QUINTA-FEIRA, 30-06-2016, ANO 17, N.º 5997
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destaques

Estilos e Espantos Fernando Madeira nadou a seu lado na vez em que Carlo Pedersoli esteve mais perto de ir à luta pelas medalhas nos 100 metros livres dos Jogos Olímpicos. Quatro anos antes, fora a Londres na equipa de polo aquático de Itália que de lá saiu com a medalha de ouro. Mas, muito mais vez e mais brilhante – mas não foi a natação que lhe deu a eternidade. Aliás, nem foi como Carlo Pedersoli que a conseguiu – foi como Bud Spencer, o Bambino que era, bonacheirão, o compincha de Trinitá. Esse nunca mais morrerá. O outro, o Carlos Pedersoli morreu em Roma, a última palvra que soltou foi: - Obrigado! E o que aqui se conta sobre a sua vida é um espanto, acredite… Fernando Madeira, nadador do Sport Algés e Dafundo, saiu da quarta eliminatória de 100 metros nos Jogos Olímpicos de Helsíquia, em 1952, em sexto lugar com 1.02,6 minutos – e nessa sua série apurados para as meias finais foram o americano Dick Cleveland, o japonês Hiroshi Suzuki e o italiano Carlo Pedersoli, os três que a nadaram a menos de um minuto. Pedersoli falhou o acesso à final – e a medalha de ouro ganhou-a Clarke Scholes. Ainda aluno da Michigan State University – haveria de tornar-se depois ator do Grosse Pointe Theatre, aparecendo, a cantar e a dançar, em peças como Cabaret ou Cactus Flower, Barefoot in the Park ou Arsenic and Old Lace. (Sim, nessa arte, Pedersoli não lhe haveria de dar meças, sequer...) Não, Scholes já não competiu nos Jogos Olímpicos de 1956, Pedersoli sim – e voltou a falhar a final por uma nesga. (A razão, haveria de revelá-la, depois, desconcertante...) O OUTRO PORTUGUÊS? MORREU A CORRER DE AUTOMÓVEL... Dessa vez em Melbourne, Carlo Pedersoli já não teve portugueses a nadar contra si. Guilherme Patrone, que também estivera em Helsínquia, ganhou os 100 metros nos campeonatos de Portugal, mas não conseguiu mínimos olímpicos. Não, não era apenas nadador, também fazia corridas de automóveis. Filho de Emílio António de Carvalho Duarte, latifundiário que fora um dos fundadores do Amora FC, Guilherme Patrony de Carvalho Duarte (que para a história da natação entrou como Patrone com o e em vez do y) tinha já a espreitá-lo cruel destino: a 6 de fevereiro de 1958, ao disputar a Volta a Portugal em Automóvel acidente à beira de Odemira matou-o, estava a caminho dos 28 anos… Meses antes, Pedersoli, que também fora brilhante jogador de pólo aquático (campeão de Itália pela Lazio e muito mais aliás, fora por lá que se dera a sua estreia olímpica…) ainda não deixara as piscinas – para ir agarrar a eternidade a outro lado (e com outro nome…)mas estava quase. (E isso e muito mais é o que a seguir se vai contando, surpreendente, talvez ou não...) ...
Estrela de Diamante A eternidade arrebatou-a Vera Caslavska para lá das 11 medalhas olímpicas, 7 de ouro e 4 de prata que ganhou. Não, não foi só. Juntou-lhes 4 de ouro, 5 de prata e 1 de bronze em Campeonatos do Mundo e 11 de ouro, 1 de prata e 1 de bronze em Campeonatos da Europa. A eternidade arrebatou-a também por ter feito o que fez antes dos Jogos Olímpicos do México – que a obrigou a que os seus últimos treinos fossem, escondida, numa aldeola das montanhas a usar ramos de árvores como barras ou sacos de batatas como pesos. E arrebatou-a ainda por ter feito o que fez durante os Jogos Olímpicos do México: baixar a cabeça à bandeira da URSS numa das seis vezes em que foi ao pódio – e não, não foi apenas por sentir que lhe tinham roubado ainda mais ouro. Regressou a Praga, transformaram-na numa pária. Fizeram-lhe chantagens umas atrás de outras, a todas resistiu – e, depois, quando parecia que lhe tinham voltado de novo os tempos felizes, o filho matou o pai, ela afundou-se em depressão, passou por um hospital psiquiátrico, esteve 15 anos a viver em reclusão. De repente regressou à vida – e às grandes causas. Por exemplo, a última foi o ataque ao populismo e a xenofobia do seu próprio presidente da República… Vera Caslavska nasceu em Praga a 3 de maio de 1942. Cresceu dividida entre o balé e a patinagem no gelo e aos 10 anos saltou para a ginástica. Aos 16 já estava na equipa da Checoslováquia que saiu do Campeonato do Mundo, disputado em Moscovo, com a medalha de prata. Meses depois tornou-se campeã da Europa no solo. 11 MEDALHAS EM JOGOS OLÍMPICOS, 10 EM CAMPEONATOS DO MUNDO, 13 EM CAMPEONATOS DA EUROPA Pesava 55 quilos, media 1 metro e 60 – e em 1960 fez a sua estreia olímpica em Roma. Levou a Checoslováquia à medalha de prata por equipas, era, pois, sinal do que haveria de acontecer nos Jogos de Tóquio, quatro anos depois: ouro no concurso individual, batendo as soviéticas Larissa Latynina e Polina Astakhova - e ouro no salto e na trave. Ainda mais impressionante foi o que