TERÇA-FEIRA, 02-06-2015, ANO 16, N.º 5603
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destaques

Também foram costelas fraturadas, olho cego (ou pior e nesse pior a dor foi na alma...)
Estrela de Diamante Não, não foi nos penalties que o Sporting ganhou a Taça de Portugal. Foi ao minuto 90+4 na defesa de Rui Patrício a remate de Salvador Agra, uma defesa que foi muito mais do que uma defesa com o pé - foi uma defesa com o coração. Antes, bem antes, percebeu-se que se lesionara – e passara vários minutos a coxear e foi mesmo assim, cambado, fez o que fez. Mas, a história que lhe vamos contar – é a história de um guarda-redes do Sporting que saiu de uma final da Taça ainda mais heroico, o João Azevedo. Descubra porquê e talvez se arrepie... O pai era maquinista dos Caminhos de Ferro – e aos 12 anos, Manuel Firmo já trabalhava numa fábrica de cortiça. Despediram-no na sequência de uma greve, andou a servente de pedreiro. Continuou a jogar futebol, era defesa do Barreirense – e conseguiu que a CUF lhe desse emprego nos seus escritórios, como contínuo. Mandaram-no embora – por se recusar a denunciar colegas, suspeitos de luta sindical. Para fugir a campo de concentração nazi, acabou no Tarrafal com Cândido de Oliveira Aprendeu a serralheiro, criou Sociedade Esperantista , ensinou a língua. Anarca e sindicalista, quando Salazar lançou os sindicatos corporativos, rebelou-se. Para escapar à prisão, Firmo fugiu para Espanha. Apanharam-no ilegal, prenderam-no, acabou libertado por influência de Bernardino Machado. Em Barcelona, alistou-se num batalhão de milícias republicanas, combateu na Guerra Civil. Em 1939, penou por campos de refugiados em França – e temendo que os nazis o levassem para trabalhos forçados na Alemanha, arriscou o regresso a Portugal. Não passou sequer a fronteira, atiraram-no para o Aljube – e depois para o Tarrafal. Por lá se cruzou o Manuel Firmo com Cândido de Oliveira... No primeiro jogo, o espanto: «Dá-me aquele, podes levar o que quiseres!» Pelo Barreirense jogara, o Firmo até 1932 – e dois anos antes fez João Azevedo o seu primeiro jogo pelo Barreirense: - Foi nos principiantes, o meu primeiro jogo. Contra o Carcavelinhos, treinado pelo Carlos Canuto, que, no fim do encontro, disse ao Paulo Marreco, o nosso treinador: Dá-me aquele e podes levar o que quiseres! «Aquele» era eu e tinha 15 anos... Podia ter sido do Benfica, não foi por lhe mandarem ir buscar o dinheiro à sede... Depois, passou fugaz pela primeira equipa, Firmo ainda lá estava. O guarda-redes do Barreirense era um ícone do clube, o Francisco Câmara. Por isso, achou-se que o melhor seria emprestá-lo ao Luso do Barreiro, para que lá fizesse a tarimba. Ao Barreirense já não voltou, do Luso foi João Azevedo para o Sporting. E só não foi para o Benfica – por, nessa altura, já viver de coração sempre a arder. Uma tarde, apareceu no Campo das Amoreiras a oferecer-se para um treino, Vítor Gonçalves, o pai de Vasco Gonçalves, o «camarada Vasco» do PREC no Verão Quente de 1975, gostou dele, disse-lhe que sim, que poderia ficar no Benfica: - Pedi-lhe, então, dinheiro para as passagens, ele disse-me para ir receber à sede, não gostei e nunca mais lá voltei... Por ele se começou a dizer: «grandes frangos, só os dão os grandes guarda-redes» Acabara de fazer 20 anos – e foi a sorte do Sporting. Contratou-o para ser o seu terceiro guarda-redes nessa época de 1935/36, os outros dois eram Artur Dyson e... Jaguaré. Jaguaré era o titular da seleção do Brasil – e numa digressão pela Europa ficara a jogar no FC Barcelona. Foi lá que o foram buscar – mas, a meio da época, a baliza já era de Azevedo... Não, não se limitou a levar de pronto o Sporting à conquista do Campeonato de Portugal - marcou um estilo, um estilo como nunca se vira: entrava em campo a arrastar os pés, dando a ideia de uma insolência que chegava a irritar. Mas, depois, na baliza, quase sempre de boné na cabeça, crescia, voava, defendia o... indefensável. Por vezes, mas não muitas, também dava grandes frangos, sobretudo em remates de muito longe, e foi precisamente por causa dele que se criou aquele chavão... «grandes frangos dão-nos os grandes guarda-redes». ...
