QUARTA-FEIRA, 01-07-2015, ANO 16, N.º 5632
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destaques

Salazar ganhava 25 contos, Eusébio ganhava 4 (OK, Eusébio ganhava mais, depois, com prémios e luvas e... golos a dois contos)
Estrela de Diamante É a parte 5. Com Eusébio a caminho do Panteão, relembramos-lhe Eusébio – o Eusébio Como Nunca se Viu do livro que A D. Quixote publicou em parceria com A Bola. Mas mesmo que já o tenha lido o livro, não deixe de ir até ao fim – porque, aqui, há muito de novo para ler sobre o Eusébio e o país do Eusébio, o mundo do Eusébio. E não deixe também de atirar os olhos à galeria de fotos – porque para ver o Eusébio como o Eusébio nunca se viu há mais, muito mais ainda, nem o imagina... Em 1951 António Oliveira Salazar tinha um ordenado de 15 contos mensais. Dez anos depois, aumentou-se para 25 e por 25 contos se deixou ficar até morrer a 27 de julho de 1970. Presidente do Conselho deixara de ser mais de um ano antes, entrou Marcelo Caetano para o seu lugar – e Salazar continuou em São Bento, convencido de que continuava a governar o país, numa farsa com toque de Shakespeare, chamando ministros que já não o eram a despacho, dando entrevistas... Quando ainda o era, passava as férias no Forte de Santo António da Barra. (Fazia questão que pagar do seu bolso a renda da parte que ocupava, o valor estipulava-se anualmente de acordo com os preços em vigor nas pensões da Costa do Sol, porque o Estado já lhe dava São Bento para viver, dizia...) Salazar destestava que mulheres fumava, mas não detestava a Cilinha que fumava... Era lá, em São João do Estoril que estava numa manhã quente de 1964 – quando recebeu em visita Cecília Supico Pinto. Nunca o escondeu, detestava que as mulheres fumassem, achava que era um hábito comunista: - ... detestável como eles. Ela fumava – e fora despedir-se dele, antes de viajar para Angola, onde a guerra se espicaçara. Encontrou-o com um pé partido, mostrou-lhe, consternada, a sua preocupação, Salazar retorquiu-lhe: – Oh, menina! O meu pé não tem importância nenhuma, se fosse o do Eusébio, aí sim, aí é que podia ser um desastre nacional! e ela deixou-se levar, enleante, na jogada dele: – Ora aí está uma boa história para eu contar aos rapazes, como eles hão-de gostar Sr. Dr... Não, não eram só os cigarros, também foi o disco com o Eusébio... Cecília Supico Pinto era a Cilinha do Movimento Nacional Feminino. O MNF que mobilizou mais de 300 mil «madrinhas de guerra», distribuiu milhões de maços de cigarros, promoveu campanhas de aerogramas para «levantar a moral dos soldados», lançou um disco de Natal com Amália e Eusébio, Joaquim Agostinho e Hemínia Silva, Florbela Queirós e Francisco Nicholson: - De início, quando chegava às matas africanas, perguntava: Quem é do Benfica? Era metade. Quem é do Sporting? Era a outra metade? Quem é do Belenenses? Era só um, que era do meu clube – então eu dava grande abraço a esse. Como o «telégrafo de mato» era muito rápido passado algum tempo, quando eu perguntava: Quem é do Porto? Quem é do Boavista?. Nada. Quem é do Belenenses? Eram todos do Belenenses e lá tinham eu de andar em abraços e mais abraços, abraços sem fim. Nós sabíamos que isso era o que eles mais queriam, levávamos-lhes bolas de futebol, que comprávamos com os donativos que recebíamos. Outras vezes eram os próprios clubes que nos as davam. Equipamentos desportivos. Também livros. Os que mais gostavam eram os policiais e romances, o Amor de Perdição de Camilo, os do Eça de Queirós. O jogo preferido era o monopólio. Na mata, abriam as latas de atum e de salsicha à pancada, com a G-3 e com pedras, e muitas vezes eram detectados por causa desse barulho e sofriam emboscadas. Começámos então a enviar-lhes abre-latas. Também oferecíamos taças para os campeonatos de futebol entre unidades. Mandávamos cassetes, gravávamos programas. Houve um que teve especial sucesso: um Sporting-Benfica em matraquilhos com o Eusébio, o Simões, o Damas - e o Artur Agostinho a fazer o relato. Muitas vezes eu ia com o camuflado, outras levava só uma saia e uma blusa quando percebi que fartos de camuflados estavam eles... O tio que também foi ministro e antes de ser ministro foi recordista de salto em altura... Cecília Supico Pinto era sobrinha de José Frederico Casal Ribeiro Ulrich. Que só não aceitou o cargo de presidente da Comissão de Obras do Estádio do Restelo porque era então Ministro da Obras Públicas. Sugeriu que dessem o cargo a Henrique Tenreiro. Deram. Nos tempos de estudante no IS Técnico, Ulrich fez atletismo no CIF, foi campeão de salto em altura: - Quando era pequenina, chamavam-me O Quadradinho, porquê não sei. O meu tio José Frederico sempre que me via contava que um dia me chamou: Ó Quadradinho… - e que eu lhe respondi: Não lhe admito intimidades, ouviu?! Tinha três anos e já era assim…Salazar adorava-me pela minha frontalidade, por lhe dizer o que mais ninguém lhe dizia. E pelas anedotas que lhe contava, chorava a rir... Dos Pinto Basto ao fado e o marido... «selecionador nacional» (mas não, não era do futebol, era do que fazia na política...) A juventude passou-a Cilinha em Cascais – entre Palmelas, Avilezes, Galveias, Pinto