SÁBADO, 07-05-2016, ANO 17, N.º 5943
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destaques

Tudo por causa do Mourinho antes do Mourinho...
Grande História Campeão como o Leicester, nunca houve?! Houve. E se calhar ainda mais espantoso foi o que então sucedeu, como sucedeu. Sim, a história que lhe vamos contar é a história do Nottighan Forest. E do milagre ter sido obra de alguém - que ia muito para além de Ranieri, que, muitos anos depois, os ingleses acharam que era um José Mourinho antes de José Mourinho. «Queremos entreter os adeptos, encher os estádios e deixar as pessoas felizes». Disse um dia o Mr. Big Ead do futebol inglês. Fez isso e muito mais. Sim, antes do improvável conto de fadas – um Leicester campeão sob o domínio de um homem que antes nada conquistara, ao leme de um barco de marinheiros a remar contra a maré – houve outro. Outro campeão e outro treinador – possivelmente o melhor que a Inglaterra conheceu mas com um feitio imperial que nunca o deixou chegar a selecionador, o Brian Clough. Era único - e criou uma lenda à sua volta que nem a lenta decadência provocada pelo álcool conseguiu travar. Não, não fez do clube campeão logo no ano em que chegou à I divisão, ainda fez do Nottingham Forest campeão europeu... A história começou muito, muito antes. O futebol moderno nasceu em Nottingham mas o Forest não estava na equação. Foi o vizinho Notts County, o primeiro clube profissional do mundo, quem deu o pontapé de saída para a grande aventura: uns apelidam de futebol, outros de vida e paixão. Aconteceu em 1862. Três anos depois, um grupo de amigos habituados a jogar hóquei (no gelo e em patins) por diversão, decidiu que estava na hora de dar à cidade um novo alento – para isso decidiram formam um novo clube. As reuniões começaram no Clinton Arms, na ancestral Sherwood, o bar que mais parecia um lar – as noites eram lá passadas, e entre copos e cervejas a ideia ganhou forma. RAÍZES DO NOTTINGHAM Quando a discussão entrou no campo dos nomes, o grupo decidiu de forma unânime unir a cidade a um dos seus maiores símbolos, a mítica floresta de Sherwood, palco das aventuras do célebre Robin Hood. Nela J.S. Scrimshaw apresentara proposta de que o grupo de jogadores de shinney abandonassem o gelo e os patins e começassem a dedicar-se ao futebol. Ainda na reunião de 1865 tornou-se outra resolução prioritária: comprar uma dúzia de bonés que estabeleceriam a cor do clube, o vermelho Garibaldi, em honra do revolucionário italiano e dos camisas-vermelhas, bastante populares em Inglaterra por essa altura. O primeiro jogo do Nottingham Forest Football Club aconteceu a 22 de março de 1866, contra o Notts County, embora o Forest só tenha surgido como clube formado um ano depois, em 1867. Vendo a inscrição rejeitada em 1888, o Nottingham Forest só integraria a Football League em 1892, graças à vitória na Football Alliance, onde continuou a jogar durante esses quatro anos. A maioridade do clube concretizara-se anos antes, em 1879, quando o grosso da equipa do Notts Castle County desertara e se juntara ao Forest, e quando, já com o onze reforçado, o clube decidiu inscrever-se na Taça de Inglaterra e encontrou o rival Notts County na primeira eliminatória, vencendo por 3-1 e atingindo as meias-finais. A primeira conquista estava perto – e depois dela uma história que faria Nottingham Forest um dos clubes mais singulares da própria história do futebol. ...
Grande História Podem chamar-lhe conto de fadas - ou a história em estado de choque. Podem chamar-lhe o que quiserem mas há muito que o futebol não dava à vida metáfora assim - no campeonato de Inglaterra ganho pelo Leicester. Feita de segredos e mistérios que aqui se desfazem - e de curiosidades incríveis que aqui se revelam. Por exemplo, repare nesta: no dia 2 de maio de 1993, Peter Schmeichel sagrava-se campeão de Inglaterra pelo Manchester United, num dia em que não jogou, mas em que beneficiou do facto de o rival direto na luta pelo título não ter ganho (era o Aston Villa e perdeu 2-1 com o Oldham). Tinha 29 anos, o guarda-redes que sempre teve o coração perto da boca e que no Sporting foi um autêntico Grand Danois. Com ele os leões quebraram um jejum de 18 anos. No dia 2 de maio de 2016, a história repetiu-se, desta vez com Kasper, o filho pródigo que lhe roubou o protagonismo: pelo Leicester sagrou-se campeão de Inglaterra, aos 29 anos - e também sem jogar, beneficiando do romantismo de Hazard: neste caso, o Tottenham, o rival direto empatou 2-2 com o Chelsea. E foi assim que aconteceu o que para as casas de apostas era menos provável do que Elvis estar vivo, do que Kim Kardashian ser presidente dos EUA ou do que o Papa tornar-se futebolista. E temos mais, muito mais, para lhe contar... Escrevia Eduardo Galeano, escritor uruguaio, que ´o golo é o objetivo principal no futebol. É isso que determina quem ganha e quem perde, independentemente da nota artística. Mas há outro momento especial neste jogo seguido por milhões de pessoas: a finta, a que Galeano descreveu como o puro prazer do corpo que se lança na proibida aventura da liberdade. Nos textos sobre futebol, e