QUARTA-FEIRA, 29-07-2015, ANO 16, N.º 5660
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destaques

Cândido de Oliveira criou a Volta a Portugal (o outro só entrou depois e a escolher caminhos ficou sem um braço...)
Estrela de Diamante Num ponto, não há dúvidas: o frenesim que a Volta a Portugal a Cavalo causou, levou a que o Diário de Notícias lançasse em 1927, a primeira Volta a Portugal em Bicicleta. Quem ateou a ideia, isso pode ser mistério, mas não muito... Cândido de Oliveira nascera, a 25 de Setembro de 1897, em Fronteira. Último de 10 irmãos de família pobre, pequenino o levaram para a Casa Pia. Da equipa do colégio saltou para o Benfica. Pela mão de Cosme Damião. Jogou futebol, fez atletismo, ganhou campeonatos de luta greco-romana. Fundou o Casa Pia AC em 1919 – e como seu capitão ganhou o Campeonato de Lisboa ao Sporting, ao Benfica e ao Belenenses. Cedo começou a ser também um homem dos jornais. Para além de funcionário superior dos Correios para onde entrara com 19 anos, era repórter de O Século. Usaram-lhe a reportagem para atacar a democracia, demitiu-se... Em Abril de 1925, mandaram-no fazer a cobertura das ações de preparação e de estratégia das tropas governamentais. Foi e fez o trabalho. Espantou-se que a reportagem tenha ficado no tinteiro – e alguns meses depois indignou-se, ao perceber que as informações que recolhera tinham sido transmitidas em pormenor aos revoltosos que a partir de Braga fizeram o 28 de Maio, o 28 de Maio de 1926 que acabou mesmo com a I República, colocou Portugal sob Ditadura Militar, a caminho do Estado Novo que Salazar haveria de criar através da Constituição de 1933. Por causa disso, como protesto pelo abuso, exclamando que não admitia que lhe tivessem transformado a profissão em espionagem (e pior que a sua peça fosse usada para conspirar contra a democracia, que era em si princípio sagrado, o haveria de levar, depois, ao suplício do Campo de Concentração do Tarrafal...) Cândido de Oliveira demitiu-se do Século - e ao sabê-lo, a empresa do Diário de Notícias deu-lhe a direção de Os Sports, o seu jornal desportivo... Garantia de Mário de Oliveira: foi Cândido quem desafiou o DN à Volta Numa edição de 1958 do Diário Ilustrado, Mário de Oliveira garantiu que foi Cândido de Oliveira quem desafiou Caetano Beirão da Veiga, administrador do DN, o DN que acabara de comprar Os Sports à Desportiva Gráfica a fazer uma Volta a Portugal em Bicicleta – e que como director de Os Sports lançou, ele mesmo, as suas bases. Aliás, o seu nome aparece nos primeiros documentos da Comissão Organizadora – e só não esteve no terreno porque entretanto deixou de ser director de Os Sports – foi trabalhar para a Stadium, passando a dedicar-se mais, também, ao cargo de selecionador nacional. Gil Moreira, na sua história do ciclismo, tem outra versão (mas errada, desmentida pelo próprio Raul de Oliveira como já se verá...): que a Volta nasceu de Raul de Oliveira, o Raul de Oliveira que em 1917 foi integrado no Regimento de Transmissões que partiu para a I Guerra Mundial. Dois anos depois mantinha-se em Arrás e pediu licença para acompanhar o Tour que renascia dos escombros, algumas das suas estrelas tinham sido mortas em combate. Regressou a Portugal, entrou para O Sport de Lisboa. Foi, pois, o próprio Raul de Oliveira quem o contou: - Um belo dia, o Banana – nome porque era conhecido um vendedor de jornais e lotarias – estava embaraçado com o jogo e resolveu deixar, na minha ausência, dois vigésimos da roda que estava prestes a andar. E aparecia-me, um pedaço depois, a anunciar, alvoraçado, que os ditos vigésimos estavam premiados com quatro contos. Na presença desse favor da fortuna, não me era possível ainda pensar na realização da Volta a Portugal. Mas – disse comigo – com este dinheiro vou promover a Volta a Lisboa. Não era tudo, mas seria como abrir o caminho para a grande organização... Em busca de trajeto para a Volta, Raul de Oliveira perdeu um braço por causa de uma estupidez... Ou seja, pode ter tido a ideia de uma Volta a Portugal na sua cabeça, mas não passou disso: de uma ideia na sua cabeça – a I Volta a Portugal, tendo como designação Circuito Ciclista de Portugal, quem a atirou à estrada foi de Cândido, o que Raul fez (e não foi pouco...) foi transformá-la no fenómeno em que ela se tornou... Em 1929, o DN deu-lhe a direção de Os Sports que Cândido de Oliveira deixara e Raul de Oliveira assumiu, nessa condição, a direção da Volta a Portugal, propagandeando-a através de um truque notável: a rivalidade entre Nicolau e Trindade, entre o Benfica e o Sporting – e 10 anos depois, numa visita a Braga, para escolher trajetos para a Volta sofreu acidente de automóvel que levou a que se lhe amputasse um braço. Na origem do desastre esteve derrapagem causada por areias que os responsáveis pelas estradas tinham decidido colocar nas curvas mais perigosas – como forma de levar os condutores a velocidades menores. Era um disparate, um disparate trágico – e Os Sports, acusando a junta das estradas de negligência, abriu feroz campanha contra a peregrina ideia e não tardou a que se soltasse dos caminhos... ...
