SEXTA-FEIRA, 31-07-2015, ANO 16, N.º 5662
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destaques

O que o título de campeão americano tem a ver com a jura de um rapaz de barbas que mudou do Eusébio para o Pelé...
Estrela de Diamante Sabendo-o enganado no México, novo canto de sereia partiu do Canadá, do Toronto Metros-Croatia, equipa ligada à Metros, produtora de filmes de Hollywood. Aí sim, a promessa foi cumprida: o mesmo valor em luvas e ordenado e 1000 dólares (que, com o escudo a resvalar em desvalorização, por essa altura já eram mais de 100 contos...) por jogo. Fez 25, marcou 21 golos - mas da estreia saiu em mágoa: - O primeiro jogo foi contra os ingleses do Tottenham e falhei um... penalty. Ouvi assobios e li tudo o que não queria nos jornais. Críticas terríveis. Irritado, no primeiro jogo do campeonato marquei dois golos, fui o melhor em campo e no dia seguinte a manchete do Toronto Star era: Eusébio silenciou os cínicos do futebol. (O guarda-redes que lhe defendeu o penalty era Pat Jennings – a quem marcara, em Março de 1973, o último golo pela seleção, no Irlanda do Norte, 1- Portugal, 1 que se disputou em Coventry porque a FIFA achava Belfast terreno perigoso por causa do IRA...) Disse que não jogava, mas viu aquela gente triste no balneário e... O Toronto Metros-Croatia só parou na final da North American Soccer League (NASL) – que a CBS transmitiu em direto e Eusébio apenas a jogou por força do coração: - Na véspera, estava com um problema no pé, sem condições para jogar no dia seguinte. Deitado no meu quarto, bateram-me à porta, era a equipa toda para me pedir que jogasse. Disseram: - Eusébio, desde que o senhor é capitão, nunca mais perdemos um jogo. É a final e o nosso capitão não joga? Respondi-lhes que não podia, estava cheio de dores, que ganhariam na mesma sem mim, mas quando chegámos ao balneário e vi aquele ambiente de desânimo, toda a gente calada, com ar de funeral, disse: - OK! Que não se perca por minha causa, vamos a eles. Fomos e ganhámos por 3-0, marquei o primeiro golo, dei os outros dois... Coxeava, como coxeou em tantos jogos do Benfica... Campeão do Soccer Bowl 76, Eusébio deu a volta olímpica como o herói de taça erguida aos céus, chorando lágrimas de felicidade, mas percebia-se que, de vez em quando, coxeava: - Coxeava naquele momento, como coxeei em tantos outros no Benfica: por causa das dores no joelho. Mas, aquela vitória foi fantástica, inesquecível. Porque havia por Portugal e pela América muita gente que achava que quando deixei o Benfica era já um caso arrumado. Aquela vitória deu-me a certeza de que não. Rejuvenesci, palavra que rejuvenesci. E não liguei nenhuma aos médicos que também diziam que por causa do joelho o melhor era retirar-me de vez... e, no jornal Toronto Star escreveu-se que o clube tinha contratado um médico só para lhe aplicar injeção de novocaína antes dos jogos, que ele era o Bobby Orr do futebol - «ambos possuem joelhos esquerdos que se assemelham às Montanhas Rochosas, incluindo cabeços e fendas», mas que ninguém o pensasse já «morto e enterrado». No futebol de cá os ordenados eram de fome (e no ciclismo ainda pior...) Por cá, FC Porto, Benfica e Sporting entraram em luta por Albertino, o craque do Leixões – que em A Bola se queixou (num sinal do que era, então, a vida de um profissional de futebol num país ainda abalado pelo destino): - Tenho um ordenado de fome, mal me dá para comer. Não consigo amealhar um tostão, sou casado, tenho uma filha e ganho 8650 escudos... Menos de 24 horas depois, assinou pelo Boavista - que pagou por ele cerca de 2000 contos. De outro lado vieram queixas também: Firmino Bernardino, estrela do ciclismo do Benfica, revelou: - Já vendi a bicicleta já bati a todas as portas e para o mês que vem já não tenho dinheiro para pagar a renda de casa. Estou desempregado, preciso de dinheiro... O rapaz da barbas revolucionárias que deixou de ter Pelé como ídolo... No Benfica, apesar da vitória no campeonato, havia, cada vez mais a insinuar-se a nostalgia de Eusébio – mesmo que na Luz houvesse uma estrela a nascer, deslumbrante. Era Chalana, o Fernando Chalana que Pavic dissera que seria o novo Eusébio, o Fernando Chalana que, com as suas densas barbas revolucionárias, rasgou toda a primeira página de A Bola numa jura: - O meu futebol pode não ter, mas eu tenho mesmo 17 anos, não há aldrabice nenhuma na minha idade. É mentira tudo o que se anda a dizer a meu respeito. E se antes o meu ídolo era Pelé, agora não, pois só agora vi os golos de Eusébio e assim, bem, até fico sem palavras......
