QUINTA-FEIRA, 25-05-2017, ANO 18, N.º 6326
Professor Manuel Sérgio
Ética no Desporto
Sem poesia, não há ciência (artigo de Manuel Sérgio, 115)
16:44 - 29-11-2015
Manuel Sérgio
A ciência moderna nasce, não só, em 1620, com o Novum Organum, de Francis Bacon, ou com a crença na estrutura matemática da natureza, em que Galileu piamente acreditava, mas também com o capitalismo e com os Estados centralizados.

Na história das ciências ocidentais, não há só, a partir do século XVII, uma rutura com o saber logoteórico dos antigos (na ciência moderna, é com o apoio de meios técnicos que o estudioso se relaciona com a realidade), mas também com o fixismo da política feudal que desconhecia o papel determinante da economia, na complexidade das estruturas sociais. Na consciência do progresso, na modernidade, há um vínculo que a liga, acesa e buliçosa, ao capitalismo... com todos os desmandos que se conhecem e que o socialismo científico de Marx, Engels e Lenine não conseguiu erradicar, já que baseou os dinamismos da sua economia, numa planificação ditatorial! Um ponto nos parece incontornável: a ciência moderna precisou do capitalismo para desenvolver-se. E não é por acaso que ela se apresenta, sobranceira, com as características seguintes: objectiva, inquestionável, empirista, linear, dogmática, elitista, individualista, socialmente neutra, descontextualizada. Dela emergiam a força e o poder do capitalismo. Só que o Princípio nunca é a Lei, a Ordem, a Certeza. O Princípio é o jogo das forças contraditórias. Hoje, sabe-se que é da desordem que nasce uma nova ordem, que é do caos que nos é possível descortinar o mundo dos possíveis. Colhi, numa tese de doutoramento, o seguinte: “A dinâmica do caos relativizou e alterou inexoravelmente a ideia clássica linear de causa-efeito (...). O homem, a sociedade, a espécie, enfim o mundo, para inovar, deverá considerar-se longe do equilíbrio o tempo todo” (A Acção Homeodinâmica – a caminho de uma caoicologia do homem no desporto, Universidade da Madeira, 2008, p. 31).

Folheio um outro autor: “o primeiro, o primário é o livre, o rebelde à lei. A natureza cria, afirma-se, lá onde a lei, marca de uma ordem, devém incapaz de controlar o excesso de afirmação do singular. A Ordem não é lei, mas excepção: minoria e não império” (Sousa Dias, Mil Experimentações – o pensamento e o mundo, Livraria Civilização Editora, Porto, 1980, p. 9). Adentro-me na leitura do livro de Ilya Prigogine, Entre o Tempo e a Eternidade (Gradiva, Lisboa, 1990, p. 206), donde seleciono: “ O universo clássico, infinito pelas suas dimensões espaciais, não deixa de ser fechado, no sentido de que a evolução e a novidade estão dele excluídos e de que qualquer evolução deve idealmente ser reduzida ao modelo dos movimentos periódicos”. Em O Caos e a Harmonia – a Fabricação do Real (Bizâncio, Lisboa, 1999, p. 73) Trinh Xuan Thuan, notável astrónomo vietnamita, professor na Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, sustenta: “com a teoria do caos, o acaso e não determinismo invadiram, não só a nossa vida de todos os dias, mas também o domínio dos planetas, das estrelas, das galáxias”. E mais adiante: “O caos libertou a matéria da sua inércia. Ele permite à natureza (homem incluído) entregar-se a um jogo criativo; produzir o novo não anunciado, pelos seus estados precedentes”. Prigogine elucida, a propósito, que “tradicionalmente, chamamos simples aos sistemas que têm poucos graus de liberdade e complexos aos sistemas que se descrevem com numerosos graus de liberdade” (Ilya Prigogine, in Vários Autores, A Sociedade em busca de Valores, Instituto Piaget, 1998, p. 233). Até ao século XIX, reverenciava-se Newton como o cientista que havia resolvido o que de fundamental existia na Física. Hoje, no entanto, após tratamento exaustivo do pormenor, é a teoria do caos a pedra angular da complexidade.

