TERÇA-FEIRA, 02-06-2015, ANO 16, N.º 5603
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destaques

Matou o Bruce, bateu o recorde de Obama (mas contamos-lhe mais: como Jenner chegou a campeão olímpico e como passou a ser Caitlyn...)
Estilos e Espantos Nunca uma capa da Vanity Fair causara tanto frenesim como causou a que tem Jenner de corpete branco e justo em pose de discreta sensualidade – e uma frase a marcar-lhe mais do que um destino: - Chamem-me Caitlyn! Caitlyn era Bruce, o Bruce Jenner, campeão olímpico de decatlo, nos Jogos de Montreal, onde Carlos Lopes só não ganhou a medalha de ouro também nos 10 000 metros por ter sido traído, na ponta final, pelas transfusões de sangue de um polícia finlandês, o Lasse Viren – e abrindo no Twitter a conta Caitlyn Jenner em menos de uma hora arrastou para si milhão de seguidores, quatro horas depois já estava no Guinness, em quatro horas atingira os quatro milhões, o recorde anterior pertencia a... Barack Obama, que para chegar aos quatro milhões precisara de cinco. E o que aqui lhe contamos não é só a história do nascimento de Caitlyn ou a história da morte de Bruce – também é a história de Bruce, o que Bruce foi... Foi Emily Yahr quem o escreveu numa reportagem que publicou no Washington Post: Cerca de um ano depois de ter batido o recorde mundial do decatlo e ter ganho a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Montreal de 1976, Bruce Jenner encontrou-se com o seu amigo e jornalista desportivo Barry McDermott, para um jogo de ténis em Nova Iorque. McDermott tinha sugerido uma partida no seu clube privado, mas isso não era muito o estilo de Jenner. A privacidade nunca foi a sua prioridade. Os dois acabaram por ir para o Central Park, onde rapidamente se espalhou a notícia de que Bruce Jenner (Bruce Jenner!) estava a jogar no court público. McDermott recorda-se de como a multidão começou a crescer, tal como sabia que iria acontecer, com os mirones a comprimirem-se contra a rede do campo, observando todos os movimentos daquela atraente superestrela do atletismo. Não foi um golpe publicitário, insiste McDermott: Jenner, tão célebre naquela altura como Michael Phelps ou Lance Armstrong no auge da sua fama, já tinha publicidade em quantidades suficientes. «Foi mais: Vamos confraternizar com o povo e não com os elitistas», recorda o amigo. Quase quatro décadas depois, Jenner ainda confraterniza com o povo: com os milhões de espetadores que assistem ao Keeping Up with the Kardashians, o célebre reality show do canal E! com a despudorada e célebre família americana. Jenner, que já chegou a ser o mais famoso do clã, é sobretudo um personagem secundário do programa e dos seus quatro congéneres, o pai cansado e de olhos arregalados perante a sua exuberante ex-mulher Kris, o autoproclamado “momager” (uma junção de mãe e manager), e os seus vários filhos fotogénicos. Mas, agora, o menino querido da era do disco está novamente no centro das atenções, de uma forma que poucos fãs conseguiriam imaginar em 1976. As primeiras fotos de tablóide apareceram no Outono: Jenner com o cabelo comprido com madeixas loiras. Jenner com unhas coloridas e brincos e com as pernas depiladas. Em Dezembro, confirmou ao TMZ que iria submeter-se a uma cirurgia para atenuar a maçã de Adão. Já em Fevereiro, depois de a enteada Kim Kardashian West ter quebrado o silêncio da família durante uma entrevista em que referiu delicadamente a sua “viagem”, as notícias explodiram na imprensa de celebridades: Jenner, de 65 anos, irá brevemente surgir como um transgénero... Aos 88 anos, a mãe tão orgulhosa de Caitlyn como de Bruce... campeão olímpico Bruce já não é Bruce, o Bruce Jenner – e logo no início da viagem que acabou em Caitlyn, Esher Jenner, a mãe, afiançou: - Nunca imaginei que me pudesse orgulhar mais do Bruce do que quando ele conseguiu a medalha de ouro em 1976, mas agora estou ainda mais orgulhosa. É preciso muita coragem para se fazer o que ele está a fazer... Diferente foi a reação de Kris Jenner. Kim Kardashian, a filha, exclamou-lhe: - Bruce teve de lidar com isso a vida inteira, acordar e sentir: «Oh, este não é o meu corpo! Não me sinto confortável nele». É só o que eu consigo imaginar. Você só tem de deixá-lo seguir na busca por Bruce ser o que ele sente que é realmente... Kim, soltando duas lágrimas, murmurou-lhe, filosófica: - Eu tinha memórias da vida, agora sinto que, se calhar, já não são verdade... ...