Estrela de Diamante O modo como Eusébio levara os Toronto Metro-Croatia ao título de campeão americano despertou em João Rocha a tentação de o puxar para Alvalade. Mas não só: - O treinador do Benfica era o Mortimore, dizia-se que a equipa estava necessitada de um goleador. O Toni e o Humberto fizeram muita força para eu regressar à Luz, mas não foi suficiente porque uma pessoa entendeu que teria de prestar provas... Essa «pessoa» (o nome ele não lho disse, então, por pudor...) foi Romão Martins – e Eusébio sentiu-se humilhado, humilhado com o jaez da sugestão: - Era o que me faltava, eu à experiência! Portanto, se o Benfica me tivesse recebido, não teria voltado mais à América... Disse não ao Sporting, treinava no Benfica, jogava no Beira-Mar... Ao Sporting disse não, um não mais sentimental do que outra coisa: - Se não podia regressar à minha casa, à casa do meu coração, à Luz, não era de muito bom tom regressar à casa do grande rival, a Alvalade. Surgiu o Belenenses, mas o Belenenses não aceitou as minhas condições. O presidente do Beira-Mar era amigo do Paiva das Neves, dirigente do Benfica, meu grande amigo, o Paiva das Neves falou-lhe,ele aceitou, entusiasmado, as minhas condições. Como, preso aos americanos, não podia assinar por uma época inteira, o contrato foi por jogo. Treinava-me no Benfica e jogava aos fins de semana pelo Beira-Mar... Em Alfama, uma loja como não havia outra e nas bancas uma revista ainda mais escandalosa... Com Eusébio a caminho de Aveiro, abriu em Portugal a primeira sex-shop – numa rua de Alfama, «num prédio forrado a típicos azulejos azuis e amarelos», ao lado de um painel com um Santo António. Fora ideia de um inglês que, casando-se com uma portuguesa, viera viver com ela para Lisboa – e ganhara a vida a criar frangos de aviário. Conseguira, enfim, mudar de negócio, apesar de em vigor estar o Decreto Lei 647/76 – que O Século Ilustrado revelou ter sido inspirado por Almeida Santos, «um dos mais intransigentes defensores da moral governamental», que impedia a «venda e exibição de pornografia em locais públicos». (Pois: o DL 647/76 existia – e a um dos mais fenómenos de vendas continuava a ser a Gina, a primeira revista pornográfica portuguesa. Chegara às bancas em setembro de 1974 – com preço de capa de 25 escudos, duas vezes e meia o preço de O Século Ilustrado, dez vezes o preço de A Bola ou o Diário Popular – e como cada um dos seus quatro primeiros números vendeu 150 mil exemplares, o editor passou-lhe o preço para 50 escudos – e ainda na década de 70 Acácio Gomes teve de pagar multa de 350 contos porque um padre vira a Gina em destaque no escaparate de um quiosque na Estação de Santa Apolónia, fez queixa do... «desaforo», o tribunal deu-lhe razão – a coberto do 647/76, claro...) Da bonecas insufláveis à festa estragada pelo FC Porto Na sex-shop de mister Neville em Alfama surgiu outra novidade: as bonecas insufláveis. Cada uma custava 1000 escudos – e o repórter de O Século Ilustrado falou delas misturando pudor com ironia: - É assim a modos que uma mulher com quem a gente se pode deitar e não fala... Mas a grande atração da loja eram duas cabinas individuais onde por 5 escudos se podiam ver... «cenas que não são propriamente bucólicas, mas que não diferem muito das que se veem agora nas salas de cinema do circuito comercial de Lisboa» (também era assim que vinha no SI...) Pinheiro de Azevedo continuara na chefia do governo até ao desfecho das eleições legislativas. Ganhou-as o PS