QUINTA-FEIRA, 29-06-2017, ANO 18, N.º 6361
Ética no Desporto
Feliz Ano Novo ao Desporto Português (artigo de Manuel Sérgio, 63)
23:31 - 31-12-2014
Manuel Sérgio
A competição desmedida em que o espetáculo desportivo descambou, conjugada com a crise moral que trocou a sabedoria pelo primado do económico – vem espalhando a crença que o progresso (e o progresso desportivo) se põe, antes de tudo, numa economia sem qualquer referência axiológica, monadicamente fechada a outras ideias, aspirações e desejos.

Desta sorte, o praticante desportivo, abandonado a si mesmo, depois do naufrágio das metanarrativas, designadamente o cristianismo, parece um autêntico Robinson Crusoé, mesmo que acompanhado de multidões de basbaques, ou de automóveis e meninas, último modelo. Ensinaram-lhe a correr, a saltar, a rematar, dentro de um sistema tático que o treinador determina; sublinharam, em ementas cientificamente preparadas, o que deveria comer e o que, à mesa, deveria rejeitar; os dirigentes, com encapotada agressividade, destacaram, diante dos seus olhos, regras e regulamentos, internos do clube... que são para ele cumprir, evidentemente; falaram-lhe do fair-play e doutras coisas a que não atribuiu grande importância; os órgãos da Comunicação Social afogam-no num “mare magnum” de publicidade, erguem-lhe altares de mentiras, empurram-no a um mundanismo ridículo. E, com o que tem e o que é, incluindo uma inteligência corporal quinestésica, que os treinos desenvolvem, aí está um campeão do desporto. O que é bem pouco, parecendo muito. Podemos escutar, neste passo. Guy Debord: “Em 1967, mostrei num livro, A Sociedade do Espectáculo, aquilo que o espectáculo moderno era já essencialmente: o reino autocrático da economia mercantil, tendo acedido a um estatuto de soberania irresponsável, e o conjunto das novas técnicas de governo, que acompanham este reino” (Comentários sobre a Sociedade do Espectáculo, mobilis in mobile, Lisboa, 1995, p. 14). Nesta sociedade, o que não é espetacular, praticamente não existe, “as únicas forças organizadas são aquelas que querem e promovem o espetáculo” (p. 34).

Oiço por aí alguns comentadores políticos, bem enraizados na “sociedade do espetáculo”, que se dizem escandalizados, com a espetacularidade da justiça. Mas por que não se diz também que são os mesmos “que querem e promovem a sociedade do espetáculo” que se encontram em tácita aliança com os que tornam possível a sabotagem económica, a fuga de capitais, a falência dos bancos, a depredação dos agros, a ruína das pequenas e médias empresas, a corrupção, etc., etc.? Guy Debotd não o esconde: “A imbecilidade crê que tudo é claro, quando a televisão mostrou uma bela imagem e a comentou com uma audaciosa mentira” (p,. 75). Ora, em tudo o que é espetáculo há uma audaciosa mentira, porque “as leis se fazem, para serem torneadas, por aqueles que justamente possuirão todos os meios para isso” (p. 87). Sejamos claros: é o aparelho legislativo e o executivo que “fabricam” as leis. O que resta à nossa jurisprudência (de que já ouvi falar, no estrangeiro, com reverência e respeoto) não passa de simples interpretação. Nada mais! Não é a justiça, portanto, que afinal obedece às leis que outros fizeram, a “causa das causas”, nem das leis, nem da justiça-espetáculo. Chegou o tempo de não iludir os problemas estruturais que enfrentamos neste e noutros domínios. Em sentido extenso, também o desporto é política: reflete a sociedade e pode concorrer à sua transformação. O desporto, como o teatro, o cinema, a literatura, a dança, pode e deve mobilizar, motivar, esclarecer, cumprir a sua função lúdica e política (digo política e não partidária). Sendo movimento intencional e em equipa da transcendência, ou superação, mas de uma transcendência, ou superação, que possa valer como explicação integral da pessoa humana – nele, a competição, socialmente institucionalizada, deve significar capacidade de estabelecer relações construtivas, compreensivas. tolerantes e respeito pela diferença e exercício dos valores da cidadania. Faltam-nos dirigentes, em número suficiente, capazes de assumir uma não-violência, tanto a física como a não-violência verbal. A nossa verdade e a dos adversários são sempre relativas ou parciais. Também no desporto só unidos venceremos!

Quando portanto se deseja Feliz Ano Novo ao Desporto Português, importa realçar, antes do mais, que o momento não é de divisões e o diálogo entre clubes é absolutamente necessário. “No começo era a ação” dizia o velho Goethe. O nosso desporto tem de transformar-se num mapa de ações novas onde a competição seja também cooperação, onde possa nascer, de facto, o neologismo coopetição, ou seja, competição com cooperação. “Uma manhã, ao despertar de sonhos agitados, Gregor Samsa deu por si, na sua cama, transformado num monstruoso inseto”. Com estas palavras, Kafka principia A Metamorfose, um conto escrito em Novembro de 1912. Uma coisa estranha, no desporto, são também aqueles que não sabem o que é nem qual a utilidade do desporto, numa sociedade civilizada. Aconselha-se a leitura de grande parte dos textos de Coubertin aos nossos dirigentes desportivos, há neles o fermento de um renovo, que não devemos deixar morrer.

A busca do Absoluto, na prática desportiva, sublinha a necessidade de justificar o Desporto pela adesão a uma ideia ou a um projeto coletivo donde se divise um mundo mais humano e humanizante. Tanto como praticar desporto há que praticar uma cultura desportiva, para que o desporto tenha sentido e passe de Atividade unicamente Física a uma Atividade Humana, autenticamente Humana. São estes os nossos votos primeiros, para o desporto português, no ano de 2015. E que os dias amanheçam invariavelmente promissores para as nossas seleções nacionais das várias modalidades desportivas. À personalidade original e expressiva do José Mourinho; à juventude, no corpo e na alma, do André Villas-Boas e Nuno Espírito Santo; ao Cristiano Ronaldo, o melhor futebolista do mundo; aos futebolistas e treinadores portugueses que, no estrangeiro, se afirmam pelo seu incontestável valor desportivo; a todos os “agentes do desporto”, portugueses, aquém e além-fronteiras - com uma grande ternura a derreter-se nos meus lábios enternecidos(os meus 81 anos já me permitem um ar paternal, em muitas circunstâncias) aqui deixo a todos os meus votos sinceros de Feliz Ano Novo, corporizando “o espírito desportivo, enraizado nos valores e nos comportamentos éticos”!

E, por fim, pela seu ano excecional de 2014, como treinador de futebol, um sentido abraço ao Jorge Jesus. Não esqueço nunca o seu convívio como, sob determinados aspetos, uma das coisas extraordinárias que na vida me foi dado desfrutar.

Manuel Sérgio é Professor Catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto.

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