SEXTA-FEIRA, 20-01-2017, ANO 17, N.º 6201

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Um bloco e uma caneta? Eis o segredo de Vítor Pereira!
À chegada à entrevista que hoje A BOLA publica com Vítor Pereira, um pormenor chamou a atenção. Na mesa onde estava o gravador do jornalista, um bem cuidado caderno preto e uma caneta repousavam à espera de serem utilizados. Não sendo do repórter, só podiam ser de Vítor Pereira. O treinador do TSV Munique precisa de ter sempre por perto um bloco, assume. «Se não tiver um bloco, uso um guardanapo», conta a sorrir, antes de se entusiasmar, como tantas vezes faz, a falar, com paixão do seu trabalho. «Nunca na vida fui a um livro ver um exercício. Nunca copiei por outro treinador», começa por dizer, assumindo que esta é uma questão que muitas vezes debateu nos cursos de treinador. «Não quero que me dêem receitas. Se eu, por exemplo, fizer um livro de exercícios segundo o meu conceito de bom jogo, e depois o vendo aos outros treinadores, quer dizer que vou retirar-lhes a possibilidade de criarem exercícios para o próprio conceito de jogo», adianta. Para Vítor Pereira, os desafios que enfrenta não passam apenas por ganhar jogos. Ou, passando essencialmente pelo sucesso, têm foco especial no caminho para lá chegar: «O que me dá mais gozo no futebol é olhar, ver um comportamento que quero corrigir e num minuto construir um exercício da minha cabeça para o corrigir. Isto é um aspeto do futebol que me dá muito gozo: poder dar azo à minha criatividade. O que me dá mais gozo no futebol é ver crescer uma ideia. É pegar nestes jogadores, fazer dois ou três treinos ver que a bola bate aqui, bate acolá, que os jogadores batem uns nos outros e de repente muda o chip, como que por magia – embora não seja magia - e começar vê-los jogar bem. Isso é que me dá um gozo bestial». Na entrevista que hoje A BOLA publica Vítor Pereira assume que saiu do FC Porto pelos próprios pés, embora sem disfarçar desilusão. O treinador de 48 anos reforça o desejo de ganhar a Liga dos Campeões e assegura que a passagem pelo TSV Munique, da segunda liga alemã, vai abrir-lhe as portas da Bundesliga e, por fim, da Liga Inglesa, que é o seu maior sonho.
Alemanha
02:40 - 20-01-2017
Vítor Pereira
Vítor Pereira, o brinquedo 3x4x3 e o meio toque de Moutinho
Bicampeão no FC Porto e neste momento à beira de estrear-se oficialmente pelo TSV Munique (primeiro jogo a 27 de janeiro), Vítor Pereira, 48 anos, é um treinador apaixonado por futebol. Em entrevista a A BOLA, que pode ler na edição de hoje do jornal, assume que saiu desiludido do FC Porto, promete treinar com paixão se um dia assumir Benfica ou Sporting e fala de futebol. Fala muito de futebol. — Tem um esquema tático favorito? — Estou a jogar em 3x4x3. O que me entusiasma agora é a dinâmica do 3x4x3. É como se fosse um brinquedo novo que quero desmontar e montar várias vezes, para ver funcionar. Quero ver isto aplicado à equipa porque sei que vai dar resultado. Na formação trabalhei em 4x3x3, em losango. Importante é a capacidade que se tem de pegar num ponto de partida, que é o sistema, e dar-lhe a dinâmica. — Qual é a sua ideia de jogo? Há um modelo Vítor Pereira? — Sim, claramente. Tem tudo a ver com a minha personalidade. Gosto de dominar, gosto de controlar tudo. Gosto de jogo dominante, a marcar os ritmos. Posso acelerar e desacelerar, mas eu é que marco os ritmos. Claro que para isso tenho de ter a bola. Gosto que minha equipa seja rápida em determinados momentos, noutros acelere, e estas mudanças de ritmo e de direção – estar cá, de repente estar ali, chamar aqui e já ir pelo meio, atrair de um lado para ir dentro, ou ir dentro para entrar por fora… [entusiasma-se no discurso enquanto faz movimentos com os braços e bate com as mãos uma na outra, tornando-se difícil de acompanhar]Mas para operacionalizar isto é preciso experimentar. - Não é fácil fazê-lo em competição… - Eu tive a felicidade de estar cinco anos na formação do FC Porto. Foi um laboratório: virava o futebol de pernas para o ar. Eu consigo pegar numa equipa como esta do TSV Munique e mudar completamente o registo. E quem olha percebe que esta é uma equipa minha. Pela experiência adquirida, consigo mudar rapidamente. Isto não se faz tendo referência de outro treinador. As minhas ideias vão evoluindo, vão mudando. No FC Porto explorava pouco os momentos de transição rápida porque dominávamos instalados no meio campo adversário. Agora tenho de dar mais atenção a esse aspeto. - Mas é possível fazê-lo em qualquer equipa? - Deixe-me contar uma história. Lembro-me que cheguei à Arábia, vindo da Liga dos Campeões, e de repente estava nas montanhas, fechado no meu quarto, com uma luz avermelhada, quase não dava para ler. Não se via ninguém, porque era a altura do ramadão. Começo a trabalhar com aqueles jogadores e digo… «ai meu Deus! vim de um nível elevado para um baixo, mas tenho ideias, sou teimoso e chato». Então começámos a trabalhar e os adjuntos diziam que não ia conseguir. Teimoso, não cedi, porque não me ia dar gozo jogar de outra forma. Quero ganhar, mas com uma marca de qualidade. Estou sempre à procura do pormenor, nunca estou satisfeito, quero sempre mais e mais e mais. Quando cheguei à Arábia insisti em jogar tendo bola. Passado dois meses, recebemos uma equipa da Coreia na Liga dos Campeões asiáticos e jogámos sempre assim, durante 90 minutos. Se isso se consegue na Arábia, tem de conseguir-se aqui. Num campeonato que nada tem a ver com isso, num campeonato físico, com o alemão, quero competir com outro tipo de jogo. O MEIO TOQUE DE MOUTINHO — O Barcelona e o seu tiki-taka foram construídos com jogadores menos físicos e ganhava aos mais fortes… — Contra uma equipa física e agressiva o que determina o sucesso? A diferença é que um jogador de nível alto controla a bola num toque. Eu por exemplo costumava dizer que o Moutinho jogava a meio toque, era só um toquezinho e já tinha linha de passe. Se o tinha a jogar como joker, tinha linhas de passe permanentes. Um jogador de nível mais baixo precisa de três toques, porque a bola chega a morder, têm de meter um pé, outro e outro, e ao perder frações de segundos o jogador físico já me bateu. Se quando ele chega a bola já não está lá, não a tira. Para mim, a técnica, a capacidade de decisão e a personalidade são o mais importante. Um bom sinal para mim é que as três equipas que estão à frente na segunda divisão alemã são as que jogam futebol.
