TERÇA-FEIRA, 03-05-2016, ANO 17, N.º 5939
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destaques

Rasgou a coxa do adversário, os colegas brindaram com champanhe e até Cruyff teve vontade de o esganar
Grande História Odiado por uns, adorado por outros, é desta forma que Diego Simeone se apresenta no Allianz Arena, para o jogo do mata-mata frente ao exército de Pep Guardiola. Para o treinador catalão o maior sonho seria rumar ao Manchester City com a entrega do título de campeões mundiais aos bávaros. Mas do outro lado está um treinador que não dá tréguas: fiel ao ´cholismo´, o futebol raçudo que reergueu o Atlético de Madrid das sombras, Simeone já avisou Guardiola - «trabalho para ganhar e não para agradar a ninguém. Trabalho para o meu clube, que é quem me paga». E se Simeone parte em vantagem depois do golaço de Saul Ñiguez que levou Vicent Calderón à loucura….Guardiola quer a todo o custo quebrar a maldição que assomba o Bayern de Munique, que nos últimos dois anos foi eliminado das meias-finais da Champions precisamente por equipas espanholas: Real Madrid e Barcelona. Era uma vez um treinador muito simples, franco e democrático. Quando Luigi Simoni era treinador do Inter de Milão, em 1998, tinha por hábito e antes de cada jogo chamar os jogadores, um a um, onde lhes falava das táticas de jogo. Os jogadores aceitavam e nunca opinavam. Todos à excepção de um: Diego, o rebelde ´Churchill´ argentino que mesmo no papel de jogador, nunca deixou de ser o que o futuro lhe reservava: o treinador que qualquer clube desejava ter. O ANTI TIKI-TAKA VESTE DE NEGRO Quando se fala de um ex-jogador argentino, nascido em Buenos Aires, de primeiro nome Diego e que hoje trabalha como treinador, muitos pensam em Maradona. Podia ser, mas o craque de quem se fala é outro, um tal de Simeone que recolocou o Atlético de Madrid na luta pelo título espanhol, rivalidando com os imperiais Barça e Real Madrid. Mais do que um treinador idolatrado no Vicent Calderón, Simeone foi jogador do Atlético em duas ocasiões: de 1994 a 1997 e de 2003 a 2004. Em 133 partidas apontou 23 golos, embora muitos deles fossem fora da baliza – adepto de um estilo de jogo agressivo e intenso, Simeone irritou de tal forma Cruyff, quando treinava o Barcelona, que o holandês chegou a comentar ´ter vontade de entrar em campo e fazer justiça pessoalmente´, revoltado com as entradas desleais do jogador. Em certa ocasião, quando vestia a camisola do River Plate, Simeone armou-se em Eric Cantona: pisou e rasgou a coxa de um jogador que começou a sangrar em pleno relvado. GOLO ´SIM´, MAMÃ ´NÃO´ No seu tempo, Simeone foi um jogador extravagante, mas não se pode dizer que não jogou com raça e coração. Até hoje. Durante os jogos não há outro como ele: berra, pula e gesticula sem parar. O lugar que lhe é reservado no banco de suplentes serve apenas para decorar. Simeone não consegue estar quieto. De pé, ou de um lado para o outro, nunca deixa os jogadores sossegados. Como ele há outro – Jurguen Klopp, o homem que se apresenta de fato de treino. Simeone é mais fino – tornou-se um adepto mascarado de fato e gravata por mero acaso. Em 2011 Simeone chegou ao trono de um Atlético sucumbido. No ano seguinte já estava numa final. Bastaram seis meses para que o treinador argentino levasse a primeira Taça, na final da Liga Europa frente ao Athletic Bilbao. Nesse dia, Simeone tirou uma camisa preta do armário. Vestiu-a e levou-a para o grande duelo. «Sou muito cabulero», admitiu Simeone numa entrevista ao ´El Mundo´, onde explicou que ´cabuleiro´, na Argentina, significa superstição. Teve sorte e tomou-lhe o gosto. Mas o destino marcou-o logo no berço. Mesmo em criança foi um rapaz diferente - a primeira palavra que Diego Simeone disse não foi ´mamã´ mas sim ´golo´. ...
