primeira e mais importante fonte de conhecimento, não só de si próprio, como dos outros e do mundo circundante. É no corpo que se situam as mais remotas e arcaicas referências da vida, desde a fase intra-uterina» (J. Dias Cordeiro, in AA.VV., O Corpo na Era Digital, Departamento de Educação Médica da FMH, p.178). Portanto, a perceção do corpo, como experiência humana, realiza-se na busca incessante das relações e das interações entre o que somos e o seu contexto, realiza-se afinal como cultura e em cultura. Sem o complexo orgânico funcional, que é o corpo, não só não existiríamos como não existiríamos humanamente. O desporto é um dos aspetos da motricidade humana (ou do «corpo em ato»). Donde se infere que, pela sua popularidade, mediatização e exigências de vária ordem, sua prática é uma das mais perfeitas formas de conhecimento do Homem, da Vida, da Sociedade e da História. Assim como a minha existência supõe a existência do meu semelhante pois que, sem ele, não me é possível viver, também sem a relação unidade-diversidade o desporto não existe, porque não há desporto (mesmo nos chamados «desportos individuais») sem uma relação estrutural de dependência eu-outro.

Do estudo do desporto emerge, inevitavelmente, uma reflexão que vai muito além do 4x3x3, ou do 4x4x2, ou do 3x5x2, ou do 4x2x3x1, porque viver é comunicar e na determinação dos elementos constituintes da prática desportiva a tática, se bem que absolutamente necessária, não é o mais importante a comunicar. Quando perguntaram a Samuel Eto`o o que mais o impressionava no José Mourinho: os seus conhecimentos técnico-táticos? O jogador interrompeu o jornalista, para declarar: «Ele sabe ser amigo e está na amizade que oferece aos jogadores a sua grande arma (…). Para ele, a equipa é uma família. É evidente que, nas suas equipas, há disciplina, mas uma disciplina que os jogadores compreendem e aceitam».

O que se dizia do Luiz Felipe Scolari, quando liderou a seleção portuguesa? A opinião unânime era esta: «fez da seleção uma família». No seu tom cautelosamente reformista, Arrigo Sacchi afirmava: «Uma equipa é um todo, onde não pode haver dissonâncias, no que respeita aos principais objetivos, um todo que tem de estar presente, em todos os momentos do trabalho da equipa». Isto tudo, para dizer que também o treinador deve «treinar-se», para liderar o todo que a equipa deve ser. Se são visíveis as rejeições instintivas às ordens do treinador, o qual julga (e afirma publicamente) ter sempre razão e portanto não reconhece os seus erros para poder aprender com eles – não há diálogo e, se não há diálogo, não há equipa. E só depois da criação na equipa de um sólido espírito familiar (trabalho fundamental, para um treinador) é possível pensar a tática e os restantes elementos que constituem o treino. Motivação, confiança, liderança, espírito de sacrifício, coragem assentam, inevitavelmente, em valores humanos em que se acredita e se vive. Evoco o tempo em que entrei de refletir sobre o conceito de «motricidade». Rapidamente cheguei à conclusão que uma ação não é, unicamente, um gesto, ou um conjunto de gestos, mas um gesto, ou um conjunto de gestos, com intencionalidade, isto é, imputáveis a uma pessoa.

Por outro lado, quando se sublinha a intencionalidade de uma ação, quer dizer-se que uma ação se distingue também por uma finalidade. Quem age, age por alguém ou por alguma coisa. Por isso, não gosto que o termo Atividade Física englobe a prática desportiva. O Desporto é bem mais do que uma Atividade Física e os professores e os treinadores desta área do conhecimento são especialistas em humanidade e não simples fisiologistas. Não pode reduzir-se (digamos mesmo: é cientificamente errado) o Desporto ao domínio biológico. Não precisei de trabalhar num departamento de futebol; não precisei de escutar as sábias lições de alguns treinadores de futebol – para chegar a esta conclusão. Há mais de 50 anos que a manifesto...

Também os furiosos adeptos do futebol que o mancham de violência, de insultos, de gritos de guerra, também estes julgam que o futebol não passa de uma simples Atividade Física, onde a competição continua, no Desporto o comportamento típico de qualquer ideologia nazi-fascista. É verdade que, como Freud o assinala, «Quando uma pessoa se integra numa multidão, mais tarde ou mais cedo a sua conduta passa a ser totalmente irracional». Mas o que me parece muito grave, atualmente, é (sirvo-me de palavras de Hannah Arendt) «a banalidade do mal». Cometem-se os crimes mais desumanos, proferem-se as injúrias mais repugnantes, a mentira e a hipocrisia viajam na boca dos políticos e dos financeiros, de trato encantador – e tudo isto parece habitual, vulgar, normal. Recordo a frase de Vítor Hugo: As tempestades dos homens são mais tenebrosas que as tempestades dos oceanos».

Servindo-me agora de palavras de Max Horkheimer, assistimos, surpresos ao «eclipse da razão». Se rastrearmos, com argúcia e minúcia, a história do futebol, ou mesmo a ondulação do quotidiano, o futebol não é violento, tem violência. Podemos mesmo acrescentar: o Desporto não é violento, o Desporto tem violência, precisamente aquela que as pessoas nele deixam – as pessoas, quase sempre adormecidas à recusa da sociedade injusta estabelecida. O futebol de multidões (e, aqui e além, dirigentes e caudilhos) alucinadas prova que o futebol do Pelé, do Maradona, do Cruyff, do Eusébio, do Messi, do Ronaldo, etc., etc. não é o seu. Onde há arte, não há violência. Sim, é verdade que a arte é transgressão, mas uma transgressão que se confunde com transcendência – que é física e intelectual e moral e espiritual. E portanto exige uma formação crítica da opinião pública, nomeadamente aquela (e é a esmagadora maioria) que ainda pensa que o futebol é, unicamente, uma Atividade Física. Não pode negar-se que o Desporto é movimento, mas como antítese dialética de tudo o que se imobilizou.

Manuel Sérgio é Professor Catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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