DOMINGO, 05-07-2015, ANO 16, N.º 5636
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destaques

Maradona, Cruyff e Beckenbauer foram o que foram com Eusébio nos pés, sabia? (Mas pode saber mais e espantar-se...)
Estrela de Diamante É a parte 8. Com Eusébio já no Panteão, continuamos a relembrar-lhe Eusébio – o Eusébio Como Nunca se Viu do livro que A D. Quixote publicou em parceria com A Bola. Mas mesmo que já o tenha lido, não deixe de ir até ao fim – porque, aqui, há muito de novo para ler sobre o Eusébio e o país do Eusébio, o mundo do Eusébio. E não deixe também de atirar os olhos à galeria de fotos – porque para ver o Eusébio como o Eusébio nunca se viu ainda há mais, muito mais ainda, como nem imagina... Durante os jogos do Mundial de 1966, Eusébio fora apresentado aos altifalantes dos estádios ingleses com um toque sibilino a insinuar-se – aliás, não apenas ele: Hilário, born in Mozambique... Vicente, born in Mozambique... Coluna, the captain, born in Mozambique... Eusébio, born in Mozambique... - Não, não gostava, porque percebia que era política, eles queriam à força ligar-nos às colónias, a tudo o que se estava a passar. Eu tinha nascido em Moçambique, é verdade, mas era português. E não gostava porque nunca gostei que se misturasse a política com o futebol, a minha política era a bola, foi sempre... (isso disse, claro, depois, muito depois...) Entretanto, Eduardo Galeano traçou-lhe retrato para ler também nas entrelinhas: - Nasceu destinado a engraxar sapatos, vender amendoins ou roubar carteiras. Na infância chamavam-lhe: Ninguém. Chegou aos campos de futebol a correr como só corre alguém que foge da polícia ou da miséria que lhe morde os calcanhares. Foi africano de Moçambique, o melhor jogador de toda a história de Portugal. Eusébio: pernas altas, braços caídos, olhar triste... DA SOFIA LOREN À FINTA QUANDO METEU SIMONE DE OLIVEIRA E MADALENA IGLÉSIAS ... E era assim, a esquivar-se, a escapar-se que Eusébio era cada vez mais o que era - o Eusébio a imortalizar-se. Mudara de carro, a atração por Lisboa era agora o Taunus 17 M, o Taunus amarelo a que os sinaleiros abriam passagem como se fosse estrela a cruzar os céus, resplandecente. Admiradores e admiradoras, sobretudo estrangeiras, inundavam-lhe a Luz com cartas – e, por essa altura, revelou, na Flama, paixão que não se lhe conhecia: o jazz. E que, no cinema, adorava sobretudo Sofia Loren e de Charlton Heston. (Do Benfica-Sporting que era a rivalidade entre Simone de Oliveira e Madalena Iglésias fugia, sorrateiro, como fugia dos defesas que lhe iam no encalço, em campo – não disse qual delas preferia...) KING PORQUÊ, KING POR QUEM E KING COM QUEM... Nesse ano de 1967, António Simões deu-lhe mais um signo, um outro signo para lá da Pantera Negra: King. Tudo por causa das chuteiras que a Puma fizera em sua honra. Rudolf e Adolf Dassler eram irmãos. Criaram a Adidas, mas, em 1948, desentenderam-se – e Rudolf fundou a Puma. Meses antes do Mundial de 66, lembrara-se de contratar Eusébio. Perante o furor do CM, chamou-o a férias em Herzogenaurach, cidadezinha à beira de Nuremberga, onde a sua empresa montara sede – e, de súbito, soltou-se-lhe a ideia: lançar ao mercado as primeiras chuteiras dedicadas a um jogador: as Puma King Eusébio. Foram apresentadas em 1967, postas à venda em 1968 – e seria com as chuteiras King que nasceram de Eusébio em Inglaterra que Maradona levou a Argentina a campeã do mundo, destroçando, pelo caminho, os ingleses, com mão de Deus. Não, não foi só: Cruyff e Beckenbauer também as usaram nos seus fascínios. 7 ESCUDOS POR CADA CHUTEIRA VENDIDA PELO MUNDO INTEIRO... A Puma não se ficou por essa novidade: também foi a Puma que criou as primeiras chuteiras com nove pitons, o normal eram 10 – e criou-as para que se adaptassem melhor a Eusébio, depois da terceira operação de Eusébio ao joelho: - Foram as botas que marcaram a minha carreira, incrível como me facilitavam o equilíbrio em campo... Para renovar o contrato com a marca, Eusébio recebeu 600 contos de luvas – e além de mais 72 contos por cada ano de ligação, tinha direito a 7 escudos por cada par de botas vendidas onde quer que fosse. ...
