QUARTA-FEIRA, 27-05-2015, ANO 16, N.º 5597
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destaques

O doente mental e os «arrebentas» no mistério que começou nos olhos duma mulher às voltas no lixo e nunca se desfez...
Do Passado para o Presente A polícia, dizendo o que disse, adensou ainda mais o mistério, o mistério da morte de Joaquim Ferreira, o treinador do Sporting que, dias antes, ganhara a Taça de Portugal ao Olhanense, a última que se disputou no Estádio das Salésias. Isso lhe contamos, contando também o que ganhou Jesus Correia por ter marcado um golo depois de ter andado quase todo o jogo a coxear e o que perdeu Fernando Cabrita depois de ter regressado ao quartel a chorar... Por Lisboa, havia, entre muitos outros colados em muros e paredes por agentes do SNI, cartazes que diziam: «A Europa é um montão de ruínas. A miséria devasta a maior parte dos países. O inverno que se avizinha ameaça os povos com a fome, o frio, a morte. Entretanto em Portugal há ordem, a vida decorre tranquila, há pão e apesar de três anos agrícolas péssimos não se morre de fome». (Havia mais, havia outros – e ainda mais salazarentos e fervorosos na criação do mito...) Um corpo estendido, um fato esfrangalhado no olhar da mulher que apanhava trapos... Não longe de propaganda assim, uma mulher apanhava trapos dos montículos de lixo, no Parque Eduardo VII. De um olhar furtivo, saltou-lhe um corpo estendido, com o fato esfrangalhado, cheio de sangue. Chamou, aflita, o polícia de turno. Na carteira, descobriu-se um bilhete de identidade um cartão de sócio do Sporting e outro de fiscal das obras das auto-estradas. Arranhaduras e um dedo espalmado logo se tomaram por sinais de que antes do golpe que lhe atingira o coração, tinha havido luta. O corpo encontrado de Joaquim Casemiro Rodrigues Ferreira, o Joaquim Ferreira que, como treinador do Sporting, dias antes, a 1 de julho de 1945, ganhara a Taça de Portugal ao Olhanense. Fora do Setúbal para o Sporting em 1920. Tinha, então, 20 anos - e com Jorge Vieira fez parelha histórica no clube e a seleção, era o «back» direito. Tendo perdido, entretanto, o lugar na defesa para José Leandro, em 1926/27 pediu que o deixassem regressar ao Vitória, com ele foi Torres Pereira, que tornara já, também, outro símbolo no Lumiar. Ficara no lugar de Szabo a ganhar 1800 escudos por mês (não dava nem para comprar uma bicicleta...) Ferreira deixou de jogar em 1933 – e em janeiro de 1945 o Sporting chamou-o para adjunto de Joseph Szabo. Ganharam o Campeonato de Lisboa – alargando o recorde de vitórias do clube na competição para 17 – mas o início do Campeonato Nacional da I Divisão foi em contradança, perdendo com o V. Setúbal, o FC Porto e o Benfica, razão porque em abril Szabo foi despedido, passou Ferreira a treinador principal, a troco de 1800 escudos por mês. (Era o tempo em que uma bicicleta custava 1990 escudos – e um «casaco de patas de raposa e punhos de lobo» andava pelos anúncios dos Armazéns do Chiado por 6500 escudos...) Joaquim Ferreira acertou o passo ao leão, conseguiu ainda fechar o campeonato em segundo lugar, a três pontos do Benfica – e na Taça de Portugal eliminou o FC Porto (graças a vitória por 4-1 no Lima...) e o Benfica, dos benfiquistas desembaraçou-se ao terceiro jogo, mesmo sem Fernando Peyroteo, que, na segunda mão fora expulso por ter dado um soco a Gaspar Pinto. ...
Do Passado para o Presente Primeiro treinador campeão da liga no SLB? O pai de Vasco Gonçalves que 40 anos depois incendiou o país com o PREC. Primeiro bicampeão da liga no SLB? Um húngaro que chegou a Lisboa a fugir da Guerra Civil de Espanha e que em Madrid ganhara o primeiro título para o Real, mas que fora despedido por o acharem de «pulso fraco», o seu substituto aguentou apenas 54 dias no cargo, chamava-se Santiago Bernabéu. São histórias assim que aqui se contam a pretexto do título 34 do Benfica e do bi de Jorge Jesus... A 28 de maio de 1926, Portugal passou da democracia à ditadura – e o Benfica também entrou em revolução: Bento Mântua vinha de presidente desde julho de 1917, deixou de sê-lo. (Era diretor geral do Ministério das Finanças – e prestigiado escritor dramático. Quando a 5 de Outubro de 1910 a monarquia se desfez a partir da Rotunda, o novo regime garantiu, célere, que jamais se voltaria à «censura humilhante e atrofiadora» que raras vezes permitia ao teatro ser «irreverente e altivo» mas em 1913, depois de Afonso Costa, Bernardino Machado e António José de Almeida terem saltado para a «berlinda da revista», o governo proibiu-lhe Soldado Raso…marche!, sob a alegação de que «insultava o Exército» - e Mântua tornou-se, assim, o primeiro dramaturgo censurado pela República...) Cosme Damião irritou-se e não quis ser presidente... Durante o mandato de Mântua – que só era presidente porque Cosme Damião não o queria ser - o Benfica projetou a construção do Campo das Amoreiras. O terreno custou 450 contos – e a construção ficou por 1500. O que deixou o clube hipotecado à Caixa Geral de Depósitos. Houve quem achasse que fora exagero tanto gastar – e levantou-se em contestação. A oposição tentou pôr Cosme Damião, o vice de Bento Mântua, na presidência, mas ele, caprichoso, por causa do desconchavo ao amigo e das dúvidas levantadas em torno dos dinheiros do estádio, avisou que não aceitaria