DOMINGO, 31-07-2016, ANO 17, N.º 6028
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destaques

Fez-se passar por homem para conseguir lutar…
Estilos e Espantos É a principal esperança da Irlanda para defender o título nos Jogos Olímpicos do Rio, e nem sequer é profissional. Katie Taylor começou a praticar boxe aos 12 anos, mas aos 10 já tinha um par de luvas à sua espera, na academia do pai. Além do ouro conquistado em Londres, na categoria de 60 kg, Taylor conta com cinco Mundiais e seis Europeus. Católica fervorosa, coloca Deus acima de tudo, e antes de cada combate lê a bíblia. Fora dos ringues, é figura de televisão, revistas e anúncios de automóveis, e já foi convidada a encontrar-se com Barak Obama. É no boxe que Taylor faz sucesso, mas em criança chegou a participar em provas de atletismo e foi capitã da equipa de futebol… Não se imagina a viver em qualquer outro lugar que não seja em Bray. Bray é a sua casa. Bray é a sua família. Foi em Bray, Irlanda, a terra da sua mãe, que Katie Taylor nasceu, a 2 de julho de 1986. Foi ali, perto do mar, que começou a dar os primeiros passos, e aos nove anos, já revelava ser uma promessa no desporto. Para Katie, a mãe é o seu porto seguro. É Bridget que cuida da sua dieta diária. Já Peter, o pai, um inglês nascido em Leeds e campeão de boxe de pesos pesados, é quem a acompanha pelo Mundo fora, em cada competição, em cada medalha que leva para casa. O PRIMEIRO PAR DE LUVAS AOS 10 ANOS Na escola, Katie era uma criança calma e tímida, aos olhos da mãe, que encontrou no desporto, a sua forma de se comunicar com o Mundo. Katie á a mais nova dos quatro irmãos (Sarah, Lee e Peter). E era precisamente com os irmãos mais velhos que Katie brincava em criança, também eles praticantes da modalidade. Começou no boxe aos 12 anos, treinada pelo pai, na academia Bray Boxing Club, mas aos 10, Katie já tinha um par de luvas à sua espera. O boxe estava-lhe no sangue, mas mais que isso. Katie era uma apaixonada por desporto. Praticou atletismo e jogou futebol, defendendo a Irlanda nas seleções sub-17, sub-19, onde era a capitã da equipa. «K TAYLOR…» Katie entrou para a história do boxe aos 17 anos, quando em maio de 2005, se tornou a primeira mulher irlandesa a ganhar uma medalha de ouro no Campeonato Europeu de Seniores de boxe. Antes disso, teve que lutar para conseguir singrar na modalidade. Na Irlanda, o boxe é a modalidade que alcançou mais sucesso a nível internacional a partir dos anos 1920, mas nem todos tinham a possibilidade de lutar. Proibido para as mulheres, Katie infringiu algumas regras com a ajuda do pai. Para conseguir subir aos ringues, fazia-se passar por homem, e uma vez que os torneios eram só para homens, era inscrita como K Taylor. Só ficavam a saber que Katie era uma mulher no fim dos combates, quando tirava o capacete protetor. Só aos 15 anos, é que Katie viu reconhecido o seu direito de lutar, pela Associação Irlandesa de Boxe Amador. Em 2007, numa altura em conquistava admiradores por toda a Europa, a sua luta frente à canadiana Katie Dunn, no Mundial Masculino de Chicago, foi a chave para a inclusão das mulheres no boxe dos Jogos Olímpicos, confirmado em 2009. O OURO NOS JOGOS DE LONDRES Katie Taylor é o orgulho da Irlanda, considerada por muitos, a melhor atleta de todos os tempos. Em Londres (2012), os primeiros Jogos Olímpicos em que participou, e onde carregou a bandeira do país, Katie Taylor conquistou o ouro da categoria até 60 kg. Katie tornou-se a primeira boxeur a ter essa honra, e a terceira representante do boxe a carregar o símbolo irlandês, numa edição dos Jogos Olímpicos. Antes dela, Wayne McCullough, em Barcelona 1992, e Frances Barrett, em Atlanta 1996, foram os pugilistas que transportaram a bandeira da Irlanda. Aos 30 anos, Katie conta com 18 medalhas de ouro no currículo, cinco títulos Mundiais e seis Europeus. E Katie não é a única estrela da Irlanda. Foi em Dublin que nasceu Conor McGregor, o campeão do peso-pena do UFC. «O boxe Olímpico é na categoria amadora», e por isso mesmo, ao contrário do seu compatriota, Katie nunca se quis profissionalizar, apesar das várias propostas. DEUS E MUHAMMAD ALI Katie não tem muito tempo livre, o único dia de folga, aproveita para estar com os amigos. Para estar apta para as competições, treina duas vezes por