TERÇA-FEIRA, 03-05-2016, ANO 17, N.º 5939
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destaques

O que mudou no Atlético com Simeone
Grande História É exigente, ninguém duvida. Pede tudo a quem está a correr dentro de campo (e os jogadores nunca param), mas é o primeiro a retribuir-lhes com palavras sempre que obedecem e executam o plano. «Agradeço às mães destes jogadores, que os fizeram com uns cojones muito grandes», disse em ocasião no dia em que o Atlético ultrapassou o Chelsea de Mourinho em 2014, confirmando a presença na final da Liga dos Campeões em Lisboa. Assim é Diego Simeone. Em Madrid é tão ou mais ídolo que os próprios jogadores, mas nem sempre foi assim. - Reza a lenda, eternizada por jornalistas que acompanhavam o dia a dia do Atlético Madrid na década de 90, que na tarde de verão de 1997 em que foi confirmada a saída de Diego Simeone, rumo ao Inter (enquanto jogador de futebol), os colegas não ficaram tristes, pelo contrário, festejaram no balneário com garrafas de champanhe. Não porque ´El Cholo´ não tivesse sido uma peça fundamental na equipa ´colchonera´, porque foi, mas sim pelo seu especial temperamento: feitio agressivo e conflituoso. As fúrias de olhar gelado de Simeone tinham repercussões frequentes nos treinos, nas conversas de balneário e na estabilidade emocional de alguns companheiros mais frágeis. CONTAR A HISTÓRIA 18 ANOS DEPOIS… Frustração. A 17 de dezembro de 2011, o Atlético de Madrid era isto. Tinha ultrapassado a fase de grupos da Liga Europa, sim, mas na Liga espanhola aparecia em 11.º e acabava de ser eliminado da Taça de Espanha, em casa, por uma equipa da segunda divisão (0-1, com o Albacete). Gregorio Manzano já não servia como treinador. Encontrar um substituto a meio da época era uma questão de vida ou de morte. Eis que os ´colchoneros´ olharam com bons olhos o currículo de Simeone, o Diego que enquanto jogador foi mal-amado e não galã. Mas o fato preto mudou-lhe o cenário, e o carisma ajudou. Estava no Racing Club de Avellaneda mas não pensou duas vezes quando lhe fizeram o pedido. É verdade que chegou a meio da temporada, também é verdade que perdeu o primeiro jogo na estreia, mas também é verdade que no final de contas conseguiu calar os críticos. Os maiores feitos de Simeone aconteceram em 2013/2014. Naquela temporada, o Atlético mostrou que não era apenas uma equipa de mata-mata, e contra o Barcelona, em pleno Camp Nou, conquistou o derradeiro título espanhol, pondo fim a um reinado de 18 anos de pleno jejum. O Atlético de Madrid não conquistava o Campeonato Espanhol desde a temporada 1995/96, quando Simeone ainda era um jogador ´colchonero´. Este é o triunfo de uma equipa e de um clube que viveu tempos tumultuosos e soube renascer das cinzas. Desde a altura em que ser adepto do Atlético de Madrid era como uma maldição, em que a equipa foi do título de campeão à despromoção em quatro anos (1996-2000). Em 18 anos à espera de um milgare, o Atlético gastou 696 milhões de euros na contratação de 261 futebolistas e passaram 17 treinadores pelo banco. Depois da tempestade a bonança começou a alegrar os dias dos ´colchoneros´ - conquista da Liga Europa (2010 e 2012) e correspondentes Supertaças europeias, e a Taça do Rei (2013). «REAL E BARCELONA TÊM FERRARIS, NÓS TEMOS OUTRO CARRO» De qualquer modo, a verdade é que o impacto de Simeone no clube espanhol vai muito mais além do critério desportivo, como demonstram os resultados financeiros e o aumento de número de sócios. «Qual jogar bem? Há