QUINTA-FEIRA, 05-05-2016, ANO 17, N.º 5941
Conteúdo inexistente.

destaques

Da Kim Kardashian ao Elvis, dos Schmeichel à pizza...
Grande História Podem chamar-lhe conto de fadas - ou a história em estado de choque. Podem chamar-lhe o que quiserem mas há muito que o futebol não dava à vida metáfora assim - no campeonato de Inglaterra ganho pelo Leicester. Feita de segredos e mistérios que aqui se desfazem - e de curiosidades incríveis que aqui se revelam. Por exemplo, repare nesta: no dia 2 de maio de 1993, Peter Schmeichel sagrava-se campeão de Inglaterra pelo Manchester United, num dia em que não jogou, mas em que beneficiou do facto de o rival direto na luta pelo título não ter ganho (era o Aston Villa e perdeu 2-1 com o Oldham). Tinha 29 anos, o guarda-redes que sempre teve o coração perto da boca e que no Sporting foi um autêntico Grand Danois. Com ele os leões quebraram um jejum de 18 anos. No dia 2 de maio de 2016, a história repetiu-se, desta vez com Kasper, o filho pródigo que lhe roubou o protagonismo: pelo Leicester sagrou-se campeão de Inglaterra, aos 29 anos - e também sem jogar, beneficiando do romantismo de Hazard: neste caso, o Tottenham, o rival direto empatou 2-2 com o Chelsea. E foi assim que aconteceu o que para as casas de apostas era menos provável do que Elvis estar vivo, do que Kim Kardashian ser presidente dos EUA ou do que o Papa tornar-se futebolista. E temos mais, muito mais, para lhe contar... Escrevia Eduardo Galeano, escritor uruguaio, que ´o golo é o objetivo principal no futebol. É isso que determina quem ganha e quem perde, independentemente da nota artística. Mas há outro momento especial neste jogo seguido por milhões de pessoas: a finta, a que Galeano descreveu como o puro prazer do corpo que se lança na proibida aventura da liberdade. Nos textos sobre futebol, e não só, nunca teve dúvidas em temperar os factos com uns pozinhos de lenda. Ele próprio foi sempre um adepto ferrenho pela grande arte, mas acabou por trocar os pés pelas mãos, foi a escrita que o inspirou, foi a escrita dele que lhe apresentou o mundo. Os anos foram passando e, com o tempo, acabou por assumir a identidade: não passo de um mendigo do bom futebol. Ando pelo mundo de chapéu na mão, e nos estádios suplico: - Uma linda jogada, pelo amor de Deus! E quando acontecia o bom futebol, agradecia o milagre: - Sem me importar com o clube ou o país que o oferece. UM CONTO DE FADAS CHAMADO LEICESTER Galeano, mais do que um romântico escritor, foi o apaixonado pelas palavras que tirou o futebol da sombra. No seu estilo de escrita há uma dimensão mística, comum a autores do chamado realismo mágico, como Garcia Marquez ou Julio Cortazar: «Há tentativas de explicar milagres técnicos e físicos do futebol com magia, os grandes futebolistas são como anjos que aparecem a pairar no mundo real». Claudio Ranieri esperou trinta anos para ser feliz. Com poucos milhões transformou os pequenos sapos do Leicester em príncipes. É uma daquelas corridas desenfreadas de Kanté. O remate certeiro de Vardy. A finta que deixa o defesa por terra de Mahrez. O corte impetuoso de Wes Morgan. Só quem vê consegue acreditar. São daquelas histórias deliciosas que transcendem os próprios livros – um verdadeiro conto de fadas tornado realidade. Para Galeano, o futebol é algo tão importante que não se pode conversar apenas alguns minutos sobre ele, é preciso dedicar-lhe horas e horas. Ranieri dedicou-lhe uma temporada, que mais pareceu uma vida. Porque futebol é isto. O jogo tem várias cores, e depois vários tons. Nem todos são vivos e brilhantes, nem sempre ganham os que estão na moda. Chamem-lhe milagre, conto de fadas, choque, chamem-lhe o que quiserem, mas o Leicester é campeão. ...