Alemanha
01:24 - 20-01-2017
Plantel despediu-se de Gerso
O plantel do Belenenses reuniu-se, na noite desta quinta-feira, num jantar para se despedir do extremo Gerso, que vai mudar-se para os Estados Unidos para representar o Sporting Kansas City.
Belenenses
00:26 - 20-01-2017
Katherin Aroca tem o mundo a seus pés…
Não é só uma modelo de enorme sucesso, como também uma das empresárias mais bem sucedidas em terras colombianas. Natural de Ibague (Colômbia), Katherin Aroca, 26 anos, é daquelas mulheres capazes de triunfar em qualquer negócio onde entre. Manequim bastante reconhecida em vários catálogos, desfiles e campanhas publicitárias, esta loira é igualmente uma viciada em… exercício físico. O fitness é uma das suas paixões, tal como futebol, um desporto que acompanha com enorme emoção, nomeadamente a sua seleção.
A Bola de Estrelas
00:05 - 20-01-2017
Cristian Rodríguez está de volta ao Peñarol
O uruguaio Cristian Rodríguez, que jogou por Benfica e FC Porto entre 2007 e 2012, está de volta ao clube onde foi formado no seu país: o Peñarol. Atualmente com 31 anos, Cebolla, como é conhecido, terminou recentemente contrato com o Independiente, da Argentina, tendo anunciado: «Vou cumprir o meu sonho de voltar ao Peñarol.»
Uruguai
00:03 - 20-01-2017
Dimitri Payet
Payet alvo de vandalismo
O médio francês Dimitri Payet caiu definitivamente em desgraça no West Ham. Segundo informações veiculadas pela Imprensa britânica, o carro do jogador foi vandalizado na noite desta quinta-feira perto da sua casa. O médio, que pretende deixar o clube na presente abertura do mercado, estará mesmo a ponderar a possibilidade de deixar Inglaterra nas próximas horas.
West Ham
23:57 - 19-01-2017
Hayden Paddon
Arranque do Rali Monte Carlo marcado por acidente
O arranque da 85.ª edição do Rali de Monte Carlo, primeira prova do calendário WRC, ficou marcada esta noite por um acidente do neozelandês Hayden Paddon, implicando um espectador, gravemente ferido. O piloto da Hyundai despistou-se num troço de gelo, sendo que o espectador acabou transportado para o hospital Pasteur de Nice. Devido ao acidente a primeira especial da prova foi anulada. O belga Thierry Neuville, também em Hyundai, realizou depois o melhor tempo na segunda especial, com 7,8 segundos de vantagem sobre o francês Sébastien Ogier (Ford Fiesta RS).
WRC
23:49 - 19-01-2017
Illarramendi aqui em disputa com Suárez
Illarramendi critica árbitro: «Outra vez o mesmo de sempre»
O médio Asier Illarramendi, da Real Sociedad, não escondeu o descontentamento com a arbitragem do jogo com o Barcelona. O jogador, que já representou o Real Madrid (2013 a 2015), começou por falaz na habitual flash interview, lamentando a marcação de um fora de jogo numa jogada perigosa e também que Messi deveria ter sido expulso, por acumulação de cartões amarelos. Pouco, depois, na rede social twitter, escreveu: «Outra vez o mesmo de sempre! Outra vez…»
Real Sociedad
23:35 - 19-01-2017
«Se Jesus ficar, é porque é o treinador indicado» - Madeira Rodrigues
Após apresentar o seu programa eleitoral, Pedro Madeira Rodrigues abordou a situação de Jorge Jesus, não esclarecendo se o treinador será para permanecer caso vença as eleições marcadas para 4 de março. «Não gosto de falar em ‘ses’. Nesta altura, Jorge Jesus é o treinador do Sporting e tem mais dois anos e meio de contrato. A situação financeira do clube é complicada, o orçamento ultrapassa os 60 milhões de euros e em dois anos conseguiram triplicar a massa salarial. A situação é preocupante. Se ficar, é porque é o treinador indicado», disse Madeira Rodrigues. O candidato foi ainda questionado sobre os poderes de Jorge Jesus, nomeadamente depois de Bruno de Carvalho ter anunciado que passará a nomear um adjunto para integrar a equipa técnica. «Não conheço os poderes que Jorge Jesus tem, mas é engraçado só agora se falar disso, quando as coisas estão a correr mal, o presidente alija responsabilidades. Comigo o treinador funcionará sobre minha dependência e do diretor desportivo. Vai ter de saber viver o ADN do Sporting, que é a formação. O que se passou no início desta época, em que não aproveitaram o Podence, o Iuri, o Carlos Mané e o Palhinha, não acontecerá comigo», disse.
