SEXTA-FEIRA, 29-04-2016, ANO 17, N.º 5935
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destaques

Um com uma perna de pau, outro sem uma mão. (Sim, já houve campeões olímpicos assim…)
Grande História Arrepiante, o destino de três húngaros que foram campeões olímpicos de esgrima. Mas não só o deles. Pelo que aqui se conta também passa um polaco fuzilado por nazis – e aviões a caírem (e não apenas na guerra). Ainda se fala de cavalos a fazer salto em altura e salto em comprimento e das peripécias por que passaram os homens que saltaram mais do que eles, por exemplo o que levou quatro medalhas de ouro dos Jogos Olímpicos de Paris, em 1900 (e por causa de uma delas apanhou um soco). E também se fala de um alemão deportado para a Ilha de Man por o apanharem em Londres a trabalhar como ourives, de um outro alemão que, atropelado nos Estados Unidos, foi campeão olímpico com uma perna de pau – e de mais que talvez nem imagine, por exemplo de José Bento Pessoa, o português que se tivesse podido ir a Atenas, em 1896, o mais certo teria sido sair de lá com medalha, de ouro talvez… Guerra Junqueira escrevera numa das suas truculentas crónicas de imprensa que «a bicicleta era o único veículo em que a besta puxava sentada» - e foi precisamente na «velocipedia» que nasceu a primeira grande figura do desporto português: José Bento Pessoa, que em 1899 bateu o record mundial de 500 metros no velódromo de Chamartin. Por já ser profissional, não disputara, três anos antes, os Jogos em Atenas. Onde se fizeram 100 quilómetros numa... pista de cimento, no velódromo que se construíra por 104 000 dracmas construíra-se um velódromo. (O Estádio Olímpico, o Panatenaico, também fora propositadamente construído para a edição do renascimento – graças à oferta de um milhão de dracmas de George Averoff, comerciante de Alexandria. A pista era de terra, em forma de ferradura – e tudo o resto se fizera com mármore do Monte Petélico, de onde saíra também a pedra para o Pártenon.) ERAM SÓ DOIS, O GREGO TEVE AVARIA, O FRANCÊS ESPEROU POR ELE… Nos 100 quilómetros na pista do Velódromo Olímpico, apenas dois concorrentes chegaram ao fim – e o francês Léon Flameng venceu-os em 3 horas e 8 minutos, com 11 voltas de avanço. E até poderia ter sido por mais. A dado passo, Flameng apercebeu-se de que a bicicleta de Georgios Kolettis se avariara. Parou enquanto o outro a arranjava. Adiante o francês caiu, mas o grego não esperou por ele, mesmo assim perdeu como perdeu – e no final foi duramente repreendido pela sua falta de fair-play, chegando mesmo a colocar-se a hipótese de o desclassificarem por «atitude incorrecta». Mas como desclassificá-lo de nada valia, assim ficou… ERA AVIADOR, FOI ABATIDO NA I GUERRA MUNDIAL… 100 quilómetros também se fizeram em estrada – pelo caminho dobrado da maratona, a essa prova Flameng não foi – e o campeão, o grego Konstantidinis, gastou a cumprir a distância mais 14 minutos do que Léon fizera em pista. (Depois de Atenas, Léon Flameng lançou-se a outra aventura – foi piloto aviador. Estava em combate na I Guerra Mundial quando o seu avião foi abatido por fogo alemão – caiu ao solo em Éve. Morreu na hora, acabara de fazer 40 anos…) O FRANCÊS DAS TRÊS MEDALHAS E O RECORDE DO MUNDO DO PORTUGUÊS… Quem, porém, dominou as provas mais curtas na pista foi Paul Masson. Também ele, francês. Venceu os 1000 metros em sprint (onde Flameng foi terceiro, atrás do grego Nikolopoulos), os 1000 metros em contra-relógio e os 10 quilómetros em pista (onde Flameng foi segundo). Saiu de Atenas – e profissionalizou-se. Mudou de nome, passou a ser Nossam – que é Masson ao contrário -, Paul Nossam. O melhor que fez foi um terceiro lugar no Campeonato do Mundo de 1897. Foi o ano em que, na inauguração do velódromo de Chamartin, em Madrid – José Bento Pessoa correu os 500 metros na sua nova Raleigh de nove quilos e meio em 33 segundos e 1/5, estilhaçando o recorde mundial do francês Jacquelin. Meses depois, duvidando da fiabilidade dos cronómetros de Madrid, achando que ele era espanhol e não português, suíços desafiaram-no para duelo com aquele achavam que era o ciclista mais rápido do Universo, tratavam-no simplesmente pela alcunha: Champion – e, no velódromo de Jonction, em Genebra, Bento Pessoa pura e simplesmente arrasou-o… O dinheiro que recebia pelas corridas que fazia – ainda mais o impedira de estar nos Jogos de 1900, em Paris. Se estivesse só uma anormalidade impediria que se tornasse o primeiro português a ganhar uma medalha olímpica… ...
