SEXTA-FEIRA, 28-07-2017, ANO 18, N.º 6390
Ética no Desporto
Carta Aberta ao Presidente da República de Cabo Verde (artigo de Manuel Sérgio, 53)
10:25 - 08-11-2014
Manuel Sérgio
Excelência:

Em primeiro do mais, permita-me, Senhor Presidente, saúde, na alta magistratura política de Vossa Excelência, a República de Cabo Verde, um país tão querido dos portugueses, que é um exemplo, pela mentalidade e cultura do seu povo e pelo seu desenvolvimento económico e político. Falar, hoje, de Cabo Verde não é um escusado diletantismo de ociosidade literária, mas um dever, pois que o seu País vem ensinando “urbi et orbi” uma Cultura de Paz, promotora e fautora de um mundo onde os povos se admirem e respeitem mutuamente.

Visitar Cabo Verde não significa, unicamente, contemplar uma natureza avassalante e majestosa, mas sentir uma atmosfera desanuviada de ódios e de violência, um ambiente acolhedor, no qual as pessoas convivem com firme e fecunda segurança. Demais, a magia enfeitiçante da vossa música e dos vossos escritores torna mais afirmativo, imperativo, sedutor o vosso nacionalismo, que de tantas almas diferentes sabe fazer uma alma concorde e única. José Manuel Pureza, no livro que organizou, Para uma Cultura da Paz (Quarteto, Coimbra, 2001) escreve: “Vivemos um tempo de incerteza. Não a incerteza das atividades milenaristas, que antecipam incontáveis tragédias, mas sim a incerteza que advém de uma complexidade crescente do ambiente que nos envolve e que tornou obsoletos todos os quadros intelectuais, que se arrogavam certezas inabaláveis sobre os caminhos da História (…). Nesta experimentação da incerteza, estamos todos convocados a reinventar a política, não mais como arte do possível, mas sim como a arte do impossível” (p. 7). A arte do impossível que a República de Cabo Verde torna possível, diante do olhar atónito do mundo convulso de hoje! Senhor Doutor Jorge Carlos Fonseca, sob a orientação de Vossa Excelência, a paz que reina em Cabo Verde parece (é) um milagre. Uma pergunta me ocorre, neste passo: é mesmo verdade um humanismo típico do povo caboverdeano?

Fui “amigo do peito” de um antigo aluno meu, no ISEF de Lisboa, e dos melhores jogadores de futebol qur o seu País ofereceu a Portugal: Carlos Alhinho. A notícia da sua morte caiu brutalmente no meu coração e no coração dos seus familiares e amigos. Pelo inesperado da triste notícia. Amava Cabo Verde fervorosamente e era conhecida a sua solidariedade, em relação a caboverdeanos que se encontravam em dificuldades (económicas ou outras) aqui em Lisboa. Pode crer, Senhor Presidente, o Carlos era um homem de perene devoção à terra onde nasceu. Também vi jogar o Henrique Ben David, que nasceu na Mindelo, em Cabo Verde, a 5 de Dezembro de 1926 e faleceu e 4 de Dezembro de 1978. Avançado rápido e de bom jogo de cabeça, deu muitas vitórias ao Atlético Clube de Portugal. Fez 6 jogos, pela seleção portuguesa. Muitos outros futebolistas do seu País poderia, neste momento, salientar No entanto, foi com o Carlos Alhinho que mantive uma amizade que não esqueço. Ainda há pouco mo lembrava, olhos húmidos de saudade, um dos seus filhos. Mas o Senhor Presidente reforçou, com convicção, um desabafo que o põe muito próximo de uma legião imensa de portugueses: “Cresci com A Bola”. Eu, por exemplo, embora com menor ressonância, poderia dizer o mesmo. A primeira edição deste jornal surgiu no dia 29 de Janeiro de 1945 e... esgotou! “Custava apenas cinco tostões e apareceu com oito páginas. Tinha como diretor Álvaro de Andrade, uma vez que nem Cândido de Oliveira, nem Ribeiro dos Reis, podiam desempenhar o cargo: o primeiro por ter sido preso político (no Tarrafal) e o segundo por ser oficial do Exército” (João Nuno Coelho e Francisco Pinheiro, A Paixão do Povo – História do Futebol em Portugal, Edições Afrontamento, Porto, 2002, p. 334). Na primeira página, a linha editorial despontou então, com a força da grandeza moral dos seus fundadores, Cândido de Oliveira, Ribeiro dos Reis e Vicente de Melo: “A Bola aparece como jornal livre, sério e honesto, nas intenções e nos processos, a dizer do bem e a dizer do mal, na crítica, na doutrina, na propaganda desportivas”. Inestimável legado que hoje continua, sob o aspeto formal do estilo e ainda nos valores que, desde o primeiro número, A Bola diz servir.

Vítor Serpa, o seu diretor (e também saúdo nele todos os que fazem A Bola, na imprensa escrita, na televisão e na sua versão “on line”); Vítor Serpa, figura prestigiosa de jornalista e escritor, inteligência esclarecida e lúcida e com uma virtude rara, nos dias que passam, a virtude de admirar sem reservas e sem invejas, visitou, há pouco, o seu País e, estou certo, sentiu um prazer e uma honra inenarráveis, ao escutar o “cresci com A Bola” de Vossa Excelência. E soube ainda mais o Vítor Serpa: que o Senhor Presidente lê, com interesse e devoção, este jornal, desde os 9 ou os 10 anos de idade; que recorda muitos dos jornalistas que, ao longo do tempo. com inflexível e austera firmeza, defenderam os valores que formam a alma desta Casa; que é adepto dos Tubarões Azuis, do Vitória de Setúbal e do Sport Lisboa e Benfica – enfim, que é dos “nossos”, no corpo e na alma! Criou-se, assim, entre Vossa Excelência e A Bola, mais do que um penhor de amizade, um vínculo de família. De facto, o Senhor Presidente passou a pertencer (as suas palavras lapidares assim o confirmam) à grande família d`A Bola. É óbvio que não se trata de um título medieval de nobreza, mas o sinal de um novo humanismo, presente no conceito de Desporto, que Cândido de Oliveira, Ribeiro dos Reis e Vicente de Melo conceberam e exemplarmente corporizaram. Senhor Doutor Jorge Carlos Fonseca, sou um “minimus inter pares”, entre os colaboradores d`A Bola, mas julgo que me é permitido acrescentar que, diante de tudo quanto esta instituição representa de perdurável na vida do meu País, diante da dignidade das suas tradições e dos seus jornalistas, diante dos seus quase setenta anos de vida, a presença de Vossa Excelência e de Cabo Verde, nesta grande família de jornalistas e estudiosos e amantes do Desporto, diz-nos que a vocação de pluralidade e universalidade, que a distingue, continua viva e capaz de ser assumida pela pessoa, por muitos títulos, ilustre do atual Presidente da República de Cabo Verde.

Senhor Presidente, perdoe-me a ousadia desta carta. Porque já sou um ancião de 81 anos de idade, sei qua a morte é inevitável, mas sei também que o coração não envelhece. É que até eu me senti sensibilizado, com os primores de cortesia e de espírito, manifestados por Vossa Excelência. E creia-me por isso o admirador muito grato.

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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