Estilos e Espantos Tinha hábitos «mais grosseiros», mudou-os - e o treinador ainda deu uma ajuda, adaptou-lhe os treinos, porque ser Miss ou ser modelo não é a mesma coisa que ser jogadora de voleibol. que é o que ela é. (Continue a ler, que a Natasha explica porquê...) Modelo é desde os 14 anos, há dois pusera em stand by. (Continue a ler, que a Natasha conta porquê...) Pelo caminho foi coroada Miss Turismo São Paulo, foi eleita Miss Presidente Prudente - e assume-o: quer continuar a jogar pelo Presidente Prudente, mas também quer chegar a Miss Universo. Há quem já se atreva a dizer que esse é nome: Natasha Gallinari é para decorar, há quem já se atreva a lembrar que quando Gisele Bundchen tinha na ideia jogar voleibol pela seleção do Brasil nos Jogos Olímpicos apareceu um destino diferente a desviá-la de lá, que pode ser o que venha a acontecer com ela também... Nasceu em Nova Europa, não tardou a sair de casa para se aventurar no mundo da moda. Aos 14 anos tronou-se modelo profissional, agenciada pela CP Models. Venceu o concurso ´Garota da Capa da Revista Boutique Magazine´ e foi destaque na capa das revistas ´Perfil´ e ´Kappa´. Mas a beleza não ficou apenas pelo papel. O seu charme conquistou catálogos de jóias e de lingerie, deu o rosto (e o corpo) a anúncios da TAM Linhas Aéreas. Depois de em 2014 ter sido coroada ´Miss Turismo´ e ter ganho uma moto, já este ano foi eleita Miss Presidente Prudente e representou a cidade do interior no Miss São Paulo. Não venceu, ficou entre as finalistas, colocou a meta ainda bem mais no alto, ousada. «Vou tentar de novo. Quero ser Miss São Paulo, depois me tornar Miss Brasil. Quem sabe chegue a ser até Miss Universo. Se não sonharmos, ninguém vai sonhar por nós...». O voleibol afastou-a da moda, amiga pô-la nas Misses... Atualmente, Natasha é agenciada pela AZ Model’s - mas nem só nas passereles Natasha ocupa o seu tempo. Aliás, nem é aí que tem estado a sua maior aposta. É umas das maiores promessas do voleibol brasileiro, esterla no Campeonato Paulista Sub-21. «Por causa do volei, estive dois anos afastada do mundo da moda, depois de mudar de cidade, em 2012. Retomei atividade na área após vencer o concurso de Miss Presidente Prudente 2015, a minha atual cidade.». Uma conquista que não teria acontecido sem o incentivo da amiga, porque Natasha entrou no concurso por mero acaso - ou melhor porque a amiga a inscreveu e quase a obrigou a ir lá lutar pela coroa... Para ser Miss o que teve de fazer? Mudar até os treinos... Como o desporto lhe ensinou, não lhe interessava apenas competir mas sim mostrar que o sabe fazer e para isso tinha todos os ingredientes – beleza, talento e dedicação. Conseguiu um patrocínio de uma agência de modelos e da prefeitura da cidade para cuidar do cabelo, da pele e comprar novas roupas. Teve até de mudar os seus hábitos e os seus treinos no voleibol - e para isso, para não lhe cortar a hipótese de vencer, o treinador deu ajuda preciosa, criou-lhe um plano especial de treinos até. «Tive que comprar algumas roupas e mudar um pouco a minha forma de vestir. Aprendi a fazer maquilhagem e tratar do cabelo. Treinei muito para andar nas passerelles. Tinha alguns hábitos mais grosseiros, tive que saber aprender a comportar-me melhor e saber um pouco de etiqueta. Tive que me adaptar às situações. Os atletas têm que fazer tudo com segurança, às vezes é preciso até a gente ser meio agressivo, né?!. Só que para ser Miss tudo tem que ser delicado, subtil, leve. Então eu tento adaptar-me, mas sendo eu mesma...», contou ao UOL.. «Moda e volei não seguem o mesmo perfil de corpo» Com as duas carreiras em simultâneo, Natasha Gallinari vive constantemente num dilema. Como jogadora, o voleibol exige-lhe que seja forte fisicamente para puder dar golpes, fazer bloqueios, saltar e realizar com perfeição todoas os fundamentos. Mas a moda, o ambiente em que aprendeu a crescer e onde se tornou mulher, espera que Natasha siga o padrão das modelos esbeltas e magras. «As duas profissões não seguem o mesmo perfil de corpo, o que me atrapalha um pouco. Eu quero treinar, mas não posso ficar muito forte porque modelo tem que ser mais magra. Ao mesmo tempo tenho que ser forte para dar golpes e aguentar os jogos. Mas vamos como é que eu vou conseguir fazer as duas coisas como eu quero...» Já jogou no Araraquara e Botucatu mas agora defende as cores do Prudente e entrou com o pé direito no Campeonato Paulista. Logo na estreia, venceu o Santos, o Santos que no futebol foi de Pelé e Neymar, Danilo e Alex Sandro, por 3-0. «A expectativa é muito boa, o nosso grupo é bem fechado. Se forem duvidar, mostramos que conseguimos vencer. Há equipas que têm jogadoras mais vividas, que já percorrem outros clubes com mais altura e força, mas se soubermos fazer um bom jogo, destruímos o psicológico das adversárias e ganhamos o jogo». ...
