QUARTA-FEIRA, 04-05-2016, ANO 17, N.º 5940
Conteúdo inexistente.

destaques

Até havia mulheres de tesouras nas mãos…
Grande História Capítulo 2. Ainda não é aqui que se vai contar o que Jesse Owens achou que foi a humilhação por que passou na América - de nem sequer ter recebido telegrama do seu presidente a ter de subir ao topo de um hotel de Nova Iorque no elevador da carga e os outros campeões olímpicos brancos não. O que aqui se conta é o que o holandês que foi responsável pela deportação de judeus para campos de concentração (e por coisas piores...) tem a ver com Jesse Owens. Ou porque a morte do primeiro campeão olímpico de 1936 levou a um massacre na Bielorrússia. E também se fala da campeã do dardo que teve uma filha e ela garante que é filha de Hitler também. E de como, no ataque à Sicília, o exército alemão debandou em fuga deixando à morte Lutz Long - o mais emotivo adversário de Jesse Owens nos Jogos Olímpicos de Berlim, o adversário que, apesar de já ser nazi e de ter Hitler em ânsias por vê-lo ganhar, deu a Jesse Owens o truque que o salvou de ser afastado da final do salto em comprimento… À chegada (e não só…) dos americanos a Berlim para os Jogos Olímpicos de 1936 que tinham ameaçado boicotar – e só não boicotaram por Hitler jurar, cínico, que não haveria traço de racismo ou de política, de propaganda ou de perseguição a cruzá-los, havia já na equipa um ícone, o ícone que levou a que sucedesse o que contou James LuValle (que lá ganhou a medalha de bronze nos 400 metros e muito mais famoso ficou, depois, por ter feito parte, na UCLA, da equipa de Glenn T. Seaborg, vencedor do Prémio Nobel da Química): - Mal se apercebiam da nossa presença, os alemães gritavam: Onde está Jesse? Onde está Jesse? Não lhe queriam só tocar, não lhe queriam só uma palavra, não lhe queriam só um autógrafo, não lhe queriam só um olhar - entre a multidão havia sempre mulheres e, uma ou outra vez, de tesoura na mão, as tesouras com que queriam cortar pedaços de pano do equipamento do Jesse para ficarem com eles como relíquias. Quando isso se soube, decidiu-se que sempre que o Jesse saísse da Aldeia teria de ser acompanhado por soldados a protegê-lo – e foi o que aconteceu. Nunca tinha visto euforia assim, delírio assim, por um atleta… GANHOU O SALTO EM ALTURA MESMO SAINDO ATRASADO DA ALDEIA, A ELE SIM, HITLER NÃO APERTOU A MÃO… No dia dos quartos de final dos 100 metros, a 2 de agosto, disputou-se a final do salto em altura – e de lá saiu Cornelius Johnson com o recorde olímpico a 2,03 metros. Atrasara-se a sair da Aldeia Olímpica, quando chegou ao estádio a fasquia já estava a 1,97. Não se atemorizou, passou bem acima e quando passou 2.03 metros não quis saltar mais, tinha ouro garantido. David Albritton ficou com a prata, a 2,00. Negro como Cornelius, ambos tinham aterrado em Berlim com 2,07 metros – recordistas mundiais se tornaram no Randall´s Island de Nova Iorque, a 12 de Julho. Cornelius em «western roll», Albritton. em rolamento ventral – novidade que se espalharia pelo mundo até que Dick Fosbury tivesse uma outra ideia, genial, o salto de costas. NÃO, NÃO FOI A OWENS QUE HITLER RECUSOU APERTAR A MÃO… Ao contrário do que diz a lenda, não foi a Jesse Owens que Hitler recusou aperto mão. Foi a eles os dois, a Johnson e a Albritton. Vinham do pódio, olhou-os de soslaio – antes que passassem por ele, o Fuher deixou, irritado, a tribuna, foi-se embora do estádio. Durante o hino dos Estados Unidos, três os americanos não deixaram de lançar-lhe imagem provocadora: em vez da saudação nazi, fizeram, de braço no ar, mas sem a mão erguida de frente, a saudação olímpica. Parece que fora ideia de Delos Thurber, o terceiro classificado, o que não era negro. Formara-se na University of Southern California – e durante a II Guerra Mundial serviu, como piloto, no Teatro de Operações do Pacífico. Quando se deu o Armistício, Thurber em vez de voltar à Califórnia, deixou-se ficar nas Filipinas – lá fundou a Philippine Airlines. Por essa altura, Cornelius deixara de trabalhar como carteiro - empregou como padeiro de um paquete da Grace Line´s chamado Santa Cruz. Um ano depois, algures por 1946, em alto mar, apanhou uma pneumonia. Ainda conseguiu chegar a um hospital da Califórnia, mas já não a tempo de se salvar. Morreu com 32 anos. Albritton tornou-se estudante brilhante da Ohio State University onde também andava Jesse Owens – e por Ohio foi eleito para a Câmara de Representantes durante seis mandatos sucessivos e apesar do seu envolvimento na política nunca deixou de ser treinador da universidade, ganhando vários títulos americanos. ...
