QUARTA-FEIRA, 27-05-2015, ANO 16, N.º 5597
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destaques

O anel de ouro que estava a pagar a prestações na chave do crime em que a polícia pôs mistério...
Do Passado para o Presente A estrela do Olhanense era Fernando Cabrita – e a caminho dos balneários das Salésias soltou a mágoa em rodopio: - Foi injusta a nossa derrota, injusto o golo de Jesus Correia. Ele já apanhou a bola fora do retângulo, por isso é que o Abraão nem se fez à defesa, deixou-se ficar estático na baliza. Por isso, foi um erro do árbitro que deu a vitória ao Sporting, quando o Olhanense foi a melhor equipa em campo... Depois, toda a viagem de comboio para Estremoz, onde cumpria serviço militar, fê-la de lágrimas nos olhos: - ... a chorar por causa de uma injustiça tão gritante, pois então. Sporting ofereceu 25 contos só para Cabrita assinar contrato, o Belenenses ofereceu 70 e ele ficou a receber 175 escudos... Não tardou, apareceu emissário a desafiá-lo para o Lumiar. O Sporting ofereceu-lhe 25 contos de luvas, emprego como polícia – e um subsídio mensal de 800 escudos. O Belenenses subiu a parada: 70 contos de luvas, um chalet para viver durante o tempo que ficasse por Lisboa pago pelo clube- e 1000 escudos por mês. A DGD proibira as transferências no futebol – e como não havia «caso de força maior» que justificasse a vinda para Lisboa, riscou-lhe o pedido, Cabrita ficou em Olhão, recebendo 175 escudos por semana. (Nesse ano, o governo tabelou o preço do calçado. O corrente de homem não podia custar mais de 155 escudos, o de mulher 132$50. O par de botins ficava a 192$50 – e Salazar continuava com as mesmas botas que trouxera de Coimbra, mesmo gastas recusava desfazer-se delas, explicava, por vezes, incomodada Dona Maria, a governanta...) Joaquim Ferreira, vivia num quarto alugado com a mulher, às vezes não aparecia para dormir... Era, era o tempo em que o futebol ainda não dava para extravagâncias, por isso, mesmo sendo treinador do Sporting, mesmo tendo ganho já a Taça de Portugal, Joaquim Ferreira vivia com a mulher, Ofélia, num quarto alugado, na Calçada do Lavra, não longe da Avenida da Liberdade. Por vezes não dormia em casa. Tinha fama de aventureiro. Talvez por isso, a primeira suspeita da sua morte foi: crime passional. Ou então vingança por «negócios obscuros» - porque, durante a Guerra, constara que vivera de expedientes mais ou menos perigosos, murmurara-se. Uma outra hipótese se lançou: talvez armadilha montada pelo «bando dos arrebentas» que infernizava o Parque para roubos violentos, atraindo as vítimas através de mulheres que seduziam na Avenida. Estranho terem aparecido dois jardineiros numa taberna a tentarem vender os óculos do treinador assassinado... No bolso, Joaquim Ferreira levava 450 escudos, soube-se - e desapareceram. Como desapareceu um anel de ouro que comprara por 1280 escudos e que andava a pagar a prestações. Dias depois, dois jardineiros tentaram vender, numa taberna da Rua de Santa Marta, os seus óculos, acabando intercetados pela Polícia. Apertou-se o cerco aos «arrebentas». Prenderam-se vários, durante uma sesta na mata do Lumiar. Um deles, Manuel António dos Santos Duarte, sofria de perturbações mentais, fugira da Mitra, penava de fome. Deu-se como assassino, para que o prendessem e, na prisão, tivesse comida e dormida. Estampou-se em contradições durante os depoimentos, a Polícia de Investigação Criminal não o levou a sério, anotou apenas um desabafo solto ao deus-dará: que antes do crime vira Joaquim Ferreira com um «magala». No país onde muito não se podia dizer, a Polícia falou de «inconfessáveis fins»... A Polícia Militar entrou em ação. Julgou estranhas contusões no ventre que, durante o banho, apresentara o soldado João Jorge, a prestar serviço no Batalhão de Caçadores 5. Revistaram-no, descobriram-lhe o anel de ouro na mala. Preso, confessou. Dez dias após o crime, a Polícia de Investigação limitou-se a anunciar o desfecho do caso, revelando apenas que Joaquim Ferreira «estava longe de ser um homem digno e de tudo se ter passado em virtude de rixa entre ambos, que se encontraram no parque para os inconfessáveis fins que levaram ao crime». Tudo o resto, ficou no segredo dos deuses – para sempre mistério, sem que jornal algum mais pudesse contar, se o soubesse. A Censura não permitia notícias que originassem «o alarme e a intranquilidade pública» - nem a «pormenorização extensa de crimes passionais ou outros de fácil poder de sugestão». No rol das proibições estavam também questões que envolvessem homossexualidade - e anúncios de «astrólogos, bruxas, videntes» ou outros que da sua «redação possa claramente transparecer dissolução de costumes». ...
