TERÇA-FEIRA, 03-05-2016, ANO 17, N.º 5939
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destaques

A primeira palavra que disse quando começou a falar foi… golo!
Grande História A década de setenta foi uma época marcada por uma revolução social e pensamento influente, de onde resultaram vários marcos na história mundial: a guerra do Vietnã, a libertação sexual e a abundância das drogas. Uma revolução que resultou no nascimento do movimento hippie e do enfraquecimento do bloco comunista soviético, eventos que teriam um impacto importante nos anos que se seguiram. A par da política e das guerras, nascia um dos jogadores mais enigmáticos da história Albiceleste e um dos motores do futebol mundial. A RASTEIRA A DAVID BECKHAM Diego Simeone entregou-se ao futebol com 17 anos, não pelo clube de coração, mas sim ao serviço do Vélez Sarsfield. Ali destacou-se como um médio combativo e um ano depois, chegava à Selecção principal da Argentina, tendo-se estreado em Julho de 1988 num amigável frente à Austrália. Simeone alinhou em três mundiais e retirou-se como o mais internacional de sempre (106 internacionalizações e 11 golos). Pelo caminho cruzou-se com David Beckham no Mundial da França em 1998: no duelo que opôs Argentina e Inglaterra, Simeone cometeu falta sobre a estrela do futebol inglês, que mesmo caído no chão, conseguiu fazer uma rasteira a ´El Cholo´. O pior foi o que veio a seguir – Beckham foi expulso e Simeone só levou cartão amarelo. Curiosamente, em 2002, os dois protagonistas voltaram a encontrar-se no Mundial da Coreia, mas desta vez Beckham levou a melhor, apontando o golo da vitória que acabou com o sonho argentino. O ENCONTRO COM DIEGO MARADONA Apesar do jogo agressivo que apresentava, Simeone era um dos jogadores mais apreciados em campo, e as suas boas exibições levaram-no para outros campeonatos – na década de 1990 transferiu-se para Itália para reforçar o Pisa. Dois anos depois, ´El Cholo´ rumava a Espanha, onde foi apresentado no Sevilha. À sua espera tinha Carlos Bilardo, treinador vencedor do Campeonato do Mundo de 1986, pela Argentina, além de Diego Maradona, o companheiro de equipa durante uma época. A época de 1994/1995 foi um ano de emoções fortes para Simeone. Mudou-se para o Atlético de Madrid e ganhou a ´dobradinha´ com a camisola dos ´colchoneros´ - os primeiros títulos de clubes relevantes do currículo, do qual já faziam parte duas edições da Copa América (1991 e 1993) e a Taça das Confederações da FIFA de 1992 pela Argentina. Simeone desfrutou de mais sucesso quando regressou a Itália, conquistando a Taça UEFA ao serviço do Inter, mais a Serie A e a Taça de Itália, estas na campanha de estreia na Lázio (1999/2000). Após quatro anos em Roma, voltou a Madrid para a segunda passagem pelo Atlético, antes de se despedir dos relvados em 2006: optou pela Argentina e o clube de uma vida - o Racing. DE JOGADOR A TREINADOR DE FUTEBOL A despedida do Racing acabou por ser um simples ´até já´, só deu tempo a Simeone de pendurar as chuteiras e vestir o fato de treinador de futebol. No ano de estreia, nada conseguiu a não ser a simpatia dos adeptos, os troféus chegaram depois. Simeone ganhou títulos na argentina no Estudiantes (Torneio ´Apertura´ de 2006) e River Plate (Torneio ´Clausura´ de 2008). As breves passagens do técnico argentino pelo San Lorenzo (2010), os italianos do Catania (2010/2011) e novamente o Racing (2011) precederam a sua chegada ao Atlético em Dezembro de 2011, o clube que tão bem conhecia e que o recebeu como um ídolo. VIDA EM BUENOS AIRES E ESCOLA À ANTIGA: RAPARIGAS E RAPAZES NÃO SE CRUZAVAM Diego Pablo Simeone nasceu a 28 de abril de 1970, em Buenos Aires, Argentina. O número 4876, na rua Costa Rica, onde ´El Cholo´ cresceu, é por estes dias uma casa de passagem, sem a azáfama de outros tempos. Para a escola ia a pé, demorava apenas cinco minutos até chegar ao colégio paroquial de ´San José´. Ali as raparigas não tinham contacto com os rapazes, era uma escola à antiga. Hoje o muro já não os separa, até o nome foi alterado, mas continua a ser a escola mais requisitada – o colégio ´San Francisco Javier´ no bairro Palermo Viejo. Simeone esteve aos cuidados do padre Martín Bracht dos cinco aos doze anos, antes de se mudar para o colégio ´San Ambrosio´, para completar o ensino superior. Embora hoje seja um ´devorador´ de livros, em criança ´Simeone preferia a bola de futebol´, recorda Martín Bracht, embora reconheça que sempre foi um rapaz inteligente. Mas a maior lembrança está no coração de Don Carlos, o pai de Simeone. «A primeira palavra que disse quando começou a falar foi golo». ...