Grande História Capítulo 1. Sim, é tão impressionante (e tão incrível) a história de vida de Jesse Owens (e a história da vida de gente que com ele se cruzou ainda mais, talvez…) que a vamos contar em vários capítulos.(Vá até ao fim e quando lá chegar pode ter a certeza: das próximas vezes vai espantar-se mais, muito mais - e não apenas com o aquilo de que aqui ainda se não falou: do mistério do aperto de mão a Hitler à certeza da Casa Branca que Roosevelt não lhe abriu, não lhe mandando, sequer, mensagem a felicitá-lo pelas quatro medalhas de outro de Berlim, que só foram quatro por causa de dois judeus. E isso é um exemplo apenas do que descobrirá por aqui - mas ainda não agora... Antes de Jesse Owens houve outro, pode dizer-se que sim, que o primeiro grande velocista negro da história do atletismo não foi ele - foi Eddie Tolan. Nascera no Colorado, crescera em Salt Lake City – e uma vez contou: - Depois de estudar várias cidades, o meu pai descobriu que o melhor sítio para uma família de negros sonhar era Detroit. Pagou na minha mãe e nos meus quatro irmãos – e fomos todos para lá viver… Toland tinha 15 anos, na Cass Technical High School de Detroit logo se lhe percebeu o jeito para a velocidade. E ainda mais para o futebol americano. Foi, aliás, pelo futebol americano que Eddie Tolan entrou na Universidade de Michigan – entrada história por ser o primeiro negro a lá jogar no século XX. (Em 1890, a equipa tivera nas suas hostes George Jewett, filho de um abastado ferreiro que na Michigan University se tornara médico, um dos primeiros médicos afro-americanos que os Estados Unidos tiveram…) DISSERAM-LHE QUE FUTEBOL NÃO, PARECIA UM DIÁCONO… De repente, deu-se volte-face no destino: lesão num joelho abalou-o ao terceiro treino, o treinador que o levara chamou Eddie Tolan ao seu escritório, anunciou-lhe, pesaroso: - Os restantes técnicos julgam que o joelho vai trair-te, não te querem na equipa. Disse-lhe que estava cada vez mais encantado contigo, eles desconfiam que estou iludido. Como tive medo de ser derrotado na minha fé, aceitei a decisão. Em vez de ires para a equipa de futebol americano, vais para a nossa equipa de atletismo… Eddie Tolan corria a mascar pastilha elástica e com óculos de aros redondos presos por fita adesiva – por causa disso um jornalista escreveu: - Parece um diácono de uma igreja a espantar almas na cinza. Foi assim que, a 1 de Julho de 1930, em Vancouver, fez 10,2 segundos aos 100 metros. Apesar de a meta ter sido posta num ponto 30 centímetros mais alto do que a partida e de haver filme que mostrava que não se insinuava na pista um fio de vento, a IAAF não aceitou a marca como recorde do mundo – porque o anemómetro não estava lá. Se valesse só teria sido batido 26 anos depois. DEPOIS DO OURO EM LOS ANGELES, SÓ QUERIA EMPREGO… Foi já como The Midnigth Express, O Expresso da Meia Noite, que chegou aos Jogos Olímpicos de Los Angeles – e juntou a medalha de ouro dos 200 à dos 100 metros. Nos 100, protagonizou o mais um dos mais arrepiantes duelos da história, Eddie Tolan contra Ralph Metcalfe, dele saindo, ambos, em 10,38 segundos – recorde mundial eletrónico. Frank Murphy, o prefeito de Detroit, organizou manifestação de boas vindas para o receber na estação de comboios. Chorando, a mãe pediu que lhe arranjassem um emprego – e ao pai que caíra no desemprego. E Eddie, que já perdera a esperança de estudar para médico, deu toque mais comovente ao lamento: - Nós aqui nesta festa e o meu irmão lá fora, no parque, a apanhar papel... Mas tem mais sorte do que eu, ao menos tem trabalho... A súplica caiu em saco roto – e seis meses depois, William H. Beatty, escreveu numa crónica, num jornal de Detroit: - É inadmissível o que está a acontecer ao homem mais rápido do mundo. O vinho inebriante das suas vitórias em Los Angeles transformou-se durante a noite no mais acre vinagre… A SUA DESGRAÇA? TER ENTRADO EM ESPETÁCULOS DO FRED ASTAIRE NEGRO… Teve efeito o reparo: em janeiro de 1933, arranjaram-lhe emprego num cartório de Detroit – mas pagavam-lhe tão pouco que aceitou outro desafio: entrar em espetáculos de vaudeville com Bill Robinson, o Fred Astaire negro dos anos 20 e 30. Por causa do dinheiro que assim ganhou, em junho, a Michigan Amateur Athletic Association retirou-lhe o estatuto de amador, não pôde, por tal razão, voltar aos Jogos Olímpicos Como profissional Eddie Tolan andou pela até pela Austrália – e no regresso a Detroit voltou a escriturário no cartório. Em 300 corridas perdera apenas sete. Tornou-se professor de educação física – e em 1965 sentiu os rins a falharem. A hemodiálise não o salvou. Dois anos depois morreu – e nesse dia Jesse Owens molhou de lágrimas frase que murmurou: - Quando eu andava na escola, Eddie era o meu ídolo, foi ele que me ensinou a olhar para cima e a sonhar......
