SEGUNDA-FEIRA, 30-05-2016, ANO 17, N.º 5966
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destaques

Por que é que para a baliza do Benfica foi Germano (e em meia hora não lhe conseguiram marcar um golo sequer...)
Do Passado para o Presente Esse era o tempo em que não havia substituições – e, perante a lesão de Costa Pereira, incapaz sequer de se ter em pé – mas pior: paralisado… - a primeira ideia de Elek Schwartz foi mandar José Augusto para a baliza. Alguém lembrou que, com o Benfica a perder, talvez José Augusto fosse mais último no ataque – e foi assim que a escolha caiu em Germano. Aos 14 anos, Germano de Figueiredo já perdera pai e mãe, estava a ser criado por uma irmã pouco mais velha - e foi para o Atlético como guarda-redes. O treinador passou-o a avançado-centro. Depois mudou-o para central. Tinha 19 anos, quando, em 1953, Janos Biri (que entre 1939 e 1947 ganhara no Benfica 3 campeonatos e 3 taças de Portugal) o puxou para a primeira equipa do Atlético – e não tardou ser chamado à seleção. Veio de jogo em Madrid pela Seleção de Lisboa queixando-se de tosse e febre – e uma pleurisia deixou-o internado em Santa Maria, várias semanas. GERMANO FOI PARA O SANATÓRIO, O SPORTING NÃO O QUIS... Germano continuou a jogar (e a brilhar) e, algures por 1956, numa inspeção para a Seleção Militar, o médico achou-lhe estranhos os pulmões, mandou-o de emergência para o Sanatório do Caramulo, lá ficou durante quatro meses – tratado por José Maria Antunes, o médico que ganhara pela Académica ao Benfica a primeira edição da Taça de Portugal, foi, por várias vezes, selecionador nacional. O Sporting tinha acordado a sua transferência a troco de 400 contos para o Atlético – e de 100 de luvas para Germano, mas sabendo-o tuberculoso rasgou o contrato. Voltou à liça, ajudou o Atlético a ganhar o Campeonato da II Divisão – e em 1959 o Benfica foi buscá-lo à Tapadinha. (Após o Mundial de 1966 Fernando Riera disse-lhe que não contava com ele, foi para o Salgueiros. Um ano depois, despediu-se de jogador, ao Benfica regressou como treinador adjunto de Otto Glória -e foi nessa condição que esteve, em Wembley, na final da Taça dos Campeões de 1968 que os benfiquistas perderam no prolongamento para o Manchester United, continuava a ser a maldição de Guttmann…) TAL COMO EUSÉBIO, FOI INJETADO PARA DEFRONTAR O INTER... Tal como Eusébio também Germano, então considerado por muita gente como o melhor central da Europa, fora injetado com novocaína para poder jogar a final da Taça dos Campeões contra o Inter. Na baliza esteve 33 minutos, com uma ligadura a aconchegar-lhe a coxa – e ao sair de campo sem golo sofrido, exclamou: - O Sarti teve muito mais trabalho do que eu, passou por tormentos por que eu não passei, mas pronto... Por isso, do meu ponto de vista, acho que tenho tido vitórias que me desgostaram muito mais, mágoa, muita mágoa sinto pelo que aconteceu ao Benfica, isso sim… ...
Do Passado para o Presente Giacinto Facchetti começara por ser campeão de 100 metros e Helenio Herrera descobriu-o no Trevigliese. Tinha 18 anos, era extremo – e pediu ao presidente do Inter que o fosse buscar sem demora. No dia da apresentação, HH (uma espécie de Mourinho antes de Mourinho...) atrapalhou-se no nome e num arrevesado sotaque castelhano à moda da argentina, tratou-o como Giacinto Cipelletti. Foi o bastante para ficar de pronto com a alcunha que não mais o largou: Cipe. Outra coisa lhe fez Herrera de pronto: transformou-o em lateral esquerdo com uma ideia: - Para que possa transportar a bola da defesa para o ataque, sempre redondinha, seja defesa que finte, passe, marque golos… Era, pois, o que ele achava que podia ser: o defesa perfeito para o ataque no cattenaccio. Foi o que ele foi – e assim foi campeão de Itália em 1963, no ano seguinte levou a discussão amarga entre Alfredo Di Stéfano e Miguel Munoz, o treinador do Real Madrid. Antes da final da Taça dos Campeões, Munoz achou que, apesar de lateral, deveria ter marcação individual, Di Stéfano discordou: - Não queremos futebol negativo, queremos futebol positivo…Facchetti brilhou, o Inter ganhou, Munoz