TERÇA-FEIRA, 03-05-2016, ANO 17, N.º 5939
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destaques

«Muitos jogam à bola, mas poucos realmente jogam futebol»
Grande História Dez anos passaram desde que Diego Simeone pendurou as chuteiras para ele próprio começar a ditar as regras do jogo. Desde logo, ´El Cholo´, como é conhecido, definiu que em primeiro lugar, o bom treinador «é o que interpreta o estilo do clube» no qual trabalha. Depois realçou que também é preciso saber «compreender» os diferentes jogadores que tem no balneário. E dá um exemplo. «O nosso papel vai além das explicações de jogo. Temos que saber lidar com as emoções. O jogador rebelde, na realidade, é diferente e possivelmente tem muito mais coração que os outros». Ele próprio foi um rebelde, e há quem diga que, aos 46 anos, Simeone é uma espécie de ´coração sentado na língua´, um treinador que defende intransigentemente os seus e não gosta ´nada´ quando os que não vestem as suas cores se põem a fazer autópsias ao seu discurso. «Não treinava o Real Madrid. Sou um sentimental dos antigos. Posso estar maluco mas sou guiado pelo coração no que toca ao futebol», chegou a dizer em entrevista à rádio ´Rock & Closs´, da Argentina, em 2012. CHOLISMO OU GUARDIOLISMO? É com a cabeça em San Siro, o palco da grande final Europeia que, Pep Guardiola e Diego Simeone medem forças no Allianz Arena depois do frenético duelo que, no Calderón deixou uma luz verde ao fundo do túnel para os ´colchoneros´. Guardiola conhece bem os perigos das equipas espanholas, ele próprio, um homem da casa que por muitos anos serviu em Camp Nou com a camisola do Barça. E se em Espanha, há quem se apaixone pelo ´cholismo´, um futebol raçudo aos ideais de Simeone, outros veneram o ´guardiolismo´, o famoso ´tiki-taka´, o futebol estético e de ataque. Simeone conduz pela segunda vez o Atlético de Madrid às meias-finais da Liga dos Campeões. A primeira aconteceu em 2014, quando perdeu o título no último minuto para o Real Madrid. Uma coisa Simeone tem a certeza – não quer repetir a tragédia frente ao Bayern de Guardiola e já avisou o rival que só pensa em ganhar. Uma tarefa que não vai ser fácil, até porque Guardiola quer mudar-se para a Premier League com o sentimento de ´dever cumprido´ e para isso terá que quebrar a maldição de ficar pelo caminho sempre que se cruza com uma equipa espanhola – depois de Real Madrid e Barcelona, desta vez é a hora do Atlético de Madrid. «O Atlético esteve mais de 10 anos sem ganhar em Madrid. Chegou Simeone e tudo mudou», elogiou o catalão Pep Guardiola, destacando o trabalho do argentino: «É um técnico top. A equipa tem a mesma mentalidade do treinador». Já Simeone admitiu que admira Guardiola e «a mentalidade e vontade de ganhar que passa aos jogadores». SIMEONE: UM CASO DE ESTUDO NA UNIVERSIDADE DE HARVARD Para Simeone não interessa o que os outros pensam, mas sim aquilo que quer para a sua equipa. «O meu estilo é ganhar e, a partir dos jogadores, eu tento potencializar uma ideia que é ganhar. Não me interessa se gosto ou se os outros gostam. Muitos falam da posse ou do futebol direto. Então se eu não tenho, por exemplo, jogadores para jogar em posse, evito fazer o que não posso fazer. Não se pode jogar de igual forma em todos os jogos. Não é o mesmo enfrentar o Sevilha, o Valência ou o Barcelona. Não se pode jogar da mesma maneira com os mesmos jogadores». Simeone explicou ainda que por vezes, pede aos seus jogadores para serem «amadores» e explicou a sua ideia. «Para sentires, deves ter paixão, ter um senso de amadorismo, não deves tratar tudo por igual. Deves sentir que o treino te prepara para ser melhor. Aqui não se negocia o trabalho, não se negocia a indolência. Porque podes jogar mal, mas o real valor está na capacidade de cada um para entender como se joga o futebol, e não a bola. Muitos jogam bola, mas poucos jogam futebol». O sucesso de Simeone no Atlético de Madrid já chegou à conceituada Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. A forma como o treinador argentino desenvolve o seu trabalho no