“A complexidade é a dialógica ordem/desordem/organização. Porém, por trás da complexidade, a ordem e a desordem dissolvem-se, as distinções esvanecem-se” (Edgar Morin, O Problema Epistemológico da Complexidade, Publicações Europa-América, Lisboa, 1996, p. 194). Nesta conformidade, a complexidade é caos e no caos tudo é possível. Demais, o conhecimento é subjectivo-objectivo. Com efeito, ele procura dados objectivos, mas são sistemas de ideias que comandam esta busca incessante, em demanda do que está oculto. Bachelard parece ter razão: só há ciência do que está oculto!

“Há cerca de 300 anos aproximadamente, com o nascimento do capitalismo, as nações que acumularam vastas riquezas e exploraram recursos naturais e capital tornaram-se predominantes, como referiu Adam Smith, em A Riqueza das Nações. Porém, segundo Thurow, no século XXI, a inteligência e a imaginação, a invenção e a organização de novas tecnologias são os ingredientes estratégicos fundamentais” (Michio Kaku, Visões – como a ciência irá revolucionar o século XXI, Bizâncio, 1998, p. 194). O futuro, no meu modesto pensar, há-de ser a síntese de dois contrários: o sentido dionisíaco da vida, de inspiração nietzscheana, e um progressismo de origem iluminista. Daí que Lester C. Thurow, no seu livro The Future of Capitalism (Nova Iorque,1996), repense, em pleno fim das certezas, ou no borbulhar de inúmeros caos, as coerências passadas e se abra à emergência lúdica de novos possíveis. É da identidade que desponta a diversidade. E bem é que assim seja – não aconteça, como a História o refere, que a meta-linguagem se vista com o despotismo da Verdade...

Do que venho de dizer até aqui se conclui que já não se escondem, envoltos em mistério, a matéria, a vida e a mente, porque se encontraram as suas leis básicas através, respectivamente, da teoria quântica, do ADN e dos computadores. Falta-nos uma teoria de tudo que é bem possível desponte da sinergia entre a matéria, a vida e a mente, ou seja, entre a revolução quântica, a revolução molecular e a revolução informática. Falta-nos... e, porque não pode reduzir-se a consciência às leis da física, porque da cultura emergem elementos originais em relação à vida, porque a matéria não se cansa de inventar – o cientista não pode criar o novo, sem poesia. “Para André Breton, o problema da poesia foi sempre a luta contra a prosa (...); contra o prosaico, o útil, as ideias feitas” (Alberto Pimenta, O Silêncio dos Poetas, Cotovia, Lisboa, 2003, p. 69).

Edgar Morin ensina: “Até a ciência tem a sua própria poesia. Lautréamont cantou a beleza da severa matemática. O cosmos revelado pela astrofísica, em finais do século XX, está envolto em poesia e simultaneamente em mistério (...). O estado poético dá-nos a sensação de transpormos os nossos próprios limites, de sermos capazes de comungar com aquilo que nos ultrapassa” (O Método V. A Humanidade da Humanidade – a identidade humana, Publicações Europa-América, Lisboa, 2003, p.133). No pigmento das citações que venho adiantando, julgo caber inteiramente a interrogação de Edgar Morin: “O que é a vida? A vida é um tecido misturado ou alternativo de prosa e de poesia” (Amor - Poesia – Sabedoria, Instituto Piaget, Lisboa, 1999, p. 61).

Em O Sentimento de Si, na página 61 da edição portuguesa, o neurologista português, mundialmente famoso, António Damásio escreve: “Nos últimos anos, tanto a neurociência como as ciências cognitivas, abraçaram finalmente a emoção. Uma nova geração de cientistas transformou a emoção no seu tema preferido. Além disso, a suposta oposição entre emoção e razão deixou de ser aceite automaticamente”. Se a ciência fosse razão tão-só jamais poderia transformar-se na linguagem da transgressão...

Conhecemos o poema de Ricardo Reis:

“Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive”.

Poderíamos lembrar, neste momento, o António Gedeão da “Pedra Filosofal”:
“Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança”.

Era professor, no INEF e no ISEF/UTL e, de quando em vez, lia nas aulas alguns poemas, dizendo aos alunos que, sem poesia, não há criatividade científica. Eu até prometo um próximo artigo, tentando provar que, sem poesia, o desporto não evolui. Hoje, fico-me por aqui, pois que já escrevi demais...

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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