QUINTA-FEIRA, 02-07-2015, ANO 16, N.º 5633
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destaques

Da inundação que destruiu a casa à mãe à reportagem que o deixou furioso pelo boato...
Estrela de Diamante À notícia doce de que Eusébio ganhara a Bola de Ouro de 1965, sucedeu rumor acre: reportagem do Notícias de Lourenço Marques insinuava que Eusébio deixara de mandar dinheiro à mãe, que ela se queixara de dificuldades para se sustentar e dar de comer aos outros filhos. Em polvorosa, ripostou: - Quando fui para o Benfica comprei-lhe uma casa para morar, mas a minha mãe preferiu continuar em Mafalala, ficando com o dinheiro da renda para ela... Rui Martins, correspondente de A Bola em Moçambique, voltou a Mafalala a escutar Elisa - e dela ouviu a desfeita o boato: - Por causa das inundações, a minha casa ficou mal. Tive de alugar outra no bairro indígena, mas com geleira e rádio e os 1300 escudos que Eusébio manda ficaram curtos. No entanto, quero jurar: Eusébio é o meu filho querido, toda a roupa que tenho foi ele que deu, tudo o que os irmãos vestem, é ele que paga, ajuda sim, muito... Eusébio pediu, então, que se apurasse o que a mãe tinha em dívidas de que não lhe falara – e sendo 4000 escudos em mercearias, liquidou-as de pronto. Tentou, aliás, uma vez mais, que Elisa viesse para Lisboa viver com ele e com Flora, Elisa não quis: - Não podia deixar sós as minhas meninas, os meus meninos... (Filhos de Laurindo, os irmãos mais velhos de Eusébio eram Jaime e Alberto. Mais nova, era Lucília. Filhos de Fernando, o padrasto, eram Gilberto, Inocência e Fernando.) Eusébio trouxe o cauteleiro maneta para Lisboa, pô-lo a trabalhar numa funerária e o irmão também veio... Quem para Lisboa acabaria por vir, trazido por Eusébio, foi o senhor Chico, o cauteleiro maneta que fundara Os Brasileiros – e foi Eusébio quem lhe arranjou emprego numa funerária. E Gilberto, o irmão, também já cá estava. Viera para o Benfica, numa das edições de A Bola de 1963, publicara-se foto de Eusébio a entregar-lhe camisola, a bradar-lhe: - Veste-a e honra-a!... e a avisá-lo, porém: - Ter habilidade não chega. O Juju, assim o tratavam em Moçambique, murmurou: - Sei marcar golos, lá marcava muitos, mas não quero ser avançado, quero ser médio... Não, não foi o... «Eusébio nº 2», não nem como médio, nem como avançado – estudou e foi Eusébio quem lhe pagou os estudos, num colégio em Tomar. ...
Estilos e Espantos O futebol tem Messi e Cristiano Ronaldo, assim como o boxe tem Manny Pacquiao e Floyd Mayweather, que é de longe, o atleta mais bem pago do mundo, segundo um ranking que acaba de ser divulgado pela revista Forbes. Apesar disso, essa rivalidade entre eles não é o que foi uma outra, a rivalidade entre Mike Tyson e Evander Holyfield que até acabou com a orelha de um na boca do outro. No judo brasileiro há um... Holyfield, dele se fala aqui, mas não: não tem nada a ver com orelha comida, tem a ver com o modo como ele pode ter tirado uma judoca à Alemanha. Anne Lisewki por amor cedeu, por amor foi para o Rio. Quando lá chegou acabou por perder o namorado, mas voltou a apaixonar-se. Aqui, damos-lhe a conhecer toda a história... Anne Lisewski nasceu a 17 de maio de 1990 em Berlim, e com ela a paixão pelo judo. Depois também se apaixonou por um campeão brasileiro. Por amor, deixou a Alemanha rumo ao Brasil, sem nunca olhar para trás. Foi em março de 2014 que Anne abandonou a Europa para viver em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Mas como todos os contos de fadas precisam de rosas, este acabou por dar espinhos, e o romance não deu os frutos desejados. O casal separou-se mas Anne nao quis abandonar o país, não por Victor, mas por outro tipo de amor – a atleta entregara-se de corpo e alma ao Brasil e já não queria voltar a casa. «Não sei se vou ficar para sempre, mas quero continuar e lutar aqui. Quero entrar para a seleção brasileira. Competia na seleção alemã, mas o judo no Brasil é mais profissional. Penso que posso aprender muito». O judo através de um vizinho que sofria bullying... Anne conheceu o judo na infância, foi-lhe apresentado curiosamente por um vizinho que era vítima de bullying. «O pai dele indicou-nos os treinos, mas ele pediu-me para ir também. As pessoas eram más