clube espanhol é dado como exemplo às empresas. «Jogo a jogo: a empresa focada no curto prazo» é o título do artigo assinado por três professores, que enaltecem a forma como o Atlético consegue competir de igual para igual com gigantes como o Barcelona e o Real Madrid, recordando até que em determinadas alturas conseguiram superar os dois clubes com recursos incomparavelmente superiores. Diego Simeone é considerado ´um equilibrista entre o âmbito empresarial e desportivo´. No fundo, é ´uma figura que alcança grande relevância dentro do clube e um dos grandes responsáveis pelo sucesso´. OS LIVROS QUE O TORNARAM TREINADOR E foi precisamente nos livros que Simeone se inspirou para ser aquilo que é hoje: o treinador que qualquer clube desejava ter. E a magia tem um nome - a ´Livraria Esteban Sanz´, em Madrid, onde o treinador argentino já adquiriu cerca de 100 livros. «Em dezembro de 2011, quando o Simeone chegou ao Atlético, o adjunto Mono Burgos veio aqui e comprou tudo o que tínhamos sobre jogadas de estratégia. Foram 14 livros. Os melhores», contou Jorge Sanz, o dono da livraria, em entrevista ao jornal espanhol ´AS´. Já em 2006, antes de chegar ao Racing (o clube de coração) como treinador, foi o próprio Simeone que comprou setenta livros nessa mesma livraria: «Veio cá uma manhã e levou tudo o que tínhamos para treinadores. Métodos, táticas, técnicas. Não cabiam numa mala, não sei como os levou para a Argentina». E quando se fala do sucesso de Simeone em Espanha, Jorge Sanz não se surpreende. «As coisas não acontecem do nada. Ele preparara-se muito, estuda muito e só assim é que fez este Atlético de Madrid campeão». E além de Simenone, são muitos os treinadores de todo o mundo que procuram a ´Esteban Sanz´. «Vêm cá treinadores de nível médio, da segunda divisão, da segunda b», mas não só. «O Valdano compra quase tudo o que sai, o Luís Enrique também já cá veio mas foi bastante seco». Mas há uma figura que o senhor Jorge não esquece: o outro Diego, o Maradona de Buenos Aires. «Apontou para a cabeça e disse-me: ´Não preciso de nada, tenho tudo aqui´. Mas pouco tempo depois perdeu nas meias-finais do Mundial da África do Sul por 4-0». ...
Grande História A década de setenta foi uma época marcada por uma revolução social e pensamento influente, de onde resultaram vários marcos na história mundial: a guerra do Vietnã, a libertação sexual e a abundância das drogas. Uma revolução que resultou no nascimento do movimento hippie e do enfraquecimento do bloco comunista soviético, eventos que teriam um impacto importante nos anos que se seguiram. A par da política e das guerras, nascia um dos jogadores mais enigmáticos da história Albiceleste e um dos motores do futebol mundial. A RASTEIRA A DAVID BECKHAM Diego Simeone entregou-se ao futebol com 17 anos, não pelo clube de coração, mas sim ao serviço do Vélez Sarsfield. Ali destacou-se como um médio combativo e um ano depois, chegava à Selecção principal da Argentina, tendo-se estreado em Julho de 1988 num amigável frente à Austrália. Simeone alinhou em três mundiais e retirou-se como o mais internacional de sempre (106 internacionalizações e 11 golos). Pelo caminho cruzou-se com David Beckham no Mundial da França em 1998: no duelo que opôs Argentina e Inglaterra, Simeone cometeu falta sobre a estrela do futebol inglês, que mesmo caído no chão, conseguiu fazer uma rasteira a ´El Cholo´. O pior foi o que veio a seguir – Beckham foi expulso e Simeone só levou cartão amarelo. Curiosamente, em 2002, os dois protagonistas voltaram a encontrar-se no Mundial da Coreia, mas desta vez Beckham levou a melhor, apontando o golo da vitória que acabou com o sonho argentino. O ENCONTRO COM DIEGO MARADONA Apesar do jogo agressivo que apresentava, Simeone era um dos jogadores mais apreciados em campo, e as suas boas exibições levaram-no para outros campeonatos – na década de 1990 transferiu-se para Itália para reforçar o Pisa. Dois anos depois, ´El Cholo´ rumava a Espanha, onde foi apresentado no Sevilha. À sua espera tinha Carlos Bilardo, treinador vencedor do Campeonato