SÁBADO, 24-06-2017, ANO 18, N.º 6356
Ética no Desporto
O preparo físico dos nossos jogadores de futebol, 2.ª parte (artigo de Manuel Sérgio, 50)
19:34 - 16-10-2014
Manuel Sérgio
No primeiro dos artigos sobre este tema, procurei dizer com o Fausto (Goethe) que, no princípio, é a Ação e que o agente desta Ação é a complexidade humana. Só que, alçando-se muito acima de tudo o que dele se diz e escreve, o Homem continua por definir-se cabalmente. O Sartre sustenta que o Homem não passa de uma inútil paixão. Ou então: que não é mais do que a si próprio se faz.

Eu continuo discípulo de Teilhard de Chardin e acredito, por isso, que o Universo é uma evolução, que a evolução caminha para o espírito e que o espírito acaba na pessoa (a pessoa suprema reside, definitiva, em Cristo, segundo mesmo Teilhard). É precisamente no ser humano que a evolução se consciencializa, se interioriza, se finaliza. E finaliza-se porque, com o Homem, a evolução caminha, desenvolve-se como cultura e como liberdade. É a partir daqui que, no meu modesto entender, deve começar a preparação de um jogador ou de uma equipa de futebol. O treino tem de criticar-se como cultura, porque são homens os jogadores de futebol. A Cultura não deverá interpretar-se como especulação metafísica pura, desligada da Vida, da Sociedade e da História. A cultura (aliança do saber e da vida, na definição lapidar do Padre Manuel Antunes) – a cultura tem de ajudar a ordenação prática da ação humana e a transformação da realidade, na perspetiva do fim último do homem. Há muito a problematizar e a reordenar, numa equipa de futebol, para além do treino físico. A História do Futebol atesta que esta modalidade possui não só os seus problemas perenes, mas aqueles que a sociedade, na sua dialética incessante, lhe levanta. “Esportes populares, como o nosso futebol, reúnem ao menos três grupos de pessoas: os próprios esportistas, os torcedores e os comentadores/comentaristas (mais ou menos profissionalizados). Hoje, teríamos de acrescentar ao primeiro grupo, não só os seus cartolas, ou dirigentes, mas também toda uma classe de empresários, associados aos jogadores por vínculos financeiros – para nem falarmos dos patrocinadores” (Donaldo Schuller, in AA.VV., Filosofia e Futebol: troca de passes, Editora Sulina, Porto Alegre, 2012, p. 53). Ora, também os empresários e os patrocinadores condicionam a vida do jogador de futebol. E mais não digo...

Quando se fala, ou se escreve, sobre o desporto (sobre o futebol), se se releva uma dimensão gnosiológica e de vigilante acuidade, deverá salientar-se que nos encontramos no âmbito das ciências hermenêutico-humanas, onde “o corpo não se basta a si mesmo, pelo contrário, é a expressão visível da preparação interior e dos estados de alma. Por trás da sua variedade biológica (…) o corpo exprime a mais extrema diversidade do espírito humano. A unidade indestrutível da pessoa inteira engloba o conjunto de corpo e alma (…). O desporto, de um certo ponto de vista, é sempre uma superação da condição corporal limitada. Quando o heroísmo ultrapassa o egoísmo, a vontade excede o comodismo, o sacrifício vai além da simples vantagem hedonista, aparece o caráter do atleta amadurecido, que é capaz de sentir o prazer espiritual de não se ver condicionado pela contingência do corpo” (Roberto Carneiro, in Brotéria, Janeiro de 1999). O desportista, mormente o de alta competição, sente, como bem poucos, que no Homem não há físico sem psíquico, nem razão sem uma base biológica, emocional, inconsciente. Para além do que venho de escrever, permito-me discordar dos que pensam que ser pessoa (ser atleta) se resume a uma identidade corpórea de sentido, antes do mais, biológico. Esta posição, que tem por si muitos neurobiólogos e as próprias ciências cognitivas, é uma antítese à tese tradicional e bolorenta da conceção unicamente racional e dualista do ser humano. Para S. Tomás de Aquino, por exemplo, a alma era incorpórea e podia perfeitamente sobreviver sem o corpo. Assim acontece (dizia ele) no período entre a morte corporal e a ressurreição dos mortos. Nos nossos dias, autores com a estatura mental de Paul Churchland, Daniel Dennett e George Lakoff defendem uma dimensão estritamente biológica do ser humano. No entanto, para mim, porque, ao estudarmos o desporto, nos encontramos no âmbito das ciências humanas, não vejo a pessoa, o sujeito (o atleta), na sua autonomia biológica apenas, ou até individualista, mas na sua dimensão relacional. E vou assim na esteira de três grandes filósofos: Martin Buber, Emanuel Levinas e Paul Ricoeur.