imensas maneiras de jogar bem! O mais difícil é ter um estilo próprio, e aí o Barcelona e a Seleção espanhola têm confundido as pessoas, porque nem todas as equipas podem jogar da mesma forma. Real e Barcelona têm Ferraris, nós temos outro carro, precisamos de correr de outra forma», são palavras do próprio Simeone, em fevereiro de 2012, apenas dois meses depois de ter assumido o comando técnico do Atlético de Madrid. Desde que Simeone orientou o primeiro jogo no Atlético, que a equipa espanhola registou 158 vitórias, 52 empates e 42 derrotas em 252 partidas, 64% de triunfos, face aos 44% dos 252 jogos anteriores. MAIS OLHOS QUE BARRIGA Quando treinava o Palmeiras, em 2009, Muricy Ramalho criticou o excesso de importância que é dada aos treinadores de futebol. Segundo ele, a sua influência nos resultados das equipas é apenas de 25%. Simeone apareceu para lhe baralhar as contas. Para os adeptos que seguem fielmente os passos do treinador ´Cholo´, o papel de Diego Simeone como treinador não pode ser resumido a uma percentagem. Foi ele que devolveu ao Atlético o protagonismo perdido. Não que o clube ´colchonero´ fosse medíocre antes da chegada de Simeone, apenas conseguia competir de forma diferente no mesmo campeonato. Se outrora o Atlético rivalizava com o Valencia, Sevilla e Athletic Bilbao, hoje é a maior ameaça dos gigantes Real e Barça. E no Atlético não basta apenas correr e andar na linha. Para Simeone a palavra-chave do sucesso é ganhar, mas o técnico não se refere apenas aos resultados da tabela de classificações. O argentino faz de tudo para que o seu elenco mantenha a forma, nem que para isso tenha que subsmeter os jogadores ao teste da balança. «Simeone não gosta de jogadores gordos», confidenciou Griezmann. Aos poucos, ´El Cholo´ acrescenta mais um capítulo ao seu livro, embora o final ainda seja uma história em aberto. O que se sabe, já foi dito: - Era uma vez um treinador ambicioso, aguerrido e vencedor. Chama-se Diego Simeone. Quando não mais conseguir alimentar a paixão pelo futebol, os seus herdeiros falam por si: depois de Diego, há o Giovanni, o Gianluca e o Giuliano. E tal como o pai, respiram futebol. «Os meus filhos foram a minha melhor jogada…». ...
Do Passado para o Presente No primeiro jogo em que o Sporting foi ao Porto, ganhou. Só que não era oficial. Quando o foi, na final do Campeonato de Portugal de 1922, perdeu – e foi assim que o FC Porto arrancou para o primeiro título nacional da história, numa caminhada marcada por peripécias e desconcertos, no futebol e no país. Com o Sporting de novo no Porto – ainda a sonhar com o regresso a campeão – em pano de fundo é sobre o que aconteceu nessas primeiras vezes que aqui se fala... Com o Benfica já o FC Porto jogara antes e fora esmagado, mas contra o Sporting, no Porto, a primeira vez foi em 1917 e perdeu por 4-1. O desafio foi no Campo da Constituição – que, por vezes, os portistas emprestavam ao Salgueiros, a troco de pagamento de um escudo e cinquenta centavos por partida e 20 centavos por banho e uso de cada toalha. Algum tempo depois, na Illustração Portuguesa que nas praias da Póvoa e de Miramar, de São Martinho do Porto e da Figueira da Foz, de Cascais e da Rocha, no Algarve, já se surpreendiam «banhistas graciosas de braços nus e tornozelos ao léu» - e não como antes: elas de vestidos a roçagarem o chão e às vezes de sombrinha também. Os pobres continuavam, porém, a ter de ir à água em sorrateirice, pela madrugada, vestidos com a roupa do dia-a-dia. E também