SEGUNDA-FEIRA, 06-07-2015, ANO 16, N.º 5637
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destaques

Eusébio na camisola da rapariga que o queria de cera e o coração de Eusébio no falhanço em que se perdeu a Taça dos Campeões...
Estrela de Diamante O Benfica chegou a Londres sonhando com a Taça dos Campeões num Boeing 707 da TAP chamado Luanda. No aeroporto, o autocarro tinha placa que deixou gente com mostarda no nariz, nela estava escrito: Benfica FC e não SL Benfica. Mudou-se, adiante. Hospedou-se o Benfica de Otto Glória onde tinham estado os Magriços de Otto Glória. Em Harlow. O hotel estava engalanado com bandeiras de Portugal por todos os mastros – e na primeira noite o chefe de cozinha fez questão de chamar Eusébio e Coluna ao salão para apresentar prato especial: o La Cuisse de Poulet Benfica. Tinha a pompa do nome em francês no cardápio, a Perna de Frango à Benfica levava limão e tomate assados e agrião. (E houve quem, espirituoso, notasse que o agrião não deveria lá estar, era verde...) Por lá uma fã logo apareceu com Eusébio bordado em letras de lã na camisola de algodão e mãos tingidas com referências ao ídolo, contando-lhe que ouvira na BBC que jornalista holandês propusera que a sua figura fosse perpetuada em cera no Museu de Madame Tussaud – que era tudo o que ela mais queria. EM LONDRES, GUARDOU-O UMA POLÍCIA, EM PORTUGAL A POLÍCIA QUE HAVIA ERA TERRÌVEL... Durante a espera do desafio à história, Eusébio jogou ping-pong e ganhou – e a caminho de um dos treinos foi protegido de multidão que o assaltou na ânsia de um autógrafo ou de um postal não por um polícia, mas por uma polícia. (Em Portugal, polícias no giro eram todos homens, nas torturas da PIDE não, havia, por exemplo, a Leninha, brutal na fama com que, desvairada, despia as presas, espancava-as à bofetada e ao pontapé, insultava-as do piorio – e depois ria-se, num riso alarve...) COM O JOELHO EM DOR, A DEFESA E AS PALMAS AO GUARDA-REDES... Chegou, enfim, o grande dia: 29 de maio de 1967 – o dia do Manchester United-Benfica, no Estádio de Wembley. Eusébio foi a jogo outra vez, uma vez mais, com o joelho em aleijão – e a dois minutos do fim isolou-se, chutou, a bola foi, em rodopio, anichar-se no peito de Alex Stepney. No dia em que Eusébio morreu, Stepney molhou de lágrimas página do The Guardian: - Depois de fazer aquela defesa, não me apercebi do que aconteceu junto a mim, faltava pouco, só pensei a lançar o contra-ataque. Mais tarde, na televisão, é que percebi o que tinha feito Eusébio: tinha ficado ali, na área, a aplaudir-me! Isso demonstra o tipo de pessoa que ele era, o respeito que ele demonstrou por mim e pelo futebol foi tremendo... E para Eusébio, o que foi aquele lance que acabou com o coração a soltar-se? - Talvez o lance mais negro da minha vida no Benfica, apenas por uma coisa: em dez oportunidades daquelas, mesmo com a perna a doer, marcava nove, falhei a que nos poderia ter dado mais uma Taça dos Campeões. Mas, atenção: também houve muito mérito do Stepney... COM EUSÉBIO A 40 POR CENTRO, AS LESÕES QUE MATARAM O BENFICA... Entre os 92 e os 98 minutos, o Manchester United de George Best e Bobby Charlton fez três golos, levou, assim a Taça dos Campeões. Otto, sem glória, deu a dor do desgosto: - As lesões de Coluna e Torres mataram a gente. Mesmo assim tivemos a vitória na mão. Azar foi o Eusébio em dia de não ser Eusébio, mas, coitado, o cara jogou a 40 por cento, só por isso não fez golo naquela arrancada no finzinho... O DESDENTADO MAIS FAMOSO DO MUNDO? NÃO, O CARCEREIRO DE EUSÉBIO... Matt Busby correu a embrulhar num abraço Nobby Stiles. Era o desdentado mais famoso do mundo - por não ter os incisivos salientes mas por jogar sempre de faca na liga. Ou pior. E voltou a ser o que já fora em vários outros jogos anteriores: o carcereiro de Eusébio, o terror de Eusébio. O que lhe fez? O habitual, ele próprio o disse, feliz de si: - Eusébio era um gentleman, mas eu tinha uma ordem apenas de Sir Busby: pará-lo. E não, não foram poucos os lances em que tive de recorrer a carrinhos e jogadas pouco ortodoxas – e foi por isso que ganhei a fama que não mais perdi de ser um jogador duro, muito duro, o Danger Man, como alguém me chamou na BBC... AS LÁGRIMAS DE DENNIS LAW E OS FANTASMAS DE 1958... Dennis Law vira na cama de um hospital o jogo, fora operado ao menisco, vivia, pois, assim o seu momento Eusébio - e desatou a chorar quando escutou Bill Foulkes em directo na BBC: - Esta Taça é a Taça de todos aqueles de nós que perderam tragicamente os amigos e se salvaram num dia terrível... Esta vitória é a melhor homenagem se lhes poderia fazer, é a morte de todos os fantasmas... Foulkes era, tal como Bobby Charlton e Matt Busby, sobrevivente do avião do que dez anos antes caíra em Munique e desfizera quase toda a equipa do Manchester United, a equipa do Manchester United que se dizia ser então já a melhor equipa europeia e antes da tragédia se apurara nem Belgrado para as meias finais da Taça dos Campeões. E sim: era disso que se falava quando se falava da história dos fantasmas de 58... ...
