QUINTA-FEIRA, 29-06-2017, ANO 18, N.º 6361
Manuel Sérgio
Ética no Desporto
O último Porto-Benfica ou da biologia à cultura (artigo de Manuel Sérgio, 105)
00:04 - 23-09-2015
Manuel Sérgio
Do último jogo Porto-Benfica o que a Comunicação Social distinguiu, antes do mais, foi o duelo Maxi-Gaitan, dois amigos que festejaram, em uníssono, como jogadores do Benfica, duas Ligas, uma Taça de Portugal, quatro Taças da Liga e uma Supertaça. Miguel Cardoso Pereira, um jovem de singular evolução jornalística, recorda as palavras de Gaitan à BTV, em Outubro de 2013, referindo-se, irradiando gratidão, a Maxi Pereira: “Foi uma das pessoas que mais me ajudaram, quando cheguei ao Benfica. Ele abriu-me a porta de sua casa e, quando alguém nos faz isso, é sinal de que é muito boa pessoa. Criei com ele uma relação muito forte. Tanto ele, como a mulher, são fantásticos”.

Por seu turno, Maxi Pereira disse também à BTV: ”Temos um jogador que vai estar entre os quatro ou cinco melhores do mundo: o Nico. Não digo isto, por ser seu amigo. Vi-o crescer, quando chegou do Boca e hoje dá gosto vê-lo jogar”(A Bola, 2015/9/19). No dia anterior, no mesmo jornal, Pedro Marques Lopes, veemente e combativo “portista”, previa a vitória do seu Clube, porque “o F.C.Porto é melhor do que o Benfica e tem obrigação de vencer”. Com o Pedro Marques Lopes concordei, imediatamente, sem esforço. Pinto da Costa, um mestre que tem prelecionado sucessivas gerações de dirigentes desportivos, soube compor, para a época desportiva de 2015/16, um “plantel”, no seu Clube, que não tem par, atualmente, em quantidade e qualidade, no futebol português.

Para a maior parte dos espectadores do futebol-espetáculo, ser futebolista equivale a ter tão-só uma identidade corpórea, entendendo-se o corpo em sentido apenas biológico. É o fundamental, de facto. A consciência de si, ou o self, bem como outros conceitos afins, nada têm de metafísicos: “são mecanismos cerebrais objetivos, que elaboram a subjetividade da mente consciente, a partir de cartografias sensoriais” (António Damásio, “How the brain creates the mind”, Scientific American, Special Edition, 2002, p. 9).

A razão não é por isso desincarnada. Pelo contrário, ela é incarnada e tem um dinamismo evolucionista e uma natureza neurobiológica. E daí o facto de encontrar-se estreitamente ligada, quer às emoções, quer ao inconsciente. Os dualismos, como substância-acidente, natural-sobrenatural, imanência-transcendência, alma-corpo, matéria-espírito (e outros mais poderia invocar) são indispensáveis do ponto de vista epistemológico e metodológico, mas não deveremos percecioná-los em sentido ontológico e substancialista, como o fazem a tradição aristotélico-tomista ou as eepeculações de raiz kantiana. “Eu sou eu e a minha circunstância”, ou seja, eu sou eu porque os outros e o mundo existem e comigo dialogam e coexistem. O ser humano (e portanto o atleta) é radicalmente biológico e genuinamente relacional, porque é, como ser-de-relação, que esclarece e completa o que a biologia nos oferece e nos permite.

Embora a minha cultura biológica de indisfarçável autodidatismo, posso adiantar que o futebolista de excelência nasce biologicamente uma personalidade singular, mas não pode recusar-se, no processo do seu desenvolvimento e nos momentos em que melhor manifesta as obras de arte do seu valor, que foi em grupo, em equipa, ou melhor: que foi a dimensão do social o elemento determinante da transformação da biologia em cultura. Sem a liderança do treinador, sem a solidariedade dos colegas de equipa, sem o cuidado dos técnicos de saúde, sem a proteção e a gestão da direção do Clube onde trabalha, sem o amor da família, o impulso inicial da biologia não passaria de promessa que nunca se materializou. A excelência, numa profissão, supõe necessariamente uma existência social, uma prática social, sem as quais a genialidade ou o talento não podem concretizar a sua “vocação”.

Passei, em tempos que não voltam mais, pela direção do Belenenses. Neste querido Clube, conheci alguns jovens que acreditavam firmemente no seu destino de jogadores de futebol, na estrela encantadora que de longe lhes luzia. E, por um motivo ou por outro (quase sempre a estreiteza, a pequenez do meio em que viviam) o seu valor estiolou, definhou-se. A radicação originária do biológico, no social (e político), é o fator indispensável para que o génio (ou o talento) passe de hipotética promessa a indiscutível realidade.