de Mário Soares – que a 23 de junho de 1976 tomara posse como Primeiro Ministro do I Governo Constitucional. Nas eleições, António Simões voltara a ser candidato a deputado pelo CDS – e, dessa feita, fora eleito. O campeonato de 1975/76 terminara a 30 de maio com vitória do Benfica de Mário Wilson – e na última jornada Benfica, Sporting, FC Porto e Belenenses fizeram o jogo 1000 na prova. Quis o destino que para a efeméride houvesse Benfica-FC Porto na Luz. A tarde era de festa, a festa dos campeões que já sabiam que o eram – mas o FC Porto foi lá estragá-la, vencendo por 3-2. Sensacional, o segundo lugar do Boavista – de Pedroto. (Que estava já a caminho das Antas – para o arranque de outra revolução, a revolução PC, PC de Pinto da Costa) Havia o Eusébio, mas também havia o Pena (era assim o futebol...) Pinheiro de Azevedo haveria de ser, logo depois, candidato a Presidente da República - mas quem foi para Belém no lugar de Costa Gomes foi Ramalho Eanes, um dos cabecilhas do 25 de novembro de 1975. Em Belém já não estava Pena. Jogara com Meirim no Belenenses e em A Bola mostrou, dramático e sombrio, o lado oculto do futebol. Jurou que decidira abandonar os campos, «angustiado», por o futebol já não ser «grande vida». Para sobreviver vendia fruta pelas ruas de Lisboa – e pelo caminho pôs o dedo numa ferida que se escondia o mais que se podia: - 150 dos 200 futebolistas da I divisão jogam dopados. Joaquim Meirim, Mário Wilson e Carlos Silva foram os únicos treinadores que não me drogaram... Era Eusébio e... 10 miúdos, mas não podia ser brincadeira! E Eusébio? Eusébio, campeão americano, ainda haveria de vestir a camisola do Benfica uma vez mais: na festa que, a 9 de outubro de 1976, se organizou para homenagear Carlos Lopes, que nesse ano se sagrara campeão mundial de corta-mato e vice-campeão olímpico de 10 000 metros. Para defrontar o Sporting, o Benfica mandou Eusébio e... 10 jovens. Na cabina, pediu a John Mortimore que lhe deixasse dizer só uma coisinha: - O futebol, para mim, nunca pode ser uma brincadeira. Eu jogo sempre a sério! E mais: não gosto de perder! Portanto, vamos lá ganhar este jogo! Ganhou mesmo por 3-2....
Estrela de Diamante Com Gabriela, a Gabriela, Cravo e Canela da novela que fez revolução na RTP quase a chegar a Portugal, a 6 de março de 1977 foi o Sporting jogar a Aveiro. Treinador do Beira-Mar era Joaquim Meirim, o mais extravagante dos treinadores portugueses – e aos 11 minutos o árbitro assinalou livre a seu favor, Eusébio contou: - Peguei na bola, pensei: esta já está lá dentro. Chutei e o Matos nem se mexeu. Semanas antes, em Setúbal já tinha feito o mesmo. Aliás, aí foi ainda com mais raiva. O Vaz, guarda-redes do Vitória que depois foi para o Sporting, vendo-me ajeitar a bola para um livre, com aquele seu jeito brincalhão, gritou de lá da baliza: Oh Eusébio, não sabes que o teu tempo já passou?! Era para me desmoralizar, claro, mas eu dei-lhe bem e foi um golaço... O golo que pôs o Sporting a tropeçar e o livre que não quis marcar ao Benfica Depois de Jimmy Hagan levar o Benfica a três campeonatos em três, despedira-se, com estrondo. Estranhou ver Toni, Humberto e Nelinho entrarem no balneário para a Festa de Despedida de Eusébio. Afastara-os do jogo contra uma Seleção do Resto do Mundo – por se terem «cortado» ao footing a que obrigara todos o plantel nessa manhã. Apanhando-os desolados num corredor, por não poderem estar, ao lado de Eusébio, naquele momento tão passional, Borges Coutinho, o