Estrela de Diamante É a parte 7. Com Eusébio a caminho do Panteão, relembramos-lhe Eusébio – o Eusébio Como Nunca se Viu do livro que A D. Quixote publicou em parceria com A Bola. Mas mesmo que já o tenha lido, não deixe de ir até ao fim – porque, aqui, há muito de novo para ler sobre o Eusébio e o país do Eusébio, o mundo do Eusébio. E não deixe também de atirar os olhos à galeria de fotos – porque para ver o Eusébio como o Eusébio nunca se viu ainda há mais, muito mais ainda, como nem sequer o imagina... Simone Beauvoir passara por Portugal e chocara-se: - Eu vi. Vi que em sete milhões de portugueses apenas 70 mil comem o suficiente. Vi meninas de quatro e cinco anos, vestidas com sacos de sarapilheira, esfomeadas, a remexer lixeiras. E, entre paredes de tabique e tabuletas dizendo: Insalube... Proibido Habitar... vi, fervilhando, crianças nuas, vivendo lá dentro. Béla Guttmann voltara a Portugal e espantara-se. Ao chegar ao Benfica em 1959, reparara que só havia três jogadores com automóvel: Costa Pereira, que era filho de um homem muito rico de Moçambique; Artur Santos, que geria um talho na Amadora; e José Águas, que trabalhava numa concessionária da Ford. À Luz regressara trazido por brisa sebastiânica em agosto de 1965 e ao contar 30 automóveis estacionados em redor do campo antes dum dos primeiros treinos, virou-se para Fernando Caiado, o seu adjunto, exclamou-lhe: - Assim, nunca mais seremos campeões europeus! Todos acharam que era mais uma das suas blagues, das suas famosas blagues. (Ver-se-ia, porém, que não. E que esse seu regresso a treinador do Benfica até seria pior do que imaginara...) «PARA GANHAR 500 CONTOS A ÉPOCA TERÁ DE SER EXTRAORDINÁRIA...» 36 jornalistas europeus deram A Bola de Ouro do France Football para o Melhor Jogador Europeu a Eusébio. Que, aparecendo na foto com a farda de soldado, soltou em entrevista ao jornal italiano Il Giorno, a pergunta: - Por que deveria eu renunciar a ganhar tanto como o Suarez? No Benfica, para ganhar 500 contos por ano entre luvas e prémios a época terá de ser extraordinária. Em Itália só de salários dão-me 1500 contos... A CABEÇADA QUE O DEIXOU COM MEDO DE NÃO VOLTAR A JOGAR... Se 1965 acabou de sorriso aberto para Eusébio, 1966 começou em sangue a juntar-se a uma mágoa que já não domava: em jogo com a Académica, disputando bola a Artur Jorge, chocou a cabeça de um na cabeça do outro. Caiu desmaiado na relva, em maca o levaram para a ambulância para Clínica de São Lucas com traumatismo craniano. Só lá recuperou os sentidos. Três semanas depois, voltou aos treinos – e à saída do tinha Carlos Miranda, repórter de A Bola, à sua espera: - Tive medo. Quando me disseram que estas pancadas na cabeça podiam ter efeitos desastrosos, assustei-me. O que é que pensei? Sei lá... Tudo... Inclusivamente que podia não jogar mais à bola. «NÃO LEVO VIDA CONVENIENTE? MAS EU CASEI-ME, SENHOR...» Ah! A mágoa que já não domava, era porquê? Era por ver como benfiquistas aos magotes reagiram à notícia da sua Bola de Ouro: - Não sou vaidoso, mas julguei que toda a gente do Benfica ia ficar contente, alguns parece que ficaram zangados comigo por eu ter sido escolhido como o Melhor da Europa. Sei lá porquê, só sei que não entendo... Carlos Miranda deu-lhe dica: que talvez andassem zangados consigo por acharem