Grande História Mistério desfeito: não, não foi Raul de Oliveira quem lançou à estrada a primeira edição da Volta da Portugal, foi Cândido de Oliveira. Aliás, Raul também o revelou ele próprio: - Nessa primeira Volta a Portugal, embora tenha havido a minha colaboração, foi modesta. Depois sim, até 1946 todas as provas foram dirigidas e orientadas por mim... Sim, o que Raul de Oliveira fez antes de qualquer outro foi uma outra Volta, a Volta a Lisboa, com o dinheiro dos dois bilhetes da lotaria que o Banana, o cauteleiro da Biaxa, lhe deixara, à sorrelfa na secretária da redação de O Sport de Lisboa– e tinha o jogo premiado... Apesar das suas ligações à Seara Nova anos depois, algures por meados da década de 20, Raul Brandão espalhou indignação por crónica, marcada por tique de conservadorismo: «Lisboa foi sempre uma terra depravada, mas nunca como agora. Atualmente, é uma cloaca. Noutro dia, no Entrudo, houve um grande baile de pederastas numa escola da Graça. Publicam-se livros de versos dedicados a homens por homens, e entre os manifestos e folhetos espalhados figura a Sodoma Divinizada, etc. Também há mulheres oferecendo poesias como A Minha Amante. Lisboa é anticristã – esta Lisboa nova-rica, de que se contam todos os dias escândalos. Nunca as mulheres se despiram tanto como agora, com colares que valem uma fortuna. Um dia destes, na sala de S. Carlos, as joias eram tantas que alguém as avaliou em cinco mil contos de réis. Num espaço de quinhentos metros, pelo princípio da Avenida, há vinte, trinta, casas de jogo toda a noite abertas. Alguém calculou que o número de prostitutas, na capital, era de vinte mil. E as outras? As piores?!» «Desavergonhada»? Não foi só, ainda lhe chamaram pior e «cremaram-lhe» os livros... Ao falar de «mulheres oferecendo poesias como A Minha Amante», Brandão falava de Judith Teixeira, a modernista poetisa rebelde. Em 1923, o governo civil mandara prender-lhe Decadência, queimando-lhe, com espavento, todos livros. Dois anos depois, lançou Nua - e Marcelo Caetano no Ordem Nova, jornal de que fora fundador e redactor, tratou-a como «desavergonhada», vangloriou-se de ação para a «cremação dos livros dela, de Raul Leal e de António Botto», que, para si, o que os três escreviam não passava de «papelada imunda, que empestava a cidade». Ainda a taxaram de «debochada e lésbica», caricaturaram-na, ridicularizaram-na, enxovalharam-na – e em Abril de 1925, ela, a Judith Teixeira, apareceu como diretora da revista Europa, impressa na tipografia de O Sport de Lisboa – o jornal que nascera para ser o jornal do Sport Lisboa e Benfica. A revista tinha quadros de Almada Negreiros, Amadeo de Sousa-Cardoso, Francisco Franco e António Soares; ilustrações de Jorge Barradas, Bernardo Marques e Rocha Vieira; textos de Aquilino Ribeiro, Florbela Espanca, Ferreira de Castro, António de Cértima, Julião Quintinha, Reinaldo Ferreira, o Repórter X, José Adolfo Coelho, Carolina Homem Cristo – e Félix Bermudes, escrevia sobre «sport». Durou dois números apenas, a reação venceu-a. A Volta a Lisboa do Sport de Lisboa... Foi por essa altura, através de O Sport de Lisboa, através de Raul de Oliveira que se fez a I Volta a Lisboa em Bicicleta, cobrando-se 5 escudos pela inscrição. Houve 93 concorrentes – e a vitória coube a Alfredo Luís Piedade, do SL Benfica, «à razão de 30 km/h», mas «grande atracção» foram as senhoras (ambas ainda meninas...) que a correram: Celina e Clara Bermudes, as duas filhas de Félix Bermudes, o dramaturgo que estava a caminho da presidência do Benfica e haveria de passar, depois, também, por