TERÇA-FEIRA, 07-07-2015, ANO 16, N.º 5638
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destaques

Um soco do Eusébio? Sim, perdeu a cabeça a defender o joelho massacrado...
Estrela de Diamante É a parte 10. Com Eusébio no Panteão, relembramos-lhe Eusébio – o Eusébio Como Nunca se Viu do livro que A D. Quixote publicou em parceria com A Bola. Mesmo que já o tenha lido, não deixe de ir até ao fim – porque, aqui, há muito de novo para ler sobre o Eusébio e o país do Eusébio, o mundo do Eusébio. E não deixe também de atirar os olhos à galeria de fotos porque só assim poderá ver o Eusébio como o Eusébio nunca se viu, mais ainda do que o Eusébio que se viu no Eusébio como Nunca se Viu... Talvez ninguém antes tivesse posto, como ele pôs, o futebol a correr no encanto do seu frenesim – e isso, para Eusébio, tinha uma razão, razão que revelou a Afonso de Melo, está lá, na obra notável que é Eusébio - Enciclopédia: - Ter praticado atletismo deu-me algo de bom, posso agradecer isso! A velocidade, o arranque... Hoje já não vejo os vídeos do meu tempo, quem vê é o meu neto, porque fico com saudades. Mas se me recordo da minha maneira de jogar, há que dizer que tirei muito do meu estilo de correr do tempo em que treinava atletismo. E isso deu-me vantagem sobre os adversários na forma como corria com a bola controlada... O JOELHO QUE FOI DRAMA SÓ SEU E ATÉ VIROU CANÇÃO... Mas foi dessa vertigem também que lhe saltou para o joelho o que haveria de ser o seu calcanhar de Aquiles. Sim, o joelho de Eusébio foi mais do que drama só seu – e, muitas vezes, para que o Benfica ganhasse no campo (e, sobretudo, na tesouraria) ele aceitava que o injetassem para enganar dores, poder jogar - e, em 1969, uma banda chamada... Conjunto Sem Nome pôs em disco O Joelho de Eusébio, por entre os seus acordes em marcha sambada, ouvia-se: O joelho do Eusébio fez o mundo estremecer / Mas o Eusébio, tem joelho ‘inda` para dar e vender/ O joelho do Eusébio/ dá para a defesa mais rude/ e o menisco do Eusébio/ é o menisco da saúde. O JOELHO ESTAVA DOENTE, EUSÉBIO NÃO SUPORTOU A «CACETADA»... ... E por causa desse joelho, do joelho que às vezes fazia estremecer o mundo, houve dois instantes (dois instantes apenas...) em que Eusébio não foi ferro. O primeiro? Ainda em 1968, a 22 de agosto, na tarde em que o Benfica bateu o Vitória de Setúbal por 2-1. Eusébio tabelou com Simões – e quando se esgueirava para a baliza Conceição atacou-o de faca na liga: - Deu-me uma cacetada no joelho, logo no joelho a que eu tinha sido operado. Isso irritou-me, enervei-me, perdi a cabeça, lamento imenso a minha atitude... O que é que ele fez, que atitude foi essa? Reagiu ao pontapé no joelho com agressão – e foi expulso... Expulso também foi Simões por ter saltado brusco em sua defesa – e Conceição fez em A Bola a sua caramunha: - Tropecei no Eusébio, dei-lhe no joelho, mas sem querer. Gerou-se aquale confusão toda, só sei que o Simões correu para mim e me agrediu e depois o Eusébio também veio direito a mim e... olhem...... A SAIR DE MUSTANG, APLAUDIDO