Vera fez nos Campeonatos da Europa de 1965: as cinco medalhas de ouro que havia em disputa, ganhou-as todas – repetindo a façanha na edição de 1967. Antes, ninguém o conseguira. (Pelo meio, no Mundial de Dortmund – mais três medalhas de ouro, uma delas no concurso individual, e duas de prata.) A CAMINHO DA PRIMAVERA DE PRAGA... Os meses anteriores foram de Praga a agitar-se. Ota Sik, liderou grupo de economistas que exigiram ao governo uma «economia socialista de mercado» - e a 31 de outubro de 1967 a polícia dispersou à força bruta de gás lacrimogénio e cassetete manifestação de estudantes contra as condições nas suas residências, aos primeiros sinais de protestos, cortaram-lhes água e luz. Escritores foram presos por contestação à Censura e por ataques ferozes à URSS. Antonín Novotny correu a Moscovo a pedir apoio à URSS, mas, ao regressar a Praga, na esperança de que, assim, pudesse acalmar as consciências e as ruas, o Comité Central do Partido Comunista da Checoslováquia destituiu-o, colocando Alexander Dubcek no seu lugar. Não tardou, passou à chefia do governo. Em fevereiro de 68 levantou a Censura, permitindo que se espicaçasses a discussão em torno das reformas económicas, da liberdade de opinião e do abandono do estalinismo, deixando ainda mais marcada a sua posição num famoso discurso na rádio em que largou a promessa: - … de construir na Checoslováquia uma sociedade socialista com rosto humano, profundamente democrática, socialmente justa e voltada para a modernidade. Era a Primavera de Praga a abrir-se – deixando no outro lado da cortina de ferro os líderes da URSS, da Hungria, da Polónia, da Bulgária e da RDA em fúria, censurando Dubcek pela sua «ousadia contrarrevolucionária». NO MANIFESTO DAS DUAS MIL PALAVRAS COM ZATOPEK... Destinado a «operários, camponeses, funcionários, artistas e a todos», em junho de 68, o escritor Ludvik Vaculik deitou ainda mais achas para a fogueira através do Manifesto das Duas Mil Palavras – não falava apenas dos «erros do socialismo», lançava ainda mais duras críticas ao Partido Comunista, reclamava ainda maiores reformas e liberdades. Num abrir e fechar de olhos, juntou mais de 10 mil assinaturas em seu apoio – e Vera Caslavska foi uma das suas ilustres subscritoras. Por essa altura, namorava com Josef Odlozil – que nos 1500 metros dos Jogos Olímpicos de Tóquio ganhara a medalha de prata, atrás do neozelandês Peter Snell e meses depois se tornara recordista europeu de 2000 metros. Odlozil era, então, tal como Émil Zatopek, capitão do exército – e fez o que Vera fez, também assinou o Manifesto das Duas Mil Palavras. OS TANQUES EM PRAGA, O GOVERNO DETIDO EM MOSCOVO... Numa reunião secreta do Pacto de Varsóvia, Walter Ulbricht, o presidente da RDA (que haveria de ser o mandante da construção do Muro de Berlim), defendera imediata intervenção armada para pôr fim à «rebelião de Praga», mas Leonid Brejnev, o presidente da URSS, achou que talvez fosse melhor esperar. Ao saber do Manifesto das Duas Mil Palavras correu, furioso, para o telefone – e exigiu a Dubcek que colocasse ponto final na «rebelião». Não colocou e na noite de 20 para 21 de agosto de 1968, tropas do Pacto de Varsóvia lançaram-se ao ataque. Paraquedistas soviéticos assaltaram a sede do Partido Comunista e levaram detidos para Moscovo os membros da sua direção – que também eram membros do governo. O povo saiu à rua em defesa da Primavera de Praga – e famoso se tornou a foto de um jovem a atirar-se, de camisa rasgada e peito descoberto, para a frente de um tanque soviético, em Bratislava. Em Praga, populares correram a virar os letreiros com os nomes das ruas para confundirem as colunas dos tanques que se dirigiam a pontos estratégicos da cidade. Foi tudo em vão… Os jornais e as rádios foram tomados pelos invasores – e, detido na URSS, Dubcek foi obrigado a assinar o Protocolo de Moscovo. Capitularam as reformas – e a Primavera de Praga virou inferno… COM ZATOPEK A CAMINHO DOS TRABALHOS FORÇADOS NA MINA... A polícia política entrou em reboliço, prendendo opositores – e um deles foi Emil Zatopek, que era, por essa altura, o mais famoso olímpico europeu vivo e não se limitara a assinar o Manifesto das Duas Mil Palavras – ou a condenar a invasão de Praga, exclamou: - A URSS deveria ser impedida da participar nos Jogos Olímpicos do México! Não tinha dúvidas sobre a consequência brutal do desabafo: - Uma semana mais tarde, chamaram-me ao Ministério da Defesa e expulsaram-me do exército. Por delito de opinião, fui sentenciado a trabalhos forçados numa mina de urânio. Ao escutar a pena, respirei fundo e disparei: se pensam que me humilham com isso, estão enganados! Um desportista não tem medo de pôr o corpo ao serviço do que seja e se calhar assim até vou ganhar mais do que a miséria que me pagavam como militar…...