SÁBADO, 24-09-2016, ANO 17, N.º 6083
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destaques

Do milhão e meio pelas pernas da Versace ao filho do ator de Star Wars sem sangue no útero…
Grande História Pernas decepadas, consequências iguais de acidentes diferentes. Impressionante foi, porém, como ambos, ambos italianos, deram a volta à vida – depois de a acharem perdida, num fogacho. É o que lhe contamos aqui na PARTE 2 das incríveis histórias de quem fez História no Rio 2016 (e não só…) – e nalguns casos sem sequer precisar de ganhar medalhas. Onde também se fala de como foi dramático o nascimento do filho de um ator que foi estrela em Star Wars – e do Engenhão levou medalha de ouro, emocionando o gémeo que no útero da mãe lhe sugara o sangue, o transformou em bebé-milagre… O Parque Olímpico do Rio 2016 desenhou-se por entre favela que nascera do abandono de um ícone do automobilismo: o autódromo de Jacarepaguá. Não, não foi com a Fórmula 1 que ele se fechou, foi com as corridas da Fórmula Indy – e foi lá, em Jacarepaguá, numa corrida da Fórmula Indy em 1996 que Alex Zanardi fez a primeira pole position da sua carreira. O modo como, em 1991, estava a agitar a Fórmula 3000 levara a que a Jordan o fosse buscar para os três últimos grandes prémios da época na Fórmula 1. De lá saltou para a Minardi e a Lotus – e em 1993 saiu do GP do Brasil em sexto lugar. Dois anos depois, desafiaram-no para os Estados Unidos – e logo se começou a notar o seu fulgor com várias vitórias na CART Championship. PENSAVA QUE SE IA MATAR, NÂO SE MATOU... Pela Ganassi ganhou o campeonato de 1997 e 1998, a Williams chamou-o de novo à Fórmula 1 – mas, achando que o seu paraíso estava na Indy, em 2001 voltou à CART Championship. Não, não estava – o que estava era o inferno a abrir-se-lhe, traiçoeiro e cruel no GP de Lausitz, na Alemanha. Lutava por mais uma vitória, a 13 voltas do fim teve de fazer um pit stop, na saída, perdeu o controlo do carro, do embate do muro resvalou para o centro da pista, foi atingido pelo canadiano Alex Tagliani a mais de 300 à hora: - Antes do acidente, perguntava-me o que faria se algo assim acontecesse, se tivesse de ficar, como fiquei, sem as duas pernas. A resposta que me dava era que ia matar-me. Mas, quando aconteceu, isso não me veio à cabeça. Estava muito feliz de estar vivo. Sabia que o pior tinha passado. Fui reanimado sete vezes, fiquei sem sangue. De acordo com a ciência, eu não tinha nenhuma chance de sobreviver – e sobrevivi. A NOVA VIDA NA MARATONA DE NOVA IORQUE… Não, não se limitou a sobreviver – continuou a viver a desafiar o destino, vários destinos: - Um ano depois, voltei a Lausitz para fazer as 13 voltas que faltavam para completar a corrida – e fil-las. De seguida, lancei-me a provas do Campeonato Europeu de Turismo e do WTCC, num carro adaptado através de desenho que eu próprio propus. Como piloto BMW, no WTCC, o Campeonato Mundial de Turismo, obteve, entre 2005 e 2009, quatro vitórias e 10 lugares de pódio – e nesse entretanto já se dividira por outra aventura: - Em 2007 descobri o prazer do paraciclismo – ao experimentar um daquele triciclos que não se pedalam com os pés, movimentam-se com as mãos e a minha ideia foi logo ir assim fazer a Maratona de Nova Iorque. Bastaram-lhe quatro meses de treinos – para sair de Nova Iorque em quarto lugar. Três anos depois, o campeão da Maratona já foi ele. Atreveu-se aos Jogos Paralímpicos – e em Londres ganhou a medalha de ouro no contrarrelógio e na prova de estrada – e a medalha de prata na prova por equipas. DA POLE POSITION EM JACAREPAGUÁ À MEDALHA QUE REPETIU A HISTÓRIA… No circuito da praia do Pontal, Alex Zanardi lançou-se à sua primeira competição no Rio 2016: o contrarrelógio. Ganhou-o, arrasador: - OK, o paraciclismo não foi no Parque Olímpico, mas não foi longe do Parque Olímpico, foi à sua beira – e, ao saber que o Parque Olímpico iria ser construído no circuito onde corríamos na Fórmula Indy, onde eu conquistei a minha primeira pole position, pensei: «Sempre fui tão rápido lá, que passei a amar aquele lugar – e por isso tenho de lá voltar. É verdade que, tendo estado sempre perto, não conseguiu vencer em Jacarepaguá como automobilista – e então pensei: vai procurar que aconteça o que aconteceu em Londres. Nos Jogos de 2008, o paraciclismo foi em Brands Hatch, onde eu também não ganhara como automobilista, mas levara de lá as minhas primeiras medalhas paralímpicas. Para alguém tão romântico como eu foi muito especial que a história se repetisse – e por isso senti no pódio emoção que nunca sentira antes, depois de uma vitória. SEM SABER SE VAI CONTINUAR A FAZER MILAGRES… No dia seguinte, no dia em que fazia 15 anos que Zanardi passara pelo drama de Lausitz, venceu de forma ainda mais arrasadora a prova de estrada – e foi, sobretudo, por ele que a Itália também venceu a prova de estafetas. Com as três medalhas de ouro no Rio, Zanardi tornou-se o atleta paralímpico mais medalhado da história em apenas dois Jogos: - Sim, em Tóquio-2020, terei 53 anos. Parece já de mais, não é?! Mas não sei, sinceramente, se poderei continuar a fazer milagres. O que é certo é que eu não imaginava que, aos 49, pudesse sequer estar no Rio – e não me limitei a estar no Rio, conseguiu estar a um bom nível competitivo. Posso sentir que já não sou o atleta que era no ano passado, mas foi suficiente para ganhar. Por isso digo: não sei o que acontecerá daqui por quatro anos. Uma coisa eu sei: tenho um monte de projetos na cabeça e não vou deixar-me ficar entediado se não puder ser atleta mais tempo - porque tenho muitas outras coisas para fazer. Mas se estiver bem, se continuar bem, por que não Tóquio? Eu não faço isso pela ambição de ganhar medalhas de ouro, só quero ter o trazer de continuar a andar de triciclo como ando e é por por isso que eu ganho as medalhas de ouro que já ganhei. ...
Grande História Se há espaço onde a realidade pode ultrapassar a ficção é nos Jogos Paralímpicos – nas incríveis histórias de vida de quem por lá passa a desafiar o destino e a vencê-lo por mais atroz que ele tenha sido. O que aqui se conta são algumas dessas histórias, histórias eventualmente chocantes – sobretudo aquelas que passam por americanas que fugiram do inferno que eram os orfanatos soviéticos para onde se atiraram vítimas de Chernobyl, havia fome, havia abusos (e sim, sexuais também…) Trischa Zorn nasceu a 1 de junho de 1964 em Orange, na Califórnia – e logo se percebeu que sofria de aniridia, rara doença congénita que deixa os olhos sem a íris. Cresceu, claro, sem ver – e aos 10 anos os pais inscreveram-na no clube de natação da cidade. Foi assim que se lhe abriu caminho à eternidade. Ainda antes de entrar para a Universidade do Nebraska saiu dos Jogos Paralímpicos de 1980, disputados em Arnhem, na Holanda com sete medalhas de ouro. Acabou o curso com distinção, ficou na universidade como professora – e em Atenas-2004 fechou a carreira com 51 medalhas paralímpicas, 41 de ouro, 9 de prata e 5 de bronze. Não há quem tenha mais – e o homem que mais perto está da façanha de Trischa é Daniel Dias, que no Rio-2016 chegou às 24 medalhas e de lá levou mais nove (4 de ouro, 3 de prata e 2 de bronze), pondo o mundo a tratá-lo como o Michael Phelps dos Paralímpicos. AO SABER COMO NASCEU O PAI DESMAIOU... A história de Daniel Dias começou a 24 de maio de 1988, na cidade de Campinas, Rosana, a mãe, que dava, então, os primeiros passos como professora, contou-a assim: - Naquela época não se fazia o exame de ultrassom no pré-natal na cidade onde morávamos – e vendo que a bolsa se rompeu o médico achou melhor procurarmos uma maternidade com mais recursos. Então fomos para Campinas e às 3.30 horas Daniel nasceu