QUINTA-FEIRA, 25-05-2017, ANO 18, N.º 6326
Manuel Sérgio
Ética no Desporto
As incertezas da ciência (artigo de Manuel Sérgio, 56)
23:19 - 20-11-2014
Manuel Sérgio
Desde o século XVII nos vêm prometendo que, através das ciências, seríamos, mais tarde ou mais cedo, “donos e senhores da natureza”. Há muito pouco tempo, Stephen Hawking afirmou-nos, convictamente, que as ciências estão prontas a conhecer “os planos do próprio Deus” e a sintetizar, numa “teoria de tudo”, a nossa compreensão das forças fundamentais que governam o mundo físico.

De facto, dominam-se os segredos do átomo e já se produz a sua desintegração; graças à “revolução biológica” de meados do século XX e convictos que dominamos muitos dos antigos segredos do mundo vivo, rapidamente passámos de uma biologia da análise para uma biologia da reconstrução, de que a zootecnia é um produto florescente. E ao nível micromolecular e biomédico? Não me é possível, no curto espaço de um artigo e porque me falecem sérios conhecimentos, resumir os hodiernos e espantosos avanços, no campo da ciência. Demais, ainda há quem, fundamentado no paradigma mecanicista, afirme que, pela medição e pelo cálculo, chegará a uma compreensão ideal da natureza.

A física, a química, a biologia evoluíram de “ciências da natureza” para “ciências de artefactos”, engenharias autênticas, capazes de reconstruírem átomos, moléculas e genes. E, porque se julga que a natureza não tem alma, não passando de uma máquina bioquímica, a tecnociência salvará logicamente o presente e dir-nos-á como será o futuro. No entanto, esta mesma tecnociência que ajuda ao nascimento de extraordinários atletas, não garante que os super-atletas apresentem, para o resto das suas vidas de pós-competição, uma saúde com razoável estabilidade. E assim, de quando em vez, assistimos ao passamento de antigas “estrelas” do espetáculo desportivo, ainda antes de poderem considerar-se idosas, vitimadas pelas mais diversas patologias. Quando são apresentadas ao mundo como figuras paradigmáticas, do ponto de vista biomédico, deveria acrescentar-se que, no desporto de alta competição, não se faz desporto para ter saúde, mas porque se tem saúde. E que a sua prática pode não dar mais vida aos anos...

No dia 9 de agosto de há nove anos atrás, no hospital de La Rochelle da sua província natal de Charente Maritime, faleceu de cancro na garganta Collete Besson, campeã olímpica dos 400 metros, nos Jogos Olímpicos do México (1968), com 59 anos de idade. Acrescente-se que Colette Besson não era fumadora. Conforme José Cutileiro o relata no Expresso (2005-8-27): “Até ao dia 16 de Outubro de 1968, só parentes, amigos e colegas saberiam quem ela era. Fora, é certo, selecionada para os Jogos Olímpicos da Cidade do México, mas não era uma das vedetas onde se punham esperanças e que a Federação de Atletismo Francesa apaparicava: o seu treinador não fora incluído, no estágio da equipa, antes dos Jogos. E ao aprontar-se para a prova que a viria a tornar célebre – os 400 metros – na pista 5, com o número 117, só tivera em mente um fito: não chegar em última. A favorita de todos os entendidos era Lilian Board”.

Colette Bresson era francesa e, em Maio desse mesmo ano, os universitários franceses exigiam que a imaginação fosse poder, rejeitavam a sociedade capitalista burguesa, faziam suas as palavras incendiárias de Herbert Marcuse. O capitalismo, diziam os mais publicitados revolucionários daquele tempo, produz esquizofrénicos tão-só; reintroduz códigos, limites, identidades, para dominar o desejo; a loucura (Michel Foucault foi o primeiro a dizê-lo) é uma construção sócio-política.

Derrida, precisamente em 1968, intitulou a sua conferência na Sociedade Francesa de Filosofia: Différance! Para este filósofo, diferir é deslocar, frustrar, deslizar. De facto, embora de modo anárquico, a universidade francesa queria ardentemente o diferente, o novo. Era preciso desconstruir. E a desconstrução “multiplica as palavras (...) numa substituição sem fim e sem fundo, cuja única regra é a afirmação soberana do jogo sem sentido”. Deste turbilhão de palavras e desejos emergia, na opinião pública, uma ideia confusa, contraditória, inexata da vida política. E os que (como Paul Ricoeur) pretendiam iluminar alguns aspetos ignorados, vincar alguns traços menos expressivos, anunciar os fundamentos – eram adjetivados de caquéticos, reacionários ou até fascistas. A França dividira-se e, em 1968, parecia navegar ao sabor da maré...

