TERÇA-FEIRA, 28-06-2016, ANO 17, N.º 5995
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destaques

Esteve em duas medalhas de ouro (e um dos portugueses que foi aos Jogos com Bud Spencer teve destino trágico...)
Estilos e Espantos Fernando Madeira nadou a seu lado na vez em que Carlo Pedersoli esteve mais perto de ir à luta pelas medalhas nos 100 metros livres dos Jogos Olímpicos. Quatro anos antes, fora a Londres na equipa de polo aquático de Itália que de lá saiu com a medalha de ouro. Mas, muito mais vez e mais brilhante – mas não foi a natação que lhe deu a eternidade. Aliás, nem foi como Carlo Pedersoli que a conseguiu – foi como Bud Spencer, o Bambino que era, bonacheirão, o compincha de Trinitá. Esse nunca mais morrerá. O outro, o Carlos Pedersoli morreu em Roma, a última palvra que soltou foi: - Obrigado! E o que aqui se conta sobre a sua vida é um espanto, acredite… Fernando Madeira, nadador do Sport Algés e Dafundo, saiu da quarta eliminatória de 100 metros nos Jogos Olímpicos de Helsíquia, em 1952, em sexto lugar com 1.02,6 minutos – e nessa sua série apurados para as meias finais foram o americano Dick Cleveland, o japonês Hiroshi Suzuki e o italiano Carlo Pedersoli, os três que a nadaram a menos de um minuto. Pedersoli falhou o acesso à final – e a medalha de ouro ganhou-a Clarke Scholes. Ainda aluno da Michigan State University – haveria de tornar-se depois ator do Grosse Pointe Theatre, aparecendo, a cantar e a dançar, em peças como Cabaret ou Cactus Flower, Barefoot in the Park ou Arsenic and Old Lace. (Sim, nessa arte, Pedersoli não lhe haveria de dar meças, sequer...) Não, Scholes já não competiu nos Jogos Olímpicos de 1956, Pedersoli sim – e voltou a falhar a final por uma nesga. (A razão, haveria de revelá-la, depois, desconcertante...) O OUTRO PORTUGUÊS? MORREU A CORRER DE AUTOMÓVEL... Dessa vez em Melbourne, Carlo Pedersoli já não teve portugueses a nadar contra si. Guilherme Patrone, que também estivera em Helsínquia, ganhou os 100 metros nos campeonatos de Portugal, mas não conseguiu mínimos olímpicos. Não, não era apenas nadador, também fazia corridas de automóveis. Filho de Emílio António de Carvalho Duarte, latifundiário que fora um dos fundadores do Amora FC, Guilherme Patrony de Carvalho Duarte (que para a história da natação entrou como Patrone com o e em vez do y) tinha já a espreitá-lo cruel destino: a 6 de fevereiro de 1958, ao disputar a Volta a Portugal em Automóvel acidente à beira de Odemira matou-o, estava a caminho dos 28 anos… Meses antes, Pedersoli, que também fora brilhante jogador de pólo aquático (campeão de Itália pela Lazio e muito mais aliás, fora por lá que se dera a sua estreia olímpica…) ainda não deixara as piscinas – para ir agarrar a eternidade a outro lado (e com outro nome…)mas estava quase. (E isso e muito mais é o que a seguir se vai contando, surpreendente, talvez ou não...) ...
