SEXTA-FEIRA, 27-05-2016, ANO 17, N.º 5963
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destaques

Deixou de ser Newton Heath para ser Manchester United e descobriu um visionário e um rebelde que não aceitava calções pelos joelhos…
Do Passado para o Presente Para lhe cortar as 2670 libras de dívidas, John Henry Davies convenceu três amigos a juntarem-se a ele, dando cada um 500 libras ao Newton Heath FC, colocando, apenas, como condição que o clube deixasse de ter o nome ligado aos ferroviários. Mudou-se para Manchester United Football Club – e também se alteraram as cores, passaram de verde e dourado, a vermelho e branco. Foi no dia 24 de abril de 1902 – e quatro anos depois regressou à primeira divisão, sob comando do manager que Davies lá pusera de concordância com Stafford: Ernest Mangnall. Foram-no buscar, num golpe visionário, mal souberam que tinha deixado de ser guarda-redes do Bolton, estava para ser seu treinador. Um ano depois, nova revolução: James West deixou de ser o treinador, o lugar passou para Ernest Mangnall, desviado do Burnley – e que ganhara fama por ser também ávido ciclista, aparecer de bicicleta para todos os treinos. Tinha faro especial para descobrir grandes jogadores – e juntá-los na sua equipa. O REBELDE QUE NÃO ACEITAVA CALÇÕES PELOS JOELHOS… Um dos primeiros foi Charlie Roberts – que o Manchester United contratou ao Grimbsy por 450 libras. Era um lateral rapidíssimo – que corria as 100 jardas em 11 segundos quando o recorde do mundo estava em 9,6, mas era, sobretudo, um rebelde: a FA obrigava todos os futebolistas a usarem calções que lhes tapassem os joelhos e ele, murmurando: - Detesto regras estúpidas… começou a aparecer de calções curtos, não tardou passaram a ver-se outros modelos assim, rebeldes, pelos campos. Vittorio Pozzo, que haveria de levar a Itália a campeã do Mundo em 1934, tendo-o visto jogar no Campo de Clayton, ficou tão entusiasmado que escreveu numa crónica de jornal: - Roberts pôs a arte de jogar à defesa no futuro… Foi já com ele, com o Charlie Roberts na equipa que, após 12 infelizes temporadas pela II divisão, em 1906 o United subiu à I. Por essa altura, de vento em popa andava o Manchester City. Em 1904 ganhara a Taça de Inglaterra – com uma estrela que era uma espécie de George Best antes de Georde Best, o Billy Meredith. ...
Estrela de Diamante Em 1905 o City perdeu o título para o Newcastle United devido a derrota com o Aston Villa – jogo que terminou com Sandy Turnbull e Alex Leake à pancada um com o outro. A FA abriu inquérito à violência e da investigação surgiu a suspeita de que Billy Meredith oferecera 10 libras de Leake para que ele evitasse que o Aston Villa vencesse – e apesar de não se ter provado se fora verdade ou não a federação decidiu suspender Meredith durante um ano. O City decidiu que, assim, não lhe pagava nem um cêntimo enquanto estivesse de castigo. Saltou-lhe a mostarda ao nariz – e Billy informou a Football Association de todos os casos de «corrupção financeira» em que o clube estivera envolvido. Com base nas suas denúncias, mais se desvelou: que o Manchester City estava a pagar 4 libras por jogo a cada um dos seus jogadores – e que ainda lhes acrescentava mais 7 libras por semana, violando, assim, o teto salarial que a FA impusera a todos os seus clubes. Baniu-lhes os cinco diretores, castigou-lhes 17 futebolistas — uns foram punidos com multas, outros foram suspensos por um ano e alguns foram irradiados. Mesmo sabendo que Billy Meredith só poderia voltar a entrar num estádio em abril de 1908, logo em maio de 1906 Ernest Mangnall não hesitou em contratá-lo, oferecendo-se para lhe pagar a coima de 500 libras que a FA também lhe exigira. Valeu a pena, o negócio… O MINEIRO QUE JOGAVA COM PALITO NA BOCA… Billy Meredith nascera em Julho de 1874, em Chirk, localidade mineira a sul de Wrexham, no País de Gales – aos 12 anos já trabalhava nas suas minas, oito anos por lá andou. Foi a jogar pelo Chirk – que um diretor do Ardwick o descobriu, desafiando-o para Manchester. Os primeiros sinais do seu génio notaram-se aos 10 anos, ganhando uma medalha num concurso para perícia em dribles – e em 1894 mudou-se, quando o Ardwick ainda não virara City estreou-se com dois golos contra o Newton Heath que ainda não virara United. Por superstição, jogava a mascar pedaço de um palito na boca – e depois de alguns meses em Manchester Meredith cedeu à súplica da mãe para regressar a Chirk. Desapareceu sem dizer água vai – e quando dirigentes chegaram à terra para o levar de volta, turba local, tentou