Grande História Odiado por uns, adorado por outros, foi desta forma que Diego Simeone se apresentou no Allianz Arena, para o jogo do mata-mata frente ao exército de Pep Guardiola. Morreu o outro, como se sabe. Fiel ao ´cholismo´, o futebol raçudo que reergueu o Atlético de Madrid das sombras, Simeone avisara Guardiola: «Trabalho para ganhar e não para agradar a ninguém. Trabalho para o meu clube, que é quem me paga». E o que aqui se conta é porque ele é como é - e se calhar o que não se imagina que ele seja... Era uma vez um treinador muito simples, franco e democrático. Quando Luigi Simoni era treinador do Inter de Milão, em 1998, tinha por hábito e antes de cada jogo chamar os jogadores, um a um, onde lhes falava das táticas de jogo. Os jogadores aceitavam e nunca opinavam. Todos à excepção de um: Diego, o rebelde ´Churchill´ argentino que mesmo no papel de jogador, nunca deixou de ser o que o futuro lhe reservava: o treinador que qualquer clube desejava ter. O ANTI TIKI-TAKA VESTE DE NEGRO Quando se fala de um ex-jogador argentino, nascido em Buenos Aires, de primeiro nome Diego e que hoje trabalha como treinador, muitos pensam em Maradona. Podia ser, mas o craque de quem se fala é outro, um tal de Simeone que recolocou o Atlético de Madrid na luta pelo título espanhol, rivalidando com os imperiais Barça e Real Madrid. Mais do que um treinador idolatrado no Vicent Calderón, Simeone foi jogador do Atlético em duas ocasiões: de 1994 a 1997 e de 2003 a 2004. Em 133 partidas apontou 23 golos, embora muitos deles fossem fora da baliza – adepto de um estilo de jogo agressivo e intenso, Simeone irritou de tal forma Cruyff, quando treinava o Barcelona, que o holandês chegou a comentar ´ter vontade de entrar em campo e fazer justiça pessoalmente´, revoltado com as entradas desleais do jogador. Em certa ocasião, quando vestia a camisola do River Plate, Simeone armou-se em Eric Cantona: pisou e rasgou a coxa de um jogador que começou a sangrar em pleno relvado. GOLO ´SIM´, MAMÃ ´NÃO´ No seu tempo, Simeone foi um jogador extravagante, mas não se pode dizer que não jogou com raça e coração. Até hoje. Durante os jogos não há outro como ele: berra, pula e gesticula sem parar. O lugar que lhe é reservado no banco de suplentes serve apenas para decorar. Simeone não consegue estar quieto. De pé, ou de um lado para o outro, nunca deixa os jogadores sossegados. Como ele há outro – Jurguen Klopp, o homem que se apresenta de fato de treino. Simeone é mais fino – tornou-se um adepto mascarado de fato e gravata por mero acaso. Em 2011 Simeone chegou ao trono de um Atlético sucumbido. No ano seguinte já estava numa final. Bastaram seis meses para que o treinador argentino levasse a primeira Taça, na final da Liga Europa frente ao Athletic Bilbao. Nesse dia, Simeone tirou uma camisa preta do armário. Vestiu-a e levou-a para o grande duelo. «Sou muito cabulero», admitiu Simeone numa entrevista ao ´El Mundo´, onde explicou que ´cabuleiro´, na Argentina, significa superstição. Teve sorte e tomou-lhe o gosto. Mas o destino marcou-o logo no berço. Mesmo em criança foi um rapaz diferente - a primeira palavra que Diego Simeone disse não foi ´mamã´ mas sim ´golo´. ...