A correr no Tempo Sporting-SC Braga, a final da Taça de Portugal no Jamor. Já houve outra assim. A 30 de maio de 1982. Ficou marcada, antes e depois, por peripécias que nem imagina – e não só por um dos treinadores ter ido para o campo de lacinho e smoking (depois de ter dividido prémio até pelas mulheres da limpeza...) e o outro ter deixado o charuto e o chapéu de coco com que, antes, durante alguns jogos do campeonato, colocara os adeptos em delírios. Quem ganhou o jogo? A «quadrilha divina». Horas depois, os vencedores, que também já tinham sido campeões, partiram para Paris – e pela madrugada Malcolm Allison levou-os para o cabaré mais famoso da cidade, o Lido. (Mas olhe que ainda tem mais com que se espantar...) À entrada para 1981, o Sporting transformara-se num castelo de nuvens negras – e já sem quaisquer esperanças de ganhar o campeonato ao Benfica ou ao FC Porto, João Rocha, o seu presidente, arranjou digressão pelo Brasil que lhe rendeu 3000 contos, assim libertando as finanças (pelo menos isso...) do sufoco. Numa página de A BOLA largou-se a revelação: - Os futebolistas do Sporting só em prémios falhados já terão perdido, esta época, cada um, cerca de 600 contos. Ainda no último jogo, nas Antas, contra o FC Porto, o prémio, em caso de vitória era de 40 contos. 20 mil contos por António Oliveira na «derrota aos boicotes fascistas»... Na semana seguinte, ventos ainda mais torvos – com «escândalo» em Alvalade, o Académico de Viseu foi lá ganhar, com golo de Águas, o Carlos Marta que, depois, haveria de ser deputado do PSD (e não só...) Para amainar a nova tempestade, Rocha anunciou que acabara de contratar António Oliveira por 20 mil contos. (19 mil contos ganhara por essa altura um operário vidreiro da Marinha Grande, no Totobola...) Por se recusar a jogar no FC Porto sem Pinto da Costa e Pedroto, Oliveira fora como jogador-treinador para o Penafiel – e ao assinar o contrato espetou em farpa: - Este deve ser o dia mais feliz da vida de Américo de Sá, o presidente do FC Porto. Pedroto, a quem João Rocha também lançara canto de sereia, pôs ainda mais fogo no ataque: - Só tenho de felicitar o senhor João Rocha por ter conseguido, com o Oliveira, a transferência do ano e, sobretudo, por ter derrotado os boicotes fascistas. Ameaça de rapto, houve, Pedroto em Alvalade é que não, para lá foi um excêntrico inglês... De repente alguém insinuou: - Se Américo de Sá deixar de ser presidente do FC Porto, talvez António Oliveira dê o o dito por não dito ao Sporting... e Teles Roxo, o chefe do departamento de futebol portista, de onde Pinto da Costa fora escorraçado por Américo de Sá, retorquiu: - Isso é inaceitável e inadmissível. Faltava só agora que o Nené, por exemplo, exigisse para renovar pelo Benfica a saída de Ferreira Queimado. Não, não passara de um rumor – e apesar das ameaças de que lhe raptariam a filha mal se atrevesse a entrar em Alvalade, Oliveira entrou mesmo. Pedroto é que não, deixou o Guimarães – e como Pinto da Costa se tornara presidente, regressou ao FC Porto. Sem Pedroto, João Rocha inclinou-se para um inglês já de muita história, o excêntrico Malcolm Allison... ...