Estilos e Espantos Carlo Pedersoli nasceu a 31 de outubro de 1929 em Nápoles. Durante a II Guerra Mundial, bombardeiros aliados transformaram em cinzas a importante fábrica de família – e os Pedersoli decidiram ir viver para Roma: - Como estava o Papa no Vaticano, a cidade era, claro, muito mais segura. Na escola, em Nápoles, jogara râguebi – em Roma, lançou-se à aventura da natação e aos 15 anos deixou meia Itália de boca aberta: - Fui a uma competição, ganhei a todos os seniores que lá estavam. NO BRASIL, EMPREGADO DE CONSULADO, EM ROMA A FUGA À QUÍMICA... Entrou para o curso de química da Universidade de Roma, mas ainda antes de chegar aos 19 anos, os Pedersoli deram outro piparote à vida: foram viver para o Brasil. Não largou a natação – empregou-se como funcionário do Consulado de Itália no Recife. Dois anos depois regressou a Roma – e o o que o levou foi o sonho, o sonho de estar nos Jogos Olímpicos de Londres: - Como o curso de direito me dava mais tempo para treinar do que me dava o curso de química, mudei para direito – e sim: fui a Londres, fiz parte da equipa de polo aquático que ganhou a medalha de ouro. O BOXE, OS 100 METROS A MENOS DE UM MINUTO E O CORPO A ABRIR-LHE O CINEMA... Pelo caminho também se aventurou ao boxe – e foi espanto outra vez: - Ganhei todos os combates que fiz como peso-pesado. Mas, claro, importante, para mim, era a natação. Em 1950, tornou-se o primeiro italiano a menos de um minuto nos 100 metros livres, nos Europeus de Viena falhou o pódio por um décimo de segundo. Meses antes, impressionado com o seu imponente e musculado corpo, o produtor de Quo Vadis chamou-o a para fazer de guarda do Império Romano, foi a sua primeira vez no cinema, fugaz e fortuito. Treinou para os Jogos Olímpicos de Helsínquia com a equipa de natação da Universidade de Yale – e, continuando a mostrar o seu fulgor na água das piscinas, Mario Monicelli chamou-o a novo filme, para contracenar em Um Eroe dei Nostri Tempi com Alberto Sordi – como Nando, o namorado abusivo de Marcella, a explosiva Giovanna Ralli… POR QUE NÃO CHEGOU A UMA MEDALHA OLÍMPICA E PORQUE DEIXOU O BAIIRO RICO DE ROMA... Antes dos Jogos de Melbourne, em 1956, também interpretou, ao lado de Raf Vallone, Siluri Umani – fazendo de torpedo humano no filme sobre a guerra no mar: - Nunca gostei muito de treinar e cada vez gostava menos. Penso que só por isso é que, nos 100 metros livres, não cheguei a uma medalha olímpica. Como nos Jogos de 1956 acabei em 11º lugar, achei que o melhor era passar a fazer sobretudo polo aquático… Foi o que fez, mas meteu na cabeça uma outra ideia: - … mudar de vida, por estar cansado da vida em Parioli. Sim, Parioli era o bairro rico de Roma – e o impulso levou-o outra vez para a América do Sul. DE CAPATAZ NA CONSTRUÇÃO DE UMA ESTRADA A PILOTO ALFA ROMEO EM CARACAS... Durante nove meses trabalhou como capataz para a Rodovia Pan-America, empresa que estava a construir a longa estrada que ligava a Cidade do Panamá a Buenos Aires. A propósito da aventura, contou: - Foi a vida dura que me ensinou a não ser capaz de viver dentro dos limites, a ir sempre para além deles. Queria, sobretudo, saber que tipo de homem era, se estava mais perto de ser cobarde ou de ser corajoso…Passou a vendedor da Alfa Romeo em Caracas – e de Alfa Romeo disputou uma das mais famosas corridas da Venezuela, a Caracas-Maracaibo. Em 1959 retornou a Itália – porque se lhe aquecera o sonho dos Jogos Olímpicos de Roma. Voltou a ter pequeno papel num filme – fazendo de Rutario, o líder tribal de Aníbal e os Elefantes, foi durante as gravações que se reencontrou com Terence Hill, a estrela que haveria de marcar-lhe o destino como mais ninguém, que, como ele, andara, anos antes a fazer corridas de natação pelas piscinas de Itália… ...