Do Passado para o Presente Quando o Belenenses se fundou, num banco de jardim virado para o Palácio de Belém, começou por jogar ali ao lado, no Pau de Fio – mas, nove anos depois,em 1928, já tinha um estádio, aliás, mais do que um estádio - o primeiro estádio de Lisboa com campo relvado, o estádio onde a seleção passou a jogar, os principais desafios passaram a disputar-se. Tal como fizera ao Benfica nas Amoreiras, sob pretexto de que por lá teria de passar o Viaduto - Duarte Pacheco, o Ministro das Obras Públicas de Salazar, obrigou o Belenenses a deixar as Salésias para que lá se construísse uma avenida, avenida que nunca se fez. O Sporting-Olhanense foi a última final de Taça de Portugal com as Salésias em palco – semanas antes, a 8 de Maio de 1945, agitara-se Portugal com a notícia de que a II Guerra Mundial terminara, que a perderam as ditaduras do Eixo: a Alemanha e a Itália, sobretudo. A Baixa de Lisboa transformou-se num imenso mar de gente em euforia – que alastrou, depois, a todo o lado. Gritou-se vitória, vitória pelos Aliados – mas quem se atrevesse a lançar vivas à URSS era preso pela PVDE. E entre as bandeiras de Inglaterra e França, viram-se, simbólicos, paus nas manifestações, foi a forma de os comunistas mostrarem que deviam lá estar outras também com a foice e o martelo sobre o fundo vermelho... Salazar a pedir eleições livres e a pensar deixar o governo... Jurando que seria incapaz de «governar contra a vontade persistente de um povo», Salazar correu a dar sinais de «democratização do Império». Dissolveu a Assembleia Nacional – marcou eleições: - ... Eleições tão livres, como na livre Inglaterra... aceitou a legalização do Movimento de Unidade Democrática, amansou a Censura. Ter de fazer tudo isso o deve ter deprimido, pois, no Outono, de férias no Vimeiro, mandou dizer ao Presidente da República, o general Carmona, que talvez fosse melhor encontrar-se alguém que o substituísse como Presidente do Conselho. Pôs em pânico as hostes, foi preciso que Santos Costa, o seu Ministro da Guerra, fosse a Santa Comba Dão suplicar-lhe: - Sua Excelência não pode abandonar-nos, por amor de Deus não nos abandone! Aceitou, uma vez mais, o «sacrifício de mandar» - e não tardou inundaram-se cidades, vilas e aldeias com panfletos – e um deles era assim: Homem da Rua que estás lendo este cartaz: Se tivesse entrado na guerra não estarias agora, tranquilamente, lendo estas palavras, concordando ou discordando. Talvez nem esta parede existisse; talvez esta rua fosse um montão de ruínas; talvez estivesses chorando a perda de alguns dos teus seres mais queridos; talvez nem tu próprio existisses! Um homem velou para que tu dormisses sem pesadelos, sem sobressaltos, um homem envelheceu, cobriu-se de cabelos brancos para que a mocidade dos teus filhos não fosse ceifada… Esse homem (digam o que disserem, os seus inimigos!...) foi Salazar, esse grande português, filho do povo como tu! Sê grato, homem da rua! Não dês ouvidos à calúnia, à inveja e à ambição! Vota no teu salvador! Vota em Salazar! Após o susto das eleições, o opositor, que não podia aparecer como diretor de A Bola Em Setembro de 1945, as forças de oposição ao Estado Novo fundiram-se no MUD. Que exigiu não apenas «eleições livres», mas também «garantia de total liberdade de reunião e expressão e abertura para a constituição de qualquer partido político» - e através do Governador Civil de Lisboa recebeu a resposta: - Não! Perante tal, o MUD desistiu das eleições de Novembro, apelou à abstenção – e a União Nacional concorrendo sozinha, recolheu apenas 53,8% dos votos possíveis, o seu mais baixo resultado até então: em 1934 tinham sido 81,6%, em 1938 83,8% e em 1942 87,6%. Salazar assustou-se, voltou a apertar a Censura, voltou a dar gás à perseguição na ideia de que quem não era por ele, era contra ele. Cândido de Oliveira fundara A BOLA com Vicente de Melo e Ribeiro dos Reis, no regresso do Tarrafal, para onde Salazar o mandara preso, não podia aparecer nem como seu diretor, nem como seu chefe de redação porque tinha no cadastro prisão política, a passagem pelo «campo da morte lenta» - e continuou, destemido, a envolver-se em ações de oposição ao Estado Novo. Com o irmão do deputado da União Nacional na presidência do Sporting, o convite ao treinador que tinha vindo do Tarrafal... A