impedi-lo, um dos homens de Manchester chegou a estar sequestrado e preso num estábulo. O dinheiro que lhe acenaram convenceu-o. Meredith já dera nas vistas pelo seu espírito quando, adolescente, ainda trabalhava na mina de Chirk – arrastara os colegas para uma greve, exigindo «condições de trabalho mais dignas, menos exploração». A 2 de dezembro de 1907 mais de 500 jogadores do Norte e do Centro de Inglaterra reuniram-se no Imperial Hotel de Manchester com uma firme intenção: extinguir o teto salarial de quatro libras semanais e garantir a liberdade de escolha de clube em final de contrato – e quando estenderam a rebelião ao Sul, criaram a Players Union. Que ficou sob comando não de Billy Meredith, mas de Charlie Roberts. AS CABEÇAS PARTIDAS NO ATAQUE AO HOTEL EM BUDAPESTE A ambos juntou-se outra estrela do City: Sandy Turnbull – e na época de 1907/08, o United o Manchester tornou-se pela primeira vez campeão da Liga. O brilho do seu futebol galgou fronteiras – e do Império Austro-Húngaro chegou-lhe convite para lá jogarem. Bateram um combinado do Vienna Sport e do Vienna FC por 4-0, seguiram de comboio para Budapeste- e, contra o Ferencvaros, apesar de três jogadores expulsos a vitória foi ainda mais robusta: 7-0. Se o jogo já ficara marcado pela picardia e a violência, com a polícia a ter de entrar no campo para acabar com escaramuças – pior sucedeu depois. Quando o árbitro deu o desafio por terminado, vendo jogadores a discutirem uns com os outros, espetadores lançaram pedras do peão ao ingleses, com eles em fuga, a polícia correu a dispersar a multidão a golpes de espada. Os jogadores do United foram levado escondidos em carros para o hotel, à chegada esperava-os ainda mais fúria: sobre eles voltou a cair chuva de pedras, vários entraram nos quartos de cabeça aberta, sangrando. ...
Do Passado para o Presente Em Inglaterra, porém, outra continuava a ser a luta – a luta da Union Players. Os clubes mais ricos admitiram pôr fim ao teto, os mais pequenos bateram-se pela continuidade do «vínculo de lealdade» - e na temporada de 1908/09 o Mancester United não ganhou o campeonato, mas ganhou a Taça de Inglaterra, ao bater o Bristol City por 1-0, graças a golo de Sandy Turnbull. O regresso a Manchester gerou euforia como nunca antes se vira na cidade – com mais de 300 mil pessoas em redor da estação ferroviávia, gritando: - Vejam, vejam! Os heróis da conquista chegaram! As reivindicações da Union Players continuaram a dividir águas – e Billy Meredith e Charlie Roberts decidiram transformar a Union Players num sindicato de jogadores. A FA replicou com aviso em voz grossa: - Todos os jogadores que se inscreverem no sindicato serão suspensos! OUTCASTS FC, O CLUBE DOS RENEGADOS Suspensos e sem sequer direito a receberem ordenados. Os que o tinham feito voltaram atrás, só os do Manchester United não o fizeram – mantiveram-se irredutíveis – e quatro meses após a vitória na FA Cup, a FA decidiu suspender toda a equipa do Manchester United. Não, nenhum deles cedeu – e, provocadores, deixaram-se fotografar, equipados, com uma placa à frente que dizia: The Outcasts FC – Os Renegados. Impressionado com a sua determinação, Tim Coleman do Everton – entrou em greve para, assim, dar apoio aos jogadores do Manchester. Não tardou, o Newcastle, o Middlesborough e o Sunderland, o Liverpool e o Everton fizeram o mesmo. A FA ficou em pânico – e na véspera do arranque da liga, da liga que assim se arriscava a não ter clubes a disputá-la, a FA reconheceu a Players Union e levantou todos os castigos que aplicara aos «rebeldes sindicalistas». SOMBRIA, A ÉPOCA NO CAMPO DEPOIS DO PERDÃO DA GREVE… Os Renegados foram recebidos em Bank Street, onde continuava a ser o seu campo, em apoteose – e houve quem dissesse que, sobretudo por causa de Meredith ser como era, essa foi das «maiores vitórias do clube». Sem bola… Com bola, foi sombria essa época para o Manchester United – porque fora sombria para Billy. (Conhecido por príncipe dos pontas, Meredith nunca entrava em campo sem colocar uma protecção nos dentes. Esse hábito que manteve até 1924, quando, perto de completar 50 anos e de regresso ao Manchester City, atuou na meia-final da Taça de Inglaterra. Despediu-se assim do futebol, com mais de mil encontros disputados e 470 golos. O seu adeus à seleção aconteceu no encontro em que o País de Gales bateu a Inglaterra pela primeira vez, em Março de 1920. Tinha 45 anos e 229 dias - o que o deixou como o mais velho jogador de sempre a defender oficialmente as cores de uma equipa nacional…) ...