o cargo, nem que tivesse de pedir demissão de sócio. Para presidente, o cunhado de Ribeiro dos Reis... A solução teve, pois, de ser outra – e em agosto de 1926, Alfredo da Silveira Ávila de Melo, engenheiro naval que fora aluno da Casa Pia e se casara com Ema Ribeiro dos Reis, assumiu a presidência tendo como vice o cunhado António e como secretário Vítor Gonçalves. (Ambos tinham jogado na primeira seleção de futebol contra a Espanha, tal como Cândido de Oliveira – mas quando, em 1919, Cândido deixou o Benfica para fundar o Casa Pia AC, Gonçalves e Ribeiro dos Reis não o quiseram acompanhar, mantivera-se fiéis ao SLB, apesar de casapianos terem sido também...) Vice-secretário era Joaquim Ferreira Bogalho – e tendo a sua direção herdado 900 contos em dívidas, ao fim de quatro reuniões demitiu-se. Descoberto em Setúbal, o treinador que também era massagista... As finanças foram-se compondo, durante três épocas, António Ribeiro dos Reis era além de vice-presidente, o treinador da equipa de futebol – e à entrada para a temporada de 1929/30 decidiu que era hora de outra jogada. Seis anos antes chegara a Setúbal Arthur John. Tinha sangue inglês, mas nascera na Áustria. Foi jogador – e além de jogador... treinador e massagista (era-o de tal forma que criou um ritual que era um espanto: às vezes, se levantava do banco para ir massajar os jogadores que sentia mais precisados disso...) O guarda-redes que ainda não era da PIDE e a confusão que meteu pontapés no árbitro e polícia a tirar jogador do campo John levara o Vitória de Setúbal a campeão de... Lisboa - e mal chegou às Amoreiras fez do Benfica o que o Benfica nunca tinha sido: campeão de Portugal, o título saiu da vitória por 3-1 frente ao Barreirense, a 1 de junho de 1930, no Campo Grande. Porém, antes da festa, houve polémica – e da grossa... A 9 de março de 1930, o Benfica estava empatado 1-1 com o Casa Pia AC no Campo do Restelo – e para ser campeão de Lisboa precisava de ganhar. À beira do fim, Carlos Monteiro, o árbitro de Setúbal, anulou o que seria o segundo golo do Benfica – e agitou-se a escaramuça por se achar que António Roquete, o guarda-redes que, por essa altura, ainda não era o que haveria de ser: agente da PIDE, defendera a bola dentro da baliza. Transformou-se o jogo num paiol a arder – e logo depois ao ver Guedes Gonçalves ceifado por um defesa casapiano, João de Oliveira correu para ele em desforço. Engalfinharam-se um no outro, fora ambos expulsos. Luís Fernandes saiu, João Oliveira não. Perante o amuo, Monteiro pediu à polícia que o tirasse do campo – e antes da guarda o levar empurrou e pontapeou o árbitro... Manifestação de benfiquistas na AFL dispersada à bastonada pela polícia... Tentando evitar na secretaria que o título fosse para o Belenenses, o Benfica apresentou protesto à AFL – por causa do golo que lhe fora anulado e na reunião em que se iria analisar o caso aconteceu o que O Século contou: «Juntou-se uma numerosa multidão nas escadas do prédio onde está instalada a Associação de Futebol de Lisboa e no Largo Trindade Coelho, que lhe fica fronteiro, secundando o protesto que, naquela associação, foi entregue pelo Sport Lisboa e Benfica, contra as decisões do árbitro no desafio com o Casa Pia AC. Junto à entrada da Associação, a Polícia conteve a custo a multidão que, por vezes, fazia ouvir energicamente os seus protestos. Como na rua a aglomeração de povo fosse grande, a ponto de prejudicar o trânsito e a boa ordem, saiu o piquete de serviço do Governo Civil que, a pouco e pouco, conseguiu dispersar a multidão, não permitindo, depois, agrupamentos no citado largo...» (No artigo não se dizia, a Censura já existia e não o deixava, mas soube-se: a manifestação dispersou-se à bastonada - como começava a ser regra...) O Benfica decidiu abandonar todas as provas, cada sócio devia dar 5 escudos pelo menos para evitar prejuízos, não foi preciso... Do que saiu, então, da AFL? O protesto do Benfica indeferido – e João de Oliveira punido com oito meses de suspensão. Não, não foi só: Pedro Silva, Jorge Tavares e Manuel de Oliveira foram castigados por 15 dias e Aníbal José com 20. O Benfica, considerando que: - as culpas do que acontecera no Campo do Restelo se deviam, em primeiro lugar, ao Colégio de Árbitros por ter nomeado um juiz sem categoria nem valor; depois, ao árbitro, por lhe faltar honestidade desportiva, decisão e nele existir somente espírito de vingança... marcou uma Assembleia Geral que decidiu, «com aplausos prolongados e palmas», que a melhor das três hipóteses postas sobre a mesa era: - o abandono imediato de todas as provas oficiais. Ávila e Melo, o presidente, não concordou. Alertou para as «quebras financeiras» que isso causaria, logo alguém propôs que para o compensar todos os sócios pagassem uma quota adicional mínima de 5 escudos – o que voltou a aprovar-se por aclamação... Afinal, os oito meses de suspensão foram nada, o Benfica foi ao mesmo ao Campeonato de Portugal de 1930/31 - e ganhou-o como ganhara o de 1929/30 Antes do arranque do Campeonato de Portugal, a AFL correu a amnistiar João de Oliveira – e por isso o Benfica acabou por não o boicotar. Deixara, porém, de ter presidente: inconformado com a decisão radical para que se tinha avançado, a do boicote, Ávila e Melo já pedira a demissão, manteve-a... ...