dia, seis dias da semana. Mas há algo que não pode falhar na sua rotina: a leitura do Salmo. É ao som da sua música preferida que a campeã Olímpica lê o salmo 18 e algumas passagens na bíblia. Católica fervorosa, é dessa forma que se prepara antes de uma luta. «A coisa mais importante na minha vida é a minha fé e a minha relação com Deus. Isso é mais importante do que o boxe e qualquer medalha que possa ganhar». Katie Taylor sempre falou abertamente sobre o papel de Deus em sua vida. Katie e a família frequentam regularmente a igreja em Dublin. «Encontro Deus em tudo o que faço, dando-lhe o louvor e honra para o meu boxe». Mas foram nas palavras de Muhammad Ali, que Katie encontrou a fórmula para eliminar as suas adversárias. «Nunca ninguém irá chegar perto de onde ele chegou». Katie cresceu com a imagem de Muhammad Ali, um poster que tem colado na parede e que bem retrata a filosofia de vida do pugilista americano. «A luta é ganha ou perdida longe de testemunhas: atrás das linhas, no ginásio, e lá fora na estrada, muito antes de eu dançar sob aquelas luzes». O ENCONTRO COM BARACK OBAMA Em onze anos de combates, Katie sofreu a primeira derrota no Mundial de Boxe realizado este ano em Astana, no Cazaquistão, ficando apenas com a medalha de bronze, perdendo a meia-final diante a francesa Estelle Mossely, em decisão dividida. Uma derrota que nada a impediu de seguir o seu destino – voltar a conquistar o ouro nos Jogos Olímpicos do Rio. E se na Irlanda não há ninguém que não a conheça, no mundo Katie é já uma estrela, dentro e fora dos ringues. A campeã olímpica é já um caso de sucesso – aparece em programas de televisão, jornais, revistas e até, em anúncios de carro e de seguros. Quem não ficou indiferente ao seu talento foi Barack Obama, o presidente dos Estados Unidos, e a Rainha Elizabeth, da Grã-Bretanha, e Katie não disse não, quando foi convidada pela realeza. ...
Para lá do que se vê E se Cristiano Ronaldo tivesse ganho a taça ao serviço do Darfur United? Ou mesmo pelo Occitânia ou Abecásia? Nunca ouviu falar? São Seleções não oficiais, podem não ter um lugar de honra no mapa, mas conseguiram competir num Mundial de futebol. Não se formaram em grandes clubes, nem tiveram treinadores de mérito, apenas encontraram no futebol uma réstia de esperança para apagar da memória as feridas da guerra do Sudão. Quem por lá passou fala em genocídio. Ao início não foi fácil, juntar na mesma equipa jogadores que não se conheciam, todos falavam línguas diferentes. Mas bastou uma bola de futebol… Eram na sua maioria crianças e jovens, outrora habituados a jogar à bola em campos de terra, e principalmente descalços. Ali era tudo novo. Nos pés, agora calçados, tinham sapatos esquisitos. Uns às cores, outros pretos, todos com pitões colados à sola. Usavam-nos para pisar relva, pela primeira vez nas suas vidas. Não havia areia, terra ou pó. No meio do campo habituaram-se à figura de um homem que lhes ditava as regras. Para o Mundial seguiram sem um manual de instruções, apenas sabiam que iam jogar futebol. E sobre o desporto só conheciam uma coisa: a bola. Para eles, o futebol não era uma via para o estrelato, nem sabiam o que isso era. Longe das luzes da ribalta, desconhecidos entre os restantes olhares, o verdadeiro futebol era aquele que se jogava como veículo de expressão, homens, mulheres e crianças que perderam a família na guerra. Depois da tragédia, nada tinham, a não ser a esperança de um futuro melhor. A SELEÇÃO QUE SURGIU NUM CAMPO DE REFUGIADOS Gabriel Stauring tinha um sonho – criar uma equipa de futebol composta por sobreviventes de guerra. Na altura vivia-se o conflito étnico do Darfur, no oeste do Sudão, que desde 2003 é palco de violência, massacres e mortes. As Nações Unidas descrevem-na como uma das piores crises humanitárias do Mundo. O governo dos Estados Unidos classificou-a de genocídio, comparando com o sangrento conflito de 1994, no Ruanda. Os que sobreviveram não mais vão conseguir apagar da memória o rosto dos familiares mortos a sangue frio. Os dias que se seguiram não foram fáceis. Mulheres foram violadas, a água e os alimentos não chegavam para todos, o surto de hepatite crescia de dia para dia. Mas Stauring não desistiu do seu sonho, nem do sonho desses sobreviventes que mais que tudo, queriam viver. O americano