se contava que uma velha de 70 anos de Vieira de Leiria que andara a vida inteira 16 quilómetros por dia a levar e a trazer malas de correio para ganhar 30 réis ficara «muito feliz» porque já só tinha de «fazer 12 quilómetros» para deixar as cartas de aldeia em aldeia e lhe puxaram o ordenado para 60 réis... DO SPORTING, O PRIMEIRO FUTEBOLISTA A GANHAR DINHEIRO (E NÃO SÓ…) Era do Sporting o futebolista que em Portugal mais ganhava por essa altura: Artur José Pereira. Fora, em meados de 1914, do Benfica para o Lumiar seduzido por José de Alvalade, recebia 36 escudos por mês – e tinha um outro privilégio: ser o primeiro a utilizar a banheira de água quente que havia no balneário. Valeu a pena o investimento – com ele o Sporting venceu o Campeonato de Lisboa de 1914/15, foi o primeiro título da sua história. (Mas, ainda não nacional – porque, então, títulos nacionais não havia no futebol, em Portugal…) Por essa altura, o Benfica tinha no futebol um massagista particular, o sueco Boo Kullberg, que, além de professor de ginástica, se tornou seu primeiro treinador de atletismo. Pagava-lhe pelo serviço de massagens 40 escudos por trimestre – e o FC Porto não se dava a tais luxos, nem a esses do massagista, nem aos outros do amador disfarçado. Nas viagens para fora da cidade, eram os próprios futebolistas do FC Porto que suportavam as despesas. Alguns, se se sentissem com pouco dinheiro, pediam discretamente dispensa. Por causa disso, levantou-se no clube um movimento de insubordinação, com ameaça de greve geral – quando se descobriu que Joaquim Reis, o Farrapa, recebera por baixo da mesa 100 escudos. Para apagar o fogo, o presidente Henrique Mesquita convocou os demais jogadores para, numa reunião no seu gabinete, lhes tocar ao ao coração: - O Farrapa só recebeu as suas despesas por ser tão pobre que jamais poderia pagá-las! «SUJOS E VERGONHOSOS» E OS PORTISTAS QUE FORAM À GUERRA… Era, era vida dramática dos pobres – por essas eras. No Porto ou em Lisboa. Ou onde quer que fosse. Pão pouco havia – e o que havia era de má qualidade. A batata às vezes podre custava 8 centavos o quilos. E na noite de 19 de Março de 1917, milhares de pessoas invadiram, em Lisboa, padarias e mercearias, saqueando-as. A polícia ripostou, a multidão em fúria enfrentou-a com pedras e paus, tiros e bombas – e pelo meio, a arrastar-se, sempre o mesmo grito: - Temos os filhos a morrer de fome... Houve mortos e feridos. E presos, muitos presos. O governo decretou o «estado de sítio» e só cinco dias depois anunciou que o «abastecimento de farinha estava regularizado e a vida na cidade tinha voltado à normalidade». Antes, a 30 de janeiro, partira para França, para a I Guerra Mundial, a I Brigada do Corpo Expedicionário Português, sob comando do coronel Gomes da Costa. Quase metade da equipa do FC Porto – entre portugueses e britânicos, sim porque britânicos eram o Harrisson e o Hamilton – foi na leva. Alguém escreveu que a «soldadesca portuguesa» chegara «suja, imunda, vergonhosa, uma tropa fandanga com que se pretendia alardear que temos um exército, mas não»... (A Cruzada das Mulheres Portuguesas lançou campanha de subsídios de 2 escudos e 30 centavos às famílias dos mobilizados – e em Lisboa o Século criou a Sopa dos Pobres para dar de comer a «milhares de desvalidos»...) A 4 de Abril deu-se nota do primeiro morto do CEP em combate: o soldado António Gonçalves Curado. Sobre o abrigo onde estava caiu granada que fez abater o tecto – e foi isso que lhe esmigalhou a cabeça. ...