e costumavam gozar com ele, e eu acabei à pancada com todos. O treinador achou que tinha talento e acabei por ficar». Um talento que se converteu uma paixão, e ela de facto tinha jeito. De imediato, Anne foi sugerida à escola de desporto em Berlim, um dos seus grandes centros de formação de atletas. E a prova veio depois – Anne sagrou-se campeã nacional por duas vezes entre os juniores – categoria em que também amealhou cinco medalhas de prata em competições europeias. Depois, já como sénior, conquistou quatro pódios em mundiais de judo, apesar de uma longa trajetória envolta em lesões – 1 medalha de prata e 3 de bronze na categoria menos 70 kg. Para lá ficou o treino na Alemanha, agora só pensa tornar-se uma atleta de topo no Brasil. Para isso, Anne inscreveu-se no Instituto Reação, um projeto social criado por Flávio Canto, um ex-judoca brasileiro. Victor já não é namorado de Anne, mas continua presente – não só no judo, também na mesma escola de treinos. Ainda em 2014, Anne foi medalha de prata no Grand Prix disputado em São José dos Campos. O ouro perdeu-o contra a rival, Bárbara Timo. «O sistema aqui é um pouco melhor. São vários treinadores, com profissionais responsáveis em áreas específicas – a preparação física, por exemplo. A Alemanha tem apenas dois técnicos para toda a equipa. É bem mais difícil. A Alemanha não tem tanto dinheiro para investir como o Brasil». A comida brasileira e os Jogos Olímpicos O Brasil encantou Anne, só a poluição a angustia: a poluição. «E apesar de existirem cada vez mais contentores mas mesmo assim a população prefere deixar o lixo na rua, isso também não é bom». Para atenuar os problemas com a poluição, Anne e uma amiga estão a desenvolver um projeto para salvar o ecossistema e o ambiente. «Queremos também levar as crianças aos locais para recolherem o lixo». Um projeto ainda em fase embrionário, até porque Anne ainda continua como cidadã alemã, embora já tenha pedido toda a documentação necessária para obter nacionalidade brasileira. Por causa de todo o processo, Anne já considera a possibilidade de poder participar nos Jogos Olímpicos, defender o Brasil em competições internacionais tornou-se o maior sonho de Anne. Mas sabe que não será fácil, pelo caminho terá que enfrentar as rivais na categoria de menos 70 kg - Maria Portela, Barbara Timo e Nádia Merli. Neste momento, o principal entrave é a legalização uma vez que, a seleção tem em conta o ranking, e Anne precisa da cidadania brasileira para começar a somar pontos. «Estou no caminho. Ainda tenho que resolver questões para adquirir o passaporte. É um pouco difícil, mas estou a tentar. Se não der certo, terei de arranjar um noivo para casar». Até lá, Anne agarra-se à outra paixão – a comida. «O que mais gosto aqui é a comida. Gostei das coisas mais tradicionais, como arroz, feijão e picanha. A picanha é muito boa. Também gostei do pastel de requeijão com camarão e das sobremesas. Não pareço, mas tenho a cabeça de gorda. Gosto de cozinhar e comer». O Holyfield do Brasil – não defrontou Tyson mas conheceu Anne e o judo Victor Penalber é o ex-namorado que levou Anne Lisewski para o Brasil. Começou no judo com apenas quatro anos. Aos 18 era já uma das promessas nacionais. A sua técnica e força física depressa lhe valeram uma alcunha: o ´Holyfield´ do judo. Em 2008, Victor conquistou a medalha de bronze nos Mundiais de Juniores da Tailândia. No mesmo ano porém o destino traçou-lhe a sorte: caiu nas malhas do doping, acusado de ter usado furosemida, um diurético proibido. Depois de dois anos de suspensão, acabou por regressar às lutas, mas não brilhou e falhou no acesso aos Jogos Olímpicos de Londres em 2012. Mas não desistiu, afinal era o ´Holyfield´. Prossegui caminho e tornou-se o nº 1 do Brasil. Em maio de 2014 assumiu a liderança do ranking mundial na categoria até 81kg. Agora a meta é vencer nos Jogos Olímpicos de 2016. O primeiro obstáculo já tem nome - Josateki Naulu, o judoca das Ilhas Fiji. «Provar não é a palavra. Quero vencer e vou vencer. É o meu primeiro Mundial. E ser campeão não tem o mesmo valor de ganhar um Grand Prix, um Grand Slam. É algo muito maior. Não tenho que provar nada a ninguém. Se tiver que provar, é a mim mesmo. A vontade de vencer é muito grande». ...
