SEGUNDA-FEIRA, 25-05-2015, ANO 16, N.º 5595
Conteúdo inexistente.

destaques

Incrível, o modo ele deu a volta ao destino (e não, não foi só pelo que fez no Benfica...)
Estrela de Diamante Para muita, muita gente, foi nos pés de Jonas que o Benfica começou a nascer campeão. Para muita, muita mais, teve apenas um pequeno azar: aquele minuto 68 do Benfica-Marítimo poderia ter-lhe marcado a história ainda a mais lustro - mas ao anular-lhe (mal...) um golo, o assistente de Nuno Almeida impediu que a Bola de Prata fugisse das mãos de Jackson Martinez. Por causa disso incendiou-se a luz em apupos e imprecações - e, por entre a euforia da festa do título, Jorge Jesus não calou a mágoa: - O árbitro auxiliar tirou golo limpo ao Jonas, se não ele teria sido o melhor marcador. E merecia-o. Assim como o merece o Jackson, também merecia o Lima. Mas o mais importante foi o troféu do bicampeonato... Não, a ele não se lhe notou grande angústia por não ter sido o que poderia ter sido: - Mais importante é comemorar o título do Benfica, era o nosso primeiro objetivo. Fizemos belíssimo campeonato. O prémio individual? Foi por pouco, aquele golo anulado... Mas estou feliz... Sim, impressionante foi o que foi Jonas até chegar ali - uma vida que é um encanto, um espanto. Por exemplo, aos 18 anos, António Simões já tinha ganho a Taça dos Campeões pelo Benfica (e ainda hoje é o mais jovem campeão europeu da história.) Aos 18 anos, Cristiano Ronaldo já ganhava 150 mil euros por mês no Manchester United (e uma década depois já tinha o salário multiplicado por 10.) Aos 18 anos, Jonas nem sequer estava a jogar futebol (deixara-o para se dedicar ao curso de farmácia) – e, de repente, tudo mudou – e é isso que lhe contamos aqui... No bilhete de identidade de Jonas Gonçalves Oliveira está a data de nascimento: 1 de abril de 1984 e a naturalidade: Bebedouro: - Acontece que quando eu nasci não tinha maternidade em Taiúva, minha mãe foi levada para Bebedouro só para dar à luz mesmo, não fiquei nem uma semana lá. Por isso, o pessoal cobra quando sai em algum lugar que sou de Bebedouro, me trata como o «filho ilustre» de Taiúva... Isso revelou ao Globo quando já estava no Valência e sonhava com o regresso à seleção do Brasil – e a vereadora Maria Rita Brandão propusera que lhe fosse dado o título de Cidadão Taiuvense: - Jonas é o grande embaixador de Taiúva para o mundo. Precisamos homenageá-lo como merece, pois só teremos um novo Jonas daqui a 200 anos. «Está cá e não devia estar, é um predestinado» (foi assim que o irmão lhe percebeu o destino...) Taiúva é cidadezinha do interior, a 360 quilómetros de São Paulo – marcada por passado de grandes plantações de café, em fazendas a perder de vista – e foi numa assim, a Gironda, que Jonas cresceu. Quando ele nasceu Tiago tinha oito anos, Diego tinha cinco – e Diego costuma dizer: - Jonas tinha de ser especial. Um predestinado. Está cá e não devia estar, nossos pais foram surpreendidos com a sua chegada imprevista... Ismael, o pai, era professor de Matemática e de Desenho Geométrico, Maria Luiza, a mãe, era professora de Ciências Naturais. Continuam a sê-lo – e até já foram mais do que isso: ele prefeito de Taiúva, ela vereadora. No campinho de uma baliza só e na rua entre o churrasco (foi assim que Jonas se tornou no que Jonas é...) Da fazenda passaram para a cidade, na casa dos Gonçalves Oliveira não deixou de haver um campinho: - Todos os dias eram dias de futebol. O espaço era pequeno no piso de terra, tinha só uma baliza. Acredito que isso foi determinante para Jonas só ter o que tem: olhos para o golo. Depois, havia outra coisa: na cidade, de 5600 habitantes, toda a rua era um grande família, nos dias de maior calor se fazia churrasco comunitário e entre a coxa de frango e a picanha, a criançada jogava de três para três. A habilidade do Jonas vem daí também, desses jogos curtos, com balizas de 50 por 60 centímetros. Ou seja, o campinho da casa e a rua ensinaram-lhe tudo, deram-lhe o futebol que ele tem... (foi Tiago quem o revelou.) Era nadador excelente, jogava pólo aquático e era capaz de pôr toda a gente a rir à gargalhada (foi assim se lhe saiu da boca: o meninos jesuses...) Mas Jonas não era só bom de bola: - Também era nadador excelente, muito bom no polo aquático. Chegou à escola e logo se percebeu que também aí era ótimo, vivendo sempre de sorriso no rosto, bem humorado – como naquele Natal, pouco antes, que a família nunca mais esqueceu. Estava toda reunida à mesa, na hora da novena, Maria Luiza iniciou a oração – e quando chegou a vez de Jonas, ele, lembrando-se do conselho de todos os dias: - Diga sempre no plural, para a benção vir para todos... recitou: - Ó meninos jesuses... O silêncio e a compostura quebraram-se à gargalhada: - Todo mundo riu muito com a minha oração, e eu mais. Aí respondi: «Ué, não era para falar no plural?». Só que tem um menino Jesus só, né? Não percebi a confusão e me atrapalhei todo Isso é motivo de piada até hoje lá em casa... (Devota de Santo António, o Santo António de Lisboa que em Taiúva tem igreja em sua honra: - Como o padroeiro dos pobres... Maria Luíza nunca deixou de cumprir um ritual: passar por lá, rezar para que Santo António proteja Jonas pelos campos do mundo...) Na praça principal de Taiúva há umex-libris: a estátua de Cristo Redentor, de braços aberto, como no Rio – foi Ismael, o pai de Jonas, quem a mandou construir quando era o prefeito. Por essa altura, os filhos passaram também a organizar todos os anos um jogo de futebol para arranjar dinheiro para os pobres, Jonas leva lá outros craques – e numa das vezes festejou um golo que arrastou espantos e gargalhadas pelo campo: - Puxei mamãe para dançar comigo ali, só ali podia fazer isso, né?! ...