prematuro. Quando a enfermeira disse que era um menino e não tinha nem pés, nem mãos, meu marido desmaiou. Chorámos muito e pedimos forças a Deus. Quando pude me levantar e ir ao seu encontro, passei a mão em sua pele e Daniel sorriu. Jamais esqueceremos aquele momento emocionante. Aquele sentimento de incertezas sumiu e o sentimento de amor maior surgiu, Daniel é o nosso campeão desde quando nasceu – e para nós foi sempre uma criança normal, nunca o escondemos, nunca tratámos ele como coitadinho, pelo contrário. PELA VITÓRIA? NO CONCURSO DE PINTURA COM CAVALO VOANDO... Aos três anos passou a andar de próteses – e foi assim que entrou para a escola em Camanducaia, Minas Gerais: - Passei por preconceito no colégio, houve colegas que queriam me tocar para ver se eu era verdade. Se primeiro chegava chorando em casa, agradeço aos meus pais a sabedoria de me dizer que eu poderia mostrar para eles que não era porque eu ser deste jeito que não podia realizar o que eles faziam, brincar, jogar, escrever, pintar. Nesse período teve um concurso de pintura lá na escola, eu ganhei ele. Ganhei porque estava bonito mesmo, tinha até cavalo voando… Foi algo incrível para mim, o grande começo: depois dos preconceitos que passei - fui chamado de Saci, de aleijado - mostrei para mim que eu tinha que tirar o preconceito de dentro também. E foi esse momento que quebrou as barreiras neles e em mim criou a ideia de a cada dia me ir superando sempre, mais e mais. PROBLEMA NO FUTEBOL? AS PRÓTESES PARTIDAS... Encantado por desporto, Daniel até futebol jogava, no recreio do colégio: - Problema era um só: eu quebrava muitas próteses. A minha mãe ficava muito brava porque a gente morava em Camanducaia e tinha que viajar para São Paulo para arrumar as próteses. Eu ia pra escola e a minha mãe pedia: «Não joga bola hoje». Mas eu não aguentava, sentava, ficava olhando, e dizia: «Não vai dar». Tinha dia que eu voltava de São Paulo, ia jogar e quebrava a perna de novo, literalmente. O parafuso soltava e ficava uma parte da prótese na perna e a outra solta no chão. De tanto acontecer isso a gente foi lá e meu pai pediu uns 10 ou 15 parafusos para conseguir remendar e não precisar ficar viajando tanto… Hoje até brinco que quando comecei eu era o último a ser escolhido no futebol, mas logo depois já não era mais o último. Pode parecer algo pequeno, simbólico, mas não: é algo grandioso se a gente pensar no que eu cresci com isso - e quem já jogou bola sabe que ser o último ser escolhido não é fácil, não. SEM MÃOS, A TOCAR BATERIA NA IGREJA... Aos 12 anos, aprendeu a andar de bicicleta –por essa altura o sonho de Daniel Dias era ser baterista: - … baterista de uma banda de rock alternativo. Não tendo mãos, aprendi a tocar bateria com uma espécie de munhequeira desenvolvida pela minha mãe. Para a natação fui, depois: no fim de 2004, com 16 anos. Em dois meses e em oito aulas aprendi os quatros estilos – e logo me chamaram para a competição. Nesse tempo tocava na banda da igreja evangélica que nossa família frequentava – e quando chegou o momento em que tive que optar entre bateria e natação, escolhi o certo, com a ajuda de Deus. Na igreja conheceu Raquel, com ela se casou. Têm dois filhos – e o resto é o que se sabe: quatro medalhas de ouro, quatro de prata e uma de bronze em Pequim-2008; seis medalhas de ouro em Londres-2012; e quatro medalhas de ouro, três de prata e duas de bronze no Rio-2016: - Para isso, Daniel teve de treinar cinco horas por dia, em dois períodos. Na reta final para os Jogos do Rio teve até que ficar longe da família, preparando-se durante um mês em Espanha… Isso foi Paulo Dias, o pai que o disse – e também se ficou a saber, entretanto, que Daniel já vive com outro objetivo a agitar-se-lhe na cabeça: não, não é ganhar ainda mais medalhas em Tóquio – é fazer o curso de Engenharia Mecatrônica. ...