Estilos e Espantos Sim, Carlo Pedersoli também esteve mesmo nos Jogos de Roma, os quartos da sua vida – na equipa de polo aquático. A Itália voltou a ser campeã olímpica, mas, tal como acontecera em Londres-1948, não os jogou, nunca passou de suplente… Meses antes, casara-se com Maria Amato, filha de um influente produtor de cinema italiano. A RCA desafiou-o para escritor de canções – mas depressa se abriu a outro desafio: realizador de documentários: - Parece que foi o pai de Maria que lhe deu a ideia, pouco antes de morrer: algures por 1967 Giuseppe Colizzi aproximou-se de mim a oferecer-me o papel principal no filme que estava a preparar, um western spaghetti, dizendo-me que o meu corpo de quase dois metros era o que ele precisava para o seu personagem, de um brutamontes. Foi tanto o dinheiro que me ofereceu, que eu pensei: OK, não posso deitar fora a fortuna, mas também não posso colocar em jogo a minha reputação de atleta, o meu nome, por causa de um filme engraçado com um cowboy engraçado. Fiquei ainda mais descansado, quando Giuseppe me disse que eu devia arranjar um nome americano, que era sempre melhor – e, por isso, o que fiz foi só deixar crescer a barba para que os meus amigos não me conhecerem… TERENCE HILL TAMBÉM NÃO ERA TERENCE HILL E TAMBÉM ERA NADADOR...(Terence Hill era Mario Girotti. Filho de um italiano e de uma alemã, a família sobrevivera por milagre ao bombardeamento de Dresden - e fugira para Itália, com ele ao colo, bebé. Aos 12 anos, Dino Risi descobriu-o numa prova de natação e deu-lhe papel em Vacanze col Gangster. Foi numa piscina que Carlo Pedersoli o conheceu. Ficaram amigos para sempre. E quando Hollywood piscou o olho a Girotti, o Mário Girotti deixou de ser Mário Girotti, passou a ser Terence Hill...) O filme que mudou a vida a Pedersoli foi Deus Perdoa… Eu Não! – e dando-lhe Colizzi 24 nomes para escolher o ator que queria a contracenar com ele, Carlo escolheu Terence Hill... - Pois, tinha de mudar de nome, deixar de ser Carlo Pedersoli – e Bud Spencer nasceu fácil na minha cabeça. Como a minha cerveja preferida era a Budweiser, escolhi Bud. Como achava piada a Spencer Tracy, escolhi Spencer. Bud Spencer. Sinceramente, não acreditava que tudo acabasse como acabou. Como não falava bem inglês e não sabia andar a cavalo a minha ideia era que não voltaria mais a ter alguém a dar-me tanto dinheiro para fazer um filme. Enganei-me… Bud Spencer e Terence Hill reencontraram-se nas sequelas de O Ás Vale Mais e A Colina dos Sarilhos – e em 1970 Trinitá, O Cowboy Insolente atirou-os, sem retorno, à eternidade, o Bud Spencer como Bambino, o Terence Hill como Trinitá… «A MINHA VIOLÊNCIA FOI SEMPRE CÓMICA»... Continuaram a Chamar-lhe Trinitá manteve-os na ribalta – e o resto é o que se sabe... Sim, as salas de cinema em Portugal (e não só…) não se agitaram apenas com Trinitá, com as peripécias de Bud Spencer e Terence Hill numa espécie de Astérix e Óbelix – também se agitaram com Chega-lhe, Amigo, Vamos a Isto, Rapazes, Juntos São Dinamite, Chamavam-lhe Bulldozer, A Super-Patrulha, O Xerife Quebra-Ossos, Pela Medida Grande – e O Murro Atómico que pode bem ser a metáfora perfeita do que Bud Spencer foi a desdobrar-se nas várias personagens em que se desdobrou em pequeninas variações, o cowboy bonacheirão e desconcertante: - A única coisa que eu quis retratar nos meus filmes é algo porque sempre lutei e lutarei na vida real: acabar com a injustiça. Por isso, a minha violência foi sempre cómica. No fundo, eu era o braço executor de todas essas mentes que querem e não podem rebelar-se contra as barbaridades, os abusos, pequenos ou não…...