Estrela de Diamante É a parte 5. Com Eusébio a caminho do Panteão, relembramos-lhe Eusébio – o Eusébio Como Nunca se Viu do livro que A D. Quixote publicou em parceria com A Bola. Mas mesmo que já o tenha lido o livro, não deixe de ir até ao fim – porque, aqui, há muito de novo para ler sobre o Eusébio e o país do Eusébio, o mundo do Eusébio. E não deixe também de atirar os olhos à galeria de fotos – porque para ver o Eusébio como o Eusébio nunca se viu há mais, muito mais ainda, nem o imagina... Em 1951 António Oliveira Salazar tinha um ordenado de 15 contos mensais. Dez anos depois, aumentou-se para 25 e por 25 contos se deixou ficar até morrer a 27 de julho de 1970. Presidente do Conselho deixara de ser mais de um ano antes, entrou Marcelo Caetano para o seu lugar – e Salazar continuou em São Bento, convencido de que continuava a governar o país, numa farsa com toque de Shakespeare, chamando ministros que já não o eram a despacho, dando entrevistas... Quando ainda o era, passava as férias no Forte de Santo António da Barra. (Fazia questão que pagar do seu bolso a renda da parte que ocupava, o valor estipulava-se anualmente de acordo com os preços em vigor nas pensões da Costa do Sol, porque o Estado já lhe dava São Bento para viver, dizia...) Salazar destestava que mulheres fumava, mas não detestava a Cilinha que fumava... Era lá, em São João do Estoril que estava numa manhã quente de 1964 – quando recebeu em visita Cecília Supico Pinto. Nunca o escondeu, detestava que as mulheres fumassem, achava que era um hábito comunista: - ... detestável como eles. Ela fumava – e fora despedir-se dele, antes de viajar para Angola, onde a guerra se espicaçara. Encontrou-o com um pé partido, mostrou-lhe, consternada, a sua preocupação, Salazar retorquiu-lhe: – Oh, menina! O meu pé não tem importância nenhuma, se fosse o do Eusébio, aí sim, aí é que podia ser um desastre nacional! e ela deixou-se levar, enleante, na jogada dele: – Ora aí está uma boa história para eu contar aos rapazes, como eles hão-de gostar Sr. Dr... Não, não eram só os cigarros, também foi o disco com o Eusébio... Cecília Supico Pinto era a Cilinha do Movimento Nacional Feminino. O MNF que mobilizou mais de 300 mil «madrinhas de guerra», distribuiu milhões de maços de cigarros, promoveu campanhas de aerogramas para «levantar a moral dos soldados», lançou um disco de Natal com Amália e Eusébio, Joaquim Agostinho e Hemínia Silva, Florbela Queirós e Francisco Nicholson: - De início, quando chegava às matas africanas, perguntava: Quem é do Benfica? Era metade. Quem é do Sporting? Era a outra metade? Quem é do Belenenses? Era só um, que era do meu clube – então eu dava grande abraço a esse. Como o «telégrafo de mato» era muito rápido passado algum tempo, quando eu perguntava: Quem é do Porto? Quem é do Boavista?. Nada. Quem é do Belenenses? Eram todos do Belenenses e lá tinham eu de andar em abraços e mais abraços, abraços sem fim. Nós sabíamos que isso era o que eles mais queriam, levávamos-lhes bolas de futebol, que comprávamos com os donativos que recebíamos. Outras vezes eram os próprios clubes que nos as davam. Equipamentos desportivos. Também livros. Os que mais gostavam eram os policiais e romances, o Amor de Perdição de Camilo, os do Eça de Queirós. O jogo preferido era o monopólio. Na mata, abriam as latas de atum e de salsicha à pancada, com a G-3 e com pedras, e