Estrela de Diamante Não, não foi nos penalties que o Sporting ganhou a Taça de Portugal. Foi ao minuto 90+4 na defesa de Rui Patrício a remate de Salvador Agra, uma defesa que foi muito mais do que uma defesa com o pé - foi uma defesa com o coração. Antes, bem antes, percebeu-se que se lesionara – e passara vários minutos a coxear e foi mesmo assim, cambado, fez o que fez. Mas, a história que lhe vamos contar – é a história de um guarda-redes do Sporting que saiu de uma final da Taça ainda mais heroico, o João Azevedo. Descubra porquê e talvez se arrepie... O pai era maquinista dos Caminhos de Ferro – e aos 12 anos, Manuel Firmo já trabalhava numa fábrica de cortiça. Despediram-no na sequência de uma greve, andou a servente de pedreiro. Continuou a jogar futebol, era defesa do Barreirense – e conseguiu que a CUF lhe desse emprego nos seus escritórios, como contínuo. Mandaram-no embora – por se recusar a denunciar colegas, suspeitos de luta sindical. Para fugir a campo de concentração nazi, acabou no Tarrafal com Cândido de Oliveira Aprendeu a serralheiro, criou Sociedade Esperantista , ensinou a língua. Anarca e sindicalista, quando Salazar lançou os sindicatos corporativos, rebelou-se. Para escapar à prisão, Firmo fugiu para Espanha. Apanharam-no ilegal, prenderam-no, acabou libertado por influência de Bernardino Machado. Em Barcelona, alistou-se num batalhão de milícias republicanas, combateu na Guerra Civil. Em 1939, penou por campos de refugiados em França – e temendo que os nazis o levassem para trabalhos forçados na Alemanha, arriscou o regresso a Portugal. Não passou sequer a fronteira, atiraram-no para o Aljube – e depois para o Tarrafal. Por lá se cruzou o Manuel Firmo com Cândido de Oliveira... No primeiro jogo, o espanto: «Dá-me aquele, podes levar o que quiseres!» Pelo Barreirense jogara, o Firmo até 1932 – e dois anos antes fez João Azevedo o seu primeiro jogo pelo Barreirense: - Foi nos principiantes, o meu primeiro jogo. Contra o Carcavelinhos, treinado pelo Carlos Canuto, que, no fim do encontro, disse ao Paulo Marreco, o nosso treinador: Dá-me aquele e podes levar o que quiseres! «Aquele» era eu e tinha 15 anos... Podia ter sido do Benfica, não foi por lhe mandarem ir buscar o dinheiro à sede... Depois, passou fugaz pela primeira equipa, Firmo ainda lá estava. O guarda-redes do Barreirense era um ícone do clube, o Francisco Câmara. Por isso, achou-se que o melhor seria emprestá-lo ao Luso do Barreiro, para que lá fizesse a tarimba. Ao Barreirense já não voltou, do Luso foi João Azevedo para o Sporting. E só não foi para o Benfica – por, nessa altura, já viver de coração sempre a arder. Uma tarde, apareceu no Campo das Amoreiras a oferecer-se para um treino, Vítor Gonçalves, o pai de Vasco Gonçalves, o «camarada Vasco» do PREC no Verão Quente de 1975, gostou dele, disse-lhe que sim, que poderia ficar no Benfica: - Pedi-lhe, então, dinheiro para as passagens, ele disse-me para ir receber à sede, não gostei e nunca mais lá voltei... Por ele se começou a dizer: «grandes frangos, só os dão os grandes guarda-redes» Acabara de fazer 20 anos – e foi a sorte do Sporting. Contratou-o para ser o seu terceiro guarda-redes nessa época de 1935/36, os outros dois eram Artur Dyson e... Jaguaré. Jaguaré era o titular da seleção do Brasil – e numa digressão pela Europa ficara a jogar no FC Barcelona. Foi lá que o foram buscar – mas, a meio da época, a baliza já era de Azevedo... Não, não se limitou a levar de pronto o Sporting à conquista do Campeonato de Portugal - marcou um estilo, um estilo como nunca se vira: entrava em campo a arrastar os pés, dando a ideia de uma insolência que chegava a irritar. Mas, depois, na baliza, quase sempre de boné na cabeça, crescia, voava, defendia o... indefensável. Por vezes, mas não muitas, também dava grandes frangos, sobretudo em remates de muito longe, e foi precisamente por causa dele que se criou aquele chavão... «grandes frangos dão-nos os grandes guarda-redes». ...