Sporting
23:22 - 19-01-2017
foto facebook
Gelson e Zivkovic juntos
Dentro do campo representam clubes rivais, mas fora dele jogam… na mesma equipa. Gelson e Zivkovic têm o mesmo empresário, Ulisses Santos, que juntou os dois jovens numa fotografia. «2 craques, 2 emblemas diferentes, o mesmo orgulho. Força meninos», foi a legenda escrita pelo empresário nas redes sociais.
Futebol
23:12 - 19-01-2017
Payet recusa 575 mil euros semanais na China
Dimitri Payet, avançado francês que nos últimos dias tem estado envolvido numa grande polémica com o West Ham, rejeitou uma proposta milionária da China. Segundo a Sky Sports, o Hebei China Fortune, de Manuel Pellegrini, apresentou ao empresário do jogador uma proposta de 575 mil euros semanais. Ainda assim, este valor parece não ser suficiente para Payet, que já reiterou a sua intenção de regressar ao Marselha.
West Ham
23:05 - 19-01-2017
Aguero e Guardiola
Ingleses revelam tensão entre Aguero e Guardiola
O jornal Daily Mirror noticia que a relação entre o avançado argentino Kun Aguero e o treinador Pep Guardiola já teve melhores dias. O jogador de 28 anos não estará agradado com as insistentes exigências táticas do treinador, nomeadamente para correr mais e também cobrir maior zona no terreno, sentindo que isso está a afetar o seu rendimento em frente à baliza. A dar força ao alegado desagrado do jogador, o jornal associa ainda o facto de a renovação de contrato entre as partes ainda não ter sido anunciada.
Manchester City
23:02 - 19-01-2017
Gabriel Jesus (Foto mcfc.com)
Gabriel Jesus pode estrear-se diante do Tottenham
O avançado brasileiro Gabriel Jesus, contratado pelo Manchester City ao Palmeiras por cerca 27 milhões de libras (cerca de 31 milhões de euros), poderá estrear-se no próximo sábado frente ao Tottenham. O jogador chegou a Manchester no início de dezembro, mas só agora foi oficializado como reforço, tendo já recebido a necessária autorização de trabalho (work permit) para poder jogar na Premier League.
Manchester City
22:46 - 19-01-2017
O turnover mais óbvio da história da NBA (vídeo)
Na visita dos Oklahoma City Thunder a casa dos Golden State Warriors, Russell Westbrook parece ter-se esquecido das regras básicas do jogo... Veja o vídeo!
NBA
22:37 - 19-01-2017
Adriano
Adriano confirmado
O Nacional confirmou a contratação do guarda-redes brasileiro Adriano Facchini, que assinou contrato válido por duas épocas e meia. Adriano, de 33 anos, estava livre depois de ter rescindido recentemente contrato com os turcos do Karabukspor e está assim de regressou a Portugal, onde representou União da Madeira e Gil Vicente. O guarda-redes começa esta sexta-feira a trabalhar com o plantel às ordens de Jokanovic.
Nacional
22:34 - 19-01-2017

destaques

Tentou pôr Camataru no Benfica, Ceaucescu não deixou…
Grande História Fernando Martins pediu-lhe ajuda, mas não, isso Mário Soares não conseguiu: não conseguiu trazer Camataru para o Benfica. Mas, salvando Futre da tropa, salvou o FC Porto de perder 630 mil contos. Ao FC Porto de Pedroto e Pinto da Costa dera a sua primeira Taça de Portugal como Primeiro Ministro – e a primeira como presidente deu-a ao Benfica. A Carlos Lopes prometeu um churrasco nos seus jardins – e cumpriu a promessa com um boi de 350 quilos. Com Moniz Pereira, seu vizinho no andar de cima, jogou ao botão. As suas prisões com a PIDE cruzaram-se com ataques em que também esteve Cândido de Oliveira – e sim, ainda há muito mais desporto (e muitas mais surpresas) na vida de Mário Soares. É o que aqui se conta – e vai bem para lá do que ele revelou que era com a bola nos pés e do pai, que quando ele nasceu ainda era padre, o ter entregue a Agostinho da Silva pedindo-lhe que lhe desse lições de cultura geral porque «só pensava em jogar futebol, dizer asneiras, era um insubordinado…» João Lopes Soares nasceu à beira de Leiria, filho de gente pobre do campo - e em 1900 formou-se em Teologia na Universidade de Coimbra, sendo ordenado presbítero. Andou como Capelão Militar pela província, era em Alcobaça que estava quando em 1907 lhe surgiu filho de uma «ligação em pecado», Tertuliano lhe chamou. Transferiram-no para Lisboa, em Lisboa se tornou militante republicano, na ala de Afonso Costa. A monarquia chegou a prendê-lo por conspiração – e durante a I República foi, para além de professor nos Pupilos do Exército, governador civil, deputado – e Ministro das Colónias. NA PENSÃO,O ENCANTO DE ELISA... Em Lisboa, João Soares hospedou-se numa pensão da Rua Ivens, ao Chiado – e não tardou a