SEXTA-FEIRA, 28-07-2017, ANO 18, N.º 6390
Professor Manuel Sérgio
Ética no Desporto
Jorge Jesus ou a homeostasia organizacional (artigo de Manuel Sérgio, 93)
17:31 - 04-07-2015
Manuel Sérgio
Tenho a certeza que coube exclusivamente a Jorge Jesus a responsabilidade da organização do departamento de futebol e da escolha dos elementos (materiais e humanos) que o constituem. Octávio Machado, Manuel Fernandes, Raul José, Miguel Quaresma, Mário Monteiro são, para além de funcionários, amigos que o Jorge Jesus aprecia e escuta, com viva e fraterna admiração.

Com isto se afirma, o que aliás é conhecido: só têm assento, nas cadeiras dos seus colaboradores, amigos que ele muito estima e respeita. As qualidades mestras dos seus colaboradores são, como se vê, “gente do futebol-prática” e uma sólida amizade, mormente aquela que se mantém desde as horas despreocupadas da alegre mocidade.

Aos teóricos, só teóricos, mesmo aos que escrevem livros e expendem ideias, com algum fôlego intelectual, não lhes dá o mínimo crédito, no que ao futebol diz respeito. Pode aprender, com eles, política, economia, medicina, direito, etc., etc.; pode admirar o seu magistério de especialistas, nas várias áreas do conhecimento; pode mesmo aceitar as suas palavras persuasivas e quentes, durante um encontro de amigos – se lhes dão conselhos, sobre o futebol, a conversa “entra a cem, sai a duzentos”. Para ele, não há teoria, sem prática – para ele, teoria do futebol, sem prática do futebol, é puro oportunismo. Mas estou a escutar a interrogação dos meus leitores: “E por que diz ele que gosta de falar consigo?”. Simples a resposta: eu nunca falo de futebol, com ele! Talvez o Jorge Jesus tenha razão. As coisas extraordinárias que o ser humano escreveu e jurou cumprir e afinal a guerra e a miséria e a fome ainda não foram erradicadas da face da terra! A justiça social, por exemplo, não pode ser mais adiada. E não é por falta de palavras! No entanto, tão perigoso é o dogmatismo da teoria como o dogmatismo da prática. Vou repetir o que ensinava, nas minhas aulas: “Quem só teoriza – não sabe. Mas quem só pratica – repete”. De facto, o ser humano é, por natureza, um interrogador ilimitado. Quem só repetir, portanto, não passa de um pobre títere incapaz de sonhar o longe do cais onde adormece.

Mas o Jorge Jesus não é um repetidor. Lutando, trabalhando, porfiando quem não o vê um subversivo, até onde o fôlego e as circunstâncias o permitem? Se o não fosse, se não se abrisse de par em par a novas ideias, não teria chegado onde chegou. A presença de Manuel Fernandes e Octávio Machado, no departamento de futebol do Sporting CP, o que é senão um esforço de Jorge Jesus, para ser diferente? Demais, tem consigo, medularmente aclimatado ao anonimato de treinador adjunto, o Miguel Quaresma, um homem de muita e seleta leitura. Acredito que não sejam muitos os ex-jogadores profissionais de futebol que procurem uma informação atualizada, como o faz o Miguel Quaresma.

Mas mais importante do que tudo o que se queira salientar deverá referir-se a liderança de Jorge Jesus. E, por sobre a liderança do Jorge Jesus, a alma do Sporting Clube Portugal! A alma que eu, rapaz ainda, contemplei e senti no Mourão, no Pireza, no João Cruz, no Soeiro, no Azevedo, no Cardoso, no Canário, nos “cinco violinos”, no Fernando Mendes e tantos mais. Conta espirituosamente um escritor francês o caso de um poeta que, sentado no banco público de um jardim, por baixo de um nicho de santo (que não descortinava) correspondia, com impecável aprumo, a todos os cumprimentos, que reputava dirigidos a si, dos transeuntes que passavam, descobrindo-se...diante da imagem do santo.

Foram uns curtos momentos de glória que viveu, pois que bastou mudar de banco, para cair na dura realidade de que o único admirador dele era...ele mesmo! Qualquer treinador de um Clube, com a História do Sporting CP, trabalha sob um nicho sagrado, o prestígio incontroverso dos seus fundadores e dos treinadores e jogadores e sócios que o sentiram e amaram e viveram, julgando servir valores que davam sentido à própria vida. Qualquer pessoa, que trabalhe no Sporting, desde o presidente ao funcionário de mais humildes funções, passando pelos treinadores, jogadores, atletas e técnicos de saúde, não pode orgulhar-se tanto dos seus préstimos, no cotejo com homens que muito sacrificaram à pureza e à realeza do espírito (do espírito mesmo – sei o que escrevo). A cerimónia da entronização do Jorge Jesus, como treinador de futebol do Sporting, foi, para o Dr. Bruno de Carvalho, antes do mais, tenho a certeza, o símbolo da comunhão entre o presente e o passado e o futuro de um grande Clube.

