QUINTA-FEIRA, 25-05-2017, ANO 18, N.º 6326
Manuel Sérgio
Ética no Desporto
É preciso, imperioso e urgente a continuação de J.J., no Benfica (artigo de Manuel Sérgio, 84)
16:42 - 18-05-2015
Manuel Sérgio
Tal como nas épocas da Renascença e do Iluminismo, o nosso tempo atravessa uma crise que se desdobra em múltiplos aspectos: uma crise epistemológica, com a evolução dos modelos de ciência, através, como o acentua S. Toulmin, da tolerância pela incerteza, pela ambiguidade e pela diversidade; crise na filosofia, como o refere L. Smolin, em “The third culture”, pois que os cientistas passaram a fazer filosofia, renascendo assim a velha filosofia da natureza; crise decorrente pela elefantíase de civilização, exageradamente desconforme para uma cultura que ainda está em gestação difícil; crise proveniente da ausência de diálogo entre as religiões; crise pela ausência de valores que julgávamos terem selo de eternidade; crise pela insegurança que o terrorismo omnipresente provoca; crise ainda pela morte do Estado-Providência que sustentava, em cada um de nós, alguma confiança no futuro; crise que sobe da juventude, ansiosa de inventar uma sociedade à imagem e semelhança dos seus sonhos, dos seus anseios e das suas utopias; crise porque o mundo continua desigual, com zonas de riqueza e de pobreza, mercê de uma injustiça e de uma exploração, que nos devia envergonhar. Mas, passada que foi a crise, o homem de quinhentos e o de setecentos criaram uma realidade estável em que julgavam caber com garantias de tranquilidade. Morrera o mundo do geocentrismo, mas o cidadão europeu levantara do nada o antropocentrismo e contemplava-o embevecido, com optimismo inalterável. Demais, julgava-se um prolongamento da Antiguidade Clássica, desprezando a religiosidade exacerbada da Idade Média. O Paraíso Terreal estava antes de si – lá na Grécia de Péricles, ou na Roma de Augusto.

Ora, o homem do nosso tempo entrou em desacordo com a esperança do homem de quinhentos ou com o racionalismo dos iluministas. Para o cidadão dos nossos dias, o Paraíso Terreal está por construir. O passado... passou! O dia de hoje considera-o ele o crepúsculo que deve anunciar a manhã nascitura que importa inventar. Canguilhem (Essai sur l’Histoire et la Philosophie des Sciences) continua vivo, quando escreve: “o que torna nova uma situação é o poder de rutura com a invenção que imediatamente a precedeu”. Há uma vontade imparável de criar alternativas ao que está institucionalizado, para que uma nova esperança renasça. Em 2005, a Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu, para 2005, o Ano do Desporto e da Educação Física. E é caso para perguntar-se: discutiram-se, na ONU, os magnos problemas referentes a um desporto que surgisse como contra-poder ao poder das taras dominantes? Por que será que o desporto mais publicitado e propagandeado é o altamente competitivo, nas mãos de endinheirados que não se dão a conhecer? Ninguém pode esconder que, no espectáculo de encerramento dos Jogos Olímpicos, negros e brancos, muçulmanos e cristãos, africanos e asiáticos, enfim, atletas de todas as crenças religiosas e políticas confraternizam fraternalmente. Mas, no mundo hodierno, são inúmeros os conflitos existentes e a festa de encerramento dos Jogos Olímpicos tem a duração, unicamente, de um dia! Frequentemente, a competição, no desporto, designadamente no futebol altamente competitivo, impede uma sensata cooperação entre os clubes. É o desporto a reproduzir e a multiplicar a violência que se esconde na sociedade de mercado para onde alguns governos nos querem empurrar.