encantar-se com a mulher do dono. Elisa Nobre apaixonou-se por ele, por ele deixou o marido – e foram viver para o 2º Esquerdo do nº 163 da Rua Gomes Freire. Às 18.15 horas do dia 7 de dezembro de 1924 nasceu-lhe um filho, registaram-no como Mário Alberto Nobre Lopes Soares – e só quando já tinha três anos é que a Santa Sé desobrigou, enfim, João Lopes Soares das ordens eclesiásticas, deixando, assim, oficialmente, de ser padre, tinha, então, 49 anos. A I República desfizera-se na coluna de Gomes da Costa que partira de Braga a 28 de maio de 1926 – e em fevereiro de 1927 João Lopes Soares envolveu-se na Revolta do Reviralho, o ataque à ditadura em que também estiveram Luís Carlos Faria Leal, fundador do Benfica – e João Tamagnini Barbosa, que a presidente do Benfica haveria de chegar à saída dos anos 40. Tal como Afonso Costa e António Sérgio, Faria Leal conseguiu escapar para exílio em França, Tamagnini Barbosa não: acabou deportado para os Açores, tal como João Soares. NO PRÉDIO DE MONIZ PEREIRA... No andar de cima do prédio da Rua Gomes Freire tinha um vizinho dois anos e meio mais velho que como ele se chamava Mário Alberto, o Mário Alberto Moniz Pereira – que em entrevista a A BOLA contou: - O meu pai era o representante em Portugal da FN, firma que fabricava automóveis e depois passou a fabricar armas e munições. Foi com um FN que se tornou o primeiro automobilista a dar a Volta a Portugal, o carro por vezes a ter de ser puxado por juntas de bois para cruzar rios e regatos. Talvez influenciado por esse seu espírito, depressa me pus a organizar no prédio grandes campeonatos com os meus irmãos, os nossos vizinhos. Na varanda era o salto em altura com a corda de estender a roupa e o salto à vara com o cabo de uma vassoura velha. Saltávamos em comprimento a partir da rampa da varanda e como não dava para mais em vez do triplo havia duplo-salto. No quintal, fazíamos 30 metros à volta da nespereira e jogávamos basquetebol com uma porta a fazer de ângulo com a parede a servir de cesto. Mais tarde as provas passaram do quintal para o passeio, a sarjeta era a tábua de chamada. Também tínhamos a Volta a Portugal em bicicleta - no quarto de costura com os cromos dos ciclistas na roda da máquina de costura da minha mãe, quem conseguisse dar mais voltas ganhava. O Mário Soares, mais novinho, não entrava nesses nossos torneios, mas ficava sempre a ver – e de quando em quando jogava ao botão connosco. E sim: muitas vezes nos assustámos ao ver a PIDE entrar de rompante pelo andar, à procura do pai do Mário, que até escondido na nossa casa chegou a estar… Em fevereiro de 1991, Mário Moniz Pereira fez 70 anos – e 250 amigos foram a Monsanto festejá-los. Um deles era, claro, o Mário Soares, já presidente da República, mas ali, sobretudo, numa outra condição. Emocionado, recordou: - Lembro-me, claro, de brincar com ele ao botão, na Rua Gomes Freire, mas tenho de dizê-lo: estou vexado por estar aqui reunido entre tantos desportistas e campeões e nunca ter praticado desporto a sério... e viu-se, fogacho a correr-lhe pelos olhos quando, no final do seu discurso Moniz Pereira se virou-se para ele e lhe disse: - Para terminar em beleza esta homenagem, vou entregar ao meu amigo Mário Soares uma velhinha recordação da nossa infância: a caixa do jogo do botão, com as fichas de inscrição, nomes dos jogadores e cores dos respetivos botões, é a minha surpresa para ele... A BOLA, A ASMA E A PROMESSA À SENHORA DE FÁTIMA... Uma das razões para nunca ter praticado desporto a sério – foi, sempre o achou, a sua magreza – e por isso, além de Gigi ou de Licas, também o tratavam por Lingrinhas, vivia com o pai preocupado a querer afastá-lo dos «jogos da bola». A outra razão foi sofrer de asma - e a propósito da asma há nele, a desfiar-se, uma outra deliciosa memória: - A minha mãe era muito religiosa e fez promessa, pedindo que eu me curasse da asma. Curei-me da asma, passaram os anos, por uma razão ou outra não cumpria a promessa. Até que um belo dia resolveu cumpri-la. E lá fomos os dois a Fátima, eu já adolescente, com uma vela da minha altura. Achei-me ridículo. Continuou a ser o que já decidira ser: republicano e laico – e a asma voltou a dar deliciosa memória, memória que está no livro de Joaquim Vieira: - Com o pretexto de que eu estava com asma e não podia tomar banho frio, o médico da prisão de Caxias aceitou que eu tomasse banho quente. Eu punha-me completamente nu dentro do alguidar, com a malta toda a ver, e o guarda prisional regava-me com um regador…...