Grande História Sem tramoia a dois judeus, que pode ter tido dedo de Hitler, Jesse Owens não teria ganho quatro medalhas de ouro em Berlim. Sentimental, ainda tentou que não o pusessem na estafeta de 4x100 metros, mandaram-no calar, dizendo-lhe: - Tu, aqui, só tens de correr e fazer o que te mandarem! Depois, quiseram obrigá-lo a andar em tournée pela Europa, não aceitou, apanhou o primeiro barco regressou à América – e ao chegar vários hotéis de Manhattan recusaram-lhe entrada por ser negro. Pior aconteceu depois – e aos 23 anos já estava irradiado do atletismo… (E, sim, é assim que se fecha, no capítulo 3, a história de Jesse Owens...) Magnífico o filme que Leni Riefeensthal fez dos Jogos Olímpicos de 1936. E, nele, empolgantes as imagens de Jesse Owens. Encolhido como uma pantera antes dos 8,06 metros do salto em comprimento. Sorrindo como uma criança depois do abraço de Lutz Long. Elétrico, como se quisesse engolir nervosamente os lábios antes da partida para a final dos 100 e dos 200 metros - e o bulício indistinto das suas pernas parecendo asas quando passava pelo italiano Orazio Mariani a caminho da quarta medalha de ouro nos 4x100 metros – como se ele fosse a velocidade em beleza, o deslumbramento em corrida. E da estafeta também saiu mistério que nunca mais se desfez... TAMBÉM NÃO TEVE BOLSAS, LAVOU PRATOS, LIMPOU O CHÃO… De Ohio, tal como Jesse Owens, era Sam Stoller: - Desde que a escola, desde o liceu, eu era o tipo que ficava sempre em segundo lugar porque em todas as minhas corridas estava o Jesse. Quando chegou a altura da universidade, foram por caminhos diferentes: Owens para a Ohio State University, Stoller para a Michigan University. Num ponto, voltaram a ter destinos iguais: nem um, nem outro, conseguiram bolsa que lhes pagasse os estudos – para o fazer, Sam lavou pratos na cantina da Universidade, limpou o chão nas instalações da Fraternidade. Sobre o dia em que se apurou para Berlim, Stoller afirmou: - Ao passar por mim, ouvi Jesse gritar-me: Vai Sam, força atrás de mim, tu consegues. Nunca na vida vi ninguém com coração maior do que ele. Na final, abraçou-me, disse-me, sorrindo, como só ele sorria: Eu sabia que tu conseguias, não podia deixar de puxar por ti, desculpa lá se te incomodei… Não, Sam Stoller não ganhou ali o apuramento para os 100 metros, ganhou-o para os 4x100 - e Marty Glickman também. OWENS DEFENDEU OS JUDEUS DA INJUSTIÇA, MANDARAM-NO CALAR-SE… Stoller e Glickman eram ambos judeus – e, na véspera da estafeta, Lawson Robertson, o head coach dos Estados Unidos, marcou reunião de emergência – e foi direto ao assunto: - Descobrimos que os alemães esconderam os seus melhores sprinters para nos ganharem de surpresa os 4x100 metros. Por isso decidi que vamos correr com Owens e Metcalfe. Sam Stoller, completamente atordoado, não foi capaz de dizer uma palavra – e Jesse Owens saltou, felino, em sua defesa: - Mister, eu já ganhei três medalhas de ouro, as três medalhas que vinha para ganhar. Estou cansado, estou feliz. Por isso, lhe peço: não faça uma coisa dessas a Sam e a Marty. Eles também merecem ser campeões olímpicos. Brusco, Deam Cromwell, o treinador assistente, ripostou-lhe: - Jesse, tu, aqui, só tens de correr e fazer o que te mandarem!...
