QUARTA-FEIRA, 29-07-2015, ANO 16, N.º 5660
Eusébio
EUSÉBIO (1942-2014)
Eusébio: Governo decreta três dias de luto nacional
11:23 - 05-01-2014
O Governo decretou esta manhã que se vão realizar três dias de luto nacional pela morte de Eusébio.

O Pantera Negra morreu esta madrugada, aos 71 anos, devido a paragem cardiorrespiratória.

O gabinete do primeiro-ministro considerou o antigo futebolista como «um génio do futebol, um atleta de excelência e um homem generoso e solidário».
Redação

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BOLA DE OURO Eusébio da Silva Ferreira foi homenageado esta segunda-feira durante a gala da FIFA em Zurique, Suíça. O Pantera Negra foi recordado na cerimónia que decorre no Palácio dos Congressos com a exibição de imagens do antigo internacional português no Campeonato do Mundo de 1966, em Inglaterra, Simples, mas carregado de simbolismo, o tributo ao King mereceu os aplausos de toda a plateia.
EUSÉBIO (1942-2014) Em declarações à Rádio Renascensa, o antigo ministro da Economia Daniel Bessa mostrou não ser contra o facto de os restos mortais de Eusébio irem para o Panteão Nacional. «Vou fazer um meã culpa: não sou um aristocrata de nascimento, mas tornei-me um aristocrata da valorização da ciência, da universidade, do conhecimento, de achar que esses são os vínculos fundamentais de promoção e valorização humana. Mas aqui está o meu ponto fraco: quando olho para uma pessoa como o Eusébio – e é di