foi desmoralizado, Di Stéfano foi despedido. PERDEU A BOLA DE OURO PARA EUSÉBIO, APRESENTOU FIGO... Sim, foi ele, o Giacinto Facchetti quem levantou a Taça dos Campeões em San Siro – e nesse ano, perdeu a Bola de Ouro para Eusébio por apenas 8 votos. (Levou a Itália à vitória no Europeu de 1968. Seria o quarto da sua vida, Bearzot não o convocou para o Mundial de 78 – entrou em depressão, deixou de jogar. Em sua memória, o Inter decidiu nunca mais usar a camisola nº 3, Giovanni Arpino transformou-o em personagem de um dos seus romances – e partilhou a presidência do Inter com Massimo Moratti. Morreu em setembro de 2006 – e o seu último ato no cargo foi a apresentação de Luís Figo como jogador do Inter…) O CAPITÃO QUE VIERA DO BOXE E FORA RECORDISTA DE SALTO EM ALTURA... No final da Taça dos Campeões de 1965, levados pelo espírito de Facchetti, os jogadores do Inter ovacionaram os do Benfica - e os dirigentes da UEFA nem sequer cumpriram o protocolo da consagração, depositaram, de escantilhão, as medalhas dos vencidos nas mãos de Mário Coluna - para que ele as distribuísse pelos colegas! Fora na Escola Católica de Santana de Munhuana que Coluna descobrira o jeito para o futebol. Também andara pelo boxe – e pelo atletismo chegou cedo a recordista provincial do alto em altura. Severiano Correia, a exemplo do que fizera a Costa Pereira, convenceu-o a apostar só no futebol. Nem um ano o segurou no seu Ferroviário – o Desportivo de Lourenço Marques ofereceu-lhe 500 escudos por mês, 1500 ganhava como mecânico de automóveis no Almoxarifado da Fazenda. Tinha 17 anos. Um dia, o Desportivo foi jogar à África do Sul – e teve de ficar por causa do apartheid, a sua equipa perdeu por 1-2. Algumas semanas depois, foram os sul-africanos a Lourenço Marques e perderam por... 7-0, sete golos de Coluna! Foi com essas credenciais que aterrou a Lisboa numa manhã de Agosto de 1954, depois de uma viagem de avião que demorou... 34 horas: - Mal cheguei, quis logo ir-me embora, vinha como craque, mas fiquei, não sei bem porquê, com a ideia de que seu Otto não me iria pôr a titular como avançado-centro. Além disso, o principal: quiseram enganar-me no contrato. Meu pai sugeriu-me que voltasse, fiz as malas, só não voltei porque o mordomo do Lar dos Jogadores tinha ordem para me barrar a saída se apercebesse que eu estava no ir... O ÁRBITRO DE FEZ HISTÓRIA (E NA HISTÓRIA FOI SEMPRE CASEIRO...) O árbitro do Inter-Benfica era o suíço Gottfried Dienst – e tornara-se o primeiro árbitro da história a apitar por duas vezes a final da Taça dos Campeões, na primeira também estivera o Benfica, foi a dos 3-2 ao Barcelona, em Berna. (No ano seguinte arbitrou a final do Mundial de 66 - e, depois de consultar o soviético Tofik Bakhramov, deu como válido o golo que valeu o título à Inglaterra na bola que não entrou. (Pior sucedeu no Euro 1968 – na final entre a Jugoslávia e a Itália foi acusado de tremendo «caseirismo», o jogo acabou empatado 1-1, a decisão levou-se para finalíssima, dois dias depois, a UEFA já não o escolheu para a repetição, pôs espanhol Ortiz de Mendibil no seu lugar…) PRESIDENTE DO BENFICA DEU AOS JOGADORES MAIS DO QUE PROMETERA PELA TAÇA... Ouvindo Elek Schwartz queixar-se de que Diesnt deixara um «escandaloso» penalty por assinalar contra o Inter, Mário Coluna juntou à caramunha: - O Benfica provou que é a melhor equipa da Europa, se tivéssemos jogado na Luz, como o Inter jogou em San Siro, teríamos ganho por três ou quatro. Adolfo Vieira de Brito, o presidente do Benfica, prometeu pagar do seu bolso réplica da Taça dos Campeões para colocar na sala de troféus com «dedicatória a preceito aos senhores da UEFA que puseram o Inter a jogar na sua casa» - e sabendo que cada italiano recebeu 235 contos pela vitória, decidiu dar aos seus jogadores não os 40 contos que combinara com eles como prémio de vitória, mas ainda mais – deu-lhes 50! (Um Vauxhall VX 4/90 andava pelos 98 612 escudos – e no dia do jogo A Bola tinha um «reclame» à Velosolex, que «rola e sobe sozinha e consome meio tostão ao quilómetro» - era uma bicicleta com motor, custava 3860 escudos.) ...