Estrela de Diamante Quem é este Gil Dias, o Gil Dias que fez gato sapato de Bruno César (e não só…)? Sim, essa foi pergunta que, no domingo, depressa se soltou do Rio Ave-Sporting. A resposta está aqui – e, por ela passa, entre várias outras coisas (e alguns espantos...) a camisola de Liedson e lágrimas a pingarem-lhe dos olhos quando o Sporting lhe disse que não o queria mais… O espanto começou-se a abrir-se-lhe nos pés logo aos dois minutos: Gil Dias desconcertou Bruno César revirando-lhe os olhos (e os pés...), pôs Rúben Ribeiro à boca do golo – e, nele, aquele pareceu ter sido momento à Cristiano Ronaldo. Não, não foi só – outros foi tendo mais, deixando de novo Bruno César de rins partidos (ou pior…), o modo como deu a Guedes o segundo golo do Rio Ave foi o seu momento à Messi. Quando já tinha, como nunca tivera, meio mundo a perguntar-se: - Mas quem é, afinal, este Gil Dias?! ainda fez o terceiro golo (e, sim, pode dizer-se que, nele, tanto podia ter havido um toque de Cristiano Ronaldo como um toque de Messi…) e o que aqui se revela é quem é, afinal, esse Gil Dias, o Gil Dias que ao chegar ao Mónaco em setembro de 2014 fez com que Pedro Lisboa, que com ele jogara no Sanjoanense, lhe tivesse traçado retrato parecido com o que de Gil Dias se viu, domingo, nos Arcos, contra o Sporting: - Consegue juntar irreverência, técnica e velocidade nos lances individuais, é um jogador que qualquer equipa gostaria de ter. Luta sempre até ao fim e não dá uma bola por perdida. Encara os adversários, qualquer que seja o adversário, sempre da mesma forma, tem uma entrega incrível e uma postura em campo determinante. Quando perde a bola é o primeiro a lutar por ela. Nasceu para jogar futebol, é incrível o que faz com a bola, tudo o que cria é com um objetivo, um grande objetivo… DEIXOU O BASQUETEBOL, FOI PARA O SPORTING, ERA O LEVEZINHO, SAIU EM LÁGRIMAS... Gil Bastião Dias nasceu em Gafanha da Nazaré, Ílhavo, a 28 de setembro de 1996 – e depressa se lhe percebeu o destino: - Tinha oito anos quando um senhor que trabalhava no Gafanha falou com o meu pai e eu fui treinar ao clube. Fiquei lá. Também jogava basquetebol, mas, a certa altura, o meu pai disse-me que tinha de decidir entre uma coisa e a outra, segui o futebol que era o que mais me entusiasmava. Não tardou a mostrar no Grupo Desportivo da Gafanha o seu génio: - Antes de fazer 11 anos, recebi convite para o Sporting. Embora continuasse a treinar no Gafanha, ia jogar ao Sporting. Nessa altura já me chamavam Levezinho, como o Liedson, por isso, ao chegar ao Sporting, deram-me a escolher uma camisola de um jogador da equipa principal e eu escolhi a do Liedson, de quem gostava muito, apesar de ser benfiquista… No final dessa temporada de 2007-2008, o Sporting mandou-o embora: - Fartei-me de chorar ao saber que não queria ficar comigo, mas, felizmente, recuperei a felicidade na Sanjoanense… Na Sanjoanense jogou entre 2008 e 2013. Para lá treinar tinha de fazer 50 quilómetros para o treino e mais 50 de regresso a casa – fazia-os na carrinha do clube que o levava e trazia. Apesar do gosto por Liedson, o ídolo, o verdadeiro ídolo, era outro – e natural: o Cristiano Ronaldo. ...