do Mundo de 1986, pela Argentina, além de Diego Maradona, o companheiro de equipa durante uma época. A época de 1994/1995 foi um ano de emoções fortes para Simeone. Mudou-se para o Atlético de Madrid e ganhou a ´dobradinha´ com a camisola dos ´colchoneros´ - os primeiros títulos de clubes relevantes do currículo, do qual já faziam parte duas edições da Copa América (1991 e 1993) e a Taça das Confederações da FIFA de 1992 pela Argentina. Simeone desfrutou de mais sucesso quando regressou a Itália, conquistando a Taça UEFA ao serviço do Inter, mais a Serie A e a Taça de Itália, estas na campanha de estreia na Lázio (1999/2000). Após quatro anos em Roma, voltou a Madrid para a segunda passagem pelo Atlético, antes de se despedir dos relvados em 2006: optou pela Argentina e o clube de uma vida - o Racing. DE JOGADOR A TREINADOR DE FUTEBOL A despedida do Racing acabou por ser um simples ´até já´, só deu tempo a Simeone de pendurar as chuteiras e vestir o fato de treinador de futebol. No ano de estreia, nada conseguiu a não ser a simpatia dos adeptos, os troféus chegaram depois. Simeone ganhou títulos na argentina no Estudiantes (Torneio ´Apertura´ de 2006) e River Plate (Torneio ´Clausura´ de 2008). As breves passagens do técnico argentino pelo San Lorenzo (2010), os italianos do Catania (2010/2011) e novamente o Racing (2011) precederam a sua chegada ao Atlético em Dezembro de 2011, o clube que tão bem conhecia e que o recebeu como um ídolo. VIDA EM BUENOS AIRES E ESCOLA À ANTIGA: RAPARIGAS E RAPAZES NÃO SE CRUZAVAM Diego Pablo Simeone nasceu a 28 de abril de 1970, em Buenos Aires, Argentina. O número 4876, na rua Costa Rica, onde ´El Cholo´ cresceu, é por estes dias uma casa de passagem, sem a azáfama de outros tempos. Para a escola ia a pé, demorava apenas cinco minutos até chegar ao colégio paroquial de ´San José´. Ali as raparigas não tinham contacto com os rapazes, era uma escola à antiga. Hoje o muro já não os separa, até o nome foi alterado, mas continua a ser a escola mais requisitada – o colégio ´San Francisco Javier´ no bairro Palermo Viejo. Simeone esteve aos cuidados do padre Martín Bracht dos cinco aos doze anos, antes de se mudar para o colégio ´San Ambrosio´, para completar o ensino superior. Embora hoje seja um ´devorador´ de livros, em criança ´Simeone preferia a bola de futebol´, recorda Martín Bracht, embora reconheça que sempre foi um rapaz inteligente. Mas a maior lembrança está no coração de Don Carlos, o pai de Simeone. «A primeira palavra que disse quando começou a falar foi golo». ...
Grande História É exigente, ninguém duvida. Pede tudo a quem está a correr dentro de campo (e os jogadores nunca param), mas é o primeiro a retribuir-lhes com palavras sempre que obedecem e executam o plano. «Agradeço às mães destes jogadores, que os fizeram com uns cojones muito grandes», disse em ocasião no dia em que o Atlético ultrapassou o Chelsea de Mourinho em 2014, confirmando a presença na final da Liga dos Campeões em Lisboa. Assim é Diego Simeone. Em Madrid é tão ou mais ídolo que os próprios jogadores, mas nem sempre foi assim. - Reza a lenda, eternizada por jornalistas que acompanhavam o dia a dia do Atlético Madrid na década de 90, que na tarde de verão de 1997 em que foi confirmada a saída de Diego Simeone, rumo ao Inter (enquanto jogador de futebol), os colegas não ficaram tristes, pelo contrário, festejaram no balneário com garrafas de champanhe. Não porque ´El Cholo´ não tivesse sido uma peça fundamental na equipa ´colchonera´, porque foi, mas sim pelo seu especial temperamento: feitio agressivo e conflituoso. As fúrias de olhar gelado de Simeone tinham repercussões frequentes nos treinos, nas conversas de balneário e na estabilidade emocional de alguns companheiros mais frágeis. CONTAR A HISTÓRIA 18 ANOS DEPOIS… Frustração. A 17 de dezembro de 2011, o Atlético de Madrid era isto. Tinha ultrapassado a fase de grupos da Liga Europa, sim, mas na Liga espanhola aparecia em 11.