Estrela de Diamante O que é que Cirille Miramon tem a ver com Júlio César? Serem os dois guarda-redes estrangeiros, haver mais de 100 anos a separá-los na baliza do Benfica. Não, não é engano – não foi Jorge Gomes, o primeiro estrangeiro a jogar no Benfica, quando o Benfica, estava vedado a estrangeiros foi o Miramon. OK, era um estrangeiro diferente: francês de nacionalidade, geria um negócio de família na Rua da Prata, a Óptica Miramon. Sim, era oculista – e na época de 1910/1911 alinhou pela equipa de quartas categorias no Campeonato de Lisboa, numa equipa onde também estava... Félix Bermudes, o dramaturgo que haveria de chegar a presidente. Anos depois, Luís Miramon, o filho de Cirille, também pôs o seu nome na história, foi um dos pioneiros do râguebi no Benfica – e em Portugal. Contada, pois, a história breve de Cirille, o estrangeiro do SLB de quem a história quase sempre se esquece, contamos-lhe a história dos estrangeiro do SLB de quem a história jamais se esquecerá: Júlio César, o Júlio César que foi a chave mestra que fechou o paraíso do campeonato 2014/2015 ao sonho dos adversários... À canarinha chegou Júlio César em 2003, convocado para a Taça das Confederações. Estava no Flamengo, mas Dida não lhe deu a mínima hipótese de sair do banco. No ano seguinte, sim, ganhou a titularidade – e foi através do penalty que defendeu contra a Argentina que o Brasil ganhou a Copa América. A proeza lançou-o a salto para Itália, fez o primeiro semestre de 2005 no Chievo Verona, o Inter chamou-o a Milão. Passou uma época à sombra de Toldo – e quando Roberto Mancini lhe deu a baliza nunca mais a largou. À eternidade ainda mais se aconchegou na época fantástica de 2009-2010, com a Liga dos Campeões, o Scudetto e a Taça de Itália pela mão de José Mourinho. O resto é o que se sabe. O que menos se sabe é, porém, o modo espantoso como desafiou o seu destino. Fátima Espíndola, a mãe, contou-o, deliciada: - Quando Júlio César foi para a Gávea, tinha de chegar às 7 horas da manhã ao estádio para se treinar. Sempre o acordava às e ele se levantava meio sonolento. Era cedinho, às vezes eu jogava água no rosto dele para o despertar, mas era o chuveiro que o acordava mesmo, a gente o empurrava para lá, assim, meio a dormir. E eu sempre levava uma marmita no carro porque após o treino ele ia direto para a escola. Só tinha tempo de almoçar dentro do carro mesmo. Era tudo assim na correria. Mas valeu a pena, né... Duas cadeiras como postes e o «gol pequeno» no Grajaú Nessa altura não era o Júlio César, era o Cesinha – e concorda: - Mamãe sempre esteve ao meu lado. Se eu estou onde estou devo praticamente tudo a ela... A família Espíndola não teve apenas um filho futebolista. Janderson, quatro anos mais velho, era atacante, começou por ser conhecido como Espíndola, quando se revelou no Botafogo – e já era o... Pardal quando foi campeão pelo Vasco em 1997. Júnior, o outro irmão, não quis fazer vida do futebol – mas talvez ninguém mais responsável do que ele seja responsável por Júlio César ser o que é: - Era sempre ele que desafiava Cesinha para as brincadeiras nos fundos da casa onde morávamos na Penha, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro. Duas cadeiras serviam como postes. E, muitas vezes, as meias garantiam a diversão. Elas eram enroladas como bola. E também substituíam as luvas nas mãos do Cesinha... Até que um dia ele chegou e falou que queria ganhar uma luva de “goreiro”. Ele nem sabia falar ainda direito, era o seu destino... Sim era mesmo destino, o seu destino – e foi Júlio César quem o revelou: - Um tarde, eu cheguei ao Grajaú, no Country Club, para jogar bola com o meu irmão Júnior. Aquele gol a gol na quadra, de chutar de um para o outro. Mas aí faltou um jogador que era federado no pré-mirim e me chamaram para completar o time. Nunca tinham me visto em lugar nenhum. E era justamente o goleiro que não tinha ido. Fui jogar, mas sem pensar em nada. Queria só me divertir. Mas aí depois me perguntaram se eu gostaria de fazer um teste para começar a jogar pelo Grajaú. Morava no subúrbio da Penha. Minha parada era só rua, futebol de rua, futebol de esquina. O carro vinha e a gente falava “carro”. Aí todo mundo parava no lugar, esperava o carro passar e a gente continuava... ...