Do Passado para o Presente No primeiro jogo em que o Sporting foi ao Porto, ganhou. Só que não era oficial. Quando o foi, na final do Campeonato de Portugal de 1922, perdeu – e foi assim que o FC Porto arrancou para o primeiro título nacional da história, numa caminhada marcada por peripécias e desconcertos, no futebol e no país. Com o Sporting de novo no Porto – ainda a sonhar com o regresso a campeão – em pano de fundo é sobre o que aconteceu nessas primeiras vezes que aqui se fala... Com o Benfica já o FC Porto jogara antes e fora esmagado, mas contra o Sporting, no Porto, a primeira vez foi em 1917 e perdeu por 4-1. O desafio foi no Campo da Constituição – que, por vezes, os portistas emprestavam ao Salgueiros, a troco de pagamento de um escudo e cinquenta centavos por partida e 20 centavos por banho e uso de cada toalha. Algum tempo depois, na Illustração Portuguesa que nas praias da Póvoa e de Miramar, de São Martinho do Porto e da Figueira da Foz, de Cascais e da Rocha, no Algarve, já se surpreendiam «banhistas graciosas de braços nus e tornozelos ao léu» - e não como antes: elas de vestidos a roçagarem o chão e às vezes de sombrinha também. Os pobres continuavam, porém, a ter de ir à água em sorrateirice, pela madrugada, vestidos com a roupa do dia-a-dia. E também se contava que uma velha de 70 anos de Vieira de Leiria que andara a vida inteira 16 quilómetros por dia a levar e a trazer malas de correio para ganhar 30 réis ficara «muito feliz» porque já só tinha de «fazer 12 quilómetros» para deixar as cartas de aldeia em aldeia e lhe puxaram o ordenado para 60 réis... DO SPORTING, O PRIMEIRO FUTEBOLISTA A GANHAR DINHEIRO (E NÃO SÓ…) Era do Sporting o futebolista que em Portugal mais ganhava por essa altura: Artur José Pereira. Fora, em meados de 1914, do Benfica para o Lumiar seduzido por José de Alvalade, recebia 36 escudos por mês – e tinha um outro privilégio: ser o primeiro a utilizar a banheira de água quente que havia no balneário. Valeu a pena o investimento – com ele o Sporting venceu o Campeonato de Lisboa de 1914/15, foi o primeiro título da sua história. (Mas, ainda não nacional – porque, então, títulos nacionais não havia no futebol, em Portugal…) Por essa altura, o Benfica tinha no futebol um massagista particular, o sueco Boo Kullberg, que, além de professor de ginástica, se tornou seu primeiro treinador de atletismo. Pagava-lhe pelo serviço de massagens 40 escudos por trimestre – e o FC Porto não se dava a tais luxos, nem a esses do massagista, nem aos outros do amador disfarçado. Nas viagens para fora da cidade, eram os próprios futebolistas do FC Porto que suportavam as despesas. Alguns, se se sentissem com pouco dinheiro, pediam discretamente dispensa. Por causa disso, levantou-se no clube um movimento de insubordinação, com ameaça de greve geral – quando se descobriu que Joaquim Reis, o Farrapa, recebera por baixo da mesa 100 escudos. Para apagar o fogo, o presidente Henrique Mesquita convocou os demais jogadores para, numa reunião no seu gabinete, lhes tocar ao ao coração: - O Farrapa só recebeu as suas despesas por ser tão pobre que jamais poderia pagá-las! «SUJOS E VERGONHOSOS» E OS PORTISTAS QUE FORAM À GUERRA… Era, era vida dramática dos pobres – por essas eras. No Porto ou em Lisboa. Ou onde quer que fosse. Pão pouco havia – e o que havia era de má qualidade. A batata às vezes podre custava 8 centavos o quilos. E na noite de 19 de Março de 1917, milhares de pessoas invadiram, em Lisboa, padarias e mercearias, saqueando-as. A polícia ripostou, a multidão em fúria enfrentou-a com pedras e paus, tiros e bombas – e pelo meio, a arrastar-se, sempre o mesmo grito: - Temos os filhos a morrer de fome... Houve mortos e feridos. E presos, muitos presos. O governo decretou o «estado de sítio» e só cinco dias depois anunciou que o «abastecimento de farinha estava regularizado e a vida na cidade tinha voltado à normalidade». Antes, a 30 de janeiro, partira para França, para a I Guerra Mundial, a I Brigada do Corpo Expedicionário Português, sob comando do coronel Gomes da Costa. Quase metade da equipa do FC Porto – entre portugueses e britânicos, sim porque britânicos eram o Harrisson e o Hamilton – foi na leva. Alguém escreveu que a «soldadesca portuguesa» chegara «suja, imunda, vergonhosa, uma tropa fandanga com que se pretendia alardear que temos um exército, mas não»... (A Cruzada das Mulheres Portuguesas lançou campanha de subsídios de 2 escudos e 30 centavos às famílias dos mobilizados – e em Lisboa o Século criou a Sopa dos Pobres para dar de comer a «milhares de desvalidos»...) A 4 de Abril deu-se nota do primeiro morto do CEP em combate: o soldado António Gonçalves Curado. Sobre o abrigo onde estava caiu granada que fez abater o tecto – e foi isso que lhe esmigalhou a cabeça. ...
