QUINTA-FEIRA, 25-05-2017, ANO 18, N.º 6326
Manuel Sérgio
Ética no Desporto
A Cultura do Clube (artigo de Manuel Sérgio, 97)
16:55 - 31-07-2015
Há muitos anos, recordo a “malta” da Académica, pelas ruas de Lisboa, com uma alegria que nenhuma adversidade parecia vergar e proporcionando um saborosíssimo convívio a quem dela se aproximasse.

Acompanhava a equipa de futebol da Associação Académica de Coimbra, que se deslocava à capital a cumprir o calendário do Nacional de Futebol da Primeira Divisão. Ladeando o retângulo onde os futebolistas da Universidade de Coimbra defrontavam o Benfica, o Sporting, o Belenenses, o Atlético, o Estoril ou o Oriental, a claque, de capa e batina vestida, erguia cânticos, soltava piadas, levantava-se como um nunca apaziguado vulcão de protesto ou em momentos de alegria incontida.

Mas o que dava cor e vida aos cânticos, às piadas, às palavras-de-ordem era o húmus cultural donde brotavam. As equipas e as claques da Associação Académica de Coimbra eram a Universidade de Coimbra, a “Alma Mater”, a tradição tantas vezes secular de um espírito imorredouro, que o próprio futebol transformava e enobrecia. Desde o Tibério, o José Maria Antunes, o Faustino, o Alberto Gomes, etc., etc., que eu, passados 76 anos, ainda trago na lembrança, como vencedores da primeira Taça de Portugal, passando pelo Curado, pelo Wilson, pelo Torres, pelo Bentes, pelo Azeredo e até às equipas onde pontificava o Rocha, coadjuvado pelo inconformismo dos irmãos Campos, do Gervásio, etc. - em todos estes futebolistas havia uma expressão corporal, uma intencionalidade, que eram também (pois que não devemos esquecer a liderança de, entre outros, Cândido de Oliveira e Mário Wilson e Francisco Andrade) o símbolo, exteriormente traduzido, de um ideal interior.

“Os tempos são outros! Sem vencimentos de muitos milhares de euros não se conseguem jogadores de classe” sentenciam os que vão acompanhando o futebol. E assim é. Só que, na década de sessenta do século passado, já o Benfica, o Sporting e o FC Porto ofereciam ordenados mensais que não estavam ao alcance da Associação Académica e, mesmo assim, em Coimbra, praticava-se um futebol que ombreava com o futebol que as equipas dos “clubes grandes” jogavam. Estou a descambar numa lírica e adocicada evocação, desconhecendo a dialética da História? Aceito, naturalmente, que os tempos são outros e o futebol outro é. A globalização planetária, atualmente, nada mais é do que a Economia ao serviço do Mercado. E assim não há democracia possível, porque tudo se encontra ao serviço do mercado, incluindo o Desporto. Ora, não é preciso ser economista para concluir que a economia deverá estar, em primeiro do mais, ao serviço das necessidades das pessoas e não, acima de tudo, ao serviço dos imperativos do mercado.

Nós, em Portugal, sabemos bem até onde nos levam os imperativos do mercado, ou melhor: a tirania dos mercados! E, com a tirania dos mercados, desaparece a Economia Social e a própria dimensão social do Desporto. Tudo se gasta e se esgota, no espetáculo, como alienação, mesmo dando ao desprezo muitos dos antigos praticantes do futebol de alta competição. O Dr. Joaquim Evangelista, presidente de comprovados méritos do S.J.P.F., pelo trabalho que vem desenvolvendo no apoio aos antigos jogadores de futebol já se tornou credor do mais vivo reconhecimento público...

No entanto, continuando a Associação Académica de Coimbra (A.A.C.) uma emanação da sua Universidade (que, sendo velha, não deixa desfigurar-se e está cada vez mais nova) o seu futebol profissional poderá ambicionar transferir, para os estádios, os sentimentos, os símbolos, os apelos e até as ilusões de uma das mais prestigiadas universidades do mundo. E assim a A.A.C. poderá transformar-se num seminário de jovens futebolistas, com “orgulho” da camisola que envergam. Mas, para tanto, importa criar, na A.A.C. (e não só) a cultura do clube, a começar nas camadas mais jovens. Quero eu dizer: a história da A.A.C., as suas figuras mais marcantes, o seu modo de ser e de estar, os seus paradigmas e a sua linguagem devem ser assumidos e vividos pelos agentes do futebol da Universidade de Coimbra (dirigentes, treinadores, atletas e técnicos de saúde). É preciso, de facto, lançar um alerta contra o lamentável fosso que, em nome da alta competição e do economicismo, se vai cavando entre os clubes e a sua alma. A A.A.C. criou, no futebol português, um dos últimos modelos de jogo em que o futebol era mais do que futebol. E em que, por isso, o Futuro, mais do que um enigma, confinado às sombras da ansiedade e da dúvida, era uma força e um horizonte, uma aspiração e uma vontade, uma luz e uma fé. Os clubes não são apenas uma equipa de futebol. São também (e sobretudo) um ideal e uma força moral. Só que há quem o esqueça.
Setenta e seis anos se dobaram sobre a vitória da Académica, na primeira Taça de Portugal. Afiguram-se, de certo, para os mais jovens, velharias sem interesse, ou até qualquer coisa de desdenhável, escrever sobre ex-jogadores que se movimentaram, nos campos de futebol, há muitos anos atrás. No entanto, um estudo crítico-biográfico destes e até doutros jogadores (e jogadores doutros clubes, que eu vi jogar também); se deles (todos eles) fizermos uma evocação saudosa – deles (todos eles) ressalta o mesmo culto por valores donde nasceram os clubes e hoje formam a sua própria alma. Pinga, Virgílio (o leão de Génova), Hernâni, Pedroto, pelo FC Porto; Albino, Eusébio, Coluna e Francisco Ferreira, pelo Benfica; Vasques, Travassos, Peyroteo e Albano, pelo Sporting; Mariano Amaro, Vicente, Matateu (que seria, hoje, um dos melhores avançados do mundo) e José Pereira, pelo meu clube, o Belenenses (e por aqui me fico, em jogadores e clubes, pois que mais havia que escrever) muito teriam a ensinar aos que simulam “sentir a camisola” e, afinal, onde não se encontra um pequeno (pequeno tão-só) assomo de ideal que torna mais belo e fiável o desporto.

Eu sei que, para existir, não basta ter história. Mas quem não conhece a história dos grandes clubes portugueses (clubes de futebol e os de outras modalidades desportivas) dificilmente poderá respeitar o que estes clubes representam na história do nosso desporto, na história do nosso país. De símbolos é feita a história! De símbolos são feitos os clubes desportivos! A existência destes clubes não é só para aplaudir e admirar, mas para crer também - crer nos valores que fazem do Desporto uma prática indispensável ao mundo de hoje e... de sempre!

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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