Grande História Capítulo 2. Ainda não é aqui que se vai contar o que Jesse Owens achou que foi a humilhação por que passou na América - de nem sequer ter recebido telegrama do seu presidente a ter de subir ao topo de um hotel de Nova Iorque no elevador da carga e os outros campeões olímpicos brancos não. O que aqui se conta é o que o holandês que foi responsável pela deportação de judeus para campos de concentração (e por coisas piores...) tem a ver com Jesse Owens. Ou porque a morte do primeiro campeão olímpico de 1936 levou a um massacre na Bielorrússia. E também se fala da campeã do dardo que teve uma filha e ela garante que é filha de Hitler também. E de como, no ataque à Sicília, o exército alemão debandou em fuga deixando à morte Lutz Long - o mais emotivo adversário de Jesse Owens nos Jogos Olímpicos de Berlim, o adversário que, apesar de já ser nazi e de ter Hitler em ânsias por vê-lo ganhar, deu a Jesse Owens o truque que o salvou de ser afastado da final do salto em comprimento… À chegada (e não só…) dos americanos a Berlim para os Jogos Olímpicos de 1936 que tinham ameaçado boicotar – e só não boicotaram por Hitler jurar, cínico, que não haveria traço de racismo ou de política, de propaganda ou de perseguição a cruzá-los, havia já na equipa um ícone, o ícone que levou a que sucedesse o que contou James LuValle (que lá ganhou a medalha de bronze nos 400 metros e muito mais famoso ficou, depois, por ter feito parte, na UCLA, da equipa de Glenn T. Seaborg, vencedor do Prémio Nobel da Química): - Mal se apercebiam da nossa presença, os alemães gritavam: Onde está Jesse? Onde está Jesse? Não lhe queriam só tocar, não lhe queriam só uma palavra, não lhe queriam só um autógrafo, não lhe queriam só um olhar - entre a multidão havia sempre mulheres e, uma ou outra vez, de tesoura na mão, as tesouras com que queriam cortar pedaços de pano do equipamento do Jesse para ficarem com eles como relíquias. Quando isso se soube, decidiu-se que sempre que o Jesse saísse da Aldeia teria de ser acompanhado por soldados a protegê-lo – e foi o que aconteceu. Nunca tinha visto euforia assim, delírio assim, por um atleta… GANHOU O SALTO EM ALTURA MESMO SAINDO ATRASADO DA ALDEIA, A ELE SIM, HITLER NÃO APERTOU A MÃO… No dia dos quartos de final dos 100 metros, a 2 de agosto, disputou-se a final do salto em altura – e de lá saiu Cornelius Johnson com o recorde olímpico a 2,03 metros. Atrasara-se a sair da Aldeia Olímpica, quando chegou ao estádio a fasquia já estava a 1,97. Não se atemorizou, passou bem acima e quando passou 2.03 metros não quis saltar mais, tinha ouro garantido. David Albritton ficou com a prata, a 2,00. Negro como Cornelius, ambos tinham aterrado em Berlim com 2,07 metros – recordistas mundiais se tornaram no Randall´s Island de Nova Iorque, a 12 de Julho. Cornelius em «western roll», Albritton. em rolamento ventral – novidade que se espalharia pelo mundo até que Dick Fosbury tivesse uma outra ideia, genial, o salto de costas. NÃO, NÃO FOI A OWENS QUE HITLER RECUSOU APERTAR A MÃO… Ao contrário do que diz a lenda, não foi a Jesse Owens que Hitler recusou aperto mão. Foi a eles os dois, a Johnson e a Albritton. Vinham do pódio, olhou-os de soslaio – antes que passassem por ele, o Fuher deixou, irritado, a tribuna, foi-se embora do estádio. Durante o hino dos Estados Unidos, três os americanos não deixaram de lançar-lhe imagem provocadora: em vez da saudação nazi, fizeram, de braço no ar, mas sem a mão erguida de frente, a saudação olímpica. Parece que fora ideia de Delos Thurber, o terceiro classificado, o que não era negro. Formara-se na University of Southern California – e durante a II Guerra Mundial serviu, como piloto, no Teatro de Operações do Pacífico. Quando se deu o Armistício, Thurber em vez de voltar à Califórnia, deixou-se ficar nas Filipinas – lá fundou a Philippine Airlines. Por essa altura, Cornelius deixara de trabalhar como carteiro - empregou como padeiro de um paquete da Grace Line´s chamado Santa Cruz. Um ano depois, algures por 1946, em alto mar, apanhou uma pneumonia. Ainda conseguiu chegar a um hospital da Califórnia, mas já não a tempo de se salvar. Morreu com 32 anos. Albritton tornou-se estudante brilhante da Ohio State University onde também andava Jesse Owens – e por Ohio foi eleito para a Câmara de Representantes durante seis mandatos sucessivos e apesar do seu envolvimento na política nunca deixou de ser treinador da universidade, ganhando vários títulos americanos. ...