não só, nunca teve dúvidas em temperar os factos com uns pozinhos de lenda. Ele próprio foi sempre um adepto ferrenho pela grande arte, mas acabou por trocar os pés pelas mãos, foi a escrita que o inspirou, foi a escrita dele que lhe apresentou o mundo. Os anos foram passando e, com o tempo, acabou por assumir a identidade: não passo de um mendigo do bom futebol. Ando pelo mundo de chapéu na mão, e nos estádios suplico: - Uma linda jogada, pelo amor de Deus! E quando acontecia o bom futebol, agradecia o milagre: - Sem me importar com o clube ou o país que o oferece. UM CONTO DE FADAS CHAMADO LEICESTER Galeano, mais do que um romântico escritor, foi o apaixonado pelas palavras que tirou o futebol da sombra. No seu estilo de escrita há uma dimensão mística, comum a autores do chamado realismo mágico, como Garcia Marquez ou Julio Cortazar: «Há tentativas de explicar milagres técnicos e físicos do futebol com magia, os grandes futebolistas são como anjos que aparecem a pairar no mundo real». Claudio Ranieri esperou trinta anos para ser feliz. Com poucos milhões transformou os pequenos sapos do Leicester em príncipes. É uma daquelas corridas desenfreadas de Kanté. O remate certeiro de Vardy. A finta que deixa o defesa por terra de Mahrez. O corte impetuoso de Wes Morgan. Só quem vê consegue acreditar. São daquelas histórias deliciosas que transcendem os próprios livros – um verdadeiro conto de fadas tornado realidade. Para Galeano, o futebol é algo tão importante que não se pode conversar apenas alguns minutos sobre ele, é preciso dedicar-lhe horas e horas. Ranieri dedicou-lhe uma temporada, que mais pareceu uma vida. Porque futebol é isto. O jogo tem várias cores, e depois vários tons. Nem todos são vivos e brilhantes, nem sempre ganham os que estão na moda. Chamem-lhe milagre, conto de fadas, choque, chamem-lhe o que quiserem, mas o Leicester é campeão. ...
Grande História Sem tramoia a dois judeus, que pode ter tido dedo de Hitler, Jesse Owens não teria ganho quatro medalhas de ouro em Berlim. Sentimental, ainda tentou que não o pusessem na estafeta de 4x100 metros, mandaram-no calar, dizendo-lhe: - Tu, aqui, só tens de correr e fazer o que te mandarem! Depois, quiseram obrigá-lo a andar em tournée pela Europa, não aceitou, apanhou o primeiro barco regressou à América – e ao chegar vários hotéis de Manhattan recusaram-lhe entrada por ser negro. Pior aconteceu depois – e aos 23 anos já estava irradiado do atletismo… (E, sim, é assim que se fecha, no capítulo 3, a história de Jesse Owens...) Magnífico o filme que Leni Riefeensthal fez dos Jogos Olímpicos de 1936. E, nele, empolgantes as imagens de Jesse Owens. Encolhido como uma pantera antes dos 8,06 metros do salto em comprimento. Sorrindo como uma criança depois do abraço de Lutz Long. Elétrico, como se quisesse engolir nervosamente os lábios antes da partida para a final dos 100 e dos 200 metros - e o bulício indistinto das suas pernas parecendo asas quando passava pelo italiano Orazio Mariani a caminho da quarta medalha de ouro nos 4x100 metros – como se ele fosse a velocidade em beleza, o deslumbramento em corrida. E da estafeta também saiu mistério que nunca mais se desfez... TAMBÉM NÃO TEVE BOLSAS, LAVOU PRATOS, LIMPOU O CHÃO… De Ohio, tal como Jesse Owens, era Sam Stoller: - Desde que a escola, desde o liceu, eu era o tipo que ficava sempre em segundo lugar porque em todas as minhas corridas estava o Jesse. Quando chegou a altura da universidade, foram por caminhos diferentes: Owens para a Ohio State University, Stoller para a Michigan University. Num ponto, voltaram a ter destinos iguais: nem um, nem outro, conseguiram bolsa que lhes pagasse os estudos – para o fazer, Sam lavou pratos na cantina da Universidade, limpou o chão nas instalações da Fraternidade. Sobre o dia em que se apurou para Berlim, Stoller afirmou: - Ao passar por mim, ouvi Jesse gritar-me: Vai Sam, força atrás de mim, tu consegues. Nunca na vida vi ninguém com coração maior do que ele. Na final, abraçou-me, disse-me, sorrindo, como só ele sorria: Eu sabia que tu conseguias, não podia deixar de puxar por ti, desculpa lá se te incomodei… Não, Sam Stoller não ganhou ali o apuramento para os 100 metros, ganhou-o para os 4x100 - e Marty Glickman também. OWENS DEFENDEU OS JUDEUS DA INJUSTIÇA, MANDARAM-NO CALAR-SE… Stoller e Glickman eram ambos judeus – e, na véspera da estafeta, Lawson Robertson, o head coach dos Estados Unidos, marcou reunião de emergência – e foi direto ao assunto: - Descobrimos que os alemães esconderam os seus melhores sprinters para nos ganharem de surpresa os 4x100 metros. Por isso decidi que vamos correr com Owens e Metcalfe. Sam Stoller, completamente atordoado, não foi capaz de dizer uma palavra – e Jesse Owens saltou, felino, em sua defesa: - Mister, eu já ganhei três medalhas de ouro, as três medalhas que vinha para ganhar. Estou cansado, estou feliz. Por isso, lhe peço: não faça uma coisa dessas a Sam e a Marty. Eles também merecem ser campeões olímpicos. Brusco, Deam Cromwell, o treinador assistente, ripostou-lhe: - Jesse, tu, aqui, só tens de correr e fazer o que te mandarem!...