Do Passado para o Presente Mirabolantes, coisas que aconteceram nos primeiros jogos entre Benfica e Sporting. Num deles, desatando a chover copiosamente os sportinguistas não quiseram jogar a segunda parte – e foi preciso o árbitro ir ao balneários obrigá-los a voltar ao campo. Noutro, o erro do árbitro levou a que o Benfica ganhasse por 2-1 – e lendo, no jornal do dia seguinte, a justificação para o penalty, o Benfica pediu que se transformasse a sua vitória num empate, a União do Futebol (era assim que se chamava o que haveria de transformar-se, depois, em AFL…) recusou-lhe o pedido. Mas não, não é só de romantismo assim que aqui se fala. Também se fala de dissidente do Sport Lisboa que José Alvalade levou para o Sporting «verdadeiramente perigoso» - e das duas bofetadas que o guarda-redes do Sporting deu a dois benfiquistas e por causa disso acabou José Alvalade suspenso por um ano. E ainda se conta como os clubes nasceram – um à míngua e outro em glamour… Para um jogo de futebol com o CIF juntaram-se num misto alunos da Casa Pia de Lisboa e dos Catataus (era assim que se conhecia o Belém Football Club dos irmãos Rosa Rodrigues). Ganharam e decidiram comemorar a proeza no Café Gonçalves, na Rua de Belém. De repente, soltou-se a ideia, num brado de alguém: - E se fundássemos um clube novo? A ACTA QUE COSME NÃO ASSINOU POR... MODÉSTIA Depois do almoço, reuniram-se todos na Farmácia Franco, no outro lado da rua – e fundaram mesmo. Foi a 28 de fevereiro de 1904 - e assim nasceu o Sport Lisboa. Cosme Damião redigiu a acta e por modéstia não quis escrever nela o seu nome. Logo se acertou que presidente seria José Rosa Rodrigues, o mais velho dos irmãos Catataus; que o símbolo seria uma águia - «por significar elevação de propósitos, largo espírito de iniciativa e ânsia de subir o mais alto possível»; que a divisa seria Et Pluribus Unum - como apologia de união na comunhão de sentimentos. O major José da Cruz Viegas escolheu o vermelho e branco por «traduzir alegria, colorido e vivacidade e ser fonte de entusiasmo» - e compraram-se camisolas flanela na Alfaiataria Nunes e uma bola ao Cricket Club por 1500 réis. Problema, logo se viu, era a falta de campo decente. Os treinos foram-se fazendo numa faixa de terreno junto da linha de comboios para Cascais. Quando a CP exigiu a expulsão dos «footballers» através de uma ordem de despejo entregue pelo guarda da passagem de nível - e tudo piorou ainda mais. O Sport Lisboa procurou, então, guarida entre as Salésias e as Terras do Desembargador para os jogos e treinos montavam-se e as balizas – e depois desmontavam-se, havia um carpinteiro que recebia 50 réis pelo trabalho. Para o banho usava-se a água de um poço, havia um moço que a retirava com um balde e despejava-a pela cabeça abaixo dos jogadores. Januário Barreto fizera parte da equipa da Casa Pia que em 1897 quebrara a invencibilidade dos ingleses do Carcavelos no futebol que se jogava em Portugal. Não fundou o Sport Lisboa mas depressa aderiu ao projeto. Aliás, quando a Farmácia Franco passou a ser acanhada para tal e não havia sede disponível as reuniões eram no seu consultório médico da Rua Nova de Almada. Por isso, foi sem surpresa que, em novembro de 1906, se tornou o primeiro presidente eleito do SL, ficando com Manuel Gourlade a primeiro secretário, José Rosa Rodrigues a segundo e Daniel dos Santos Brito a tesoureiro. Elaboraram os primeiros estatutos, afanaram-se em trabalhos para adquirir o campo de jogos, mas em vão – e essa foi a razão porque, à entrada para 1907, o SL parecia condenado a colapso. Ou pior... NO QUE DEU O GAROTO ATROPELADO, À NOITE, JUNTO À CERCA… Sem o terreno da CP, na zona que constituía a cerca do quartel e que era também utilizada para exercícios militares de dois regimentos de tropa a cavalo, o Sport Lisboa passou a treinar-se às escuras, ao fim de tarde - e num desses treinos um garoto foi... «atropelado» (foi assim que a notícia surgiu no jornal) por António Rosa Rodrigues. Ficou com a perna fraturada – e o velho Catatau, o pai que tinha negócios de armação e pescas, proibiu os filhos de voltarem a jogar à bola assim, razão porque no SL se suspendeu toda a atividade. DOS DISSIDENTES DE BELÉM AO GLAMOUR DO SPORTING... Com os 550 mil réis que o avô lhe foi dando, José de Alvalade construiu no Lumiar, para o seu Sporting, o «melhor campo atlético de Portugal». O único problema era faltar-lhe equipa para o futebol. Ouvindo falar do que acontecera em Belém, lançou para lá o canto de sereia: que não oferecia apenas campo decente para treino e jogo, oferecia balneários com chuveiros banho quente de imersão, bolas novas, duas camisolas por desafio se chovesse - e no final de cada «match» soirées e chás dançantes com as senhoras mais ilustres da alta sociedade lisboeta. Sete jogadores do Sport Lisboa disseram-lhe que