SÁBADO, 24-06-2017, ANO 18, N.º 6356
Manuel Sérgio
Ética no Desporto
O Desporto: uma indústria de milhões! (artigo de Manuel Sérgio, 134)
15:33 - 01-04-2016
Manuel Sérgio
Já atingi aquele ponto do meu itinerário vital, onde se começa a descida da encosta que nos leva a uma ignota viagem donde se não volta mais. Estou portanto no outono (ou inverno) da minha vida, quando a saudade punge pelos anos já percorridos, mormente aqueles em que algumas qualidades humanas em nós resplendiam com mais viva intensidade.

O Fernando Vinhais Guedes, licenciado em Educação Física e Desporto e meu antigo aluno, no INEF, é um dos amigos que me não esquece e, sempre que desce de Chaves, onde reside, até ao concelho de Almada, em visita dos filhos: um, médico no Hospital de Garcia da Horta; a filha, que se doutorou há pouco em biomedicina, a trabalhar no Hospital de Santa Maria – sempre que desce de Chaves, onde reside, até ao concelho de Almada, reserva sempre uma tarde para uma conversa com o seu velho amigo, que sou eu. E deste modo nos debruçamos os dois sobre os anos já vividos e as lições que neles colhemos e ainda sobre um ou outro facto, com atualidade e interesse. Entre 1981 e 1985, o Dr. Fernando Vinhais Guedes foi o responsável pela Repartição de Juventude e Desportos de Macau, onde fez obra que, ainda hoje, os macaenses lembram com saudade. Daí, os convites que vem recebendo, ano após ano, de Macau, para cursos e palestras, naquela região autónoma da China. No passado dia 2016/3/22, no auditório do C&C – Advogados de Macau, de que é administrador e diretor o Dr. Rui Cunha, um jurista de mentalidade forte e original, o meu amigo Vinhais Guedes dissertou, em conferência pública, sobre o tema Desporto – uma indústria de milhões. Firmando-se, em informação fidedigna, começou assim o orador: “Os números que vou apresentar baseiam-se em notícias publicadas na revista Forbes e na Sport Business e noutras publicações de grande relevo internacional. Mas as minhas análises dão preferência aos Jogos Olímpicos, ao Campeonato do Mundo do Futebol de Onze a ao Grande Prémio Automóvel da Fórmula 1”.
Na sua comunicação, colhi alguns números verdadeiramente impressionantes: 24 milhões de dólares americanos é o montante que a NBA vai receber por direitos televisivos, entre 2016 e 2025; 140 milhões de dólares americanos ganhou, no seu último combate, o pugilista Floyd Maywater, em defesa do título mundial; 85 milhões de euros recebeu Cristiano Ronaldo, na época passada, em vencimentos e direitos de imagem; 60 milhões de euros amealhou Lewis Hamilton, na Fórmila 1, em ordenados e prémios; 2336 mil milhões de libras gastou o Manchester City, na época de 2014/2015; 944 milhões de euros é o montante a pagar pela Adidas ao Manchester United, para que os jogadores deste Clube vistam a camisola da Adidas, nos próximos dez anos; 60 milhões de euros recebeu Tiger Woods, em 2013; o empresário português Jorge Mendes, na época passada, faturou 40 milhões de euros, em comissões de compra e venda de jogadores; neste mesmo periodo, o empresário norte-americano Scott Boras faturou 200 milhões de dólares americanos, com transferências na NFA (futebol americano). É verdade que a cançonetista Kate Perry recebeu, pelas suas atuações, em 2015, 135 milhões de dólares americamos, mas o dinheiro abundante, que percorre e sustenta a prática desportiva de altíssimo nível, deixa-me em manifesta impotência verbal, diante das somas astronómicas que diante de mim se perfilam. Nos Jogos Olímpicos de 1984, em Los Angeles (disse Vunhais Guedes, em Macau) o norte-americano Peter Ueberroth (que seria eleito, depois dos Jogos, presidente do Comité Olímpico do seu País) conseguiu 258 milhões de dólares americanos, com receitas de direitos televisivos. Aí se iniciou uma era nova, em que o dinheiro não escasseia, nem nos Jogos Olímpicos, nem no COI. E assim se os Jogos Olímpicos de 1984 renderam, como já vimos atrás, 258 milhões de dólares americanos, em direitos televisivos, os de 2012, em Londres, atingiram os 3 mil milhões de dólares americanos e os de 2016 estima-se que chegarão aos quase 4 mil milhões de dólares americanos.