Grande História Arrepiante, o destino de três húngaros que foram campeões olímpicos de esgrima. Mas não só o deles. Pelo que aqui se conta também passa um polaco fuzilado por nazis – e aviões a caírem (e não apenas na guerra). Ainda se fala de cavalos a fazer salto em altura e salto em comprimento e das peripécias por que passaram os homens que saltaram mais do que eles, por exemplo o que levou quatro medalhas de ouro dos Jogos Olímpicos de Paris, em 1900 (e por causa de uma delas apanhou um soco). E também se fala de um alemão deportado para a Ilha de Man por o apanharem em Londres a trabalhar como ourives, de um outro alemão que, atropelado nos Estados Unidos, foi campeão olímpico com uma perna de pau – e de mais que talvez nem imagine, por exemplo de José Bento Pessoa, o português que se tivesse podido ir a Atenas, em 1896, o mais certo teria sido sair de lá com medalha, de ouro talvez… Guerra Junqueira escrevera numa das suas truculentas crónicas de imprensa que «a bicicleta era o único veículo em que a besta puxava sentada» - e foi precisamente na «velocipedia» que nasceu a primeira grande figura do desporto português: José Bento Pessoa, que em 1899 bateu o record mundial de 500 metros no velódromo de Chamartin. Por já ser profissional, não disputara, três anos antes, os Jogos em Atenas. Onde se fizeram 100 quilómetros numa... pista de cimento, no velódromo que se construíra por 104 000 dracmas construíra-se um velódromo. (O Estádio Olímpico, o Panatenaico, também fora propositadamente construído para a edição do renascimento – graças à oferta de um milhão de dracmas de George Averoff, comerciante de Alexandria. A pista era de terra, em forma de ferradura – e tudo o resto se fizera com mármore do Monte Petélico, de onde saíra também a pedra para o Pártenon.) ERAM SÓ DOIS, O GREGO TEVE AVARIA, O FRANCÊS ESPEROU POR ELE… Nos 100 quilómetros na pista do Velódromo Olímpico, apenas dois concorrentes chegaram ao fim – e o francês Léon Flameng venceu-os em 3 horas e 8 minutos, com 11 voltas de avanço. E até poderia ter sido por mais. A dado passo, Flameng apercebeu-se de que a bicicleta de Georgios Kolettis se avariara. Parou enquanto o outro a arranjava. Adiante o francês caiu, mas o grego não esperou por ele, mesmo assim perdeu como perdeu – e no final foi duramente repreendido pela sua falta de fair-play, chegando mesmo a colocar-se a hipótese de o desclassificarem por «atitude incorrecta». Mas como desclassificá-lo de nada valia, assim ficou… ERA AVIADOR, FOI ABATIDO NA I GUERRA MUNDIAL… 100 quilómetros também se fizeram em estrada – pelo caminho dobrado da maratona, a essa prova Flameng não foi – e o campeão, o grego Konstantidinis, gastou a cumprir a distância mais 14 minutos do que Léon fizera em pista. (Depois de Atenas, Léon Flameng lançou-se a outra aventura – foi piloto aviador. Estava em combate na I Guerra Mundial quando o seu avião foi abatido por fogo alemão – caiu ao solo em Éve. Morreu na hora, acabara de fazer 40 anos…) O FRANCÊS DAS TRÊS MEDALHAS E O RECORDE DO MUNDO DO PORTUGUÊS… Quem, porém, dominou as provas mais curtas na pista foi Paul Masson. Também ele, francês. Venceu os 1000 metros em sprint (onde Flameng foi terceiro, atrás do grego Nikolopoulos), os 1000 metros em contra-relógio e os 10 quilómetros em pista (onde Flameng foi segundo). Saiu de Atenas – e profissionalizou-se. Mudou de nome, passou a ser Nossam – que é Masson ao contrário -, Paul Nossam. O melhor que fez foi um terceiro lugar no Campeonato do Mundo de 1897. Foi o ano em que, na inauguração do velódromo de Chamartin, em Madrid – José Bento Pessoa correu os 500 metros na sua nova Raleigh de nove quilos e meio em 33 segundos e 1/5, estilhaçando o recorde mundial do francês Jacquelin. Meses depois, duvidando da fiabilidade dos cronómetros de Madrid, achando que ele era espanhol e não português, suíços desafiaram-no para duelo com aquele achavam que era o ciclista mais rápido do Universo, tratavam-no simplesmente pela alcunha: Champion – e, no velódromo de Jonction, em Genebra, Bento Pessoa pura e simplesmente arrasou-o… O dinheiro que recebia pelas corridas que fazia – ainda mais o impedira de estar nos Jogos de 1900, em Paris. Se estivesse só uma anormalidade impediria que se tornasse o primeiro português a ganhar uma medalha olímpica… ...