É preciso, imperioso e urgente criar, no futebol, uma heterodoxia, com os seguintes princípios implícitos: que se construa um discurso mais da ordem da negação que da afirmação, pois que os nossos clubes de futebol, a nível europeu, se afundam em gritante mediocridade; se não há dinheiro, optar pelo conhecimento, recusando a especulação pura e criando um sério trabalho interdisciplinar, liderado por um treinador experiente, no departamento de futebol; que se estabeleça uma ligação, franca e leal, entre o saber e o poder, mas num poder que se confunda com a alma do clube. Demasiadas vezes, os discursos dos dirigentes do futebol não resolvem o problema político-desportivo, fazem parte dele.

No F.C.Porto de Pinto da Costa e Pedroto, que nunca deixei de apontar como exemplo, mesmo em momentos de mais difícil formulação do que nascia, como novidade, no clube azul-e-branco – no F.C.Porto, estou certo, não se pensa hoje que o futebol do Sr. Lopetegui é o futuro do passado glorioso de equipas lideradas por José Maria Pedroto, Artur Jorge, Fernando Santos, José Mourinho, André Villas-Boas e ainda Vítor Pereira. Para um clube, como o F.C.Porto, não interrogar as causas de um ano, sem uma única vitória, no futebol principal, equivale a ficar “numa espécie de beatitude, fora da História”. No Benfica, por seu turno, invade-o um caudal de alegria, já que o título de bicampeão nacional representa, incontestavelmente, um padrão significativo, na história do futebol benfiquista. A este propósito, ocorre-nos recolher, aqui, as palavras elucidativas que Jorge Jesus me confiou: “Eu sei que ainda há muito que fazer, mas ninguém pode deixar de reconhecer que eu trouxe hábitos de vitória ao futebol deste clube”. E numa voz sumida: “Que já se tinham perdido ou esquecido”. E continuou, serenamente: “Eu sei que devo muito ao presidente mas, se ele confia em mim, é porque me reconhece valor. Não estou, no Benfica, por caridade. Comigo, o futebol benfiquista iniciou um trajeto que o levará a inolvidáveis vitórias. Comigo, o Benfica, ou ganha, ou discute a vitória.”.

Jorge Jesus faz de si mesmo uma imagem de um treinador que sabe muito do seu ofício, com particular incidência, no instinto ou na arte de descobrir o essencial de um jogo de futebol. Tem razão, para tanto. Num tempo impregnado de niilismos, de absurdismos, de absentismos, de renúncia, de rebeldia anárquica, Jorge Jesus continua firme nas suas convicções e com uma confiança inabalável no saber que vai acumulando, ao longo dos trinta anos que leva da sua profissão. Personagem controversa, como só os inovadores, os criativos conseguem ser, o futebol das suas equipas não é um plágio das sebentas dos mestres mais incensados – o futebol das suas equipas, inclassificável nas críticas dos comentaristas, tem a beleza e a eficácia das grandes clubes, mesmo sem os jogadores de excelência que brilham, nas principais equipas europeias. O saber não é pertença de ninguém, em especial, nem da hermenêutica dos retóricos de maior audiência – o saber é de quem faz e mostra que sabe fazer. A ação deve privilegiar-se, em relação à teoria.

Relembro Fernando Namora: “Cada homem é um caso único, irrepetível e, por conseguinte, cada homem é uma surpresa” (in Brotéria, Abril de 1989, p. 462). Sendo um prático, tão-só um prático, e portanto um heterodoxo e um marginal, em relação às instituições, é um dos treinadores portugueses de vocação mais inabalável, de inspiração mais estreme e, atualmente, de mãos dadas com Luís Filipe Vieira, o grande obreiro de um profundo renovo no futebol mais representativo do Benfica. É preciso, imperioso e urgente (para os benfiquistas) que o Benfica não deixe de ser a escola (ou seminário) de futebol, que hoje é – com Jorge Jesus e sob a vigilância de Luís Filipe Vieira! E, porque ainda há muito que fazer, é preciso, imperioso e urgente que, com Jorge Jesus ou com alguém que prolongue o seu magistério, o Benfica inaugure um novo diálogo com o futebol europeu. Como na década de sessenta do século passado…

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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