No Mundial de Futebol de 2014, os investimentos totais chegaram aos 9 mil milhões de euros. No Mundial de Fórmula 1, são estes os orçamentos das equipas participantes: Red Bull – 468 milhões de euros; Mercedes – 467 milhões de euros; Mac Laren-Onda – 463 milhões de euros; Ferrari – 418 milhões de euros; Williams – 188 milhões de euros. Na NBA, as principais equipaa valem impressionantes verbas; Los Angeles Lakers – 2,6 mil milhões de dólares; o New York-Knicks – 2,5 nil milhões de dólares; o Chicago Bulls – 2 mil milhões de dólares. Na luz quieta da minha casa, onde leio a conferência do Dr. Vinhais Guedes, muitos mais números poderia citar extraídos do estudo realizado por este meu amigo. Para não me tornar cansativo, dado que estou a escrever um simples artigo de jornal, procuro joeirar pela crítica os números apresentados. Porque considero indispensável a leitura do JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias e sou um admirador da prosa erudita, que saboreio sempre com devotado interesse, do Prof. Guilherme d`Oliveira Martins, demorei-me no artigo deste escritor, no JL (30 de Março a 12 de Abril de 2016). Distingo no artigo o trecho seguinte: “A crise financeira de 2008, a mais difícil de superar desde a II Guerra Mundial, põe a tónica da dificuldade que as democracias têm sentido, para responder às condições novas da globalização e do sistema de polaridades difusas que caracterizam a sociedade internacional, depois de 1989. Acresce qua as desigualdades se agravaram e a participação democrática conhece condições muito heterogéneas de concretização. Os números da globalização preocupam-nos: 1% dos mais ricos tem 50,1% da riqueza mundial; mais de mil milhões de pessoas têm de viver com menos de 1,14 euros por dia; 35 mil pessoas, das quais 16 mil crianças, morrem de fome em cada dia que passa”. E estas 35 mil pessoas morrem por falta de alimentos e por ausência de educação. Que sabem as pessoas de um desporto, menos entendido como Atividade Física do que como movimento intencional em direção a um mundo mais justo e mais fraterno e por isso mais saudável?

De forma provocatoriamente interpelante, ouso perguntar: há, no desporto, uma dimensão filosófica do pensar, ou seja, uma inquirição das causas das desigualdades gritantes que se encontram na sociedade e portanto no desporto também? A mercantilização do mundo, os grandes interesses que determinam o mercado planetário vão acentuar, cada vez mais, as diferenças entre os clubes ricos e os clubes pobres, o que dificilmente permitirá ao Benfica, ao Porto, ou ao Sporting a conquista da Liga dos Campeões. E uma ética coletiva ou uma ética do futuro (recorrendo a expressões de Hans Jonas) não pode esperar-se do neoliberalismo triunfante que pretende pôr a política ao serviço da ganância e de um individualismo feroz. Vou repetir-me: o espetáculo desportivo reproduz e multiplica as taras do capitalismo triunfante. É que dinheiro não falta, Só que a minoria que o tem não o põe ao serviço do futebol, ns aua totalidade, mas ao serviço dos seus interesses. Os próprios jogadores deixaram de ter referências de dirigentes, treinadores e colegas, que os ensinavam a ter e assumir valores, dentro e fora do futebol. Relataram os jornais que, em Barcelona, Neymar, indiscutivelmente um “craque”, assistiu às cerimónias fúnebres em memória de Cruyff, com óculos escuros, gorro na cabeça e o ar enfastiado do indiferente. “Ele é um fenómeno, como futebolista, mas carente de normas de educação; ele pensa que, por ser quem é, paira acima dos outros mortais” escreveu-se no jornal Sportyou, num artigo intitulado “Neymar sem respeito”. O que esperar de um rapaz, endinheirado e de face menineira, hiperbolicamente elogiado por tudo e por nada, impante de orgulho e sem o espírito crítico e a formação moral, necessários, que o levem a distinguir o Bem do Mal? Não há jogos, há pessoas que jogam, ou seja, os jogos são o que as pessoas são. Os jogos preparam-se, preparando as pessoas também. É que o dinheiro não basta, quando não se tem o sentido da vida.

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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