sim. Entre eles António Couto e Francisco dos Santos, que haveriam de ser o arquiteto e o escultor da estátua do Marquês de Pombal. Para o Lumiar foi igualmente Daniel Queirós dos Santos que haveria de chegar a presidente do Sporting – e os irmãos António e Cândido Rosa Rodrigues – só José, o mais velho dos Catataus, se escusou ao Lumiar. OS 27 MIL RÉIS QUE SALVARAM O SONHO QUE SAÍRA DA FARMÁCIA FRANCO… Outros, poucos, houve que não aceitaram o repto de José Alvalade – e, apesar da debandada dos demais recusaram-se a aceitar de ânimo leve sentença de morte ao Sport Lisboa. Para arranjar dinheiro para a inscrição no Campeonato de Lisboa, fez-se subscrição pública de emergência que rendeu 27 mil réis, graças sobretudo à boa vontade e à bolsa de Félix Bermudes, de Cosme Damião e de Manuel Gourlade, escriturário da Farmácia Franco, que chegou a ter 40 mil réis empenhados no SL, salvou o clube, não se salvou ele de morrer quase na miséria, por causa de «devaneios como esse», diria a família, depois... Antes do campeonato de Lisboa de 1907 arrancar, o Sporting fizera o seu primeiro jogo num torneio do CIF. Contra o FC Cruz Negra. Perdera-o por 1-5. O seu único golo, o primeiro da sua história, foi apontado por um jogador de ténis a quem José Alvalade pedira o favor de ir ao futebol: D. João de Vila Franca. Depois, Alípio da Motta Veiga, Octávio Teixeira Bastos e António das Neves Vital saltaram do Cruz Negra para o Sporting – e juntando-se ao «contingente de Belém» também eles defrontaram o Sport Lisboa – e ninguém imaginava que, nessa tarde, estava a começar o mais apaixonante derby de Portugal... AINDA SEM STROMP E DE BRANCO… O jogo com o Sport Lisboa, já a contar para o Campeonato de Lisboa, era para ser no Lumiar, não foi – foi no Campo da Quinta Nova, que pertencia aos ingleses do Cabo Submarino, o Carcavelos. O Sporting jogou todo de branco - e sem nenhum Stromp. O Francisco e o António ainda não eram da primeira equipa, o Francisco já entraria, porém, no derby seguinte... Cândido Rosa Rodrigues, um dos dissidentes do Sport Lisboa, fez o primeiro golo do Sporting, logo após o intervalo, Eduardo Corga empatou– e o que se segue é o que está, delicioso, na crónica de Os Sports: «Obtido esse resultado, eles marcham com mais energia, e o Sporting defende-se mal e com dificuldade, praticando novamente outras irregularidades. Quando todas as probabilidades lhe dão a vitória, cai uma bátega e o campo, alagado, não deixa caminhar a bola. Enquanto o Sporting abandona o campo, refugiando-se os seus jogadores nos balneários, o Sport Lisboa permanece quedo. Mister Burtenshaw, o árbitro, obriga-os a voltar e eles obedecem com visível má vontade. A chuva, tendo tornado frios os rapazes do Sport Lisboa, abate um pouco a sua energia e os adversários aproveitam-se e marcam novamente goal». A DERROTA COM TOQUE DE COSME DAMIÃO E O SPORTING… «BRUTALMENTE» Esse golo, o que deu ao Sporting vitória por 2-1, foi marcado na própria baliza por... Cosme Damião, quase à beira do fim – e o cronista (não identificado...) de Os Sports não deixou de notar a tropelia do destino: «Uma infelicidade - e precisamente do homem que mais estava lutando pela vitória e mais lutava na resistência à crise do Sport Lisboa»… sublinhando, por fim: «O Sporting, em grande parte, jogou butalmente. Os seus jogadores cometeram irregularidades em barda e neste género sobressaiu Albano dos Santos, jogador verdadeiramente perigoso». A talho de foice, ainda adiantou ao seu escrito: «O Sport Lisboa esteve muito bem, mas com muita infelicidade, talvez motivada pela enervação de se encontrar com um grupo formado por antigos irmãos, cuja recordação é um fel…» e rematou, poético: - Couto e Cândido são os sóis que iluminam o grupo. UM ERA INGLÊS, OUTRO SÓ PARECIA… Nessa altura, o futebol em Portugal era ainda dominado por ingleses que para cá tinham vindo em trabalho. Os «mestres» eram os do Cabo Submarino, os do Carcavelos. Mas havia outros, também havia a equipa do Braço de Prata, ainda antes da fábrica se tornar em fábrica de munições para o exército – e foi no Braço de Prata que Charles Etur apareceu a jogar. Saltou para o Grupo Sacavém e para o Gilman – e acabou no Sporting, foi o treinador desse primeiro jogo com o Benfica, pôs a equipa a alinhar assim: Emílio de Carvalho; Daniel Queirós dos Santos e José Belo; Albano dos Santos, António Couto e Júlio Nóbrega de Lima; António Rosa Rodrigues, Cândido Rosa Rodrigues e Jacob Eagleson, José da Cruz Viegas e Henrique Costa. Pode, pode parecer que sim, que nessa primeira vez houve um inglês no Sporting, que jogou todo de branco: Jacob Eagleson. Inglês não era, era filho de inglês – que viera para Sacavém contratado pela firma Graham & Cª e foi em Sacavém que Jacob nasceu. Além do futebol, destacou-se na natação e no... golfe, mas foi no cricket que se