Estrela de Diamante Era tradição, fazerem-se no Estoril concursos de Elegância e Conforto Automóvel – e meses antes a vitória coubera a Colete Lestouquet – que posou num Mercedes 250 SL e vestiu de modelo de calças e casaco da Boutique Glória. Foi exatamente por isso que saltou para as bocas do mundo – pelas calças que levava, num ato de ousadia. Ousadia porquê? A razão percebe-se num artigo que Maria João Leitão publicou (já em 1969) na Flama: «As mulheres deixaram de ter complexos. Já não só as universitárias, mas também as donas de casa. Há alguns anos quem se atrevesse era pelo menos alvo de constante de frases ou olhares indignados». Nessa semana, o Ministério da Educação Nacional lançara em esclarecimento: «Não existe nenhuma regulamentação oficial que proíba as calças. Há apenas uma disposição dizendo que as alunas e professores se devem apresentar vestidas com dignidade e decência» O SACERDOTE A EXPLICAR COMO É QUE AS CALÇAS ERAM PECADO... Com base nisso, na nota do MEN e na afirmação de um sacerdote: - Do ponto de vista moral só estarão erradas as mulheres que usam as calças para copiar o homem, masculinizando-se, deixando de ser ela própria... o Liceu Maria Amália desfez a proibição às suas alunas, a Faculdades de Letras de Lisboa também já o tinha feito... Na Praça do Império houve um Rali de Automóveis Antigos – e com uma senhora em competição: Maria Helena Gonçalves, num Ford 28. A vitória coube a António José Carvalho Dias, num Opel de 33 – mas a foto que mais correu pelos jornais foi a do Ford nº 12 de 1926 de Gonçalo dos Santos – que acabou empurrado por quatro meninas muito chiques, todas elas de... calças. COMO NUMA RUA DE LISBOA PARECIA HAVER LONDRES DE... MINISSAIA Em janeiro de 1967, o Diário Popular publicara com destaque de 1ª página: «A Baixa de Lisboa já tem uma amostra da Carnaby Street de Londres, a rua da juventude e da originalidade, que desencadeou no Mundo a epidemia "pop" das mini-saias, das camisolas finas de gola alta, dos jaquetões imitando velhos dólmans de Marinha, das calças em boca-de-sino. Trata-se de uma loja da rua da Vitória, espécie de irmã mais nova da tradicional Casa Porfírios. É, sem sombra de dúvida, um dos estabelecimentos mais invulgares da capital. A começar pela clientela: oitenta ou noventa por cento são jovens dos 14 aos 19, de ambos os sexos, à procura de umas calças roxas ou de uma saia constelada de ferragens metálicas. Quanto às empregadas, a gerência entendeu, muito judiciosamente, que não deveriam destoar da freguesia: ei-las portanto, todas, muito novas, muito esguias, muito sorridentes, de calças ou de mini-saias (sim, de mini-saias!) - enfim, autênticamente "pops". A certas horas do dia e ao sábado, em especial, a multidão de clientes jovens transborda e chega a formar bichas no passeio...» (E entre a gente que se acotovelava por lá havia sempre muitos homens – e não é preciso dizer porquê...) PARA CONSAGRAR A MISS GABARDINE EUSÉBIO RECEBEU 150 LIBRAS... Na véspera do Manchester United-Benfica, Eusébio foi escolhido para «em pompa» consagrar a Miss Gabardine em Picadilly - e só para assinar mil subscritos recebeu 150 libras, cerca de 10 500 escudos. 150 libras deu a Puma a Jacinto, Coluna e Humberto Fernandes para jogarem com chuteiras... King Eusébio a final da Taça dos Campeões. Melhor pagou, porém, a Adidas a José Augusto, Jaime Graça, Simões, Torres, Cruz, José Henrique e Adolfo: 200 libras, 14 contos. O Benfica perdeu a Taça dos Campeões para o Manchester United, mas ganhou na tesouraria – o clube recebeu 3600 contos da divisão de lucros. A receita de bilheteira em Wembley ultrapassou os 8300 contos, a de cedência de direitos televisivos andou pelos 3500 – e houve 40 milhões de pessoas a ver o jogo em direto, um recorde que bateu nessa noite. De manhã, a Scotland Yard descobrira dois mil bilhetes falsos nas imediações do estádio, embrulhados num jornal alemão. Deveriam ser recolhidos por gangue que os venderia no mercado negro, teriam rendido mais ou menos 700 contos. (E, ninguém, o desmentia: todo esse frenesim tinha uma razão substancial: era o Eusébio, mais do que o George Best...) ...