Por generosidade dos Srs. José Maria Pedroto e Jorge Nuno Pinto da Costa acompanhei de perto, estando longe (vivia em Lisboa) a “revolução” que ambos iniciaram, no F.C.Porto. Agarrados a ideais e princípios de uma simplicidade que me parecia por vezes demasiado sentimental, mas nem por isso menos convictos e operantes, fizeram num clube desportivo, em Portugal, o que nunca se fez, antes e depois deles, em qualquer outro clube desportivo. O F.C.Porto que eu contemplo, hoje, é o “milagre” de dois homens que tornaram possível o que parecia impossível. À minha maneira, sempre me senti próximo do futebol. Os meus primeiros ídolos eram todos os que envergavam a camisola azul de cruz ao peito, nomeadamente o Mariano Amaro, as “Torres de Belém”, o Quaresma e o Rafael. Filho de um transmontano (meu querido Pai), com duas devoções, no seu ideário sentimental, a religião católica e o Belenenses – todos os domingos eu assistia à missa e, se “os azuis jogassem em casa”, acompanhava-o, invariavelmente, às Salésias, onde cada um dos jogos do “Belém” tinha, para mim, o significado de um grande acontecimento.

Se bem me lembro, nos jogos Belenenses-Porto, naqueles anos de 30 e 40 do século passado, o vencedor, não quero atraiçoar a verdade, era um: o Belenenses! Aliás, o F.C.Porto perdia quase todos os jogos que efetuava, em Lisboa, mesmo com o Atlético e o Oriental. Tudo isto, para sublinhar o que o F.C.Porto era...antes de Pinto da Costa e Pedroto! É que, com o andar dos anos, muito do que se passou fica ignorado, esquecido, confuso e envolto no nevoeiro da incerteza! Mas, como ía dizendo, Pinto da Costa e Pedroto chegaram ao F.C.Porto. E com a aura, que garbosamente vem mantendo o atual “Presidente” e Pedroto manteve até ao fim dos seus dias, de assomadiços e resolutos. E de uma perspicácia insuperável. A Pedroto sobrava-lhe ainda vagar, para procurar as últimas novidades sobre treino desportivo. Com ele, nesta área do conhecimento, aprendi alguma coisa do pouco que sei. Que saudades eu tenho da sua voz, pelo telefone: “Daqui é o Pedroto!”. Cumpriu como um homem os deveres dos homens do seu tempo...

O que me vem à memória, quando vejo o F,C,Porto! Como no passado domingo, dia 20 de Abril de 2015! Foi superior ao Benfica, na segunda parte do jogo, e chegou mesmo à vitória, embora o empate se pudesse aceitar, também. Sou amigo dos “benfiquistas” José Augusto e António Simões. Integraram, para mim, a melhor equipa portuguesa de todos os tempos. E, nos primeiros anos da década de sessenta, a melhor equipa da Europa. Mas o magistério de Pinto da Costa e Pedroto continua vivo, principalmente na criação da “mística do clube”.

Nesta Sociedade do Conhecimento da Era da Informação, em que vivemos, as várias metodologias de treino são conhecidas e submetidas à observação de treinadores e estudiosos, sagazes. O que torna mais original e expressivo um jogador (um atleta) de altos rendimentos reside no facto de o futebol (ou qualquer outra modalidade desportiva) não lhe bastar, ou seja, que tem mística, para além das qualidades técnicas e táticas? O que eu julguei descobrir, no André André, durante o jogo Porto-Benfica, de há poucos dias atrás. O culto, o sentimento enternecido, pelo F.C.Porto, que ele começou, com toda a certeza, por aprender com o seu Pai e que eu pude contemplar também no Pinga, no Virgílio (o leão de Génova) e no João Pinto (e outros nomes poderia invocar) continua e continuará neste rapaz de 24 anos de idade, onde pensamento e movimento se misturam de tal modo que a distinção é puramente formal.

As minhas palavras são essencialmente testemunhais. Sou do Belenenses e belenenses morrerei.. Não tenho segundo clube. Mas sou também um velho aprendiz do fenómeno desportivo, mormente ao nível da epistemologia e da filosofia. E foi precisamente como estudioso que contemplei, pela TV, este Porto-Benfica. E que nele distingui o André André. Sem esquecer que cada um dos nossos atos reflete e projeta a pessoa que se é. Quero eu dizer: o André André, biologicamente predestinado a uma prática do futebol, com excelência, será sempre melhor jogador com o emblema ao peito do F.C.Porto. É na passagem da biologia à cultura que o abstrato se faz concreto, no futebol. E na vida!

PS: No dia 23 de Setembro de 1919, nasceu o Belenenses. Há precisamente 96 anos! É o meu Clube, o meu único Clube. Nele trabalhei (graciosamente) de 1964 a 1994, mas o Belenenses nada me deve. Sou eu que lhe devo. E muito. Com ele e nele, vivi momentos que nunca poderei esquecer. Querido Belenenses, ad multos annos!

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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