QUINTA-FEIRA, 05-05-2016, ANO 17, N.º 5941
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destaques

Foram 4 medalhas de ouro por causa de 2 judeus…
Grande História Sem tramoia a dois judeus, que pode ter tido dedo de Hitler, Jesse Owens não teria ganho quatro medalhas de ouro em Berlim. Sentimental, ainda tentou que não o pusessem na estafeta de 4x100 metros, mandaram-no calar, dizendo-lhe: - Tu, aqui, só tens de correr e fazer o que te mandarem! Depois, quiseram obrigá-lo a andar em tournée pela Europa, não aceitou, apanhou o primeiro barco regressou à América – e ao chegar vários hotéis de Manhattan recusaram-lhe entrada por ser negro. Pior aconteceu depois – e aos 23 anos já estava irradiado do atletismo… (E, sim, é assim que se fecha, no capítulo 3, a história de Jesse Owens...) Magnífico o filme que Leni Riefeensthal fez dos Jogos Olímpicos de 1936. E, nele, empolgantes as imagens de Jesse Owens. Encolhido como uma pantera antes dos 8,06 metros do salto em comprimento. Sorrindo como uma criança depois do abraço de Lutz Long. Elétrico, como se quisesse engolir nervosamente os lábios antes da partida para a final dos 100 e dos 200 metros - e o bulício indistinto das suas pernas parecendo asas quando passava pelo italiano Orazio Mariani a caminho da quarta medalha de ouro nos 4x100 metros – como se ele fosse a velocidade em beleza, o deslumbramento em corrida. E da estafeta também saiu mistério que nunca mais se desfez... TAMBÉM NÃO TEVE BOLSAS, LAVOU PRATOS, LIMPOU O CHÃO… De Ohio, tal como Jesse Owens, era Sam Stoller: - Desde que a escola, desde o liceu, eu era o tipo que ficava sempre em segundo lugar porque em todas as minhas corridas estava o Jesse. Quando chegou a altura da universidade, foram por caminhos diferentes: Owens para a Ohio State University, Stoller para a Michigan University. Num ponto, voltaram a ter destinos iguais: nem um, nem outro, conseguiram bolsa que lhes pagasse os estudos – para o fazer, Sam lavou pratos na cantina da Universidade, limpou o chão nas instalações da Fraternidade. Sobre o dia em que se apurou para Berlim, Stoller afirmou: - Ao passar por mim, ouvi Jesse gritar-me: Vai Sam, força atrás de mim, tu consegues. Nunca na vida vi ninguém com coração maior do que ele. Na final, abraçou-me, disse-me, sorrindo, como só ele sorria: Eu sabia que tu conseguias, não podia deixar de puxar por ti, desculpa lá se te incomodei… Não, Sam Stoller não ganhou ali o apuramento para os 100 metros, ganhou-o para os 4x100 - e Marty Glickman também. OWENS DEFENDEU OS JUDEUS DA INJUSTIÇA, MANDARAM-NO CALAR-SE… Stoller e Glickman eram ambos judeus – e, na véspera da estafeta, Lawson Robertson, o head coach dos Estados Unidos, marcou reunião de emergência – e foi direto ao assunto: - Descobrimos que os alemães esconderam os seus melhores sprinters para nos ganharem de surpresa os 4x100 metros. Por isso decidi que vamos correr com Owens e Metcalfe. Sam Stoller, completamente atordoado, não foi capaz de dizer uma palavra – e Jesse Owens saltou, felino, em sua defesa: - Mister, eu já ganhei três medalhas de ouro, as três medalhas que vinha para ganhar. Estou cansado, estou feliz. Por isso, lhe peço: não faça uma coisa dessas a Sam e a Marty. Eles também merecem ser campeões olímpicos. Brusco, Deam Cromwell, o treinador assistente, ripostou-lhe: - Jesse, tu, aqui, só tens de correr e fazer o que te mandarem!...