º e acabava de ser eliminado da Taça de Espanha, em casa, por uma equipa da segunda divisão (0-1, com o Albacete). Gregorio Manzano já não servia como treinador. Encontrar um substituto a meio da época era uma questão de vida ou de morte. Eis que os ´colchoneros´ olharam com bons olhos o currículo de Simeone, o Diego que enquanto jogador foi mal-amado e não galã. Mas o fato preto mudou-lhe o cenário, e o carisma ajudou. Estava no Racing Club de Avellaneda mas não pensou duas vezes quando lhe fizeram o pedido. É verdade que chegou a meio da temporada, também é verdade que perdeu o primeiro jogo na estreia, mas também é verdade que no final de contas conseguiu calar os críticos. Os maiores feitos de Simeone aconteceram em 2013/2014. Naquela temporada, o Atlético mostrou que não era apenas uma equipa de mata-mata, e contra o Barcelona, em pleno Camp Nou, conquistou o derradeiro título espanhol, pondo fim a um reinado de 18 anos de pleno jejum. O Atlético de Madrid não conquistava o Campeonato Espanhol desde a temporada 1995/96, quando Simeone ainda era um jogador ´colchonero´. Este é o triunfo de uma equipa e de um clube que viveu tempos tumultuosos e soube renascer das cinzas. Desde a altura em que ser adepto do Atlético de Madrid era como uma maldição, em que a equipa foi do título de campeão à despromoção em quatro anos (1996-2000). Em 18 anos à espera de um milgare, o Atlético gastou 696 milhões de euros na contratação de 261 futebolistas e passaram 17 treinadores pelo banco. Depois da tempestade a bonança começou a alegrar os dias dos ´colchoneros´ - conquista da Liga Europa (2010 e 2012) e correspondentes Supertaças europeias, e a Taça do Rei (2013). «REAL E BARCELONA TÊM FERRARIS, NÓS TEMOS OUTRO CARRO» De qualquer modo, a verdade é que o impacto de Simeone no clube espanhol vai muito mais além do critério desportivo, como demonstram os resultados financeiros e o aumento de número de sócios. «Qual jogar bem? Há imensas maneiras de jogar bem! O mais difícil é ter um estilo próprio, e aí o Barcelona e a Seleção espanhola têm confundido as pessoas, porque nem todas as equipas podem jogar da mesma forma. Real e Barcelona têm Ferraris, nós temos outro carro, precisamos de correr de outra forma», são palavras do próprio Simeone, em fevereiro de 2012, apenas dois meses depois de ter assumido o comando técnico do Atlético de Madrid. Desde que Simeone orientou o primeiro jogo no Atlético, que a equipa espanhola registou 158 vitórias, 52 empates e 42 derrotas em 252 partidas, 64% de triunfos, face aos 44% dos 252 jogos anteriores. MAIS OLHOS QUE BARRIGA Quando treinava o Palmeiras, em 2009, Muricy Ramalho criticou o excesso de importância que é dada aos treinadores de futebol. Segundo ele, a sua influência nos resultados das equipas é apenas de 25%. Simeone apareceu para lhe baralhar as contas. Para os adeptos que seguem fielmente os passos do treinador ´Cholo´, o papel de Diego Simeone como treinador não pode ser resumido a uma percentagem. Foi ele que devolveu ao Atlético o protagonismo perdido. Não que o clube ´colchonero´ fosse medíocre antes da chegada de Simeone, apenas conseguia competir de forma diferente no mesmo campeonato. Se outrora o Atlético rivalizava com o Valencia, Sevilla e Athletic Bilbao, hoje é a maior ameaça dos gigantes Real e Barça. E no Atlético não basta apenas correr e andar na linha. Para Simeone a palavra-chave do sucesso é ganhar, mas o técnico não se refere apenas aos resultados da tabela de classificações. O argentino faz de tudo para que o seu elenco mantenha a forma, nem que para isso tenha que subsmeter os jogadores ao teste da balança. «Simeone não gosta de jogadores gordos», confidenciou Griezmann. Aos poucos, ´El Cholo´ acrescenta mais um capítulo ao seu livro, embora o final ainda seja uma história em aberto. O que se sabe, já foi dito: - Era uma vez um treinador ambicioso, aguerrido e vencedor. Chama-se Diego Simeone. Quando não mais conseguir alimentar a paixão pelo futebol, os seus herdeiros falam por si: depois de Diego, há o Giovanni, o Gianluca e o Giuliano. E tal como o pai, respiram futebol. «Os meus filhos foram a minha melhor jogada…». ...