EM DELÍRIO... Eusébio acabara de mudar de carro – nesse dia saiu da Luz já de Mustang, com multidão de benfiquistas à porta a gritar por ele, a aplaudi-lo em delírio como se tivesse marcado um golo, alguns murmurando: - Não se faz o que o Conceição fez: atacar o joelho doente do Eusébio, como ele atacou... Soube-se que apesar de estar a jogar, jogava com uma atrofia de cinco centímetros: - ... e isso é brutal, ninguém sabe como é que ele aguenta... A FPF aplicou-lhe três jogos de castigo – e essa foi a terceira expulsão da vida de Eusébio, no clube a imagem que se passou foi: - Ainda bem, vai ter três semanas de descanso, o joelho agradece... AS EXPULSÕES DE EUSÉBIO? SÓ DUAS ANTES, UMA RIDÍCULA NAS ANTAS... (As expulsões anteriores de Eusébio? A primeira dera-se em junho de 1963 – e em desafio para a Taça Ribeiro dos Reis também fora posto fora de campo por reagir a agressão de Mira, defesa do Barreirense, na tarde em que o Barreirense bateu o Benfica por 5-1: A outra expulsão? Foi nas Antas, em outubro de 1964 – e ridícula: por desobedecer a uma ordem do árbitro, que o avisara de que não podia mexer na bola, antes de marcar o livro. Ajeitou-a ao de leve, ele pô-lo na rua – e o espanto foi tal que até Otto Glória, o treinador do FC Porto, saltou em sua defesa, falando de uma tremenda injustiça... DEPOIS DE CONCEIÇÃO, CALADO EM MAIS UM ATAQUE... Não, depois de ter atingido Conceição – nunca mais voltou a ver cartão vermelho. Mas, para isso, teve de deitar vezes sem conta água para a fervura. E a 2 de fevereiro de 1969, em Matosinhos, voltou a ser vítima de massacre. Calado fora emprestado pelo Benfica ao Leixões – e aos 68 minutos do jogo em Matosinhos fez o que depois contou: - O Eusébio ia a esgueirar-se perigosamente para a baliza, quis agarrá-lo, não consegui. A única hipótese de evitar o golo era aquela: rasteirá-lo. Foi o que fiz, mas tive a infelicidade de o magoar. Fiquei desesperado, pedi-lhe desculpa, sou amigo do Eusébio como de um irmão, creio que ele não ficou zangado, até me disse: Deixa lá, paciência... Mas quero ir outra vez pedir-lhe desculpa, estou à espera que saia do balneário... ... JOSÉ ÁGUAS SÓ DISSE: «TEM CALMA EUSÉBIO, TEM CALMA...» Para o lugar de Eusébio entrara José Augusto – e Eusébio continuava a viver no no pavor de que o seu menisco, o seu joelho, se transformasse, outra vez, no seu calcanhar de Aquiles – e por isso fez o que já ninguém imaginaria que ele fosse capaz de fazer... Lembrando-se de que Gentil lhe atacara a perna esquerda a pés juntos, não se dignara sequer a desculpar-se-lhe, remoendo a dor, vendo-o sair do balneário, aproximou-se sem palavra, espetou-lhe um soco. O outro, comprometido, nem pestanejou – e José Águas, que era o treinador do Leixões, fechou a questão com um murmúrio: - Tem calma, Eusébio, tem calma! Eusébio afastou-se suspirando, repetindo, que tinha medo que tanta pancada, acabasse por destruí-lo. (Pouco faltou, numa ou outra situação - e, claro, passou a vida arrependido de ter feito o que fez ao Gentil, contava-se...) ...