Grande História Arrepiante, o destino de três húngaros que foram campeões olímpicos de esgrima. Mas não só o deles. Pelo que aqui se conta também passa um polaco fuzilado por nazis – e aviões a caírem (e não apenas na guerra). Ainda se fala de cavalos a fazer salto em altura e salto em comprimento e das peripécias por que passaram os homens que saltaram mais do que eles, por exemplo o que levou quatro medalhas de ouro dos Jogos Olímpicos de Paris, em 1900 (e por causa de uma delas apanhou um soco). E também se fala de um alemão deportado para a Ilha de Man por o apanharem em Londres a trabalhar como ourives, de um outro alemão que, atropelado nos Estados Unidos, foi campeão olímpico com uma perna de pau – e de mais que talvez nem imagine, por exemplo de José Bento Pessoa, o português que se tivesse podido ir a Atenas, em 1896, o mais certo teria sido sair de lá com medalha, de ouro talvez… Guerra Junqueira escrevera numa das suas truculentas crónicas de imprensa que «a bicicleta era o único veículo em que a besta puxava sentada» - e foi precisamente na «velocipedia» que nasceu a primeira grande figura do desporto português: José Bento Pessoa, que em 1899 bateu o record mundial de 500 metros no velódromo de Chamartin. Por já ser profissional, não disputara, três anos antes, os Jogos em Atenas. Onde se fizeram 100 quilómetros numa... pista de cimento, no velódromo que se construíra por 104 000 dracmas construíra-se um velódromo. (O Estádio Olímpico, o Panatenaico, também fora propositadamente construído para a edição do renascimento – graças à oferta de um milhão de dracmas de George Averoff, comerciante de Alexandria. A pista era de terra, em forma de ferradura – e tudo o resto se fizera com mármore do Monte Petélico, de onde saíra também a pedra para o Pártenon.) ERAM SÓ DOIS, O GREGO TEVE AVARIA, O FRANCÊS ESPEROU POR ELE… Nos 100 quilómetros na pista do Velódromo Olímpico, apenas dois concorrentes chegaram ao fim – e o francês Léon Flameng venceu-os em 3 horas e 8 minutos, com 11 voltas de avanço. E até poderia ter sido por mais. A dado passo, Flameng apercebeu-se de que a bicicleta de Georgios Kolettis se avariara. Parou enquanto o outro a arranjava. Adiante o francês caiu, mas o grego não esperou por ele, mesmo assim perdeu como perdeu – e no final foi duramente repreendido pela sua falta de fair-play, chegando mesmo a colocar-se a hipótese de o desclassificarem por «atitude incorrecta». Mas como desclassificá-lo de nada valia, assim ficou… ERA AVIADOR, FOI ABATIDO NA I GUERRA MUNDIAL… 100 quilómetros também se fizeram em estrada – pelo caminho dobrado da maratona, a essa prova Flameng não foi – e o campeão, o grego Konstantidinis, gastou a cumprir a distância mais 14 minutos do que Léon fizera em pista. (Depois de Atenas, Léon Flameng lançou-se a outra aventura – foi piloto aviador. Estava em combate na I Guerra Mundial quando o seu avião foi abatido por fogo alemão – caiu ao solo em Éve. Morreu na hora, acabara de fazer 40 anos…) O FRANCÊS DAS TRÊS MEDALHAS E O RECORDE DO MUNDO DO PORTUGUÊS… Quem, porém, dominou as provas mais curtas na pista foi Paul Masson. Também ele, francês. Venceu os 1000 metros em sprint (onde Flameng foi terceiro, atrás do grego Nikolopoulos), os 1000 metros em contra-relógio e os 10 quilómetros em pista (onde Flameng foi segundo). Saiu de Atenas – e profissionalizou-se. Mudou de nome, passou a ser Nossam – que é Masson ao contrário -, Paul Nossam. O melhor que fez foi um terceiro lugar no Campeonato do Mundo de 1897. Foi o ano em que, na inauguração do velódromo de Chamartin, em Madrid – José Bento Pessoa correu os 500 metros na sua nova Raleigh de nove quilos e meio em 33 segundos e 1/5, estilhaçando o recorde mundial do francês Jacquelin. Meses depois, duvidando da fiabilidade dos cronómetros de Madrid, achando que ele era espanhol e não português, suíços desafiaram-no para duelo com aquele achavam que era o ciclista mais rápido do Universo, tratavam-no simplesmente pela alcunha: Champion – e, no velódromo de Jonction, em Genebra, Bento Pessoa pura e simplesmente arrasou-o… O dinheiro que recebia pelas corridas que fazia – ainda mais o impedira de estar nos Jogos de 1900, em Paris. Se estivesse só uma anormalidade impediria que se tornasse o primeiro português a ganhar uma medalha olímpica… ...