usou as ferramentas da I-ACT, a sua organização não-governamental, e criou o Darfur United, uma Seleção de sobreviventes. «As cores do equipamento foram es-colhidas pelos refugiados: verde para representar a sua terra e branco para representar a paz». Mais do que o nome, uma Seleção unida pela esperança numa simples bola de futebol. O PRIMEIRO MUNDIAL NO CURDISTÃO Ao início não foi fácil. Para o primeiro treino de captação apareceram jogadores de cada um dos doze campos de refugiados que existem na frontei¬ra entre Chade e Sudão. Pior que isso eram jogadores que não queriam ser misturados com membros de outras etnias e exigiram que as tendas de cada grupo estivesse assinalada com o nome da respetiva tribo. Mas no futebol, cabe apenas ao jogador chutar a bola, e quando não está bem, a porta de saída é serventia da casa. Ninguém quis sair, habituaram-se a regras, e os que passaram nas captações adotaram uma nova postura. De desconhecidos, começaram a viver como irmãos, ensinavam os seus idiomas uns aos outros e partilhavam histórias. A primeira, a principal, sobre o primeiro Mundial das suas vidas. Desde 2012, que o Darfur United tem a sua própria Seleção de futebol. Não tem voz direta na FIFA, mas chegou longe – ao Viva World Cup –edição da prova para equipas não filiadas na FIFA - o primeiro Mundial para seleções não oficiais, que decorreu no Curdistão iraquiano. «No início parecia um sonho impossível de realizar por causa de todas as dificuldades logísticas, a falta de dinheiro para as viagens e os obstáculos em conseguir vistos para um grupo de homens refugiados sem país. Mas também parecia muito certo fazer tudo ao nosso alcance para conseguirmos. Antes de avançarmos, decidimos perguntar aos refugiados e a resposta foi positiva. Um líder de um grupo de refugiados disse-nos: ´Agora somos parte do Mundo´», disse Gabriel Stauring, o presidente do clube. À primeira tentativa, 15-0. No dia seguinte, 18-0. Ao terceiro jogo, 5-1. No final, mesmo com tanto golo sofrido em 360 minutos, Suleiman Bourma ficou orgulhoso do seu Darfur United. Palavra do capitão. «Perdemos os jogos todos, mas não estamos preocupados com isso. Conseguimos vir aqui e fazer história». UM AMERICANO NO SUDÃO Uma história diferente também na vida de Mark Hodson, um americano com experiência no futebol, na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, o escolhido para erguer uma Seleção no Sudão. «Tem sido uma experiência fantástica. O futebol é uma linguagem global. Estive em África, com 60 jogadores que não se conheciam, todos falavam línguas diferentes, e bastou uma bola de futebol para juntar toda a gente». Mark Hogson, que orientou o Darfur United nos Mundiais não-oficiais de 2012 e 2014, já prepara o próximo desafio - agendada para setembro de 2016, na Abecásia, uma região autónoma situada no Norte da Geórgia. BALOTELLI À PROCURA DE UM PAÍS Depois do Mundial de Curdistão em 2012, uma nova viagem: o destino foi Ostersund, cidade plantada no lado sueco da Lapónia. Terra do Pai Natal, sim, mas que também acolhe Mundiais de futebol. E se no Mundial do Brasil, Mario Balotelli, um dos jogadores italianos mais badalados do mundo, levava o treinador a um verdadeiro ataque de nervos, o seu irmão mais novo também fazia das suas, também num Mundial, mas muito longe do Brasil e com menos alvoroço. Chama-se Enoch Barwuah e em 2014 esteve em Ostersund, na Suécia, ao serviço da Seleção da Padânia, a disputar um Mundial para seleções que não fazem parte da FIFA. E o primeiro jogo foi precisamente contra o Darfur United. Enoch, um avançado que alinha no modesto Vallecamonica, dos escalões secundários de Itália, e que passou pela formação do Manchester City quando o irmão andava por lá, passou despercebido num torneio onde não existiam estrelas do futebol mundial com contratos milionários. Occitânia, Abecásia, Lapónia, Ilha de Man ou Nagorno-Karabakh, também faziam parte da lista, seleções cujos jogadores representam minorias étnicas, estados não reconhecidos pela comunidade internacional, comunidades aprisionadas pela geografia em países que não são reconhecidos como países. Ali não há muito. Apenas histórias de vida, exemplos de superação e uma vontade comum de fazer parte do mundo, tal como os outros heróis conhecidos, como eles, amantes do futebol… ...