Estrela de Diamante No último dia de janeiro de 1969, houve três totalistas no Totobola – e um deles pode ter perdido uma «fortuna»: ele, o apostador, esquecera-se de colocar nome e morada no boletim, que preenchera com seis apostas, gastando 10 escudos e registara algures pelo Alentejo. Sim, não se sabe se perdeu ou não: a Santa Casa tentou encontrá-lo – e para isso colocou cópia da aposta em A Bola, o que nunca se soube foi se o descobriu porque de um pormenor não se esqueceu: de se considerar anónimo. Nessa semana, em que a surpresa maior foi a derrota do Sporting em Guimarães, um dos talões milionários (eram quatro...) estava em nome de um desportista famoso: Sérgio Malpique, então tenente da Marinha, fora atleta do Almada e fazendo equipa com um vulto de literatura: Romeu Correia sagrara-se campeão nacional do lançamento do peso em 1940. Também jogou andebol – e foi dirigente da Federação Portuguesa de Atletismo. Não, não ficou com os 1192 contos só para si, repartiu-os por cinco amigos, com quem fizera sociedade... ESTRANHO? SIM, ESTRANHO UM BENFICA CAMPEÃO COM APENAS 10 GOLOS DE EUSÉBIO... Menos de um mês depois, Francisco Bravo Seromenho ganhou 3 830 contos - e, na semana seguinte, o Departamento de Apostas Mútuas lançou uma «novidade sensacional no totobola»: juntou no mesmo boletim sete jogos apenas, seis apostas eram para o resultado ao intervalo, sete para o resultado final – e não, dessa vez não houve milionário. Foi a jornada que em que o Benfica fez, uma vez mais, a festa de campeão, em Tomar. Ganhou por 4-0, Eusébio marcou dois golos (e essa fora uma época estranha para si: por causa do joelho só fizera 21 jogos no campeonato, nesses 21 apontara 10 golos apenas, Torres marcara 16, mas, na Taça de Portugal, em nove jogo averbou 18...) QUE ERA EXILADO POLÍTICO, ISSO NÃO SE PODIA DIZER... Por essa altura, em abril de 1969, A Bola pôs foto supreendente na sua primeira página - uma foto de Chico Buarque com a camisola do Benfica. Viera a Lisboa para concertos no Monumental e no Villaret, com Vinicius de Moraes e Nara Leão. A revolução que fizera na música brasileira (e não só...) obrigara-o a exilar-se em Roma. (Claro: na entrevista que A Bola lhe fez, esse facto foi cortado, como cortadas a lápis azul foram todas as referências ao espírito de intervenção do que cantava – quando ele contou: - Em Itália não sou só cantor, estou jogando num clube a sério. Estamos federados e tudo...) REBELDE, AO LADO DE NARA E VINICIUS, O CHICO COM A CAMISOLA DO BENFICA No espetáculo do Villaret, exibira a camisola do Benfica da foto – e falara empolgado do modo como o «time de seu Otto e do grande Eusébio» ganhara o campeonato ao FC Porto, graças a um empate a zero na Luz, no domingo anterior. A camisola que usara com um ex-voto, dera-lha o Eusébio: - Sim, é verdade: não podendo, por infelicidade de calendário, ver o Benfica jogar, fui ver o Benfica treinar. Ou melhor: o Eusébio. O cara não engana: simpatiquíssimo, honrou-me com uma camisa do Benfica até... A ZANGA E A «BARBARIDADE» DE EUSÉBIO... Nuno Ferrari estava lá, na Luz, fez as fotos do encontro das estrelas, juntou-lhes Mário Coluna e Otto Glória - e uma guitarra, uma guitarra nas mãos de Eusébio: - Gostei muito de conversar com o «chapa». Eusébio sabe de música, gosta de música boa. Repito, cara: só tive pena de não o poder ter visto a jogar. Mas é o tal problema: nós cantamos ao domingo, a televisão não transmite os jogos... Não, também não vi o que Eusébio fez no Mundial de 66, mas li que foi... barbaridade. No Brasil, a TV não deu esses jogos em direto, estava para ver o Portugal-Brasil em direto, mas, ao saber do resultado, zanguei-me com o «escrete», não vi mais desafio nenhum. Parece que fiz mal, perdi o espetáculo que Portugal deu, que Eusébio deu, um festival, foi de maravilha......
