DOMINGO, 28-05-2017, ANO 18, N.º 6329
Ética no Desporto
“Preparar para Ganhar”: um livro de José Neto (artigo Manuel Sérgio, 37)
16:52 - 26-07-2014
Manuel Sérgio
Pensar não se resume a memorizar aquilo que os outros pensam. No entender de Vieira, isso não é saber, é lembrar-se. No entanto, há necessidade de nos esclarecermos em determinados autores, para descobrirmos os sinais, ou as características, da racionalidade científica do nosso tempo.

Ora, a ciência atual vive uma crise inapagável – uma crise que, segundo Boaventura de Sousa Santos, não é só profunda como irreversível; “que se iniciou com Einstein e a mecânica quântica e não se sabe ainda quando acabará” (A Crítica da Razão Indolente, Edições Afrontamento, p. 65). E uma das características, que me parece essencial (volto, de novo, a B.S.S.) reside aqui: “o facto de a superação da dicotomia ciências naturais/ciências sociais ocorrer sob a égide das ciências sociais” (p. 67).

As ciências sociais e humanas nasceram, no século XIX, ao jeito da racionalidade das ciências da natureza. Mas os factos humanos, entendidos como comportamentos com intencionalidade, não permitem uma intromissão indiscriminada de modelos deterministas e mecanicistas, à luz das aspirações físicas e matemáticas das ciências naturais. Muitas das dificuldades em cientificar o desporto radicam, por isso, na crise do modelo de cientificidade das ciências físicas (cada vez menos físicas tão-só e cada vez mais humanas), que mete na cabeça de alguns “caloiros” a convicção de que não há ciência sem números. O psiquiatra e o treinador a motivarem, respetivamente, um depressivo ou um atleta, podem perfeitamente dispensar os números. O psiquismo humano, como sistema e organização, exige, de facto, mais compreensão do que explicação.

No livro Preparar para Ganhar (Prime Books, 2014) da autoria do Prof. José Neto (e aqui acompanho o Dr. António Oliveira, antigo jogador e treinador e dirigente: “José Neto é um dos maiores especialistas portugueses, nas áreas da metodologia do treino e da psicologia desportiva”) -, José Neto mostra ter enceleirado muitos anos de prática e de uma teorização que não se encerra na turris ebúrnea do seu magistério doutoral, pois que são muitos os seus alunos e os treinadores que dele fazem o confidente e o conselheiro. O trabalho interdisciplinar que desenvolveu com o treinador Paulo Fonseca, no Paços de Ferreira, na época de 2012/2013 (pp. 119 ss.), merece leitura atenta. É um exemplo que futuros treinadores poderão aproveitar. É o próprio Paulo Fonseca, treinador do Paços de Ferreira, que o confirma, em palavras palpitantes: “Falar no conteúdo do trabalho desenvolvido pelo Professor é mais do que justo e merecido e penso que ele o fará de forma detalhada, neste livro. Mas, para mim, seria sempre redutor fazê-lo, porque nunca conseguiria passar para simples palavras tudo o que ele me ensinou e transmitiu. Haveria muito a contar sobre uma relação construída com base na admiração, na honestidade e no afeto. Eu posso afirmar que me apaixonei facilmente por este enorme ser humano, inundado de princípios e valores admiráveis. Escutá-lo era sempre um momento de enorme emoção, transmitida pelas suas palavras sábias, que nos tocavam bem profundamente e nos criavam uma sensação de bem-estar, associada à ambição que nos fazia crescer, em cada dia que passava. Os jogadores ouviam-no com grande devoção e procuravam-no para os ajudar, em determinados problemas que um treinador nem sempre consegue resolver. Sim, é verdade, o professor fazia parte da minha equipa técnica. Era assim que eu o via e sentia” (pp. 121/122).

A citação foi longa, mas as palavras do treinador Paulo Fonseca sublinham este facto incontroverso: aconteceu ciência, no trabalho interdisciplinar Paulo Fonseca-José Neto. Uma ciência hermenêutico-humana? Com toda a certeza, já que o método foi a reflexão, em diálogo, sobre os problemas típicos do futebol, que são humanos e nada mais do que isso!. Eu disse que aconteceu ciência? Mas agora acrescento: e aconteceu filosofia também. Faz-se filosofia, descobrindo os problemas e propondo soluções, em diálogo permanente. Os diálogos de Platão mostram como se faz filosofia. Foi com ciência e filosofia que o Paços de Ferreira chegou e conservou até ao fim da época desportiva o 3.º lugar, no Nacional de Futebol da Primeira Divisão.

Quando se fala em ciência e filosofia, há logo um olhar lateral e suspeitoso de muita vacuidade cerebral, que pontifica no futebol português (e não só). Mas é isto mesmo o que o José Neto quer dizer, quando apela à cultura (à aliança do saber e da vida), à teoria e à prática, afinal. Stephen Hawking, para muitos o maior cientista, vivo, do mundo, no seu último livro, A Minha Breve História (Gradiva, 2014), sofrendo embora, de uma doença neurológica incurável e degenerativa, diagnosticada tinha ele 21 anos (em Janeiro de 1963) a esclerose lateral amiotrófica, confessa que se sente feliz, muito feliz, “se tiver acrescentado alguma coisa ao nosso entendimento do universo”. Mutatis mutandis, José Neto pode sentir-se feliz por, sem descurar os aspetos quantitativos do futebol, poder contribuir ao desenvolvimento, nesta modalidade, de um método que também é reflexivo, teórico, discursivo, racional, compreensivo. Porque o futebol é uma Atividade Humana. Sobretudo, uma Atividade Humana. Com este livro, estão de parabéns o Prof. José Neto e... o futebol português! O autor deste livro bem pode fazer suas as palavras de Terêncio: Homo sum, humani nihil a me alienum puto (Sou homem, nada do que é humano lhe é alheio).

E por aqui me fico, na análise do livro Preparar para ganhar, do Doutor José Neto, que a sólida amizade que nos une me inibe de mais o elogiar, ou seja, de dizer dele o que ele francamente merece...

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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