Do Passado para o Presente Foi já com a Taça dos Campeões perdida que o Benfica chegou a mais uma final, a final da Taça de Portugal. Avassalador voltara a ser nas meias: ganhou em Braga por 4-1, sete dias depois, na Luz, não se limitou a ganhar de novo ao Braga, esmagou-o – com 9-0. Adversário no Jamor, o Vitória de Setúbal de Fernando Vaz, o Fernando Vaz que era jornalista de A Bola, treinador se tornara como adjunto de Cândido de Oliveira, casapiano como ele. Sim, deu surpresa – o Benfica perdeu por 3-1. Germano foi expulso, um dos golos sadinos foi marcado por Jaime Graça, Carlos Manuel, o mais eufórico dos setubalenses, exclamou: - O Vitória pôs termo ao mito do Benfica, ao mito do Eusébio... mas o que pôs foi fim a Schwartz. Que nesse mesmo dia ficou a saber que seria substituído por Béla Guttmann. O contrato de Guttmann pouco diferente era do de 1963. De luvas recebeu 400 contos, o ordenado mensal manteve-se nos 15 contos. Bónus? A Taça dos Campeões valia 400 contos, o campeonato 250, a taça 100. (Pois, mas nisso nada levaria, porque nada ganharia.) O mais que recebeu foi da cláusula que lhe rendia um por cento em todos os cachets do clube. Que, por tê-la negociado antes da final de San Siro, arrancou do Jamor para digressão pela América do Sul, ainda a 1000 contos o desafio, perdendo-a com o Inter ficou a cobrar 800 contos por jogo. NÃO QUERIA COMPARAÇÕES COM PELÉ, ACHAVA QUE O MELHOR DO BENFICA ERA COLUNA... A caminho Eusébio largou a Cruz dos Santos mais um indício do seu caráter: - Não gosto que digam que sou o Pelé da Europa. Nem o Pelé Número Dois. Para eu ser como Pelé ainda tenho de aprender muito, muitíssimo mesmo, e talvez nem nunca chegue a ser igual a ele. Eu tenho um nome, sou Eusébio. Nem imaginam o desgosto que o caso pode dar à minha mãe. Minha mãe lê mal. Mas à força de lhe mostrarem os jornais, já conhece o meu nome, já sabe como se escreve. De maneira que quando escrevem Eusébio, pensa: estão ao falar do meu filho. Mas quando me chamam Pelé da Europa ou não fica a saber que falam de mim ou fica a saber e não gosta porque não escreveram o nome do filho. Sobre Pelé, não existem dúvidas: é o maior do Mundo inteiro. Agora, em relação a mim, acho que se exagera. Eu entendo que não sou eu o melhor da Europa uma vez que não sou, sequer, o melhor do Benfica. Para mim, o melhor jogador do Benfica é o senhor Coluna. OUVIRAM-SE TIROS EM CARACAS... Era julho e o destino era Caracas. Onde uma série de empresas venezuelanas fabricara com muito dinheiro: um Mundialito de Clubes. Dois anos antes, estando lá o Real Madrid, Di Stéfano, fora raptado por organização apoiada por Fidel Castro que se lançara ao se lançara ao ataque pela esquerda radical ao presidente Rómulo Betancourt. Ao primeiro treino do Benfica, ouviram-se tiros – e temendo-se que acontecesse o mesmo a Eusébio, passou a ter corpo de polícia de metralhadoras em punho a fazer-lhe guarda 24 horas por dia, dentro do hotel, até. Mesmo sem golo de Eusébio, a Taça foi para a Luz, perdeu-a o Atlético de Madrid de Jorge Mendonça, angolano que naturalizando-se espanhol era já Mendoza. SOVIÉTICOS QUERIAM BENFICA EM MOSCOVO, ENTROU A PIDE EM JOGO... Entretanto, surpreendente (ou talvez não...) foi o aceno que chegou de outro lado, do lado de lá da Cortina de Ferro. Fernando Silva Pais, o diretor da PIDE, leu A BOLA e o DN – e abespinhou-se. Contava-se que Albino André, diretor da agência de viagens TurExpresso estivera em Moscovo a preparar a ida do Benfica à URSS. Mandou chamá-lo a interrogatório. Revelou que fora sugestão de Gastão Silva – e que lhe deram garantias de que da parte do governo soviético «não existia a mínima objeção», que até autorizava a que, não querendo fazer-se a viagem na Aeroflot, se abrissem os aeroportos da URSS ao avião da TAP levasse o Benfica. Foi-lhe comunicado que nunca mais ousasse sequer pensar em «coisa assim» - e que descancelasse tudo. (Depois, fábrica de Coina tentou fazer anúncio sobre a exportação de um milhão de gabardinas. Os anúncios também estavam sujeitos a visto da Censura – e a determinação do coronel foi: «dizer que se exportou o milhão sim, mas dizer que vão para a Rússia não»...) ...