destaques

Vitória na Volta rendeu 3500 escudos, 1200 custava uma bicicleta...
Grande História De prémio pela sua vitória na I Volta da Portugal em Bicicleta, António Augusto de Carvalho, o ciclista do Carcavelos, recebeu 3500 escudos de prémio - 500 escudos por mês ganhavam, por baixo da mesa, os melhores jogadores de futebol em Portugal, 1200 escudos custava uma bicicleta (que não fosse das mais caras...) e menos do que isso era o ordenado de um mestre-escola. Por essa altura atrizes do Parque Mayer fizeram, descalças e em fatos de banho mais ou menos ousados, corridas na praia do Estoril. Tiveram maior destaque do que tivera uma tal Gracinda Simões numa das edições da revista ABC, atirada para uma nota de rodapé (e vá lá, que por outras revistas, outros jornais, nem sequer saiu do tinteiro...): «Esta apreciável desportista que se tem revelado arrojada artista em trabalhos acrobáticos e verdadeira precursora do sport feminino em Portugal acaba de demonstrar com o seu recorde do Porto a Lisboa a pé que é alguém no nosso meio desportivo». Da senhora do Porto-Lisboa a pé pouco se soube, do senhor em bicicleta sim... Não, Gracinda Simões não teve direito a foto – nem a mais pormenores na notícia, um deles fundamental: o tempo que gastara nessa aventura que foi o seu Porto-Lisboa a pé. (No ciclismo, o I Porto-Lisboa em bicicleta fora em 1912, vencera-o o ciclista do Sporting Manuel Laranjeira Neves, em 13.49 horas, deixando o segundo classificado a 1.43 horas e o terceiro a 2.08 horas. A euforia que despertou foi tal que andou uma tarde inteira em cortejo automóvel pela cidade - e além da medalha de ouro que lhe entregaram, recebeu de prémio uma bicicleta novinha em folha e 50 mil réis, ainda foram 50 mil réis porque à República ainda não tinham chegado as novas notas, se já tivessem seriam 50 escudos...) Do carimbo: Visado pela Censura à publicidade que dizia que alindava seios de mulher Por todos os jornais e revistas passou a estar sempre o carimbo que dizia: Visado pela Censura e, de um instante para o outro, desapareceram anúncios como um que se arrastara por páginas e páginas, o do Zodiac, o aparelho de eletro-massagem que além de prometer «desfazer perturbações nervosas de todo o tipo» também garantia o «alindar dos seios das senhoras». O que ainda havia era o publicidade ao Óleo da Mão de Vaca: - o que dá vida eterna ao cabelo das senhoras a 3 escudos o frasco. Em A Marcha do Futebol, as pernas aos léu - e o futebol proibido por causa da tuberculose Uma bola de futebol custava 46 escudos, o bilhete mais barato para os jogos da Associação de Futebol de Lisboa ficava por 2 escudos e 50 centavos e pelo Parque Mayer já passara A Marcha do Futebol, revista que no Maria Vitória pôs atrizes de pernas quase ao léu, vestidas de calçõezinhos muito sexies (palavra que então se não usava...) com as camisolas do Benfica, do Sporting, do Belenenses, do Casa Pia, do Carcavelinhos, do Império e do V. Setúbal. Por essa altura, o Governador Civil de Lisboa era João Luís de Moura, o presidente do Belenenses – e mandou à polícia e à guarda nota que proibia que em «época de tórrida canícula» era proibido jogar-se futebol nas ruas ou nos parques por uma clara razão: - ... para que os seus detratores não se entretenham nos seus acostumados ataques, dizendo que isso leva à tuberculose... e para se tratar da tuberculose aconselhava-se o andar de bicicleta. ...
Grande História Meses antes, o Trindade estreara A Garçonne, inspirada no romance de Victor Margueritte. Na véspera, a imprensa católica atacara a peça como «imoral» - e um grupelho correu para o teatro, para a sabotar. Cadeiras partidas, agressões, sangue, gente para o hospital, representação suspensa. O governo civil proibiu o espetáculo, a proibição durou uma... noite. E depois, foram enchentes, todas as noites, umas atrás das outras... A Ditadura apertava, cada vez mais, a sua malha – e a 26 de Março de 1927, criou-se, em Lisboa, uma polícia política – denominaram-na Especial de Informações. Quinze dias depois fez-se o mesmo no Porto e para seu chefe mandou-se Alfredo Morais Sarmento. Era tenente de cavalaria – e em 1925 vencera o Concurso Hípico de Lisboa e o GP de Londres, em brilho pusera também seleção que, em Nice, disputou o CHOM, considerada a maior competição mundial, com ele estavam Hélder Martins e Luís da Costa Ivens Ferraz. O campeão de hipismo aos tiros no Palácio de Belém... Já com a volta à volta de Portugal, Morais Sarmento invadiu, impulsivo e ferrabrás, acompanhado por David Neto, invadiu o Palácio de Belém para pedir explicações sobre um facto qualquer a Passos e Sousa, o Ministro da Guerra. Tanto gritou com ele que Óscar Carmona, o presidente da República, levando outros ministros atrás, rompeu pelo salão - e deu-lhe ordem de prisão. Manuel Rodrigues, o Ministro da Justiça, repreendeu-o, Sarmento puxou de duas pistolas, disparou, lesto. Uma das balas perfurou as calças de Rodrigues, outras duas foram anichar-se no teto, porque Neto lhe agarrou o braço. Passos e Sousa largou em sussurro: - O que foi isso? O que é que aconteceu?! e, alvoroçado, correu para a rua. David Neto encontrou-o num murmúrio ao comandante da Guarda, exclamou-lhe: - Se isso é para fuzilar o tenente Morais Sarmento, quero ser fuzilado também. Só sairemos do palácio juntos, vivos ou mortos. De contrário, diriam que eu o trouxe aqui para uma cilada cobarde e desleal... e o comandante da Guarda acabou por ir depositar os dois num táxi que os esperava, a Morais Sarmento nada aconteceu, depois. Desterrado mas pouco - para Angola e em força... Estava em marcha, pela direita, radical, mais um golpe contra Carmona, mais um golpe dos Fifis: Fi de Filomeno e Fi de Fidelino. Fidelino de Figueiredo era historiador, director da Biblioteca Nacional. Fidelino e Henrique Galvão tentaram através de edição apócrifa do Diário do Governo nomear Filomeno da Câmara para presidente do Conselho. O movimento tinha o apoio de António Ferro, David Neto e Morais Sarmento. Falhou porque Luís Derouet, director da Imprensa Nacional, apercebendo-se da manigância não autorizou a publicação. Filomeno acabou desterrado para São Tomé, pouco tempo ficou. Em finais de 1928 foi