muitas vezes eram detectados por causa desse barulho e sofriam emboscadas. Começámos então a enviar-lhes abre-latas. Também oferecíamos taças para os campeonatos de futebol entre unidades. Mandávamos cassetes, gravávamos programas. Houve um que teve especial sucesso: um Sporting-Benfica em matraquilhos com o Eusébio, o Simões, o Damas - e o Artur Agostinho a fazer o relato. Muitas vezes eu ia com o camuflado, outras levava só uma saia e uma blusa quando percebi que fartos de camuflados estavam eles... O tio que também foi ministro e antes de ser ministro foi recordista de salto em altura... Cecília Supico Pinto era sobrinha de José Frederico Casal Ribeiro Ulrich. Que só não aceitou o cargo de presidente da Comissão de Obras do Estádio do Restelo porque era então Ministro da Obras Públicas. Sugeriu que dessem o cargo a Henrique Tenreiro. Deram. Nos tempos de estudante no IS Técnico, Ulrich fez atletismo no CIF, foi campeão de salto em altura: - Quando era pequenina, chamavam-me O Quadradinho, porquê não sei. O meu tio José Frederico sempre que me via contava que um dia me chamou: Ó Quadradinho… - e que eu lhe respondi: Não lhe admito intimidades, ouviu?! Tinha três anos e já era assim…Salazar adorava-me pela minha frontalidade, por lhe dizer o que mais ninguém lhe dizia. E pelas anedotas que lhe contava, chorava a rir... Dos Pinto Basto ao fado e o marido... «selecionador nacional» (mas não, não era do futebol, era do que fazia na política...) A juventude passou-a Cilinha em Cascais – entre Palmelas, Avilezes, Galveias, Pinto Bastos, dos Pinto Basto que vinham da família de Guilherme, o Pinto Basto que introduziu o futebol em Portugal e transformou o ténis na Parada num glamour que nunca mais se perdeu: - Era praia, era patinagem, eram os cavalos. Com os namorados jogava-se ao prego na areia, agora dá vontade de rir, era a coisa mais inocente do mundo, e nem se davam as mãos, íamos ao cinema sempre com as precetoras. Ganhou fama a cantar o fado, quis ser enfermeira - e em Abril de 1945 casou-se com Luís Supico Pinto, 13 anos mais velho. Salazar pô-lo a seu Ministro da Economia, depois puxou-o a presidente da Câmara Corporativa – e achava-se que era a eminência parda do regime, havia quem o tratasse por... «seleccionador nacional» pela influência que tinha nas escolhas de governantes (e não só...) se mais vezes não foi ministro, foi porque não quis... Rebentou-lhe uma mina aos pés, salvou um soldado, o brigadeiro do hipismo promoveu-a... Uma vez Cecília Supico Pinto ia de Jipe na mata - e rebentou uma mina: - Foi cada um para seu lado, mortos, braços, pernas... Não fui das mais feridas, apanhei uns estilhaços, ficaram-me para sempre... Não, não foi o maior medo da minha vida. Esse foi no Guileje, na Guiné. Pus a mão sobre uma mina e... tiveram de me puxar o braço para cima muito devagarinho para eu me levantar... Nessa altura, tratavam-me como um soldado. Depois, também na Guiné, um sargento quase a acabar a comissão ficou esmagado debaixo de um camião durante um ataque. Estava moribundo e os enfermeiros da unidade queriam dar-lhe morfina. Eu não deixei. Pedi cobertores e botijas, mandei que o evacuassem para Bissau. Graças a Deus salvou-se – e então o comandante da unidade, o brigadeiro Henrique Calado, aquele que ganhava os concursos hípicos todos, promoveu-me - e toda a gente passou a chamar-me primeiro-cabo Pinto... ...