Grande História É exigente, ninguém duvida. Pede tudo a quem está a correr dentro de campo (e os jogadores nunca param), mas é o primeiro a retribuir-lhes com palavras sempre que obedecem e executam o plano. «Agradeço às mães destes jogadores, que os fizeram com uns cojones muito grandes», disse em ocasião no dia em que o Atlético ultrapassou o Chelsea de Mourinho em 2014, confirmando a presença na final da Liga dos Campeões em Lisboa. Assim é Diego Simeone. Em Madrid é tão ou mais ídolo que os próprios jogadores, mas nem sempre foi assim. - Reza a lenda, eternizada por jornalistas que acompanhavam o dia a dia do Atlético Madrid na década de 90, que na tarde de verão de 1997 em que foi confirmada a saída de Diego Simeone, rumo ao Inter (enquanto jogador de futebol), os colegas não ficaram tristes, pelo contrário, festejaram no balneário com garrafas de champanhe. Não porque ´El Cholo´ não tivesse sido uma peça fundamental na equipa ´colchonera´, porque foi, mas sim pelo seu especial temperamento: feitio agressivo e conflituoso. As fúrias de olhar gelado de Simeone tinham repercussões frequentes nos treinos, nas conversas de balneário e na estabilidade emocional de alguns companheiros mais frágeis. CONTAR A HISTÓRIA 18 ANOS DEPOIS… Frustração. A 17 de dezembro de 2011, o Atlético de Madrid era isto. Tinha ultrapassado a fase de grupos da Liga Europa, sim, mas na Liga espanhola aparecia em 11.º e acabava de ser eliminado da Taça de Espanha, em casa, por uma equipa da segunda divisão (0-1, com o Albacete). Gregorio Manzano já não servia como treinador. Encontrar um substituto a meio da época era uma questão de vida ou de morte. Eis que os ´colchoneros´ olharam com bons olhos o currículo de Simeone, o Diego que enquanto jogador foi mal-amado e não galã. Mas o fato preto mudou-lhe o cenário, e o carisma ajudou. Estava no Racing Club de Avellaneda mas não pensou duas vezes quando lhe fizeram o pedido. É verdade que chegou a meio da temporada, também é verdade que perdeu o primeiro jogo na estreia, mas também é verdade que no final de contas conseguiu calar os críticos. Os maiores feitos de Simeone aconteceram em 2013/2014. Naquela temporada, o Atlético mostrou que não era apenas uma equipa de mata-mata, e contra o Barcelona, em pleno Camp Nou, conquistou o derradeiro título espanhol, pondo fim a um reinado de 18 anos de pleno jejum. O Atlético de Madrid não conquistava o Campeonato Espanhol desde a temporada 1995/96, quando Simeone ainda era um jogador ´colchonero´. Este é o triunfo de uma equipa e de um clube que viveu tempos tumultuosos e soube renascer das cinzas. Desde a altura em que ser adepto do Atlético de Madrid era como uma maldição, em que a equipa foi do título de campeão à despromoção em quatro anos (1996-2000). Em 18 anos à espera