Ainda há pouco, em conversa com o Dr. Augusto Baganha, presidente do IPDJ, um basquetebolista de invulgares recursos técnicos e exemplo vivo do que se entende por “ética no desporto”, ele me confessava: “Joguei no Sporting e numa equipa que fez história, no basquetebol nacional e saí dela sportinguista mesmo. É um Clube de grandes pergaminhos, de grandes tradições, onde se não aprende somente a fazer desporto”. O Dr. Augusto Baganha sabe, pelo homem que é e por experiência própria, que o desporto não é uma atividade física tão-só. Descobre-se nele um vínculo ao mundo-outro das ideias, da cultura, do espírito que dele faz, mais do que um saber, uma sabedoria. Saber do futebol tem o Jorge Jesus. E até está bem acompanhado, como já vimos.

Há pessoas pequenas que se julgam grandes porque nunca tentaram medir a altura dos outros. Ora, o treinador da equipa principal do Sporting é amigo do seu amigo e tem um amigo em cada um dos seus adjuntos e dos seus colaboradores. Ao cabo e ao resto, nada tem de um chefe intolerante e agressivo. Espontâneo e acessível, de uma cordialidade a toda a prova, as suas palavras são sempre de um grande calor de comunicação. Como sou um ignorante, em matéria do futebol, é o que nele mais me agrada: a sua noção de que o verdadeiro civismo consiste numa sólida paixão pela família e num entusiasmo fraterno pelos amigos e num respeito cristão pelos pobres e no cumprimento escrupuloso dos seus deveres profissionais.

E assim se vai cumprindo este treinador de futebol, que é assim e não doutro modo porque se trata de um homem admirável. Sou seu amigo. E julgo, por isso, não dever calar as suas qualidades, nas quais incluo uma inteligência incomum. Só uma inteligência de clarividência indiscutível poderia fazer o que ele fez, com as habilitações académicas que tem e o mundo cultural por onde habitualmente deambula. É um superdotado, com extrema confiança em si mesmo. Nada lhe falta para ser um treinador de futebol, de currículo predominantemente vitorioso. Mesmo quando, diante do Golias, parece só ter nas mãos a frágil funda do David.

No entanto, no vazio de anos e anos sem a conquista de um campeonato, os sportinguistas querem (a mala a abarrotar de frustrações) atos e não palavras, isto é, querem a alegria de um campeonato. Com Jorge Jesus e a sua equipa técnica e com os jogadores que se conhecem a vitória final é possível. Falta agora a homeostasia organizacional, quero eu dizer: que o Otávio Machado e o Manuel Fernandes e o dr. Bruno de Carvalho e o Jorge Jesus convivam e trabalhem como especialistas (ou trabalhadores do conhecimento) e como amigos que se estimam e respeitam. Ensina o Doutor Gustavo Pires que a homeostasia “começa em nós próprios” (cfr. Gestão do Desporto, apogesd, p. 12). Para que a energia emotiva, a fome de vitórias, as humilhações recalcadas não se convertam em permanente ressentimento pelos árbitros, pelos dirigentes da Liga e da FPF e pelos jornalistas! Vi jogar os “cinco violinos”.

Eram vencedores-natos. Porquê? Eram, naqueles meus anos de rapaz, os melhores, entre os melhores. Nada mais! O Fernando Peyroteo, na Direção-Geral dos Desportos, arroubado de felicidade, relatou-me, certo dia: “Antes de alguns jogos, chegávamos a perguntar uns aos outros: estes quantos levam?”. O Fernando Peyroteo, um atleta e um desportista sem mácula! Possante (como poucos, na história do nosso futebol) e com permanente fome de golo, tornava-se num perigo constante às balizas adversárias. O Mariano Amaro (que há 70 anos jogava como mais tarde o faria, “mutatis mutandis”, o Rui Costa) nos nossos jantares das quartas-feiras, com o Acácio Rosa, relembrava, com um sorriso maroto nos lábios, referindo-se ao Peyroteo: “O Fernando? Grande amigo! Era, em todas as circunstâncias, um cavalheiro! Mas, no campo, só à porrada se aguentava!”. As conversas são como as cerejas: diz o povo e tem razão. Pois se eu, neste artigo, pouco mais queria dizer que, com o Jorge Jesus, o Sporting vai ser um candidato ao título, já na época de 2015/2016...

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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