Grande História Chuck Blazer. Este nome vai entrar na história do futebol - como «garganta funda» como o futebol nunca teve. Na década de 80 estava desempregado e praticamente falido. Já lá ia o tempo em que o negócio de família dava lucros – uma fábrica de botões. Tinha uma lábia esplêndida e um olho clínico para o negócio, teve a sorte (ou o azar) de conhecer Jack Warner, fazê-lo presidente da CONCACAF, a Confederação de Futebol da América do Norte. Com a figura corpulenta de uma obesidade mórbida de 200 quilos, ninguém daria nada por ele, não fossem as suas excentricidades que mais parecem comédia de Hollywood. Delas lhe falamos aqui. E também da cadeira de rodas elétrica em que anda, do apartamento de luxo que alugou para os seus gatos, de como levou a que a polícia fosse buscar 14 atuais e antigos dirigentes da FIFA a um hotel suíço - e do escândalo que já tinha sito retratado em março de 2014 na mediática série os Simpsons. Só que na altura ninguém acreditou que fosse mesmo assim... Num bairro de judeus de Nova Iorque, na loja que vendia jornais, na fábrica de botões... Chuck Blazer é o típico cidadão americano que não passa despercebido – robusto na casa dos 200 quilos e uma barba longa e farta em homenagem ao Pai Natal, mas ao contrário do mito ele escondeu presentes envenenados. Blazer nasceu em Nova Iorque no seio de uma família simples, num bairro fortemente judeu de classe média, nos arredores de Queens. Cresceu a trabalhar nos negócios da família, uma loja que vendia artigos de papelaria e jornais e uma fábrica de botões. Mas nunca deixou a escola para trás. Estudou contabilidade na Universidade de Nova Iorque e casou-se com a namorada da escola, Susan. Nunca revelou grande fascínio pelo futebol - ou melhor: pelo soccer que por lá, pela América, o futebol era outra coisa, jogava-se com as mãos também. A paixão despertou-se quando o filho quis ser futebolista - e procurou clube para treinar. O conhecimento da modalidade levou-o a sonhar alto, taõ alto que não conseguiu fugir ao FBI. Agora aos 70 anos rendeu-se. A mulher deixou-o, o seu alento são as candidatas a Miss Universo com quem frequentemente se deixa fotografar. Quando não está em festa o seu destino são os hospitais, luta contra um grave cancro no cólon. Gastava 5500 euros por mês de renda num apartamento só para os gatos O primeiro contacto com o futebol acontecera em 1976 quando já treinava a equipa do filho na cidade de New Rochelle, no estado de Nova Iorque. Mas ele queria ser muito mais que isso – e foi. Foi um dos senhores do Comité Executivo da FIFA, cargo que ocupou durante 17 anos, lhe permitiu dar asas às suas excentricidades. Com ele, ficou famoso o papagaio Max, que Chuck gostava de passear ao ombro. Mas do que verdadeiramente gostava era das festas e gastos sumptuosos, viagens em jatos privados, apartamentos de luxo de Nova Iorque às Bahamas e a convivência com figuras públicas, sim, porque os seus amigos foram todos escolhidos ao pormenor - Vladimir Putin, Nelson Mandela ou Hillary Clinton. Mas o topo das excentricidades esteve no 49º andar da Trump Tower, o arranha-céus em pleno coração de Manhattan onde Chuck tinha dois apartamentos, um para ele, com uma renda de 16 500 euros mensais, e outro apenas para os seus gatos, a 5 500 euros por mês. Como se tornou o... Mister 10 por Cento Inicialmente desempregado, começara a construir a sua fortuna em 1989, valeu-lhe o amigo Jack Warner que conhecera no seio da CONCACAF a confederação