de um milgare, o Atlético gastou 696 milhões de euros na contratação de 261 futebolistas e passaram 17 treinadores pelo banco. Depois da tempestade a bonança começou a alegrar os dias dos ´colchoneros´ - conquista da Liga Europa (2010 e 2012) e correspondentes Supertaças europeias, e a Taça do Rei (2013). «REAL E BARCELONA TÊM FERRARIS, NÓS TEMOS OUTRO CARRO» De qualquer modo, a verdade é que o impacto de Simeone no clube espanhol vai muito mais além do critério desportivo, como demonstram os resultados financeiros e o aumento de número de sócios. «Qual jogar bem? Há imensas maneiras de jogar bem! O mais difícil é ter um estilo próprio, e aí o Barcelona e a Seleção espanhola têm confundido as pessoas, porque nem todas as equipas podem jogar da mesma forma. Real e Barcelona têm Ferraris, nós temos outro carro, precisamos de correr de outra forma», são palavras do próprio Simeone, em fevereiro de 2012, apenas dois meses depois de ter assumido o comando técnico do Atlético de Madrid. Desde que Simeone orientou o primeiro jogo no Atlético, que a equipa espanhola registou 158 vitórias, 52 empates e 42 derrotas em 252 partidas, 64% de triunfos, face aos 44% dos 252 jogos anteriores. MAIS OLHOS QUE BARRIGA Quando treinava o Palmeiras, em 2009, Muricy Ramalho criticou o excesso de importância que é dada aos treinadores de futebol. Segundo ele, a sua influência nos resultados das equipas é apenas de 25%. Simeone apareceu para lhe baralhar as contas. Para os adeptos que seguem fielmente os passos do treinador ´Cholo´, o papel de Diego Simeone como treinador não pode ser resumido a uma percentagem. Foi ele que devolveu ao Atlético o protagonismo perdido. Não que o clube ´colchonero´ fosse medíocre antes da chegada de Simeone, apenas conseguia competir de forma diferente no mesmo campeonato. Se outrora o Atlético rivalizava com o Valencia, Sevilla e Athletic Bilbao, hoje é a maior ameaça dos gigantes Real e Barça. E no Atlético não basta apenas correr e andar na linha. Para Simeone a palavra-chave do sucesso é ganhar, mas o técnico não se refere apenas aos resultados da tabela de classificações. O argentino faz de tudo para que o seu elenco mantenha a forma, nem que para isso tenha que subsmeter os jogadores ao teste da balança. «Simeone não gosta de jogadores gordos», confidenciou Griezmann. Aos poucos, ´El Cholo´ acrescenta mais um capítulo ao seu livro, embora o final ainda seja uma história em aberto. O que se sabe, já foi dito: - Era uma vez um treinador ambicioso, aguerrido e vencedor. Chama-se Diego Simeone. Quando não mais conseguir alimentar a paixão pelo futebol, os seus herdeiros falam por si: depois de Diego, há o Giovanni, o Gianluca e o Giuliano. E tal como o pai, respiram futebol. «Os meus filhos foram a minha melhor jogada…». ...