presidente do Benfica, disse-lhes que se fossem equipar. Ao explicá-lo, subiu a mostarda ao nariz de Hagan – que logo ali escrevinho carta a despedir-se, deixou-a sobre a marquesa do massagista, foi-se embora... Hagan era nesse jogo de Aveiro, o treinador do Sporting. Com o golo de Eusébio começou o leão a tropeçar, outras vezes mais tropeçou – e campeão, o campeão de 1976/77 foi o Benfica, o Benfica de Mortimore. Contra o Beira-Mar jogara o Benfica a 5 de janeiro de 1977. Aos 56 minutos havia 2-2 e... - Estávamos já nos minutos finais, o árbitro assinalou livre para o Beira-Mar à entrada da meia lua. Antes, já tinha rematado à barra e quando olhei para a frente e vi tantos antigos companheiros ali na barreira, preocupados, o José Henrique na baliza, então... Não sei o que me deu... Ou sei: não me estava a sentir muito bem, para mais ainda senti uma dorzinha na perna, disse ao Sousa para marcar ele, a bola foi por cima – e foi esquisita a sensação: um alívio por o Benfica não sair dali com uma derrota que nessa altura ainda se não sabia se podia ser complicada ou não... Da Coca Cola proibida... Antes da queda da I República a Coca Cola andara, fugaz e furtiva, por cá, fora Fernando Pessoa quem lhe fizera o anúncio que correu por jornais e revistas: - Primeiro estranha-se, depois entranha-se... Tomando o poder, Salazar, achando que por ter coca no nome poderia ser droga (ou pior...) – e proibiu-a. (Permitiu, contudo, que se fabricasse por cá um seu sucedâneo – a... Totocola, cuja publicidade esteve, claro, sempre ligada ao Totobola. A outra, a Coca Cola, abria-a, lá mais para diante às... colónias. E, vezes sem conta, foi correndo o rumor de que andando Amália Rodrigues pela América, alguém a obrigou a provar – e ela não gostara nada, Eusébio adorava. Mas, claro, também já se sabia: gostava mais de uísque...) ... À Coca Cola que o pôs no cartaz Em julho de 1977, a Coca Cola voltou a vender-se em Portugal – e nessa altura a marca que nascera em Atlanta deu mais um sinal do sinal que Eusébio continuava a ser como fenómeno planetário: para promover o seu Mundial Sub 20 da FIFA em Marrocos, de que era principal patrocinador, a Coca Cola criou um poster que espalhou pelo mundo em que com imagem estilizada que todos percebiam ser do Eusébio – apesar de não se dizer que era o Eusébio... À Coca Cola, A Bola deu-lhe anúncio em página inteira, dizia-se em parangonas: Coca Cola, a tal... agora em Portugal e em novembro também chegou a Pepsi, trazendo Pelé como seu rosto. Mais: lançou-se através de um show Pepsi, com atores na Gabriela, a novela que revolucionara a televisão... «Não me quiseram no Benfica, não preciso de esmolas...» De Aveiro saltitou Eusébio de novo para os Estados Unidos - para Las Vegas. A caminho dos Quicksilver largou num murmúrio: - Não me quiseram no Benfica. Mas não me conseguirão enterrar-me já, nem eu preciso de esmolas... Em Las Vegas, cruzou primeiras páginas de jornais americanos por levar menina paraplégica, com ele próprio a empurrar-lhe a cadeira de rodas, a cumprir um sonho, o sonho de conhecer Muhammad Ali, conheceu porque Eusébio conseguiu que ela conhecesse – e, nas férias do campeonato americano,ainda em 1977, António Simões, que entretanto se tornara deputado pelo CDS, mas, tal como Eusébio continuava a jogar pelos Estados Unidos, desafiou-o para o União de Tomar, a troco de 75 contos por mês, o ordenado era-lhe pago por um grupo de amigos de Fernando Mendes, o presidente - e ele foi... ...