da América do Norte, Central e Caraíbas, onde trabalhou de 1990 a 2011, antes de chegar ao Comité Executivo da FIFA em 1996. Na altura, Chuck já tinha aguçado o olho clínico para o negócio e convenceu Warner a candidatar-se à presidência do organismo máximo do futebol. Não só venceu, como, em retribuição, nomeou Chuck para secretário-geral, com um contrato que lhe valeu a alcunha de Mister 10 por cento, a percentagem a que teria direito por cada contrato celebrado pela instituição (e não só). E mais: o cargo abriu-lhe portas para deixar de ser um desempregado dos subúrbios para se tornar num dos homens mais influentes do soccer, a modalidade claramente em expansão nos Estados Unidos. Herói ou vilão: o Al Capone que o FBI foi buscar ao futebol Mas no frio outono de 2011 tudo mudou. Enquanto descia a 5ª Avenida em Nova Iorque numa das suas cadeiras de rodas motorizadas, sim, porque os 200 quilos impedem-no de andar depressa, Chuck Blazer foi abordado por dois investigadores, um do FBI e outro da polícia tributária. O paraíso fiscal em que que tinha morada domiciliária depois de mais de dez anos a receber milhões de dólares em alegados subornos e comissões, fizera-o esquecer-se de pagar os impostos americanos anos a fio. Foi assim também, por finta ao Fisco que Al Capone acabou preso - não foi por outras malandrices (ou pior...) que fizera durante a sua vida, às vezes pelos mesmos caminho por onde, depois, Chuck andaria: no frenesim e no glamour de Nova Iorque. E a conversa não durou muito tempo, também não tinha por onde fugir – ou ia preso ou colaborava com a polícia. Em questão de segundos esqueceu os dólares e os amigos e tornou-se num agente infiltrado do FBI na caça dos corruptos da FIFA, no fundo o que ele tinha sido também. Chuck foi acusado pela Justiça dos Estados Unidos por estar envolvido em esquemas de corrupção relativos à escolha de países para vários Mundiais, enquanto secretário-geral da Confederação de Futebol da América do Norte, Central e das Caraíbas - e para reduzir a pena acabou por admitir-se culpado de dez crimes, entre eles, fuga aos impostos, lavagem de dinheiro, fraude bancária e extorsão. Só pelo crime de extorsão, poderia ir parar à prisão por 20 anos. Usou microfone escondido no porta-chaves para gravar as reuniões com os dirigentes de futebol Durante os Jogos Olímpicos de Londres em 2012, Chuck já era um agente infiltrado do FBI. Hospedou-se num hotel de 5 estrelas da cidade, onde recebia os dirigentes do mundo do futebol. Entre os convidados estavam mentores das candidaturas da Rússia para a Copa de 2018 e da Austrália para a Copa de 2022. Foi assim que, a mando do FBI, começou a gravar as conversas com um microfone escondido no porta-chaves, conversas essas que seriam o ponto-chave das investigações. O americano forneceu ainda uma lista de 44 altos dirigentes da FIFA que se acredita, estarem envolvidos em esquemas de corrupção e extorsão de capitais. Só em 2013 é que se demitiu do Comité Executivo da FIFA como consequência de se ter, enfim, dado publicamente como culpado de corrupção perante a Justiça dos Estados Unidos - e apesar de, colaborando como colaborou com a promotora, de ter sido o responsável pelo estoiro do escândalo FIFA que até poderá levar (ou não) à regeneração do futebol mundial; apesar de ter sido ele a «garganta funda» que mostrou como estava insalubre e podre (pelo menos...) o reino de Blatter, Chuck Blazer ainda incorre numa pena de prisão até 15 anos. ...