que Eusébio não andava jogando o que podia, desleixando-se - e ele embasbacou-se: - O quê? Diz-se que não levo vida conveniente para futebolista que se preze?! Mas eu casei-me, senhor... E insinuar-se que mesmo depois de casado foi assim?! Isso é mentira. Desde que me casei, nunca tive o mais ligeiro aborrecimento com a minha mulher, portanto.. Se se diz, o que é que posso fazer?! Olhe, rir-me. Sim, rio-me quando oiço falar de mau comportamento dos jogadores do Benfica. Ninguém está mais em foco do que um jogador do Benfica: temos mil olhos a acompanhar todos os nossos gestos, os nossos propósitos. Se há quem pisa o risco, dali a minutos a direção já tem relatório, castiga, multa. Se não fui castigado, se não fui multado, acusam-me de quê?! De momento, o meu problema é um apenas: o peso. Aconteceu-me o que acontece a quase toda a gente: casei, engordei. Tenho tido dificuldade para recuperar o peso ideal, isso é verdade. Mas a coisa vai. Pode ser que daqui a uns meses já tenham feito as pazes comigo... DE LUVAS NO BENFICA, MENOS DO QUE SÓ SALÁRIOS NO INTER... Logo depois, foi ele, o Eusébio, quem abriu o coração – e apesar do desejo cada vez mais aguçado do Inter renovou o seu contrato com o Benfica até 1969. De luvas, pela assinatura, o clube deu-lhe 1300 contos. 325 recebeu-as na hora, 975 ficou de receber no final de março. Mas, claro - ficou a perder, a perder muito dinheiro. (Reparou bem? Só em salários do Inter ficaria a receber 1500 contos por ano - e em Portugal ficou a receber 10 vezes menos de ordenados...) ...
Estrela de Diamante É a parte 6. Com Eusébio a caminho do Panteão, relembramos-lhe Eusébio – o Eusébio Como Nunca se Viu do livro que A D. Quixote publicou em parceria com A Bola. Mas mesmo que já o tenha lido, não deixe de ir até ao fim – porque, aqui, há muito de novo para ler sobre o Eusébio e o país do Eusébio, o mundo do Eusébio. E não deixe também de atirar os olhos à galeria de fotos – porque para ver o Eusébio como o Eusébio nunca se viu há mais, muito mais ainda, nem imagina... Pelas revistas do Parque Meyer passava Eusébio vezes sem conta, a vê-las. Agitando no seu furor os corredores dos teatros, travam-no por... Pássaro Gazela. A alcunha foi Amália quem lha pôs, encantada com os seus dotes de dançarino – e, ele, na brincadeira, costumava dizer: - Se não jogasse futebol, talvez fosse bailarino na Broadway... Por lá, pelo Parque Mayer, pelos seus teatros, pelos seus restaurantes, pôde ver, algures por 1965, uma italiana de Perugia a incendiar o Maria Vitória: a Io Apolloni: - Tinha 19 anos quando cheguei a Lisboa, achei a cidade enfadonha, triste, provinciana. Mas esse lado provinciano, para uma rapariga tímida como eu, tinha um certo encanto, deixava-me mais à vontade... (Contou no livro LX60 a Joana Stichini Vilela.) Apesar da timidez, dera-se em corpo e manifesto à revista Plateia a promover a modernidade do uso do biquíni. (Que era «um escândalo mulheres assim, em tais trajes», recriminaram-na...) Mas foi o fogo que se lhe percebeu atiçado ali que lhe abriu, deslumbrante, o caminho para a revista Sopa no Mel, com Camilo de Oliveira, Florbela Queirós, Mariema e Deolinda Rodrigues. - Não havia ninguém como eu, que representasse, cantasse, dançasse - e se despisse. Aliás, se despisse não, se se apresentasse em