SÁBADO, 24-06-2017, ANO 18, N.º 6356
Professor Manuel Sérgio
Ética no Desporto
A desparasitação do futebol ou a dupla Pinto da Costa-Pedroto (artigo de Manuel Sérgio, 67)
16:24 - 18-01-2015
Manuel Sérgio
Se não laboro em erro grosseiro, foi na segunda metade da década de setenta e na primeira metade da década de 80 que, em Portugal, começou a estudar-se, com rigor e ciência, o futebol - “fenómeno” de facto anunciado pela coragem dos “primeiros jornalistas que se atreveram a afrontar aqueles que recusavam ser seus pares só porque o futebol era considerado coisa menor e marginal, na sociedade portuguesa (…). Geração de Homens, como Cândido de Oliveira, o mais notável entre os notáveis do seu tempo.

Selecionador nacional, capitão da primeira seleção portuguesa, autor de livros fundamentais sobre a evolução tática do jogo, jornalista e escritor” (Vítor Serpa, A Bola, 2015/1/17). E continua o atual diretor de A Bola, sempre de espírito aceso e vigilante: “A esta geração seguiu-se a geração daqueles que tentavam compatibilizar os dois mundos. Eram jornalistas, sem deixarem de ser homens do futebol (…). É a geração de homens como Vítor Santos que tornou possível essa relação mágica e que recusava qualquer perturbação da imagem idílica do futebol português, por considerar que tudo o que se escrevesse de negativo se virava contra os interesses e as audiências do futebol”. E, ao lado destes promotores de estados mentais, disponíveis a novas realidades, perfila-se o professor Teotónio Lima que, nas suas aulas no INEF e em cursos e seminários que organizou, deu relevo às questões atinentes ao treino desportivo, com renovada vitalidade.

Mário Moniz Pereira é o mais medalhado dos nossos treinadores desportivos. Compositor e poeta, mostrou aos mais reticentes que, para otimizar o rendimento dos atletas, importa saber motivá-los... com arte! A Associação Nacional dos Treinadores de Basquetebol, em 1979, organizou um Seminário de Metodologia do Treino e reuniu as comunicações, em livro editado pelo ISEF. Teotónio Lima foi a voz dominante e fez-se ouvir: “Não podemos nós afirmar que o futuro do desporto nacional depende da organização desportiva e das estruturas indispensáveis à execução de todo um trabalho planificado e programado? Julgamos que sim! Diremos mesmo que, sem organização, não é possível progredir e que a falta de organização constitui um mal que afecta profundamente o desporto nacional” (p. 32).

Assim, por trabalho interdisciplinar com prestigiados treinadores doutras modalidades; porque chegava, em passo estugado, a “sociedade aprendente” em que aprender é o dever primeiro de qualquer cidadão, mormente o especialista numa área do conhecimento – três treinadores parecem distinguir-se, no panorama do futebol português: Fernando Vaz, Mário Wilson e José Maria Pedroto, três pessoas com a estatura mental, para novas epistemes (Foucault), para novos paradigmas (Kuhn), para uma nova cultura, digamos de modo mais acessível. Convivi com Mário Wilson, com José Maria Pedroto e com Fernando Vaz. Este encontrava-se comigo no bar de um hotel lisboeta, bebia gulosamente um uísque e, com o líquido amarelo a gorgolejar no copo, era principalmente sobre temas literários de que mais se ocupava. Mário Wilson é um “agente do futebol”, sempre de semblante amigo e compreensivo, mesmo quamdo lidera de voz encorpada e terminante. Mas foi José Maria Pedroto o que mais me surpreendeu porque, olhando-me com decisão, tocou em temas que preocupavam também alguns professores do ISEF de Lisboa, tais como o Arcelino Mirandela da Costa, o Manuel Jesualdo Ferreira, o Carlos Queirós e o Nelo Vingada.

O David Monge da Silva aparecia, no momento azado, para lecionar o que nele era incontroverso: nesses dias já distantes, todos o cortejavam como o nosso melhor especialista em treino desportivo. Tornou-se-me então evidente que, no ISEF de Lisboa e no departamento de futebol do F.C.Porto, se instituía um entendimento novo do futebol. Para um ignorante como eu, em matéria de futebol, se bem que acobertado com a tabuleta de “filósofo”, diante do interesse, da curiosidade, da ambição do treinador e da genial perspicácia de Jorge Nuno Pinto da Costa, logo futurei, sem receio, saborosas vitórias para o futebol dos “dragões”. Afinal, sob a inspiração de Pedroto e a liderança magistral do presidente Pinto da Costa, no F.C.Porto aconteceu a mais radical transformação a que já me foi dado assistir, no futebol português e no desporto nacional.