morte (misteriosa) de Joaquim Ferreira no Parque levou a que o treinador do Sporting passasse a ser António Abrantes Mendes – mas quando, em janeiro de 1946, António Ribeiro Ferreira, que, por essa altura, continuava a ter o irmão Manuel como deputado da UN em São Bento, se tornou presidente, uma das suas primeira medidas foi convidar Cândido de Oliveira para o lugar. Cândido aceitou, mas com uma condição: que Abrantes Mendes continuasse na equipa técnica, como treinador de campo, que ele ficaria, então, como Coordenador Técnico – para poder continuar dedicado ao jornal. Assim foi – e foi com Abrantes Mendes, já então juiz destacado, como treinador que o Sporting ganhou ao Atlético a edição seguinte da Taça, a primeira que se fez no Estádio Nacional (e isso é coisa que lhe vamos contar também, muito, muito brevemente – isso e mais...) SPORTING, 1 – OLHANENSE, 0 Estádio das Salésias, Lisboa 1 de julho de 1945 Árbitro: Domingos Miranda (Porto) SPORTING – João Azevedo; Álvaro Cardoso e Manuel Marques (Manecas); António Lourenço, Octávio Barrosa e João Nogueira; Jesus Correia, Armando Ferreira, Veríssimo, Albano e João Cruz. Treinador: Joaquim Ferreira OLHANENSE - Abraão; António Rodrigues e João Nunes; Santos, Grazina e Loulé; Moreira, Joaquim Paulo, Fernando Cabrita, Salvador e Francisco Palmeiro. Treinador: José Mendes/Dâmaso Encarnação Golo- Jesus Correia (86 minutos) ...
Do Passado para o Presente Primeiro treinador campeão da liga no SLB? O pai de Vasco Gonçalves que 40 anos depois incendiou o país com o PREC. Primeiro bicampeão da liga no SLB? Um húngaro que chegou a Lisboa a fugir da Guerra Civil de Espanha e que em Madrid ganhara o primeiro título para o Real, mas que fora despedido por o acharem de «pulso fraco», o seu substituto aguentou apenas 54 dias no cargo, chamava-se Santiago Bernabéu. São histórias assim que aqui se contam a pretexto do título 34 do Benfica e do bi de Jorge Jesus... A 28 de maio de 1926, Portugal passou da democracia à ditadura – e o Benfica também entrou em revolução: Bento Mântua vinha de presidente desde julho de 1917, deixou de sê-lo. (Era diretor geral do Ministério das Finanças – e prestigiado escritor dramático. Quando a 5 de Outubro de 1910 a monarquia se desfez a partir da Rotunda, o novo regime garantiu, célere, que jamais se voltaria à «censura humilhante e atrofiadora» que raras vezes permitia ao teatro ser «irreverente e altivo» mas em 1913, depois de Afonso Costa, Bernardino Machado e António José de Almeida terem saltado para a «berlinda da revista», o governo proibiu-lhe Soldado Raso…marche!, sob a alegação de que «insultava o Exército» - e Mântua tornou-se, assim, o primeiro dramaturgo censurado pela República...) Cosme Damião irritou-se e não quis ser presidente... Durante o mandato de Mântua – que só era presidente porque Cosme Damião não o queria ser - o Benfica projetou a construção do Campo das Amoreiras. O terreno custou 450 contos – e a construção ficou por 1500. O que deixou o clube hipotecado à Caixa Geral de Depósitos. Houve quem achasse que fora exagero tanto gastar – e levantou-se em contestação. A oposição tentou pôr Cosme Damião, o vice de Bento Mântua, na presidência, mas ele, caprichoso, por causa do desconchavo ao amigo e das dúvidas levantadas em torno dos dinheiros do estádio, avisou que não aceitaria o cargo, nem que tivesse de pedir demissão de sócio. Para presidente, o cunhado de Ribeiro dos Reis... A solução teve, pois, de ser outra – e em agosto de 1926, Alfredo da Silveira Ávila de Melo, engenheiro naval que fora aluno da Casa Pia e se casara com Ema Ribeiro dos Reis, assumiu a presidência tendo como vice o cunhado António e como secretário Vítor Gonçalves. (Ambos tinham jogado na primeira seleção de futebol contra a Espanha, tal como Cândido de Oliveira – mas quando, em 1919, Cândido deixou o Benfica para fundar o Casa Pia AC, Gonçalves e Ribeiro dos Reis não o quiseram acompanhar, mantivera-se fiéis ao SLB, apesar de casapianos terem sido também...) Vice-secretário era Joaquim Ferreira Bogalho – e tendo a sua direção herdado 900 contos em dívidas, ao fim de quatro reuniões demitiu-se. Descoberto em Setúbal, o treinador que também era massagista... As finanças foram-se compondo, durante três épocas, António Ribeiro dos Reis era além de vice-presidente, o treinador