Estrela de Diamante A Taça dos Campeões de 1968 fugiu ao Benfica no último minuto - porque no último minuto o joelho de Eusébio não deixara que Eusébio fosse Eusébio em Wembley contra o Manchester United - e o Nápoles não deixou de lançar canto de sereia a Otto Glória: 1800 contos de luvas, 50 por mês, automóvel de luxo, mansão no bairro mais chique da cidade, com vista para o Vesúvio. Uniram-se os treinadores italianos, ameaçando greve se se autorizasse a transferência. Não foi preciso porque Otto preferiu continuar no Benfica, cobrando menos, muito menos: 1000 contos de luvas, 20 por mês, 300 pela Taça dos Campeões, 100 pelo Campeonato, 50 pela Taça. E nem sequer se importou com o Mercedes 250 SE que os napolitanos lhe davam, nem exigiu vivenda no Restelo ou em Cascais. A CAMPEÃ OLÍMPICA QUE CORREU PARA EUSÉBIO... Inferno, para Otto, foi apenas a Taça dos Campeões – que até começara num paraíso todo pintado de branco. Quando o Benfica aterrou em Amesterdão, na segunda semana de fevereiro de 1969, a cidade parecia recortada de um postal por entre a neve a branqueá-la, em flocos sem fim – e no primeiro corredor do aeroporto uma estrela correu a pedir um autógrafo a Eusébio: era Ann Schut, a holandesa que se sagrara campeã olímpica de patinagem, meses antes. (Ritual assim, tornara-se normalidade pelos quatro cantos do mundo...) O ESPANTO QUE FOI VÊ-LO A FAZER ESQUI... Depois, com o Benfica hospedado à beira de uma pista de esqui, Eusébio pediu permissão a Otto Glória para experimentar descer o cômoro da montanha – e desceu-a de tal modo que alguém bradou: - Se o Jean Claude Killy tivesse visto o Eusébio, talvez se assustasse... (Killy era, então, uma espécie de Eusébio no esqui alpino – e Eusébio deu mais uma mostra do que se sabia: que talvez não houvesse ninguém tão eclético, bom em tudo a que se dava em desafio...) O JOELHO QUE O JUNTOU A GINA LOLLOBRIGIDA... Impressionante, muito mais impressionante, a foto que Nuno Ferrari lhe apanhou no treino antes da partida com o Ajax: o gorro, a camisola, as calças - tudo coberto da neve a enovelar-se, a bola na mão, também. (Nesse dia, vários jornais pela Europa falaram de Gina Lollobrigida – a viver o seu... momento Eusébio porque escavacara um joelho a 100 à hora num acidente de carro a caminho de Florença, de ver o que não viu: o Fiorentina-Cagliari.) O PRINCÍPE DESCEU AO BALNEÁRIO E PEDIU O FAVOR DE UM AUTÓGRAFO... O Ajax-Benfica era para a segunda eliminatória da Taça dos Campeões. Na véspera, o Estádio Olímpico de Amesterdão tinha 30 centímetros de neve sobre a relva. Andaram bulldozers limpando-a durante toda a noite, durante todo o dia. Só 45 minutos antes da hora prevista, a UEFA decidiu: pode fazer-se o desafio. Os termómetros apontavam para oito graus negativos. Ainda o Benfica não subira ao relvado para o aquecimento, quando Bernardo, o príncipe consorte da rainha Guilhermina, desceu ao balneário. Bateu à porta – e pediu o favor de o deixarem fazer uma... fotografia com Eusébio, os dentes rilhavam-lhe de frio. A MISTERIOSA PEDRA CHAMADA... PÉS DE GALINHA Quando os holandeses olharam para José Henriques e o viram sem collants regalaram os olhos de espanto. E também não tinha luvas: - O senhor Otto mandou comprar uma pedra chamada pés de galinha, que se desfazia em pó – e nós esfregávamo-lo nas mãos e na roupa e nas botas, pois assim a bola não escorregava tanto. Havia o mito – de que a neve era o inferno dos jogadores portugueses. Não, naquela noite não foi, o Benfica ganhou por 3-1, em branco, branco sujo, ficou Eusébio. COMO JACINTO TEVE DE ENGOLIR O «PAU DE FIO»... Antes do jogo da segunda mão, na Luz, durante o aquecimento, Jacinto, maroto, virou-se para Toni – e perguntou-se se aquele «pau de fio» que ali estava é que era o tal... Cruyff de que se andava falando tanto?! Aos 12 minutos, já tinha a resposta – em dois golos, dois golos que atiraram o Benfica ao abismo. Acabando com 3-1 para o Ajax, foi a decisão para terceiro jogo. Em Paris. 0-0 no tempo regulamentar, 3-0 no prolongamento, o Benfica eliminado. Mais estranho, facto histórico: em 270 minutos contra os holandeses, nem um golo só de Eusébio... (No verão seguinte, Eusébio desafiou Cruyff a vir passar férias ao Algarve, ele veio - e Nuno Ferrari publicou as fotos em A Bola...)...