Estilos e Espantos Cameron McEvoy tornou-se o principal trunfo australiano da natação da Austrália no ataque aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Depois de ter batido recorde de Ian Thorpe, com apenas 17 anos, e de se tornar o nadador mais novo em estreia olímpica, há quatro anos, em LOndres é o favorito à conquista do ouro nos 50, 100 e 200 metros livres - e nas estafetas de 4x100 metros livres, 4x200 metros livres e 4x100 metros estilos. E para reforçar ainda mais o estatuto, tornou-se o primeiro australiano e o terceiro homem na história da natação a tocar a fronteira dos 47 segundos sem fato tecnológico, fez 47,04... Quis e conquistou sonhando, o que o outro por querer aprendeu. O pai sempre viveu para o surf, o irmão mais velho preferiu as piscinas. Começou a ter aulas de natação com apenas cinco anos, não fazia do desporto vida, a ciência meteu-se no seu caminho. McEvoy tornou-se o novo herói australiano à conquista do ouro Olímpico, mas tal como Einstein é na física que encontra o seu equilíbrio. «Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, no que respeita ao universo, ainda não adquiri a certeza absoluta». O próximo passo é tornar-se astronauta. Foi durante uma viagem de turma a Manchester, em Inglaterra, que McEvoy percebeu que amava tanto o desporto como a ciência. E se os colegas aproveitaram a viagem para visitar o mítico estádio de ´Old Trafford´, o nadador australiano trocou o futebol para se dar a conhecer a pesquisadores famosos e visitar museus. Há inclusive relatos que dão conta do dia em que McEvoy chegou a abandonar a piscina a meio de um treino para fazer anotações, quando teve uma ideia para solucionar uma equação matemática. Apesar da tenra idade, 21 anos, o gosto pelo conhecimento já rendeu a McEvoy o apelido de ´o professor´. ...
Estilos e Espantos Rosa Mota voltou a Maratona, a vila onde a maratona começou. Por lá, pelos seus míticos caminhos correu de novo, só correu 250 metros. Foram, porém, 250 metros carregados de simbolismo - a dar, uma vez mais, a ideia de que não há, na maratona no feminino, figura como ela - e por não haver é que o COI a pôs a fazer o que fez. «Este local é especial e teve um grande impacto na minha vida e fez de mim a pessoa que sou hoje. Regressar aqui para transportar a Tocha Olímpica fez-me reviver muitas memórias felizes». Com ela andou outra figura, de um simbolismo diferente, um refugiado sírio que perdeu metade de uma perna na explosão de uma bomba e continua a fazer natação... «Hoje foi importante para relembrar como o desporto pode unir e inspirar, assim como promover o papel vital que pode desempenhar na promoção da paz e harmonia na sociedade». Essas foram também palavras de Rosa Mota, logo após o seu percurso Na Estafeta da Tocha. E para marcar com ainda maior força o que a Maior Maratonista do Século XX disse - antes dela a Tocha esteve na mão de Ibrahim al-Hussein, o refugiado sírio escolhido para transportar à beira do campo de refugiados em Eleonas, Atenas, que serve de abrigo a 1500 pessoas. Um gesto simbólico que representa a solidariedade com os refugiados num momento em que existem cerca de 60 milhões de pessoas deslocadas no mundo, foi o que se disse. «O desporto pode curar muitas feridas. O desporto pode trazer-lhes esperança, pode ajudar a forjar os seus pensamentos. Em última análise, traz-lhes esperança e sonhos», foi desta forma que Jacques Rogge, o enviado especial do Secretário-Geral das Nações Unidas para Jovens Refugiados e Desporto, deu a conhecer a história de Ibrahim al-Hussein. Antes da guerra tomar conta da Síria, Al-Hussein fazia a vida como eletricista, profissão que escondia a sua verdadeira vocação: era apaixonado por desporto. Filho de um treinador de natação começou a experimentar as piscinas com apenas cinco anos. Também gostava de jogar basquetebol e praticar judo. Da infância recorda os dias em que saltava da famosa ponte suspensa da cidade para o rio Eufrates. Nunca teve medo, nem mesmo no dia em que perdeu parte da perna numa bomba perdida para salvar um amigo…...