tornou estrela, estrela numa equipa do Sporting que contava também com Charles Etur e... José de Alvalade. DRAMÁTICO O DESTINO DO TREINADOR QUE DEIXOU DE APARECER… Foi Cosme Damião quem o contou, muitos anos depois, numa evocação em A Bola, a Cândido de Oliveira: - Tu não calculas o que era a figura desse rapaz, o Manuel Gourlade. Estou-o vendo: aparecia sempre equipado, por completo - da cabeça aos pés: kepi preto, camisa branca, calção preto, meias de futebol e botas também de futebol. Mas o que dava mais nas vistas era uma grande faixa sobre a camisa, a tiracolo, com as três cores da bandeira francesa. Não soubemos a princípio o seu nome. Começou a aparecer talvez no terceiro treino. do Sport Lisboa. Não jogava. Dava apenas uns pontapés. Conhecia muito bem as leis do jogo, os seus segredos. Tomou para nós, o papel de técnico do futebol... Gourlade era empregado da Farmácia Franco – e também de uma outra no Conde Barão. Treinador do Sport Lisboa se manteve até finais de 1908. De repente, deixou de aparecer no clube, no clube que já era Sport Lisboa e Benfica. Houve quem soubesse que por imposição da família, a família rica que não lhe aceitava o desbaratar de mais dinheiro na «loucura pelo football» - e fora isso que o fizera tomar a decisão que tomara. Anos depois, muitos anos depois, Daniel dos Santos Brito, um dos dissidentes do Sport Lisboa que saltara para o Sporting (e haveria de se tornar um dos seus principais dirigentes...) descobriu Manuel Gourlade em «situação de degradação física e económica» perdido pela cidade - e conseguiu que o acolhessem no Asilo d`Espie Miranda, em Campolide, onde morreu, a caminho dos 70 anos, em 1944. Para o primeiro jogo do Sport Lisboa com o Sporting, a equipa que Gourlade fez foi: João Carvalho Persónio; Luís Vieira e Leopoldo Mocho; Alves, Cosme Damião e Marcolino Bragança; Félix Bermudes, António Costa, Eduardo Corga, António Meireles e Carlos França. (Não, o Sporting não ganhou esse Campeonato de Lisboa de 1907/1908, ganhou-o o Carcavelos. O Sporting ficou em segundo lugar - e o Benfica em terceiro.) ...
Do Passado para o Presente Com novo Benfica-Sporting a caminho, regressa-se a 10 de fevereiro de 1935. Foi o dia do primeiro Benfica-Sporting para o campeonato. Mais do que recordá-lo apenas – o que aqui se faz é mostrar-lhe um país onde a hipocrisia se misturava com a moral de sacristia. Acabou num empate, campeão foi o Benfica - a treiná-lo estava Vítor Gonçalves. 40 anos depois, o filho, tinha o país a arder, no PREC, era Vasco Gonçalves. Na segunda volta, o Sporting ganhou – e na sua primeira vitória para o campeonato houve pé de um brasileiro de Águeda que depois viveria drama no Porto, o drama de ter de ir para a baliza do Sporting sofrer oito golos, perder por 10-1… Até essa época de 1934/35, Portugal não tinha campeão a sair de uma Liga – para além dos Campeonatos Regionais havia o Campeonato de Portugal disputado ao jeito do que é hoje a Taça. A ideia de mudança fora de António Ribeiro dos Reis, Cândido de Oliveira e Maia Loureiro – e resultara sobretudo de um choque telúrico, a derrota da seleção em Espanha por 9-0: - A goleada, no apuramento na o Campeonato do Mundo, deu motivo a ironias e grandes gozações, mas acabou por ser mal que veio por bem. O Campeonato de Lisboa era, realmente, um torneio cada vez mais desinteressante (o último, então, carregadinho de problemas, até perdera a dignidade), o Campeonato de Portugal era uma prova rápida, a eliminar, faltava de facto uma Liga, no qual as melhores equipas se defrontassem entre si, felizmente fez-se... O derby, o primeiro Benfica-Sporting para o campeonato nacional, foi à quarta jornada, no Campo das Amoreiras – e acabou num empate.Carlos Torres marcou aos 27 minutos para o Benfica, Mourão empatou aos 65. NA PRIMEIRA VITÓRIA DO SPORTING, O GOLO DO MÁRTIR DOS 10-1... Na segunda volta, o Sporting bateu o Benfica por 3-1 - no Lumiar. Foi a 31 de março de 1935. Um dos três golos marcou-o Rui Carneiro. Era de Águeda e aos 13 anos, os pais emigraram para o Brasil, ele foi com eles. Lançou-se no futebol no Palmeiras - e de um momento para o outro decidiu voltar a Águeda. Joseph Szabo descobriu-o no Recreio - e levou-o para o FC Porto: - Desgostoso com as rivalidades internas que se viviam no FC Porto, achei que o melhor era regressar a Águeda e quando estava a caminho, o Sporting chamou-me para o Lumiar... No Sporting esteve só essa época - e mais uma, a última deu-lhe lugar na história: avançado portista atirou, com a força do seu remate, Artur Dyson para o hospital, para o seu lugar, na baliza, foi Rui Carneiro, sofreu oito golos na histórica goleada do FC Porto ao Sporting: 10-1. Ainda passou pelo Belenenses - e de voltou a dar nova volta à vida: foi de novo para o Brasil, ainda jogou no Vitória da Bahia, tornou-se treinador de sucesso no