Buber adianta uma afirmação exigente e fundamental: “Quando se diz Tu diz-se ao mesmo tempo o Eu do par verbal Eu-Tu” (Martin Buber, Ich und Du, trad. esp. ed. Galatea Nueva Visión, Buenos Aires, p. 9). O filósofo não encontra um Eu substancial, definitivamente centrado “em si mesmo”. Por isso prossegue: “Não existe um Eu em si mesmo, mas apenas o Eu da palavra primordial Eu-Tu e o Eu da palavra primordial Eu-Isso (referindo-se às coisas)” (p. 10). O Eu, em Buber, é solidariedade, fraternidade, comunhão. Dir-se-á que os filósofos sofrem de demasiado subjetivismo e abstrata especulação. Neste caso, o desporto (e a motricidade humana em geral) pode ensinar ao vasto mundo do saber que a filosofia em que acredita não é a do ser e do logos, mas a do ato e da relação. O desporto é tanto uma sabedoria como um saber, ou seja, em toda a sua teorização há sempre uma reflexão sobre normas, sobre objetivos, sobre valores. Ele não rejeita unicamente o dualismo antropológico alma-corpo, mas também a insularidade do cogito que deverá substituir-se por amo logo existo. De facto, é pelo amor que a verdadeira criatividade acontece; é pelo amor que a síntese Eu-Tu melhor se concretiza. A motricidade humana, como eu tento defini-la, “é o movimento intencional da transcendência”. E acrescento, ficando sempre no cerne do que penso: “Mas sempre em equipa”. No lugar da racionalidade do domínio individualista, a lógica do serviço. Evan Thompson, antigo colaborador de Francisco Varela, aproxima-se do paradigma em que eu acredito: “1. A consciência humana individual forma-se numa inter-relação dinâmica entre o eu e o outro e é por conseguinte intersubjetiva. 2. O encontro concreto do eu com o outro envolve fundamentalmente a empatia, entendida como um género de intencionalidade único e irredutível. 3. A empatia é a condição prévia (a condição de possibilidade) da ciência da consciência. 4. A empatia humana é inerentemente dinâmica: abrem-se-lhe caminhos de modos de intersubjetividade não egocêntricos e auto-transcendentes. 5. O progresso real na compreensão da intersubjetividade requer a integração dos métodos e das descobertas das ciências cognitivas, da fenomenologia e das psicologias contemplativas e meditativas da transformação humana” (Between Ourselves. Second-Person Issues in the Study of Consciousness, Imprint Academic, Thorverton, 2001, p. 1).

Ser humano é ser, antes do mais, relação. Há ideias, desde há séculos guiadoras da história da humanidade, que se debatem em crise agónica. Está a nascer uma nova ética e uma ciência nova, em que o sábio tem de ser também o apóstolo, o lutador, o professor de altruismo. Está a nascer um tempo em que os principais problemas do desporto e do treino desportivo têm de observar-se numa perspetiva relacional. O preparo físico é o nome da nossa incapacidade para criar um futebol de excelência. Porque o que mais importa não o encontramos regredindo aos exercícios físicos sistemáticos, que eu conheci quando ingressei no INEF.(1968). O futebol não pode reduzir-se a tão pouco. Estou a sentir o repousado deleite de alguns críticos deste meu artigo: “Este quer acabar com a preparação física, no treino”. O que eu digo é que, hoje, a preparação física não é, normalmente e nos tempos que correm, o problema primeiro de um treinador de futebol. O problema primeiro, neste caso (se não me referir a outros aspetos do futebol profissional) – o problema primeiro, neste caso, é o treino, onde o físico e o fisiológico se encontram ao lado doutros elementos. Hoje, tudo é sistema; em tudo, é preciso apelar a uma perspetiva de totalidade. Em tudo, incluindo o treino.

Uma pergunta final: deveu-se à sua superior preparação física as vitórias dos portugueses, na Dinamarca e a classificação dos sub-21 para o Europeu de 2015? A preparação física é importante, mas há tanta coisa importante na preparação de uma equipa de futebol! Por exemplo, a sensatez e a perspicácia do treinador. Um abraço de parabéns ao engenheiro Fernando Santos...

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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