Grande História Capítulo 2. Ainda não é aqui que se vai contar o que Jesse Owens achou que foi a humilhação por que passou na América - de nem sequer ter recebido telegrama do seu presidente a ter de subir ao topo de um hotel de Nova Iorque no elevador da carga e os outros campeões olímpicos brancos não. O que aqui se conta é o que o holandês que foi responsável pela deportação de judeus para campos de concentração (e por coisas piores...) tem a ver com Jesse Owens. Ou porque a morte do primeiro campeão olímpico de 1936 levou a um massacre na Bielorrússia. E também se fala da campeã do dardo que teve uma filha e ela garante que é filha de Hitler também. E de como, no ataque à Sicília, o exército alemão debandou em fuga deixando à morte Lutz Long - o mais emotivo adversário de Jesse Owens nos Jogos Olímpicos de Berlim, o adversário que, apesar de já ser nazi e de ter Hitler em ânsias por vê-lo ganhar, deu a Jesse Owens o truque que o salvou de ser afastado da final do salto em comprimento… À chegada (e não só…) dos americanos a Berlim para os Jogos Olímpicos de 1936 que tinham ameaçado boicotar – e só não boicotaram por Hitler jurar, cínico, que não haveria traço de racismo ou de política, de propaganda ou de perseguição a cruzá-los, havia já na equipa um ícone, o ícone que levou a que sucedesse o que contou James LuValle (que lá ganhou a medalha de bronze nos 400 metros e muito mais famoso ficou, depois, por ter feito parte, na UCLA, da equipa de Glenn T. Seaborg, vencedor do Prémio Nobel da Química): - Mal se apercebiam da nossa presença, os alemães gritavam: Onde está Jesse? Onde está Jesse? Não lhe queriam só tocar, não lhe queriam só uma palavra, não lhe queriam só um autógrafo, não lhe queriam só um olhar - entre a multidão havia sempre mulheres e, uma ou outra vez, de tesoura na mão, as tesouras com que queriam cortar pedaços de pano do equipamento do Jesse para ficarem com eles como relíquias. Quando isso se soube, decidiu-se que sempre que o Jesse saísse da Aldeia teria de ser acompanhado por soldados a protegê-lo – e foi o que aconteceu. Nunca tinha visto euforia assim, delírio assim, por um atleta… GANHOU O SALTO EM ALTURA MESMO SAINDO ATRASADO DA ALDEIA, A ELE SIM, HITLER NÃO APERTOU A MÃO… No dia dos quartos de final dos 100 metros, a 2 de agosto, disputou-se a final do salto em altura – e de lá saiu Cornelius Johnson com o recorde olímpico a 2,03 metros. Atrasara-se a sair da Aldeia Olímpica, quando chegou ao estádio a fasquia já estava a 1,97. Não se atemorizou, passou bem acima e quando passou 2.03 metros não quis saltar mais, tinha ouro garantido. David Albritton ficou com a prata, a 2,00. Negro como Cornelius, ambos tinham aterrado em Berlim com 2,07 metros – recordistas mundiais se tornaram no Randall´s Island de Nova Iorque, a 12 de Julho. Cornelius em «western roll», Albritton. em rolamento ventral – novidade que se espalharia pelo mundo até que Dick Fosbury tivesse uma outra ideia, genial, o salto de costas. NÃO, NÃO FOI A OWENS QUE HITLER RECUSOU APERTAR A MÃO… Ao contrário do que diz a lenda, não foi a Jesse Owens que Hitler recusou aperto mão. Foi a eles os dois, a Johnson e a Albritton. Vinham do pódio, olhou-os de soslaio – antes que passassem por ele, o Fuher deixou, irritado, a tribuna, foi-se embora do estádio. Durante o hino dos Estados Unidos, três os americanos não deixaram de lançar-lhe imagem provocadora: em vez da saudação nazi, fizeram, de braço no ar, mas sem a mão erguida de frente, a saudação olímpica. Parece que fora ideia de Delos Thurber, o terceiro classificado, o que não era negro. Formara-se na University of Southern California – e durante a II Guerra Mundial serviu, como piloto, no Teatro de Operações do Pacífico. Quando se deu o Armistício, Thurber em vez de voltar à Califórnia, deixou-se ficar nas Filipinas – lá fundou a Philippine Airlines. Por essa altura, Cornelius deixara de trabalhar como carteiro - empregou como padeiro de um paquete da Grace Line´s chamado Santa Cruz. Um ano depois, algures por 1946, em alto mar, apanhou uma pneumonia. Ainda conseguiu chegar a um hospital da Califórnia, mas já não a tempo de se salvar. Morreu com 32 anos. Albritton tornou-se estudante brilhante da Ohio State University onde também andava Jesse Owens – e por Ohio foi eleito para a Câmara de Representantes durante seis mandatos sucessivos e apesar do seu envolvimento na política nunca deixou de ser treinador da universidade, ganhando vários títulos americanos. ...