lá uma vez mais, depois de ter andado como figura de proa da candidatura de Norton de Matos na oposição a Salazar, ao Estado Novo. No jornal, contou-se: «Celina impôs-se em 1.39 horas e impôs-se sobretudo à admiração de todos. A energia com que venceu montada as enormes ladeiras do percurso, que muitos concorrentes se viram forçados a fazer a pé». (Clara, dois anos mais velha - era então estrela na dança, na dança onde também se faziam campeonatos, os campeonatos que ela ganhava, quase sem excepção.) Prémios? Suspensórios e ligas e sabonetes marca Sport Lisboa e Benfica... No ano seguinte, para a estrada foram também Oceana Zarco do V. Setúbal e Ivone Romeu de Oliveira do SL Paço d´Arcos - além de Cesina e Clara Bermudes, de novo as duas em representação do SL Benfica e o pai, o Félix Bermudes, mantinha-se na berra com mais uma «arrebatante» peça de teatro que escrevera: O Leão da Estrela – que depois, seria adaptado ao cinema por Leitão de Barros. Entre os prémios, figuravam, para além de taças e medalhas, de pneus e câmaras de ar, guiadores e lanternas, calções e meias para ciclistas – um «artístico busto de mármore», «lindos relógios», binóculos para teatro, caixas de garrafas de Vinho do Porto e de passas de uvas, estojos de perfumaria e costura, «aparelho para ginástica Sparta-Sport», uma «caixa com um par de suspensórios e um par de ligas» e uma «caixa com 12 sabonetes marca Sport Lisboa e Benfica». O primeiro dos «fortes» foi Quirino de Oliveira do CA de Campo de Ourique, batendo por uma «fracção de segundo» João dos Santos Borges do SL Benfica. «Fez o percurso à razão de 28,410 kn/hora ou seja 473,5 metros por minuto, 7,891 metros por segundo». Cesina Bermudes era ainda aluna do Liceu Camões, mas já decidira que queria ser médica – decidira-o quando Lacerda e Melo, tio materno, lhe falou, encantado, do João Semana das Pupilas do Sr. Reitor: «doutor de aldeia, a fazer, a pé, de bicicleta ou de burro, visitas a gente pobre, sem nada lhes cobrar». Salazar impediu-a de dar aulas... (Terminou o curso de medicina em 1933 – e depois de se tornar assistente de Anatomia e Clínica Geral especializou-se em Obstetrícia. Atiçou, entretanto, a consciência política – e ao lado de Maria Lamas e Isabel Aboim Inglês entrou, empolgada, na campanha presidencial de Norton de Matos. Cesina prestou provas de doutoramento em Anatonia no ano de 1947, nunca nenhuma mulher o fizera em Portugal. Obteve nota de dezanove valores – mas Salazar impediu-a de fazer de docente universitária, permitiu-lhe apenas que desse aulas de... Puericultura em escolas industriais. De Pessoa a Einstein e o desejo de voltar ciclista na próxima reencarnação...Em 1954 Cesina Bermudes partiu para Paris – e especializou-se em partos sem dor, espalhando textos sobre a novidade por livros, jornais e revistas. Aderiu á Sociedade Teosófica, cujo lema é: Não há religião superior à Verdade e entre os seus membros tivera Thomas Edison, WB Yeats, Fernando Pessoa, Einstein e Gandhi, e Einstein – e tornou-se vegetariana. Acreditava na reencarnação, uma vez afirmou: - Como é possível chegar a criar uma sinfonia, a criar a ideia de uma catedral se as pessoas não tiverem já vindo cá várias vezes a este mundo para se treinarem na ideia da arte ou de qualquer outra coisa? Como é possível ser um místico, como um S.João da Cruz, ou um S. Francisco de Assis, se as pessoas não tiverem vindo já cá aprender a ideia da fraternidade? Morreu em 2004, com 93 anos, em 2004, pedalando, feliz, na ideia: - Na próxima reencarnação gostaria de voltar a ser médica e ciclista...) ...
