QUINTA-FEIRA, 25-05-2017, ANO 18, N.º 6326
Manuel Sérgio
Ética no Desporto
Valdano: um homem que transporta uma frustração (artigo de Manuel Sérgio, 44)
01:06 - 13-09-2014
Manuel Sérgio
Há quatro ou cinco anos, jantei, no Porto, com Jorge Valdano. Já o tinha lido nalguns dos seus escritos e, uma vez mais, pareceu-me um “agente do futebol” de penetrante lucidez e com uma linguagem donde emana uma certa elegância expositiva. Sobre o mais, um cavalheiro, com um modo pessoalíssimo, requintado de falar e de agir.

Argentino, foi um exímio praticante do “desporto-rei”, integrando uma seleção que venceu um Mundial de futebol. Mas do seu fino humor não raro surge uma antipatia, que não sabe esconder, por alguns nomes grandes da história do futebol, como Mourinho o é, indubitavelmente. No livro da sua autoria, que vem de publicar, «Los 11 poderes del líder», depois de minimizar Mourinho, em relação a Guardiola, comparando o treinador do Bayern a Mozart e Mourinho a Salieri, remata com sobranceira autoridade sine qua non: “Nunca ouvi Mourinho dizer uma frase sobre futebol, digna de ser recordada”. Demais, para Valdano, Mourinho não passa de um “personagem feito à medida destes tempos ruidosos e vazios”. Não é verdade, no entanto, que o ser humano se conhece, pela sua prática, pelo que faz? Jesus Cristo, no Evangelho, não deixa dúvidas: “Pelos seus frutos, os conhecereis”. Ser sujeito é ser agente, que o mesmo é dizer: alma, fonte e origem de uma atividade. Por isso, a ação é o modo-de-ser, um acontecimento do eu.

Ora, embora Valdano tarde tanto a avalizar o saber de Mourinho, como treinador de futebol, dado que detesta o futebol que o português implanta nas suas equipas, não lhe é lícito esconder que o currículo profissional do Mourinho é verdadeiramente invulgar. Aceito que o nível lexical, o artifício poético da sua prosa pudessem ser mais cuidados. Mas não compreendo como desdenhar o trabalho de um treinador que, quer o sr. Valdano queira quer não, o futuro há-de reter. Mesmo que, a partir de hoje, não voltasse aos treinos nem às competições, ninguém lhe retiraria já o lugar que de direito ocupa, entre os dois ou três primeiros grandes treinadores de futebol do seu tempo.
Há muitos anos já, o José Mourinho me escutou: “Quem só teoriza não sabe, quem só pratica repete”. Pretendia eu que os meus alunos considerassem a teoria e a prática, enquanto elementos constitutivos, em dialética incessante, da mesma totalidade. No conhecimento científico, não há teoria sem prática, nem prática sem teoria, se bem que (e volto a palavras minhas) a prática seja mais importante do que a teoria e a teoria só tenha valor, se for a teoria de uma determinada prática. A prova decisiva do que eu sou, ou do que eu penso, situa-se na prática. E assim (sem pôr em causa o comportamento ético de Jorge Valdano, pessoa que muito respeito) se associarmos, no treinador de futebol Jorge Valdano, a teoria à prática, podemos aplaudir a teoria, até o seu humanismo, mas a prática (como treinador de futebol, repito-me) rasa o sofrível.

Ao invés, o José Mourinho, arguto e inteligente, entrou no futebol sem a metafísica de um vasto trabalho especulativo, mas mostrou-se capaz de fazer, e com inexcedível brilho, o que Valdano ainda não alcançou (e não foi por falta de oportunidades). Peço vénia, para citar o Marx, no posfácio da segunda edição de O Capital. “O meu método dialético, quanto aos fundamentos, não é apenas diferente do hegeliano, mas o seu direto contrário. Para Hegel, o processo do pensamento, que ele transforma mesmo, sob o nome de Ideia, num sujeito autónomo, é o demiurgo do real, que não constitui senão o seu fenómeno exterior. Para mim, pelo contrário, o ideal não é outra coisa que o material transplantado e traduzido na cabeça do homem”. Dando primazia ao material, a dialética espírito(teoria)-matéria(prática) é evidente em Marx - dando a primazia à matéria, ou também à prática, porque é pela prática que eu posso tornar entendível o que faço e o que sou...

Vejamos agora, sem irmos até ao pormenor, o que de mais significativo fez José Mourinho: completou 100 jogos, na Liga dos Campeões; foi campeão em Itália, em Inglaterra, em Portugal e em Espanha; venceu duas vezes a Liga dos Campeões e uma vez a Taça UEFA (hoje, Liga Europa). E se consultarmos o livro Mourinho – a descoberta guiada, do prof. Luís Lourenço, aí encontraremos, na força expressiva das palavras, uma admiração incontida dos seus jogadores, pelo treinador e o homem que José Mourinho é.

Vítor Baía: “Ele mantém uma relação muito próxima com todos os que consigo trabalham mas, ao mesmo tempo, não existem dúvidas, para ninguém de que é a figura principal do grupo em que estamos inseridos. Sabemos que é ele quem manda mas, acima de tudo, sabemos que é a pessoa em quem nós confiamos”.

Didier Drogba: “Mourinho não me ensinou a jogar futebol. Eu sei jogar futebol. Ele ensinou-me, sim, a jogar em equipa, a estar com os outros colegas, o que é algo diferente. E é por isso que onde quer que ele se encontre atinge o sucesso”.

Pinto da Costa: “Naquela sua frase de apresentação aos jogadores (“para o ano, vamos ser campeões”) apresentou o seu melhor cartão de visita e o seu mais perfeito retrato. Confiança, determinação, vontade de transmitir a indómita vontade de vencer à sua gente – tudo estava sintetizado naquela frase”.

Jorge Costa: “Ele é direto e eficaz na forma como comunica, sente-se a segurança o seu discurso, a forma segura como produz o discurso”.

Deco: “Éramos um grupo muito forte, mas também muito coeso e não éramos só bons jogadores, mas também tínhamos grandes qualidades humanas”. Não me ocupo do requinte formal das frases. Sublinho tão-só que o Mourinho é, para a grande maioria dos seus jogadores, um treinador inigualável.
Avolumar defeitos, carências, ou fraquezas, num ser humano, é tarefa demasiado fácil. Difícil é saber admirar, sem ressentimentos, sem inveja, sem introversões avaras, um treinador de futebol, com a comunicabilidade, com a autenticidade, com a genialidade de Mourinho. Tão difícil que nem Jorge Valdano o sabe fazer...

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