para Angola como Alto Comissário, tratando, ridículo, em alguns diplomas, o Presidente da República como «grande homem casto». Para secretário geral levou Morais Sarmento. Que no rescaldo da Revolta de Fevereiro de 27 lançara a ideia de uma Milícia Nacional, com um objetivo, fervoroso: - Acabar com as revoluções em Portugal, entre portugueses, deixando-nos frente a frente com os bolchevistas, que, nascidos em Portugal ou não importa onde, não são portugueses porque as suas ideias criminosas são contra a Pátria». Com esse espírito desembarcou em Luanda, afirmando-se pronto a «fuzilar» todos os «antipatriotas» que sonhassem com a independência, a «liquidar os maçónicos» da Kuribeka, a dar cabo dos «republicanos da democracia corrompida. Não era a Senhora de Fátima, era a mulher de Genipro, a cavalo... Em Março de 1929, Filomeno da Câmara foi com a família para as praias do Lobito – e em vez de depositar a responsabilidade do governo no chefe de Estado Maior das Forças Armadas, como a lei determinava, entregou a Morais Sarmento dezenas de folhas assinadas em branco, para que decretasse o que quisesse. Genipro de Eça da Costa Almeida era o Chefe do Estado Maior. Ligado à maçonaria e fiel depositário do legado democrático que Norton de Matos lá quisera deixar tinha uma mulher que era exímia cavaleira – e houve uma altura em que descrentes diziam que nas aparições de Fátima, o que os pastorinhos viram não foi a Virgem, foi a mulher de Genipro a correr a cavalo, toda vestida de branco, pelos campos da Cova de Iria. Viu a casa cercada, foi à varanda e morreu... Apercebendo-se de que Morais Sarmento decidira prendê-lo por «traição à Nação», Genipro antecipou-se-lhe: pegou em companhia de tropas indígenas, cercou-lhe a casa, deu-lhe ordem de prisão. O tenente foi à varanda, sacou das pistolas, disparou. A soldadesca ripostou - e uma bala varou-lhe a cabeça. No dia seguinte, o jornal A Província de Angola contava que populares saíram à rua em festa – e em Lisboa, assinado por António Ferro, Afonso Lopes Vieira, Rolão Preto, Teotónio Pereira correu manifesto exigindo «justiça» em memória do mártir que fora «fuzilado sem detença» por uma «força de pretos»... Nesse ano, nesse ano de 1929, José Maria Nicolau ingressou no Benfica. Não, Alfredo Trindade ainda não estava no Sporting. Lá chegaria entretanto – e foi com os dois na estrada a Volta a Portugal, com o Benfica e o Sporting em duelo, que a Volta a Portugal entrou, fulgurante, no coração do povo – e o resto é o que se sabe... ...
Estrela de Diamante Das doenças estranhas ao dia em que o expulsaram do Giro por o apanharem agarrado a um carro; da corrida em que a bicicleta do Quénia não lhe chegou à Austrália aos desmaios pela manhã; do destino descoberto entre órfãos pobres à equipa com um português, o Hugo Sabido; da mágoa de não ter visto a mãe a ver-lhe o sonho à polémica que a mulher abriu – este é o outro lado de Chris Froome a caminho da eternidade... Clive Froome era jogador de hóquei em campo, acabara de chegar à seleção inglesa sub-19, mas, de súbito, sentiu, aventureiro, uma tentação: organizar safaris no Quénia – e sem perder tempo emigrou para Nairobi. Num dos seus bairros mais modernos, conheceu Jane, inglesa como ele, filha de comerciantes de café. Apaixonaram-se um pelo outro, nasceram-lhes dois filhos: o Jonathan e o Jeremy – e a 20 de maio de 1985 mais um: o Christophe. Jonathan e Jeremy depressa se encantaram pelo râguebi, Chris não – e, de pernas escanzeladas, cresceu numa outra sedução: - Andar de bicicleta, horas sem fim, pelo vale do Rift, subindo e descendo montanhas, tocando os 2000 metros de altitude... SÓ NÃO PODIA VOLTAR À NOITE, ANDAVA À CAÇA DE ESCORPIÕES... A mãe impunha-lhe uma condição apenas: voltar a casa, antes de anoitecer: - E quando não andava de bicicleta pelos caminhos de terra, acima, abaixo, ou a acampar pelas savanas com Jonathan e Jeremy, perseguia escorpiões e serpentes ou andava à caça de coelhos para, assim, arranjar comida para Rocky e Shandy. Rocky e Shandy era as duas cobras pitons que tinha na fazenda dos pais, em Kinjah, aldeia à sombra de Kikuyu, a principal cidade do Monte Quénia. Também tinha, no quintal, uma chita - e com ela por vezes tentava jogar futebol. A casa onde os Froome viviam era tão modesta, tão pequena que não tinham espaço para guardar as bicicletas: - Por isso, durante a noite, ficavam suspensa no teto. Chris e os irmãos eram os únicos rapazes brancos por aquela região com campos a perder de vista – aprendeu de um instante para o outro a falar swahili, o dialeto da tribo, mas na escola as notas nunca tocaram o brilho, a mãe, achando que talvez isso fosse do tempo que perdia nas suas solitárias cavalgadas pelos trilhos das montanhas, dizia-lhe que a bicicleta não era o seu futuro, ele respondia-lhe que era. QUANDO AS VACAS LHE COMERAM A CASA E ELE NÃO QUIS ENTRAR NO CARRO DA MÃE... Vendo-o de sonho cada vez mais ardente, aos 12 anos, quando Jane voltou para Nairobi procurou David Kinjah – um antigo ciclista queniano que criara o Simbaz Safari, um projeto para dar ciclismo a rapazes de bairros pobres da cidade, a maioria órfãos: - No início, Chris mal conseguia alcançar os pedais da velha bicicleta de corrida que um dos seus professores lhe oferecera. Não posso dizer que me tivesse passado pela cabeça que estava ali comigo alguém que iria vencer a Volta à França, mas percebi logo que o rapaz era especial. Pedalávamos regularmente até à fazenda dos meus pais, a 50 quilómetros dali, acampávamos no prado, uma vez as vacas comeram metade da nossa barraca de colmo, tivemos de ficar ao relento. Devido à idade de Chris, eu nem sempre queria que ele fizesse o caminho todo, mas ele fazia... Algum tempo depois, Kinjah decidiu fazer passeio de 100 quilómetros a Kajiado. Perguntou a Jane Froome se não queria acompanhá-los de carro – que, assim, Chris faria metade do caminho e depois parava, mas... - Quando, já noite, mandei Chris para o carro da mãe, ele recusou-se. Apesar de exausto e lento, eu e Jane não conseguimos que ele parasse, a resposta dele era sempre a mesma: que se eu fizesse os 100 quilómetros, ele também fazia. Já era assim: ambicioso, ambicioso até de mais... ...