da equipa de futebol – e à entrada para a temporada de 1929/30 decidiu que era hora de outra jogada. Seis anos antes chegara a Setúbal Arthur John. Tinha sangue inglês, mas nascera na Áustria. Foi jogador – e além de jogador... treinador e massagista (era-o de tal forma que criou um ritual que era um espanto: às vezes, se levantava do banco para ir massajar os jogadores que sentia mais precisados disso...) O guarda-redes que ainda não era da PIDE e a confusão que meteu pontapés no árbitro e polícia a tirar jogador do campo John levara o Vitória de Setúbal a campeão de... Lisboa - e mal chegou às Amoreiras fez do Benfica o que o Benfica nunca tinha sido: campeão de Portugal, o título saiu da vitória por 3-1 frente ao Barreirense, a 1 de junho de 1930, no Campo Grande. Porém, antes da festa, houve polémica – e da grossa... A 9 de março de 1930, o Benfica estava empatado 1-1 com o Casa Pia AC no Campo do Restelo – e para ser campeão de Lisboa precisava de ganhar. À beira do fim, Carlos Monteiro, o árbitro de Setúbal, anulou o que seria o segundo golo do Benfica – e agitou-se a escaramuça por se achar que António Roquete, o guarda-redes que, por essa altura, ainda não era o que haveria de ser: agente da PIDE, defendera a bola dentro da baliza. Transformou-se o jogo num paiol a arder – e logo depois ao ver Guedes Gonçalves ceifado por um defesa casapiano, João de Oliveira correu para ele em desforço. Engalfinharam-se um no outro, fora ambos expulsos. Luís Fernandes saiu, João Oliveira não. Perante o amuo, Monteiro pediu à polícia que o tirasse do campo – e antes da guarda o levar empurrou e pontapeou o árbitro... Manifestação de benfiquistas na AFL dispersada à bastonada pela polícia... Tentando evitar na secretaria que o título fosse para o Belenenses, o Benfica apresentou protesto à AFL – por causa do golo que lhe fora anulado e na reunião em que se iria analisar o caso aconteceu o que O Século contou: «Juntou-se uma numerosa multidão nas escadas do prédio onde está instalada a Associação de Futebol de Lisboa e no Largo Trindade Coelho, que lhe fica fronteiro, secundando o protesto que, naquela associação, foi entregue pelo Sport Lisboa e Benfica, contra as decisões do árbitro no desafio com o Casa Pia AC. Junto à entrada da Associação, a Polícia conteve a custo a multidão que, por vezes, fazia ouvir energicamente os seus protestos. Como na rua a aglomeração de povo fosse grande, a ponto de prejudicar o trânsito e a boa ordem, saiu o piquete de serviço do Governo Civil que, a pouco e pouco, conseguiu dispersar a multidão, não permitindo, depois, agrupamentos no citado largo...» (No artigo não se dizia, a Censura já existia e não o deixava, mas soube-se: a manifestação dispersou-se à bastonada - como começava a ser regra...) O Benfica decidiu abandonar todas as provas, cada sócio devia dar 5 escudos pelo menos para evitar prejuízos, não foi preciso... Do que saiu, então, da AFL? O protesto do Benfica indeferido – e João de Oliveira punido com oito meses de suspensão. Não, não foi só: Pedro Silva, Jorge Tavares e Manuel de Oliveira foram castigados por 15 dias e Aníbal José com 20. O Benfica, considerando que: - as culpas do que acontecera no Campo do Restelo se deviam, em primeiro lugar, ao Colégio de Árbitros por ter nomeado um juiz sem categoria nem valor; depois, ao árbitro, por lhe faltar honestidade desportiva, decisão e nele existir somente espírito de vingança... marcou uma Assembleia Geral que decidiu, «com aplausos prolongados e palmas», que a melhor das três hipóteses postas sobre a mesa era: - o abandono imediato de todas as provas oficiais. Ávila e Melo, o presidente, não concordou. Alertou para as «quebras financeiras» que isso causaria, logo alguém propôs que para o compensar todos os sócios pagassem uma quota adicional mínima de 5 escudos – o que voltou a aprovar-se por aclamação... Afinal, os oito meses de suspensão foram nada, o Benfica foi ao mesmo ao Campeonato de Portugal de 1930/31 - e ganhou-o como ganhara o de 1929/30 Antes do arranque do Campeonato de Portugal, a AFL correu a amnistiar João de Oliveira – e por isso o Benfica acabou por não o boicotar. Deixara, porém, de ter presidente: inconformado com a decisão radical para que se tinha avançado, a do boicote, Ávila e Melo já pedira a demissão, manteve-a... ...