A correr no Tempo Com o Rali de Portugal na estrada, contamos-lhe como foi a primeira prova de automobilismo que por cá se fez – e, entre várias outras espantosas revelações, revelamos-lhe por que não pôde ser a um domingo e por que ao entrar-se numa localidade a velocidade tinha de baixar para menos de... 10 quilómetros por hora. Mas, ainda mais: também lhe falamos de um ícone, da última prova da monarquia, dessa monarquia que vivia, apaixonada entre automóveis: Rampa da Pimenteira, ganha por um piloto com o corpo todo ligado... Emile Levassor era engenheiro, trabalhava para um industrial francês. Quando ele morreu – casou com a viúva. Para expandir o negócio comprou a Gottlieb Daimler, um dos inventores do automóvel, licença para construção de motores na fábrica. Depois, em sociedade com René Panhard, passou a fazer carros também. E foi com um Panhard et Levassor de 2 cilindros que concorreu à primeira corrida de automobilismo de que há registo: Paris-Bordéus-Paris, 1190 quilómetros. Com largada a 11 de Junho de 1895 e 27 concorrentes. As previsões apontavam para que se atingisse Bordéus ao raiar da manhã mas Levassor chegou muito antes, por volta das 2.30 horas – e não tinha nenhum fiscal à sua espera. Teve de procurá-los num hotel, acordá-los – para que certificassem o tempo. Antes de se fazer de novo à estrada, por entre charretes e animais, «comeu sanduíches e bebeu champanhe» – e deu a pé uma volta pela cidade para «desentorpecer os músculos». A 50 quilómetros de Paris parou num restaurante – para mais uma refeição e à meta chegou ao cabo de 48 horas e 48 minutos. À média de 24,5 km/h – e um jornal escreveu que velocidade assim era um... «assombro». Como seu Panhard et Levassor só tinha dois lugares em vez dos quatro que se previam nos regulamentos não lhe deram 31 mil francos de prémio. Um ano depois, ao tentar desviar-se de um cão no Paris-Rouen, despistou-se, levaram-no em coma, politraumatizado, para o hospital, lá morreu, alguns meses depois. Povo que o recebera em euforia no dia da primeira vitória – pediu, em lágrimas, que fizessem estátua de Emile Levassor na Porte Maillot, uma das mais antigas entradas de Paris, onde, então, se pusera a meta. Lá está. Na primeira viagem do primeiro automóvel em Portugal, um burro morto e pagou a 18 mil réis... Foi um Panhard et Levassor, o primeiro automóvel que houve em Portugal. Chegou em 1895, importado pelo Conde de Avilez. Na Alfândega de Lisboa logo se levantou a dúvida: que taxa aduaneira aplicar a tão «estranho artefacto». Máquina agrícola ou... «locomobile» que era como se chamavam as máquinas movidas a vapor? Ficou «locomobile». Os Avilez tinham palácio em Santiago do Cacém – e na primeira viagem, de Cacilhas para lá, o primeiro acidente: atropelou um burro carregado de canas, matou-o – e ao dono pagou «o melhor de 18 mil réis quando um burro naqueles tempos custava apenas 5000 réis». (Sete anos o teve, vendeu o automóvel por 700 contos de réis a Mariano Sodré de Medeiros, açoriano com negócios em Lisboa porque se encantara com o modelo da Peugeot que vira na Exposição Industrial de Paris – não tinha rodas em aros de ferro, já tinha pneus e câmaras de ar, mas antes de fechar negócio o Conde de Avilez morreu.) Ainda nesse ano de 1895, há notícia no jornal O Velocipedista – de que no Velódromo das Devezas, Benedicto Ferreirinha, que ganhou fama também como ciclista e jogador de ténis, percorreu 10 mil metros em 17.01 minutos – recorde para uma ««bicycleta com motor a petróleo». Era assim que se chamavam às motos – e no jornal vincava-se que fora a primeira vez que «a machina se apresentara em público». (Esse ainda era o tempo em que casas de banho só havia em casas muito, muito ricas - e um fato para os homens levarem à praia não custavam menos de 1000 réis, os de mulheres, os «chiques» que se importavam de Paris, eram quase como vestidos, tudo tapando do corpo - e andavam pelos 2800 réis, mais ou menos metade do que aquilo que se pagava por meio burro, com aquele que o automóvel matou, numa feira de gado...) ...