Esporte Clube Vitória. Os outros golos da primeira vitória do Sporting sobre o Benfica? Um foi de Francisco Lopes, outro foi de Manuel Soeiro. Sim, por essa altura, Adolfo Mourão era a estrela no Sporting. Chegara ao Lumiar em 1926 – e ainda antes de fazer 17 anos já se tornara titular indiscutível na linha de ataque. Aliás, antes, no Carcavelos, onde se lançara como jogador, falsificavam-lhe a idade para o pôr a jogar na primeira categoria: - Como tinha 14 anos, não podia... Dirigente do Sporting vira-o num desafio entre a Casa Borges & Irmão e a Casa Bertrand, no Campo Grande – e desviara-o para lá. GINÁSTICA DE PIJAMA, PELA MADRUGADA... Aliás, no Sporting havia o Mourão – e já havia, em igual fulgor, o Soeiro. Na época anterior, voltando Joaquim Oliveira Duarte, comandante da marinha, à sua presidência, voltou Filipe dos Santos, que de lá escapara, antes em tremenda turbulência, ao seu comando técnico - e o levara para Espanha. Novidade foi passar a haver nos seus jogos do Sporting claque organizada. O Sporting ganhara o Campeonato de Lisboa – e o Campeonato de Portugal de 1933/34 (a que o FC Porto não concorrera por estar suspenso pela FPF) mas, no fundo quem o ganhou foi o Soeiro. A final fora com o Barreirense, fechou-se a 4-3 e graças aos seus quatro golos – falou-se, pela primeira vez num jornal, em... poker, o poker do Soeiro, do Manuel Soeiro Vasques. Nascera e crescera no Barreiro e lá vivia. Para além de jogar futebol, passou a explorar a tabacaria do Sporting, vendendo jornais, revistas, cigarros, charutos - e antes de Filipe dos Santos o descobrir, descobriu ele Filipe dos Santos: - Estava no Luso e via o senhor Filipe a dar ginástica aos jogadores, que encaravam aquilo quase como um sacrifício. Estabeleci um plano de campanha. Pela manhã cedo, seis horas normalmente, levantava-me, vestia o pijama e sozinho ia para o quintal imitar o que tinha visto fazer ao senhor Filipe. Saltava à corda, fazia flexões, movimentos respiratórios, corria, pendurava-me... Minha mãe ao ver-me exercitando — e começava logo na cama, com abdominais — dizia que eu era maluco, não saindo a nenhum deles! Mas não, foi assim que se me abriu caminho para o sonho de ser do Sporting, do Sporting do senhor Filipe... O GUARDA-REDES QUE NÃO QUERIA ALTERNAR... Nesse primeiro Benfica-Sporting para a Liga repetiu-se o que acontecera na final daquele Campeonato de Portugal de 1933/34: para a baliza leonina foi Jordão Jóia, que viera do Nacional da Madeira - e não Artur Dyson, o Dyson que já antes lamentara: - Não compreendo a atitude da Direção do Sporting, do nosso treinador. Chamaram-me para me dizer que alternaria com Jóia. Recusei. Não me importava absolutamente nada de ir para a reserva, mas andar a saltitar, isso não, não me parece bem. Ao Jóia só reconheço uma vantagem sobre mim: a atenção ao jogo. Sou, de facto, um jogador... distraído, por vezes nem me recordo de que estou a jogar! O treinador do Benfica, que do Benfica faria campeão da Liga de 1935/36, era Vítor Gonçalves, o pai de Vasco Gonçalves, o primeiro ministro que em 1975 incendiaria Portugal com o PREC – e o do Sporting era um romeno: Wilhelm Possak. Jogara no Timissoara, notabilizara-se no Ujpest e no Vasas de Budapeste e, já em final de carreira, apareceu, quase à aventura, no Lumiar. Joaquim Oliveira Duarte, sabendo do fulgor do seu passado, ofereceu-lhe contrato de jogador e de treinador. Essa Liga de 1934/35, a primeira da história, acabou ganha pelo FC Porto – com o Sporting em segundo lugar e o Benfica em terceiro. Ainda houve, nessa época, Campeonato de Portugal – e no Campeonato de Portugal, os sportinguistas vingaram-se dos portistas, afastando-os da final com 0-0 no Lima e 4-0 no Campo Grande. O PRIMEIRO BENFICA-SPORTING NA FINAL DO CAMPEONATO DE PORTUGAL Adversário na final do Campeonato de Portugal? O Benfica - e foi a primeira vez em que a final do Campeonato de Portugal se vez entre Benfica e Sporting. No Campo do Lumiar, perante mais de 30 mil espectadores - Óscar Carmona, o Presidente da República que tinha um neto que haveria de jogar futebol no Sporting, o Sporting de que ele era Sócio Honorário, chamou à tribuna de honra os finalistas, cumprimentando-os um a um e desejando-lhe «sorte e raça». Mourão fez 1-0, Lucas empatou - e Valadas pintou o título de vermelho. Campeonato de Portugal houve ainda em mais três edições. Na de 1935/36, o Sporting ganhou a final ao Belenenses. Na de 1936/37, o FC Porto ganhou a final ao Sporting. E na de 1937/38, o Sporting ganhou a última final da prova que deu lugar à Taça de Portugal ao Benfica - e o Benfica que perdera a primeira das quatros edições do Campeonato da Liga (que a partir de 1938/39 passou a denominar-se Campeonato Nacional da I Divisão) venceu as três seguintes. (E, com isso, campeão da Liga foi o que o Sporting nunca foi...) ...