Até que a professora de Educação Física Colette Besson venceu os 400 metros planos dos Jogos Olímpicos do México, os quais, transmitidos pela televisão e diante da vitória da Colette, concorreram, iniludivelmente, a um reacender do espírito patriótico, que parecia em crise. Quando regressou a França, o general de Gaulle quis recebê-la e condecorá-la e apontar a sua vida, também como fonte de saúde e de bem-estar. Mais tarde, bateria mesmo “ex-aequo” com Nicole Duclos, sua amiga e compatriota, o recorde do mundo dos 400 metros planos. A Colette Besson (1946-2005) o desporto que praticou não lhe prolongou a vida, mas fez dela uma heroína francesa dos tempos modernos. O desporto não é (não deve ser) uma exortação belicosa de patriotismo, mas pode concorrer à reabilitação do sentimento patriótico. As incertezas da ciência não nos permitem dizer se o desporto é sempre um fator de saúde, mas há nele um opulento, honrosíssimo inventário de páginas do mais lídimo patriotismo.

Ao invocarmos as lágrimas de Colette Besson, no pódio dos Jogos Olímpicos do México, saudemos nela o ímpeto, o pundunor, a grandeza de ânimo, típicos de um magnífico sentimento de pátria. O desporto é, de facto, uma prática exemplar, quando é acima do mais um ideal. E um povo sem ideais é como um corpo sem sangue, preparado para a decomposição. O caráter social do desporto implica, logicamente, relações sociais e deve, por isso, visar a transformação do Homem, da Vida, da Sociedade e da História. “Implementar legislação e outros instrumentos, em prol da ética desportiva; promover e defender o desporto, como um direito universal, bem como a sua dimensão pedagógica e educativa; fomentar a prática desportiva, tendo em consideração os valores éticos” , conforme as sábias palavras do Código de Ética Desportiva (PNED, Instituto Português do Desporto e Juventude) – tudo isto é desporto, porque visa a implementação do desenvolvimento humano.

Seria bom também (a propósito e a despropósito) chamar a atenção para o facto de aceitar-se acriticamente a exaltada expressão. “o desporto dá saúde”. Ora, tanto dá, como pode não dar, pois que são várias as vítimas de doença súbita, durante um simples e calmo encontro desportivo. Não me refiro à alta competição, onde o ímpeto da luta provoca um inevitável desgaste físico e psicológico. Assinalo o facto de que nem sempre se deve fazer desporto, mesmo no lazer desportivo.

O controlo médico é, em todas as circunstâncias, inevitável. Com o “nihil obstat” do médico, a motricidade humana é sempre aconselhável. “Movo-me, logo existo”. Mas “movo-me” com que objetivos? Só para eu ter saúde? Não só, mas também... porque devo movimentar-me, para, entre outros objetivos, ajudar à transformação da sociedade! É numa sociedade justa que a saúde-para-todos pode promover-se e organizar-se. Trata-se de um tema que muitos teóricos do desporto esquecem, ou seja, que o desporto só dá saúde, no dia em que se transformar numa prática política.

É a partir daqui que seria de repensar os programas do desporto escolar! Mas o desporto, na Escola, deverá politizar e politizar-se? Eu não digo que as aulas de Desporto se transformem num espaço de propaganda partidária, mas de educação política... que não é a mesma coisa! O desporto, como área do conhecimento, é ciência e ética. E, perante as incertezas naturais da ciência, sujeita a uma constante dúvida metódica, façamos sempre do desporto uma ética em movimento. Tendo assim a certeza que, com ética, também servimos e ajudamos ao indispensável conhecimento científico.

E mais: sem ética, o desporto pode ser ciência, mas deixa de ser uma sabedoria, deixa de ser um espaço onde se defendem aqueles valores, sem os quais impossível se torna viver humanamente – aqueles valores que estão na génese do nascimento do próprio desporto! Um feixe de Sol, coado através da alta competição do espetáculo desportivo hodierno! Faço minhas as palavras de Eduardo Prado Coelho, em Tudo o que não escrevi (Edições ASA, Porto, 1992): “mercado e liberalismo ignoram a dimensão cultural da vida, como demanda trágica de um sentido” (p. 56).

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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