Bastos, dos Pinto Basto que vinham da família de Guilherme, o Pinto Basto que introduziu o futebol em Portugal e transformou o ténis na Parada num glamour que nunca mais se perdeu: - Era praia, era patinagem, eram os cavalos. Com os namorados jogava-se ao prego na areia, agora dá vontade de rir, era a coisa mais inocente do mundo, e nem se davam as mãos, íamos ao cinema sempre com as precetoras. Ganhou fama a cantar o fado, quis ser enfermeira - e em Abril de 1945 casou-se com Luís Supico Pinto, 13 anos mais velho. Salazar pô-lo a seu Ministro da Economia, depois puxou-o a presidente da Câmara Corporativa – e achava-se que era a eminência parda do regime, havia quem o tratasse por... «seleccionador nacional» pela influência que tinha nas escolhas de governantes (e não só...) se mais vezes não foi ministro, foi porque não quis... Rebentou-lhe uma mina aos pés, salvou um soldado, o brigadeiro do hipismo promoveu-a... Uma vez Cecília Supico Pinto ia de Jipe na mata - e rebentou uma mina: - Foi cada um para seu lado, mortos, braços, pernas... Não fui das mais feridas, apanhei uns estilhaços, ficaram-me para sempre... Não, não foi o maior medo da minha vida. Esse foi no Guileje, na Guiné. Pus a mão sobre uma mina e... tiveram de me puxar o braço para cima muito devagarinho para eu me levantar... Nessa altura, tratavam-me como um soldado. Depois, também na Guiné, um sargento quase a acabar a comissão ficou esmagado debaixo de um camião durante um ataque. Estava moribundo e os enfermeiros da unidade queriam dar-lhe morfina. Eu não deixei. Pedi cobertores e botijas, mandei que o evacuassem para Bissau. Graças a Deus salvou-se – e então o comandante da unidade, o brigadeiro Henrique Calado, aquele que ganhava os concursos hípicos todos, promoveu-me - e toda a gente passou a chamar-me primeiro-cabo Pinto... ...
Estrela de Diamante É a parte 4. Com Eusébio a caminho do Panteão, relembramos-lhe Eusébio – o Eusébio Como Nunca se Viu do livro que A D. Quixote publicou em parceria com A Bola. Mas mesmo que já o tenha lido, não deixe de ir até ao fim – porque, aqui, há muito de novo para ler sobre o Eusébio e o país do Eusébio, o mundo do Eusébio. E não deixe também de atirar os olhos à galeria de fotos – porque para ver o Eusébio como o Eusébio nunca se viu há mais, muito mais ainda, nem imagina... Porque nesse Portugal de Salazar o «respeitinho era muito bonito», se, vinda do fundo da sua rebeldia uma aluna se atrevesse a entrar num liceu (onde rapazes e raparigas se não misturavam...) de minissaia e sem meias, tinha por certo o que a esperava: raspanete da diretora que julgando o «ato obsceno» a expulsava das aulas. Também acontecia amiúde: se uma estudante da Faculdade de Letras fosse apanhada pelo polícia de giro a fumar na paragem do autocarro do Campo Grande (e havia algumas que eram...), ouvia-o papaguear-lhe alínea de uma portaria municipal que considerava que era «atentado ao pudor mulher fumar na via pública» - e via-o passar-lhe multa de 20 escudos. O tabaco era obsessão como o sexo antes do casamento para a MPF e havia cigarros Benfica, cigarros Sporting... O tabaco era como o sexo antes do casamento uma das muitas obsessões da Mocidade Portuguesa Feminina: em todas as suas publicações se aconselhavam as «raparigas de boa moral» a «resistirem à tentação do cigarro», que era um «escândalo», uma «modernice dispensável» - e só para homens, mas só às vezes... Havia os SG: Gigante, Filtro ou Ventil, havia os Sintra, os Kayak, os Ritz, os Negritas, os Populares e os Provisórios, os Orfeu, os Além Mar e os Santa Justa – e ainda havia outras marcas, a tocarem mais ao sentimento: os cigarros 1X2, os cigarros Sporting e os cigarros Benfica. No maço dos Sporting dizia-se que era tabaco «suave e aromático», no maço dos Benfica dizia-se que era tabaco «forte e suave». Custavam entre 3 escudos e 50 centavos e 5 escudos – e, Eusébio não fumava, mas se quisesse podia, no futebol, o fumar não se proibia, não se castigava – a não ser que surgisse, insólito e caprichoso, algum treinador a deixar-se levar pelo espírito da MPF. E foi o que aconteceu com o Belenenses – nesse ano de 1963. 500 escudos de multa para quem fumasse. Não, não era no Benfica - e Eusébio nem fumava... Graças a golos de Eusébio e José Augusto, Portugal fora ganhar à Bélgica por 2-1 e a vitória valeu a cada jogador prémio de 4000 escudos - e nessa mesma noite, o Belenenses empatou na Irlanda com o Shelbourne para a Taça das Cidades com Feira. Tinha um treinador austríaco de maus fígados: Franz Fuchs. Antes da partida, chamara os pupilos a uma reunião de emergência para lhes revelar que a partir daquele instante quem fosse apanhado a fumar pagava multa de 500 escudos. Os jogadores não lhe suportaram a tirania, dois meses depois foi despedido – e voltou a liberdade de fumo. E por A Bola continuaram a aparecer em teto ou em rodapé de alguma página de A Bola anúncios a rasgá-las aos cigarros 1X2. O Totobola era tão passional que servia de chamariz a quase tudo – e em e A Bola também se podia ler: Acerta no Totobola Quem Toma Vitacola (Vitacola era um «energético natural supersaudável» - e uma lata para 25 dias custava 20 escudos...) ...