QUINTA-FEIRA, 25-05-2017, ANO 18, N.º 6326
Manuel Sérgio
Ética no Desporto
Desporto e Humanismo Contemporâneo (artigo de Manuel Sérgio, 123)
23:27 - 25-01-2016
Manuel Sérgio
Se o humanismo renascentista inseriu na História uma ideia nova de Homem, separando-se de uma antropologia e cosmologia medievais (a tese de doutoramento do Prof. Manuel Gonçalves Cerejeira, em 1917, na Universidade de Coimbra, deverá considerar-se como as primícias da investigação científica, acerca do Humanismo, em Portugal) o humanismo contemporâneo, filho que é do humanismo renascentista e iluminista, privilegia a ideia do “homem-ser-no mundo-com-os-outros-homens” e assim o observa e estuda, dentro de um tempo secularizado.

O devir ininterrupto da História passou a ver-se como uma forma progressiva de desvinculação da ideologia teocrática, vigente na “noite de dez séculos”, que foi a Idade Média, segundo os mais consagrados escritores da Idade Moderna. O humanismo contemporâneo, onde nasceu o desporto que hoje chegou ao mundo todo, redescobriu um novo cariz da liberdade, da igualdade, da fraternidade e assim mais as perceciona como frutos amadurecidos do “processo histórico”, onde avultam cientistas e filósofos e políticos de altíssima qualidade intelectual e moral, do que resultado da providência divina. Nesta ótica, o desporto deverá percecionar-se como mais uma iniciativa inovadora, na práxis de homens livres e libertadores.

Mais do que conhecimento livresco ou teorização especiosa, o desporto (como humanismo que é) deverá estudar-se como práxis, como desalienação, como cultura. Um conhecimento, de sabor aristotélico-tomista, que privilegia a lógica e a retórica e esquece a observação e a experiência empírica, passou de moda. O desporto, por seu lado, assim o prova. Com mais de 80 anos sobre a publicação do Homo Ludens, de Huizinga, atrevo-me a aconselhar a leitura desta obra aos dirigentes dos principais clubes portugueses. Já é tempo de terem uma noção, o mais exata possível, do desporto, o qual não se resume a sucessivos instantes de paroxismo.

Uma análise de um jogo de futebol é bem mais do que a tática ou lamentáveis catilinárias contra os árbitros. Eduardo Galeano, no seu conhecidíssimo Futebol: ao sol e à sombra, tem o seguinte pedaço: “Jogo, logo sou. O estilo de jogar é uma maneira de ser, que revela o perfil próprio de cada comunidade e reafirma seu direito à diferença” (p. 204). E o filósofo brasileiro Luiz Rohden acrescentou: “Assim como Heraclito se notabilizou pelo uso de aforismos e Platão inventou o género do diálogo filosófico, podemos dizer que os brasileiros inventaram um estilo exuberante e requintado, que estabeleceu um padrão inatingível, para o resto do mundo. Os britânicos o chamam de beautiful game.

Os brasileiros de futebol-arte. E esse estilo brasileiro é como ima marca registrada internacional, que foi estabelecida durante as copas do mundo de 1958 e 1962 e ganhou patente universal em 1970. É fato que todo brasileiro é tocado pela mística do futebol-arte, a tal ponto que a expressão jogador brasileiro é comparável a chefe de cozinha francês ou monge tibetano” (AA.VV., Filosofia e Futebol – troca de passes, Porto Alegre, 2012, p. 191). E por que será que o futebolista brasileiro, designadamente o de raça negra, é inigualável a driblar? “Cozac defendeu a hipótese de que, para se livrarem do castigo, os negros desenvolveram a arte do drible, trazendo para o futebol a ginga e o jogo de cintura das danças e dos rituais religiosos africanos (…).

Enfim, o facto é que os negros e mulatos conquistaram, no futebol brasileiro, um lugar ao sol, com arte, engenho e muito talento. Muitos dos melhores craques brasileiros nasceram para o futebol nos templos da malandragem, no ritual das aulas matadas e nas fugas de casa, durante a infância” (op. cit., p. 194). Aceito tudo isto mas, no meu entender, o drible nasce das “razões do coração” do jogador-artista. Sem arte, não há eficiência, nem sedução, no drible. E na arte há mais intuição do que razão, mais sensibilidade do que inteligência.