Grande História Sim, audácia já era haver mulheres (ou meninas...) a fazerem a Volta a Lisboa em Bicicleta – e o que logo se percebeu impossível era que mulheres (ou meninas) pudessem fazer a Volta a Portugal em Bicicleta, por isso, a ideia de a abrir no feminino nem sequer se pôs... Era, no fundo, um sinal dos tempos, mais um sinal dos tempos (mesmo que os tempos já estivessem a mudar, mas não muito – e depois ainda haveria de ser pior, muito pior...) Antes, até já tinha havido mulheres a nadarem contra homens... Aos primeiros sinais de Verão em 1921 pela imprensa mundana ainda aparecera a nota em jeito de alvoroço: «Causou grande escândalo na Figueira uma senhora estrangeira que apareceu a tomar banho com fato de homem, nua de pernas e braços» e não tardou a cidade «embasbacou-se» ao ver duas mulheres inscritas para a Travessia de Lisboa a nado, 12 quilómetros entre Xabregas e Algés, a Travessia de Lisboa a nado que também haveria de ter o dedo de Cândido de Oliveira e de Os Sports: Margarida Pala e Maria Natália de Almeida, ambas do Sport Algés e Dafundo. A vitória coube, como se tornara já habitual a Rodrigo Bessone Bastos em 2.42 horas – e Margarida Pala só perdeu com ele e com Luís Miguel. Não, não era a primeira vez que em Portugal se fazia prova de natação para mulheres, isso acontecera, em organização do SAD, em Outubro de 1918, num programa de comemoração do oitavo aniversário da República: 100 metros no Tejo, com vitória de Margarida Pala. E logo depois, surgiram várias provas de 100 metros e de 4x100, o Club Escola Náutica do Porto com Rosa do Carmo, as irmãs Olinda e Haydée Pinto Borges e Preciosa de Jesus; o Algés e Dafundo, para além de Margarida Pala, com Helena Sacadura, Raquel Baptista, Elfried Mosig, Estela de Carvalho... O quase «escândalo» de Estela nas águas do douro Estela entrara para a natação em 1922. Com 16 anos. Fazia ginástica sueca no Ginásio Club Português, foi, «à aventura» nadar uma milha no Tejo, num torneio inter-sócios. «Sai-me tão bem, que pedi que me inscrevessem na Travessia do Tejo, disseram-me que não, que não era coisa para meninas». Desgostosa, procurou Margarida Pala, no Algés e Dafundo – falou-lhe da desfeita, Margarida desafiou-a a passar-se para o seu clube. Estela, filha de um português e de uma espanhola, foi. Em 1925, saltara para o Sporting – e alguns meses depois esteve à beira de proeza épica, teria sido um «escândalo», insinuara-se: ganhar a todos os homens na Travessia do Douro de 1926: - Seguia à frente, com o Cortez. A certa altura, olho em redor e não o vejo. Calculei que estivesse já fora de combate. E ia já de antemão contando com o primeiro lugar, quando, ao chegar à meta, o vejo. Foi o caso que ele se afastara de mim em busca de melhores águas, conhecia o rio e eu não, conseguindo encontrá-las, venceu-me. Os barqueiros e outros marítimos que acompanhavam a prova queriam a todo o transe que ganhasse eu, chegou a tal ponto o entusiasmo entre eles – que puxaram de facas uns para os outros, para aqueles que não estavam a meu favor, por eu ser de Lisboa, do Sporting... Criticada por tudo, mas sobretudo pelo... maillot Jogava ténis, fazia remo, lutava esgrima – e começou a sonhar com a Travessia do Canal da Mancha – mas ao falar nisso, acharam sempre que era... «ousadia de mais, uma loucura». Quando chegou aos 21 anos, largou o lamento: - Vou começando a ter receio de que me critiquem por, com esta idade, nadar ainda. Também, criticam-me por tudo, por nadar, por não ter mais tecido no maillot, por mais isto e mais aquilo, que não me admira que tal suceda... Da Miss com mais pano no fato de banho ao «sport» que a mulher devia fazer... Isso foi já em 1927. Semanas antes, no salão nobre da... Câmara Municipal de Lisboa, elegeu-se pela primeira vez uma Miss Portugal: Margarida Bastos Ferreira. Que nos Estados Unidos disputou o concurso Miss Universo. Antes da viagem, Silvino Santos fez filme com ela, que «passou em cintilante sucesso», pelo Coliseu dos Recreios de Lisboa e pelo Politeama de Manaus, mostrando-a no Estoril «fazendo