Estrela de Diamante Já se sabe que as irmãs Serena e Venus Williams são um sucesso mundial além-fronteiras, mas para os Jogos do Rio há outra dupla que pretende dar que falar: Bronte e Cate Campbell. E se a primeira segue à regra os passos da irmã, Cate é o orgulho dos australianos: em Brisbane, fixou um novo recorde do mundo dos 100 metros livres, com a marca de 52,06 segundos, superando a alemã Britta Stefen. Entrou na história da natação aos 16 anos, quando ganhou as primeiras medalhas olímpicas - bronze nos 50 metros livres e na estafeta 4x100 m livres, em Pequim, 2008. Depois seguiu-se Londres, e o tão aguardado ouro olímpico… Quem a viu e quem a vê. Em criança sonhava em ser bailarina, hoje é uma campeã Olímpica de natação. Culpa da mãe que não a deixou fugir ao seu destino. Tal como Cool Runnings, o seu filme de eleição, um dos filmes olímpicos mais populares, Cate, é aos 24 anos, a grande promessa australiana para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. «Uma medalha de ouro é uma coisa maravilhosa, mas se não fores suficiente sem ela, nunca irás ser suficiente com ela». Medalhas não a assustam, mas mais do que o ouro Olímpico, a atleta quer deixar uma marca na história. PORCO DE ESTIMAÇÃO E GALINHAS Filha de Jenny e Eric, uma enfermeira e um economista sul-africanos, Cate Campbell nasceu a 20 de maio de 1992 em Blantyre, Malawi (África Ocidental), quando o pai por lá arranjou trabalho num banco. Ao início seriam apenas dois anos, mas acabaram por ficar dez. A viver numa casa sem televisão, Cate entretinha-se com os animais. «Tínhamos perus, coelhos, cães, gatos, galinhas. Todas as manhãs era como uma caça ao ovo da Páscoa», as galinhas punham ovos pela casa fora. O preferido de Cate e Bronte, porém, é o Pepper, um porco de estimação. Mas o que mais gostava era da piscina, onde deu os primeiros passos com a ajuda da mãe, que na escola se distinguiu no nado sincronizado. Cate vivia num paraíso em Malawi, mas em 2001, e com o aumento da família, mudou-se para a Austrália. O PRIMEIRO OURO NOS JOGOS OLÍMPICOS DE LONDRES Cate Campbell é a mais velha dos cinco irmãos: Bronte (22), Jessica (19), Hamish (17) e Abigail (13). Adversárias dentro da piscina e amigas fora dela, as irmãs Campbell compartilham muito mais do que o amor pela natação - são adeptas de ginástica artística e de saltos ornamentais, e seguem uma dieta exageradamente rica em proteínas, à base de atum e ovo. Em 2012, Cate e Bronte cumpriram um sonho de infância, quando nos Jogos Olímpicos de Londres, competiram na mesma modalidade, uma realidade que não acontecia há 40 anos. A última vez que uma dupla de irmãos australianos se classificava para uma edição dos Jogos Olímpicos, aconteceu em 1972, com os nadadores Neil e Greg Rogers. E foi precisamente em Londres, nos Jogos Olímpicos, que Cate conquistou a primeira medalha de ouro, ao sagrar-se campeã Olímpica na estafeta 4x100 m livres. Cate começou a dar nas vistas aos 16 anos, nas Olimpíadas de 2008, em Beijing, (Pequim), quando ganhou as primeiras medalhas: bronze nos 50 metros livres e na estafeta 4x100 m livres. Em 2013, no Mundial de Barcelona, as irmãs Campbell foram mais uma vez, os destaques da Seleção feminina australiana, e Cate conquistou o título Mundial nos 100 metros estilo livre. NO PÓDIO EM KAZAN Fora das piscinas, Cate e Bronte vivem juntas num apartamento em Bowen Hills, nos subúrbios de Brisbane, Queensland, que fica a cinco minutos a pé do centro de treinos - Valley Pool - a casa que criou grandes estrelas olímpicas: Kieren Perkins, Libby Trickett, Susie O´Neill, Hayley Lewis, Samantha Riley. «Juntas, elas são mais fortes: Cate não seria tão boa sem Bronte e Bronte não poderia ser tão boa sem Cate», comentou Simon Cusack, o treinador, que as acompanha duas vezes por dia, seis dias por semana. «É uma relação quase instintiva dos seus corpos com a água». Ao longo dos anos, Cate foi construindo