Do Passado para o Presente No primeiro jogo em que o Sporting foi ao Porto, ganhou. Só que não era oficial. Quando o foi, na final do Campeonato de Portugal de 1922, perdeu – e foi assim que o FC Porto arrancou para o primeiro título nacional da história, numa caminhada marcada por peripécias e desconcertos, no futebol e no país. Com o Sporting de novo no Porto – ainda a sonhar com o regresso a campeão – em pano de fundo é sobre o que aconteceu nessas primeiras vezes que aqui se fala... Com o Benfica já o FC Porto jogara antes e fora esmagado, mas contra o Sporting, no Porto, a primeira vez foi em 1917 e perdeu por 4-1. O desafio foi no Campo da Constituição – que, por vezes, os portistas emprestavam ao Salgueiros, a troco de pagamento de um escudo e cinquenta centavos por partida e 20 centavos por banho e uso de cada toalha. Algum tempo depois, na Illustração Portuguesa que nas praias da Póvoa e de Miramar, de São Martinho do Porto e da Figueira da Foz, de Cascais e da Rocha, no Algarve, já se surpreendiam «banhistas graciosas de braços nus e tornozelos ao léu» - e não como antes: elas de vestidos a roçagarem o chão e às vezes de sombrinha também. Os pobres continuavam, porém, a ter de ir à água em sorrateirice, pela madrugada, vestidos com a roupa do dia-a-dia. E também se contava que uma velha de 70 anos de Vieira de Leiria que andara a vida inteira 16 quilómetros por dia a levar e a trazer malas de correio para ganhar 30 réis ficara «muito feliz» porque já só tinha de «fazer 12 quilómetros» para deixar as cartas de aldeia em aldeia e lhe puxaram o ordenado para 60 réis... DO SPORTING, O PRIMEIRO FUTEBOLISTA A GANHAR DINHEIRO (E NÃO SÓ…) Era do Sporting o futebolista que em Portugal mais ganhava por essa altura: Artur José Pereira. Fora, em meados de 1914, do Benfica para o Lumiar seduzido por José de Alvalade, recebia 36 escudos por mês – e tinha um outro privilégio: ser o primeiro a utilizar a banheira de água quente que havia no balneário. Valeu a pena o investimento – com ele o Sporting venceu o Campeonato de Lisboa de 1914/15, foi o primeiro título da sua história. (Mas, ainda não nacional – porque, então, títulos nacionais não havia no futebol, em Portugal…) Por essa altura, o Benfica tinha no futebol um massagista particular, o sueco Boo Kullberg, que, além de professor de ginástica, se tornou seu primeiro treinador de atletismo. Pagava-lhe pelo serviço de massagens 40 escudos por trimestre – e o FC Porto não se dava a tais luxos, nem a esses do massagista, nem aos outros do amador disfarçado. Nas viagens para fora da cidade, eram os próprios futebolistas do FC Porto que suportavam as despesas. Alguns, se se sentissem com pouco dinheiro, pediam discretamente dispensa. Por causa disso, levantou-se no clube um movimento de insubordinação, com ameaça de greve geral – quando se descobriu que Joaquim Reis, o Farrapa, recebera por baixo da mesa 100 escudos. Para apagar o fogo, o presidente Henrique Mesquita convocou os demais jogadores para, numa reunião no seu gabinete, lhes tocar ao ao coração: - O Farrapa só recebeu as suas despesas por ser tão pobre que jamais poderia pagá-las! «SUJOS E VERGONHOSOS» E OS PORTISTAS QUE FORAM À GUERRA… Era, era vida dramática dos pobres – por essas eras. No Porto ou em Lisboa. Ou onde quer que fosse. Pão pouco havia – e o que havia era de má qualidade. A batata às vezes podre custava 8 centavos o quilos. E na noite de 19 de Março de 1917, milhares de pessoas invadiram, em Lisboa, padarias e mercearias, saqueando-as. A polícia ripostou, a multidão em fúria enfrentou-a com pedras e paus, tiros e bombas – e pelo meio, a arrastar-se, sempre o mesmo grito: - Temos os filhos a morrer de fome... Houve mortos e feridos. E presos, muitos presos. O governo decretou o «estado de sítio» e só cinco dias depois anunciou que o «abastecimento de farinha estava regularizado e a vida na cidade tinha voltado à normalidade». Antes, a 30 de janeiro, partira para França, para a I Guerra Mundial, a I Brigada do Corpo Expedicionário Português, sob comando do coronel Gomes da Costa. Quase metade da equipa do FC Porto – entre portugueses e britânicos, sim porque britânicos eram o Harrisson e o Hamilton – foi na leva. Alguém escreveu que a «soldadesca portuguesa» chegara «suja, imunda, vergonhosa, uma tropa fandanga com que se pretendia alardear que temos um exército, mas não»... (A Cruzada das Mulheres Portuguesas lançou campanha de subsídios de 2 escudos e 30 centavos às famílias dos mobilizados – e em Lisboa o Século criou a Sopa dos Pobres para dar de comer a «milhares de desvalidos»...) A 4 de Abril deu-se nota do primeiro morto do CEP em combate: o soldado António Gonçalves Curado. Sobre o abrigo onde estava caiu granada que fez abater o tecto – e foi isso que lhe esmigalhou a cabeça. ...