ginástica, jogando ténis, tomando banho no mar». Ah! Mas para a praia, Margarida teve de ir com maillot bem mais comprido que o que Estela usava nas suas provas... Aos primeiros anos dos «loucos anos 20», o empresário Rosa Mateus decidira que as coristas do seu teatro nunca mais teriam cabeleiras postiças ou malhas cor de carne a cobrirem-lhe as pernas em nome da decência. Não muito depois, mostravam-se já, ousados, na revista ABC, os novos sinais dos tempos: «Apanhando-a, à mulher, desprevenida, a moda cortou-lhe o cabelo à garçonne, meteu-lhe na boca a cigarrilha, os cigarros e, quando calha, o charuto. As modernas praticam, agora, todos os desportos, vão aos clubes, usam bandine e monóculo, vestem pijamos e calções» - e meses antes, em O Sport de Lisboa, Neves Reis, o seu director, achara que sim, que moderno era «mulher no sport», mas não de qualquer maneira: «Deixemos o privilégio das brutalidades da força ou dos exercícios violentos ao homem, não queiramos criar o tipo odioso e caricato da mulher machona. Deve praticar desportos que a tornem suficientemente robusta para arcar com as penosas dores do parto. Apesar de todas as teorias feministas, mais ou menos sufragistas ou filosóficas, a função mais nobre da mulher ainda é a maternidade. É nesse sentido que deve convergir toda a sua educação física – até mesmo a intelectual e a moral – não só para a tornar forte, mas também para a fazer formosa, de rosto, de corpo e de espírito, a fim de gerar filhos sãos e perfeitos. Porque a raça, além de forte, precisa também de ser bela...» Das do boxe à praia de fato e gravata (no caso deles...) Em 1919, Nascimento Fernandes pusera desporto num dos seus mudos filmes cómicos: Vida Nova contava a história de uma mulher caprichosa que, por causa de uma paixão, foi, secreta, aprender a «lutar com os punhos», para desafiar o marido ciumento para um duelo – e que apesar de ele ser campeão de boxe, saiu do combate com ela, espancado. Numa edição ainda em 1926 de Eco dos Sports, que se considerava «a primeira revista sportiva e a de maior tiragem em Portugal» (já não era, já era O Sports, até por ser muito mais moderno, muito menos tradicionalista...) ao lado de uma foto com duas mulheres a lutarem de... maiollt, está, marcada pela acidez, a legenda, como se tudo aquilo fosse afinal um grande escândalo: «Aqui está uma fase de um encontro de boxe, ou qualquer coisa parecida, realizado no Barreiro, entre duas senhoras que não temos o prazer de conhecer, em festa organizada pelo Luso Football Club, que em boa verdade, deve sempre, nas suas festas, prescindir destes números...» Dissesse-se o que se dissesse, escrevesse-se o que se escrevesse, o caminho era já sem retorno: nelas, em vez do espartilho, o soutien - e o corpete elástico para adelgaçar o corpo; a cintura subida até às ancas – e a bainha das saias por vezes para lá do joelho; os maillots de praia, revelando em vez de insinuarem, como nos anos, nas décadas, anteriores – apesar de, às vezes, nas praias do Estoril, ainda se verem, entre as «mulheres modernas» de fato de banho, homens de... fato e gravata – e outras, «as de maior pudor» ainda vestidas quase até ao tornozelo... O elogio ao nú artístico da persa violada na Boca do Inferno... Sim, era assim – e também já havia quem não se acanhasse e elogiasse a «arte sublime» da companhia francesa Ba-ta-clan mostrando em Lisboa «os seus famosos nus artísticos». Ou quem escrevesse que Lea Niarko lançara uma «mancha de modernismo exótico nos palcos modorrentos desta Lisboa atrasadota». Lea era a germano-persa, contratada em Paris como especialista em danças orientais, que se exibiu nua no Variedades, no Coliseu e no S. Luís e, depois, abalou jornais e revistas queixando-se de ter sido raptada e violada na Boca do Inferno. E nessa I República à beira de se desfazer no golpe de Gomes da Costa só o nome de Lurdes de Sá Teixeira não voou de boca em boca, no destaque como merecia – como «símbolo de uma emancipação feminina» quando, na Quinta do Marquês, em Sintra, lhe atribuiram brevet de piloto de avião... ...