Durante boa parte do século XX desenhou-se um confronto entre uma conceção positivista e uma conceção crítica das ciências sociais e humanas. O Desporto, o fenómeno cultural de maior magia do nosso tempo, praticado por milhões de atletas profissionais e pessoas que não dispensam o lazer desportivo (um exemplo: estima-se que se encontrem a trabalhar no futebol cerca de 270 milhões de pessoas, ou seja, 5% da população mundial) – o Desporto está portanto em condições para ensinar-nos que há necessidade de um novo paradigma para o século XXI e que urge explorar, cada vez mais, a interdisciplinaridade. Os atletas, hoje, não podem analisar-se como há 40 ou 50 anos atrás se estudavam o Eusébio ou o Di Stéfano.

“O contexto em que atua o Cristiano Ronaldo é diferente do contexto em que atuou Eusébio (…). Este foi reconhecido, nacional e internacionalmente apenas pelos seus feitos futebolísticos. Já Cristiano Ronaldo vale pelo que joga e pela sua imagem na comunicação social, que o leva permanentemente às pessoas de todo o mundo. Ronaldo faz parte de uma nova elite simbólica, fortemente escrutinada, pelo que significa no plano do imaginário, para as pessoas de todo o mundo, porque com elas entra em interação”(João Relvão Caetano, in José Eduardo Franco e Cristina Trindade, orgs., Que Saber(es) Para O Século XXI, Esfera do Caos, Lisboa, 2015, p. 63). O mundo de hoje é muitíssimo mais complexo (e portanto o futebol também o é) e são muitos os caminhos, ainda por desbravar, que se abrem aos olhos atentos dos estudiosos das várias áreas do conhecimento e... aos “agentes do desporto”! Mas volto ao livro de José Eduardo Franco e Cristina Trindade, onde encontro o filósofo Viriato Soromenho-Marques: “O que diferencia o amigo do saber pré-moderno do cientista moderno é o facto de este último fazer parte de um ou de vários coletivos de investigadores” (op. cit., p. 39). Percebe-se por que venho dizendo que, num departamento de futebol, não devem trabalhar apenas “agentes do futebol”.

Assuntos, como: violência e agressão no espectador desportivo; situações que facilitam a agressão no desporto; estratégias de intervenção, que tentem reduzir os comportamentos violentos dos espectadores desportivos; a educação ambiental, através do desporto; benefícios do desporto, na saúde das populações; a natureza social do desporto e a criação e construção da cultura desportiva; uma política do lazer desportivo, que fomente valores humanistas; o desporto como reflexo da sociedade de mercado e de uma sociedade com mercado; situação histórica da mulher, no desenvolvimento desportivo; integração social dos idosos, através do jogo e do desporto; interação social dos marginalizados e dos toxicodependentes, através do jogo e do desporto; o desporto como meio de inclusão social das pessoas com deficiência – são grandes temas que deverão estudar-se, nas licenciaturas em Desporto e que relevam da nova democracia, também resultante de um audacioso aprofundamento da ideia de humanismo.

Mas, outros temas deverão tratar-se, dentro de uma visão holística do desporto: qual o papel da alta competição desportiva, na cultura, incluindo aqui uma visão nova do corpo e da mulher? É ou não a alta competição um espaço ideal de transcendência, ou seja, de aprendizagem contínua do mais humano? A alta competição, ao exigir educação e saúde aos praticantes, não é um apelo iniludível de transformação social? Pela transcendência, o “agente do desporto” toma consciência de que não é apenas objeto da sociedade, mas sujeito construtor de uma sociedade nova; que não é apenas reflexo do mundo existente, mas projeto de um mundo possível. Muito há a dizer sobre o desporto de alta, ou de média, ou de baixa competição, à luz do humanismo contemporâneo. Fazer desporto é optar continuamente, é fazer a experiência quotidiana do mais humano. O que não for isto não passa de mecanicismo puro, não é ainda o modo criativo de viver que se chama desporto.

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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