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Portugueses emigrantes
João Coimbra, da autodescoberta na Índia ao sonho de uma nova oportunidade na Liga
22:10 - 25-01-2016
Jogar fora de Portugal sempre fora um objetivo de João Coimbra, ainda mais para alguém com 20 anos de ligação ao futebol luso. A vontade de conhecer outros campeonatos e culturas ganhou novas proporções depois de o médio ter vivido o pior momento da carreira em 2013/2014, altura em que foi operado duas vezes ao joelho, no Estoril. Um ano para esquecer para o médio, isto depois de ter capitaneado a equipa da Linha, na altura comandada por Marco Silva, rumo ao primeiro escalão e, um ano depois, ter ajudado a garantir a presença na Liga Europa. Decidiu, por isso, escrever novo capítulo na Liga 2, ao serviço do Académico de Viseu.

«Tenho um grande respeito e carinho pelo Académico e pelo mister Alex [Costa]. Deram-me a mão e acreditaram em mim depois da pior época da minha carreira, em que estive praticamente todo o ano parado», começa por contar a A BOLA João Coimbra. A passagem pelo emblema de Viseu acabou por correr de feição ao médio, que somou 24 jogos e um golo. Até que em janeiro surgiu a oportunidade de rumar à Roménia, para representar o Rapid Bucareste.

«Felizmente consegui mostrar a todos que estava totalmente recuperado da lesão no joelho. Nesses seis meses em Viseu acabei por fazer mais de 20 jogos e em janeiro apareceu a proposta para jogar no Rapid», revela, explicando o que o fez mudar-se para um país desconhecido, após um longo caminho já percorrido no futebol português.

«O estrangeiro sempre me cativou. Claro que se estivesse num clube da primeira liga e não tivesse voltado ao segundo escalão nessa altura, talvez me mantivesse por aqui, porque sou uma pessoa muito ligada à família... Apenas senti que era o momento ideal para sair, até porque quando um jogador desce de divisão não é fácil cativar de novo clubes da primeira liga. Já me tinha acontecido isso no Estoril.»

Primeira paragem: Bucareste

João Coimbra chegou a Bucareste na reabertura do mercado de janeiro, com a difícil missão de ajudar o Rapid, então lanterna vermelha da liga romena, a fugir à despromoção. Uma experiência que acabou por ter altos e baixos para o médio.

«Em termos pessoais, foi muito positivo. Fiz mais de 30 jogos e gostei muito da cidade e do clube, que tem, arrisco-me a dizer, uma das melhores claques da Europa. Em termos desportivos já não posso dizer o mesmo. Quando cheguei ao clube, no fim da primeira volta, o Rapid estava em último lugar, com 11 pontos em 17 jogos. Na segunda volta conseguimos fazer 33 pontos mas não chegaram para evitar a descida, até porque nessa época desciam seis equipas, portanto era uma tarefa quase impossível», lamenta o campeão europeu sub-17.

Apesar do desfecho menos feliz na competição, João Coimbra não esquece os laços criados com os companheiros de equipa e compatriotas Kikas, Ricardo Alves e Rui Miguel, e com o padrinho Sapunaru, ex-jogador do FC Porto.

«Esse é uma das grandes belezas do futebol, as amizades que se criam, não só entre jogadores mas também entre as famílias. O Sapunaru, que fala muito bem português, foi outra grande ajuda na adaptação ao futebol romeno, que é menos tático e mais físico, e à própria língua. É bom sentir que temos ali pessoas para o resto da vida», considera.

Em Bucareste, cidade que compara a Lisboa, a alimentação também não foi um problema. «Felizmente tinha a minha esposa para me fazer uns cozinhados tugas

Índia, terra de contrastes

Terminada a época no Rapid, João Coimbra recebeu uma proposta para rumar à Índia, mais precisamente a Cochim, onde representou o Kerala Blasters, na Super Liga indiana, competição que reúne jogadores de renome internacional de setembro a dezembro – a 2.ª edição contou também com a participação dos portugueses Simão Sabrosa, Miguel Garcia e Silas (NorthEast United.

Recomendações sobre o futebol indiano, portanto, não faltaram ao médio.
«No Rapid tinha dois colegas que jogaram na Índia e que me deixaram muito boas impressões da ISL (India Super League, em inglês). Depois falei com o Miguel Garcia e o Edgar Marcelino, que também tinham lá estado e que me falaram muito bem do campeonato. Acabei por aceitar o desafio», explica.

Nesta competição, que conta com um formato diferente do da Liga indiana, João Coimbra disputou 11 jogos e marcou um golo. O balanço da experiência acabou por ser, no geral, bastante positivo.

«Apesar de não termos passado às meias-finais, foi uma experiência muito enriquecedora. É um futebol muito diferente daquele a que estamos habituados. É competitivo, mas o clima quente do país não permite grande intensidade no jogo, o que faz com que o jogo se parta muito nas etapas complementares», refere João Coimbra, que ficou surpreendido com a loucura que começa a existir na Índia em torno do futebol.

«É incrível a admiração que eles demonstravam por todos. Só em dois jogos tivemos mais de 60 mil pessoas no estádio! Nem conseguíamos andar num simples centro comercial, porque tínhamos sempre várias pessoas atrás de nós a querer tirar selfies connosco. E os indianos são muito acolhedores», revela.

E mesmo não tendo contactado diretamente com a cultura indiana – os três meses no Kerala foram passados em hotéis – nem por isso o médio português deixou de estar atento ao que se passava à sua volta.

«Estivemos sempre muito resguardados durante o estágio em Cochim, mas saltava à vista o grande contraste entre ricos e pobres. Impressionou-me muito», começa por contar. «Uma vez ficámos instalados num hotel de cinco estrelas, rodeado por bairros muito pobres. Eu e mais dois colegas estávamos à janela e vimos alguns meninos a brincar lá fora, descalços, só de t-shirt, quando um deles sai de perto dos outros, baixa-se e começa ali mesmo a fazer as necessidades, como se fosse a coisa mais natural do mundo. De repente, olha para cima, repara que estávamos a olhar para ele e começa a dizer-nos adeus... Essa imagem marcou-me muito», partilha.

Futuro é incógnita

Sem clube desde que regressou da Índia, João Coimbra procura agora escrever novo capítulo no futebol nacional. Regressar à Liga, afirma, seria o concretizar de um sonho.

«Estou aberto a propostas. Claro que um regresso à Liga portuguesa teria sempre prioridade, até porque a minha esposa está grávida da segunda filha e queria ficar por perto... Mas também sei que a nossa profissão não nos permite escolher, e sim sermos escolhidos, com algumas exceções, claro», afirma o médio.

Com um percurso cheio no futebol, que inclui também passagens por Benfica, Nacional, Gil Vicente e um Europeu de sub-17 no bolso, João Coimbra ainda conseguiu arranjar um tempinho para se dedicar ao curso de Medicina, que pretende um dia concluir, mas só depois de pendurar as chuteiras.

«O curso está a meio. Tenho três anos já feitos, faltam outros três. Penso em terminá-lo quando o futebol acabar, apesar de já estar há muito tempo sem ler algo sobre isso. Tenho que dedicar grande parte do meu tempo a preparar-me para voltar aos estudos. Sinceramente não sei…», revela o aspirante a senhor doutor.
Inês Antunes

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