Grande História Capítulo 1. Sim, é tão impressionante (e tão incrível) a história de vida de Jesse Owens (e a história da vida de gente que com ele se cruzou ainda mais, talvez…) que a vamos contar em vários capítulos.(Vá até ao fim e quando lá chegar pode ter a certeza: das próximas vezes vai espantar-se mais, muito mais - e não apenas com o aquilo de que aqui ainda se não falou: do mistério do aperto de mão a Hitler à certeza da Casa Branca que Roosevelt não lhe abriu, não lhe mandando, sequer, mensagem a felicitá-lo pelas quatro medalhas de outro de Berlim, que só foram quatro por causa de dois judeus. E isso é um exemplo apenas do que descobrirá por aqui - mas ainda não agora... Antes de Jesse Owens houve outro, pode dizer-se que sim, que o primeiro grande velocista negro da história do atletismo não foi ele - foi Eddie Tolan. Nascera no Colorado, crescera em Salt Lake City – e uma vez contou: - Depois de estudar várias cidades, o meu pai descobriu que o melhor sítio para uma família de negros sonhar era Detroit. Pagou na minha mãe e nos meus quatro irmãos – e fomos todos para lá viver… Toland tinha 15 anos, na Cass Technical High School de Detroit logo se lhe percebeu o jeito para a velocidade. E ainda mais para o futebol americano. Foi, aliás, pelo futebol americano que Eddie Tolan entrou na Universidade de Michigan – entrada história por ser o primeiro negro a lá jogar no século XX. (Em 1890, a equipa tivera nas suas hostes George Jewett, filho de um abastado ferreiro que na Michigan University se tornara médico, um dos primeiros médicos afro-americanos que os Estados Unidos tiveram…) DISSERAM-LHE QUE FUTEBOL NÃO, PARECIA UM DIÁCONO… De repente, deu-se volte-face no destino: lesão num joelho abalou-o ao terceiro treino, o treinador que o levara chamou Eddie Tolan ao seu escritório, anunciou-lhe, pesaroso: - Os restantes técnicos julgam que o joelho vai trair-te, não te querem na equipa. Disse-lhe que estava cada vez mais encantado contigo, eles desconfiam que estou iludido. Como tive medo de ser derrotado na minha fé, aceitei a decisão. Em vez de ires para a equipa de futebol americano, vais para a nossa equipa de atletismo… Eddie Tolan corria a mascar pastilha elástica e com óculos de aros redondos presos por fita adesiva – por causa disso um jornalista escreveu: - Parece um diácono de uma igreja a espantar almas na cinza. Foi assim que, a 1 de Julho de 1930, em Vancouver, fez 10,2 segundos aos 100 metros. Apesar de a meta ter sido posta num ponto 30 centímetros mais alto do que a partida e de haver filme que mostrava que não se insinuava na pista um fio de vento, a IAAF não aceitou a marca como recorde do mundo – porque o anemómetro não estava lá. Se valesse só teria sido batido 26 anos depois. DEPOIS DO OURO EM LOS ANGELES, SÓ QUERIA EMPREGO… Foi já como The Midnigth Express, O Expresso da Meia Noite, que chegou aos Jogos Olímpicos de Los Angeles – e juntou a medalha de ouro dos 200 à dos 100 metros. Nos 100, protagonizou o mais um dos mais arrepiantes duelos da história, Eddie Tolan contra Ralph Metcalfe, dele saindo, ambos, em 10,38 segundos – recorde mundial eletrónico. Frank Murphy, o prefeito de Detroit, organizou manifestação de boas vindas para o receber na estação de comboios. Chorando, a mãe pediu que lhe arranjassem um emprego – e ao pai que caíra no desemprego. E Eddie, que já perdera a esperança de estudar para médico, deu toque mais comovente ao lamento: - Nós aqui nesta festa e o meu irmão lá fora, no parque, a apanhar papel... Mas tem mais sorte do que eu, ao menos tem trabalho... A súplica caiu em saco roto – e seis meses depois, William H. Beatty, escreveu numa crónica, num jornal de Detroit: - É inadmissível o que está a acontecer ao homem mais rápido do mundo. O vinho inebriante das suas vitórias em Los Angeles transformou-se durante a noite no mais acre vinagre… A SUA DESGRAÇA? TER ENTRADO EM ESPETÁCULOS DO FRED ASTAIRE NEGRO… Teve efeito o reparo: em janeiro de 1933, arranjaram-lhe emprego num cartório de Detroit – mas pagavam-lhe tão pouco que aceitou outro desafio: entrar em espetáculos de vaudeville com Bill Robinson, o Fred Astaire negro dos anos 20 e 30. Por causa do dinheiro que assim ganhou, em junho, a Michigan Amateur Athletic Association retirou-lhe o estatuto de amador, não pôde, por tal razão, voltar aos Jogos Olímpicos Como profissional Eddie Tolan andou pela até pela Austrália – e no regresso a Detroit voltou a escriturário no cartório. Em 300 corridas perdera apenas sete. Tornou-se professor de educação física – e em 1965 sentiu os rins a falharem. A hemodiálise não o salvou. Dois anos depois morreu – e nesse dia Jesse Owens molhou de lágrimas frase que murmurou: - Quando eu andava na escola, Eddie era o meu ídolo, foi ele que me ensinou a olhar para cima e a sonhar......