um currículo de respeito: três medalhas olímpicas (duas de bronze e uma de ouro), e sete em Campeonatos do Mundo absolutos (entre 50, 100 e 4x100 m livres). Quanto a Bronte, era frequentemente questionada: «Quando é que ultrapassas a tua irmã?». E a resposta não tardou. Em 2015, nos Campeonatos do Mundo de Natação, em Kazan (Rússia), as irmãs voltaram a encontrar-se no pódio, e só Bronte escreveu a história, ao sagrar-se campeã Mundial dos 200 metros livres. E, pela primeira vez, duas irmãs - medalhadas de ouro e bronze - subiram ao pódio da mesma prova individual. A CAMINHO DO RIO… É caso para dizer que, Cate não vai sozinha ao Jogos Olímpicos do Rio, Bronte também vai la estar. Novamente as irmãs Campbell, aspirantes a serem o melhor duo de irmãs a competir. Serena e Venus Williams são as suas concorrentes mais diretas. Mas quem levará a medalha para casa? O ouro Olímpico ainda é um mistério, mas Cate tem os pés bem assentes na terra. A campeã Olímpica começou o mês de julho da melhor forma, ao fixar em Brisbane um novo recorde do Mundo dos 100 metros livres. A marca conseguida – 52,06 segundos – superou em 0,01 o até aqui melhor tempo, na posse da alemã Britta Steffen, desde 2009. «Aconteceu quando eu menos esperava». Seja quando menos espera, ou na hora de levantar a medalha, é em Hamish que Cate pensa, o seu grande herói, o irmão que sofre com paralisia cerebral. «Nós olhamos para ele e não consegue alimentar-se sozinho, ir à casa de banho sozinho, não se consegue vestir sozinho, ele não nos consegue dizer quando tem fome ou sede, ele não consegue ver». Hamish, agora com 17 anos, tem o desenvolvimento aproximado de uma criança de três e precisa de cuidados 24 horas por dia. Cate costuma pensar no irmão durante as provas, e diz para si mesma que é só uma corrida, «na vida há coisas bem piores do que perder». ANOREXIA, UMA DOENÇA SILENCIOSA Em 2010, Cate apanhou uma febre viral que se traduziu numa grave fadiga. Passou um ano quase a dormir, sem conseguir treinar. Mas esse não foi o único pesadelo que viveu. Por se considerar demasiado gorda, não gostava de si cada vez que se olhava ao espelho, Cate entrou em paranoia, e chegou a perder cerca de 10 quilos. Tudo começou quando começou a ver os anúncios das modelos da Victoria´s Secret, bonitas e magras. Cate não conseguiu ignorar a beleza escultural que os seus olhos alimentavam, nem mesmo as revistas de moda, embaladas com modelos em corpos minúsculos. Apesar de ser uma campeã Olímpica consagrada, os títulos e a fama não a conseguiram salvar. Decidiu ser magra, aliás, demasiado magra, o que significava perder peso, e por pouco não perdeu também a sua identidade. QUANDO PHELPS LHE SALVOU A VIDA Cate Campbell começou por seguir uma dieta onde, cada alimento que consumia, era analisado até ao ultimo pormenor – por dia, só lhe permita comer até 1000 calorias. Os amigos começaram a ficar preocupados e a sua preocupação tornava o seu sonho possível. A obsessão por comida era tal, que o corpo começou a dar sinais. «Eu estava a ficar cada vez mais doente». Tal como Cate, Michael Phelps não é apenas um campeão dentro de água, e foi precisamente o medalhista Olímpico que lhe salvou a vida. Ao ler o capítulo do livro Beneath The Surface, lançado por Phelps, onde relatava o trauma da irmã Hilary, também uma nadadora que depois de uma lesão nas costas, sofreu um distúrbio alimentar, Cate acordou para a realidade. Não podia continuar assim. Nas palavras de Phelps, tentou recuperar a vida. «Nadadoras magras não são boas nadadoras». E Cate era uma campeã nas piscinas. Com a ajuda da mãe, a australiana consultou uma nutricionista, e entre 2011 e 2012 recuperou a sua forma, e a sua saúde. «Eu decidi ser saudável e feliz, porque eu estava miserável. Eu sentia-se cansada, doente, irritada, todas essas coisas. Eu nunca quis entrar num estado de anorexia ou bulimia, mas estava psicologicamente afetada…». ...