Estrela de Diamante Quando partiu para Londres para a final da Taça dos Campeões Europeus, o Benfica já tinha feito a festa de campeão nacional de 1967/68. (O título rendeu 30 contos a cada jogador.) Fechou a saga com 8-0 ao Varzim – e seis golos de Eusébio. Os 42 que marcou ao longo de todo o campeonato deram-lhe a primeira Bola de Ouro: - Por ela, não vou ganhar cheque algum, cheque especial, mas não importa, o que importa é o ouro que essa Bota tem, é o que ela representa... A Adidas, que patrocinava a Bola de Ouro, procurou levá-lo da Puma, acenando-lhe com 500 contos apenas para assinatura de contrato, o resto se veria. A Puma replicou – enviando diretor em operação-relâmpago a Lisboa. Esperou-o na Portela, no regresso de Turim. Logo ali Eusébio garantiu-lhe que a renovação dependia de um pormenor: que se lhe subissem para dois marcos em vez de um o bónus por cada par de botas vendidas, estava o acordo feito. Telegrafou para Nuremberga, a resposta veio na hora: que sim. Como, nos dois anos anteriores, a Puma vendera pelo mundo inteiro 80 mil modelos Eusébio e King Eusébio – só nisso Eusébio já ganhara quase 650 contos... BIQUINI? SÓ A PORTUGUESA DE ANGOLA, COM O MODELO «BOMBÁSTICO»... O governo ainda de Salazar apostara em forte campanha internacional desafiando turistas a descobrir como Portugal era... «generoso». Era Maio, Maio de 68 – o Século Ilustrado mostrava mulheres nas praias de Cascais e da Costa. As que estavam de biquini eram da Austrália, da Holanda, dos Estados Unidos, da Suécia. De Portugal eram todas tinham «maillot de peça inteira», menos uma que viera de Angola – e se deixara fotografar, garbosa, na areia, de «biquíni bombástico como o da Úrsula, no 007». A NADADORA DA TERRA DE EUSÉBIO INSULTADA. PORQUÊ? NEM IMAGINA... Vindo Dulce Gouveia de Lourenço Marques fazer nos Campeonatos de Natação o que Eusébio fizera nos campos de futebol, ao passear por Lisboa insultaram-na por... «andar na rua de fato de treino, como se andasse de ceroulas ou roupa interior» - e entre mais uma reportagem so SI com nadadoras do Algés e Dafundo (todas de maillot de peça inteira e não de fatos de banho «ousados» como os da Dulce, em duas peças e às risquinhas...) havia anúncio que era desafio: «Com Skol... bronzeie-se mais, escolha o produto que lhe convém e...DISPA-SE!» (Vá lá, a Censura deixou passar. Mandou cortar, por exemplo, frase de um reclame da Bertrand às Selecções do Reader´s Digest: «Não falar nem em menopausa nem em enriquecimento do amor...») EUSÉBIO, O ÁRBITRO DO OUTRO BENFICA-MANCHESTER E AS CORISTAS EM QUEIXAS... Depois do Manchester United-Benfica em Londres, houve um Benfica-Manchester United em Lisboa – mas um Benfica-Manchester United muito, muito diferente: entre artistas do Parque Mayer, em recolha de fundos para a Cruz Vermelha, umas com camisolas do Benfica, outras com camisolas do Manchester United – e o árbitro foi... Eusébio, o Eusébio que andara por Lisboa – e pelo Estádio da Luz – no peditório para a Cruz Vermelha também. As coristas a queixarem-se da vida: que ganhavam entre 2000 e 3000 escudos por mês – e era pouco: - Também temos de pagar do nosso bolso o cabeleireiro, no mínimo duas vezes por semana, as meias de cena, que têm duração curta e custam cada par 300 escudos e os cosméticos. Os limpa-chaminés também se lamuriaram. Ainda havia 50 em Lisboa, ganhavam 60 escudos por dia mais as gorjetas: - Só que isso, as gorjetas, nunca passa de 15. Como é que se pode viver assim? ...