trajes menores - e tivesse todo aquele sex-appeal... Io Apolloni a jogar futebol no campo do clube onde Vasco Santana fora guarda-redes (Dois anos depois de cá estar, houve «jogo sensacional» de futebol a agitar Lisboa, um jogo de que A Bola deu a devida nota: um Portugal- Resto do Mundo, no Campo do Arroios, o clube onde Vasco Santana jogara como guarda-redes. Não, não era partida entre futebolistas profissionais, era partida entre atrizes do Parque Mayer, organizada pelos Parodiantes de Lisboa para «fins caritativos» – e a vedeta da equipa internacional pusera o país em frenesins, era Io Apoloni...) A estrela de Holywood que escolheu para seu traje real a camisola do Benfica... A Rainha do Carnaval de 65 no Casino do Estoril foi uma estrela de Hollywood: Janett Scott. Para traje real escolheu a camisola do Benfica, do Benfica de Eusébio, usou-a debaixo de um largo manto branco, diáfano – e em vez de calções tinha, sensual, uma «tanga de praia». Muito escondidinhos começavam também a fazer-se desfiles de roupa interior nos salões dos hóteis. E a irmã Lúcia continuava a escrever cartas a Américo Tomás pedindo-lhe proibisse de vez o Carnaval e mandasse prender as mulheres que lhe diziam que já se atreviam a andar pelas praias biquíni – porque tudo isso ofendia a Senhora de Fátima. O que aconteceu à atleta do Belenenses que foi das primeiras portuguesas a usar biquíni... (E uma das primeiras portuguesas a usar biquíni foi Georgete Duarte. Era atleta, atleta do Belenenses, 46 vezes campeã nacional - um dos seus mais fantásticos recordes, nas barreiras, batera-o grávida de quatro meses: - Trabalhava na CUF, empregada de escritório. Na Moita, onde vivia, havia um rio onde as mulheres lavavam roupa. Ao verem-me passar a caminho do comboio para o treino, chamavam-me tudo. Não sei se prostituta teria tantos nomes como eu tive, tanto falatório, só porque andava a correr – e de calções. Casei e ainda era pior. Quando fui à RTP, em 1958, havia apenas um café com televisão na vila. O mulherio punha-se a espreitar pela vibraça, praguejando: que vergonha, até ali era aparece agora! E a rapaziada de lá fazia excursões para ir aos estádios – e depois poder dizer que me tinham visto as pernas, coitados...) Humberto Delgado, desesperado por não se avançar para outra revolução, a revolução contra Salazar, confidenciara a Mário Soares: - Arrisquei tudo e tudo perdi: família, situação, amigos, dinheiro. Sou um homem aniquilado e terrivelmente só... Diferente, o estado de espírito (e o horizonte...) da seleção que se atirou à qualificação para o Mundial de Inglaterra. Abriu-a com 5-1 à Turquia, com três golos de Eusébio. Em Ancara, nova vitória: 1-0. O golo? Livre de Eusébio à... Eusébio, perto do final – e turba de turcos raivosos pelo pontapé que os destroçara, precipitou-se para o balneário, vociferando (ou pior...): - Queriam bater-me, só por eu ter feito a minha obrigação: marcar aquele golo. Aliás, até saí triste do campo, jogámos mal... Teve de chamar-se ao estádio uma unidade especial de polícia, teve de criar-se um «túnel de segurança» - e até teve de usar-se um autocarro dissimulado para levar os portugueses ao hotel. Foi uma das poucas noites em que Eusébio teve medo - e tudo por causa de um golo à... Eusébio, um livre a quase 40 metros da baliza... ...