O currículo de Pinto da Costa faz-nos sentir a profunda originalidade, a eficácia, a excelência do trabalho por ele realizado, no seu clube, com o apoio inestimável, sobre o mais, de José Maria Pedroto e ainda de Artur Jorge e de José Mourinho. Vejamos: como chefe do departamento de futebol, tendo a seu lado José Maria Pedroto, uma Taça de Portugal e dois Campeonatos; como presidente do F.C.Porto e já sem a companhia de Pedroto, mas sob a inspiração indestrutível do “Zé do Boné”, vinte Campeonatos, doze Taças de Portugal, dezanove Supertaças, duas Taças dos Clubes Campeões Europeus, uma Supertaça Europeia, duas Taças Intercontinentais. Resumindo: um palmarés onde brilham, altaneiros, 59 (cinquenta e nove) títulos conquistados! Não quero esquecer, neste momento, dois grandes treinadores de futebol: Artur Jorge e José Mourinho. Em 1987, Artur Jorge; em 2004, José Mourinho – foram eles os responsáveis técnicos pelas vitórias “portistas”, na Taça dos Clubes Campeões Europeus.

Consulto agora a História do Futebol Português, vol. II, do historiador Ricardo Serrado: “Artur Jorge foi o primeiro grande treinador português de nível internacional. Tendo brilhado como futebolista no F.C.Porto e na Académica mas, sobretudo, pelo Benfica, Artur Jorge foi um espetacular futebolista. Avançado fino, inteligente, rápido e frio, foi por duas vezes (1970/71 e 1971/72) o melhor marcador do Nacional. Mas, se a carreira de Artur Jorge foi brilhante, como futebolista, como treinador a sua vida conheceria o Olimpo. Depois de ter sido adjunto de Mário Wilson e Pedroto, o qual viu em Artur o seu natural sucessor”, Artur Jorge, após breve passagem pelo Belenenses, chega às Antas, onde “conheceria sucesso imediato: campeão nacional em 1984/85 e 1985/86, sendo vice-campeão na década seguinte, ano em que venceu, surpreendentemente, a Taça dos Campeões Europeus.

Nestes três anos em que esteve no F.C.Porto, Artur Jorge colocou a equipa a jogar um futebol de grande qualidade e com grande personalidade. O F.C.Porto de Artur Jorge foi, claramente, uma das melhores equipas portuguesas de todos os tempos” (p. 336). Segundo os meus amigos, professor João Mota e Dr. José Neto, que foram seus adjuntos, no trabalho de Artur Jorge esplendia uma prática do mais lúcido saber. Sei-o bem, através das inúmeras conversas que já tivemos. Artur Jorge é um homem culto e na cultura germina o princípio de qualquer obra séria e sólida e duradoura...

Do José Mourinho digo pouco, querendo dizer muito: tem um currículo desportivo inigualável, na História do Futebol Português. E está no pódio dos melhores treinadores de futebol do nosso tempo. Devo-lhe gentilezas sem conta, dado que de mim se lembra, repetidas vezes, contribuindo assim, de forma decisiva, para as inúmeras entrevistas que vou dando a televisões de todo o mundo. De facto, eu conheço um José Mourinho que é capaz de ser humilde e afetuoso, ao contrário do que, por vezes, parece e... não é! Para mim, hoje, é o treinador de mais sólido conhecimento científico da sua profissão. Trata-se de um homem que, sempre que aparece, surge, não ressurge. Vibrante e irradiante, no exercício da sua profissão, ele tem ateada a luz condutora de um rigoroso conhecimento do que faz.

Como o tinha José Maria Pedroto, como o tem Jorge Nuno Pinto da Costa – que desparasitaram o futebol “portista” do conformismo, da inépcia, do absentismo, de um paralizante provincianismo. E que nos ensinam o seguinte: o conhecimento é uma das grandes forças produtivas do nosso tempo, rivalizando com o próprio capital! Foi o conhecimento a lição inesquecível de Pedroto, motivado pelo forte pragmatismo de Pinto da Costa. Pragmatismo e um ardente amor ao F.C.Porto.

Manuel Sérgio é Professor Catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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