TERÇA-FEIRA, 26-05-2015, ANO 16, N.º 5596
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destaques

Estrela de Diamante Jorge Jesus no Sporting, nem imagina como foi, o que foi. E antes dele, Virgolino, o pai, por pouco não ganhou uma Taça de Portugal. Contra a Académica jogara por Peyroteo ter sofrido uma distensão muscular. Contra o Olhanense poderia ter jogado por Peyroteo por ter dado um soco ao benfinquista que andara anos a fio a provocá-lo, Virgolino só não jogou porque em Coimbra se lesionou gravemente. Era soldador numa fábrica da Amadora, o filho também já lá estava como aprendiz, mas a cara num prato de sopa mudou-lhe o destino... Em novembro de 1943, Fernando Peyroteo enviou à direção do Sporting uma carta queixando-se do «comportamento inaceitável» de Gaspar Pinto, o defesa do Benfica: - ... são constantes provocações que ferem a dignidade de qualquer um. Mas não era só, também era a forma sempre agressiva e rude com que lhe fazia marcação, com mais ou menos complacência dos árbitros. Eram companheiros na seleção, mas já não se falavam – e um ano depois na sua festa de despedida, Valadas conseguiu que Peyroteo e Gaspar Pinto fizessem as pazes. Parecia pois que o fogo se apagara. Mas não... Albano por 20 contos, Virgolino não, esse foi quase de graça... A troco de 20 contos – verba que se considerou exagerada, sobretudo para um clube em dificuldades financeiras, e que levou até a escaramuças entre diretores... – o Sporting fora ao Seixal buscar Albano Pereira, o Albano que acabaria de rasgar a história como um dos seus Cinco Violinos. Outra das contratações de Joseph Szabo foi Virgolino António de Jesus – e pelo Virgolino o Sporting não precisou de abrir os cordões à bolsa, foi quase de graça... Golo ao Atlético, o único golo na primeira equipa do pai de Jorge Jesus... Quer o Albano, quer o Virgolino entraram para a equipa que ganhou o Campeonato de Lisboa. O Virgolino fez oito jogos – e logo na estreia, a 26 de setembro de 1943, contra o Atlético, marcou um golo, um golo especial: faltavam seis minutos para o fim, o Atlético estava a ganhar, ele colocou o placard em 3-3 – e aos 88 Albano fez o 4-3. Para o Campeonato da I Divisão, Szabo manteve Albano na sua linha avançada, tirou o Virgolino – aí, no campeonato, não fez um único jogo... Na época seguinte, na de 1944/45, ia pelo mesmo andar, Peyroteo sofreu uma distensão muscular, entrou de baixa – e para os dois últimos jogos, contra o Estoril e a Académica, Joaquim Ferreira, o substituto de Szabo, apostou nele, no Virgolino... Armando Ferreira fora a Barcelona operar-se a um menisco (era novidade no mundo do futebol...), à chegada foi entrevistado para A Bola por... Fernando Peyroteo. Já recuperado também voltou à equipa principal nos jogos da Taça de Portugal – e quem dela saiu foi o Virgolino. Depois das pazes, o soco de Peyroteo a Gaspar Pinto A Virgolino criara-se-lhe outra sombra: Jesus Correia juntara o hóquei em patins ao futebol, era a nova estrela no Lumiar, outro dos cinco a caminho de marcar a história a toque de Violino. Nas meias-finais, houve Sporting Benfica. Na primeira-mão, o Benfica foi ganhar ao Lumiar por 2-1 e, na segunda-mão, o Sporting foi ganhar ao Campo Grande por 3-2. O segundo golo do Benfica, o que obrigava a terceiro jogo foi marcado por Francisco Ferreira ao minuto 90. Peyroteo que marcara dois golos, o terceiro fora de Jesus Correia – e por essa altura já não estava em campo. Fora expulso – essa foi a sua única expulsão em 12 anos de carreira. Expulso porquê? Por ter dado um soco a Gaspar Pinto – por já não conseguir mais resistir à agressividade no jogo, aos insultos e impropérios que o benfiquista voltara a lançar-lhe. Em torno de si criou-se onda de solidariedade nacional – que se fez, por exemplo, através de 38 telegramas, 153 cartas e 225 cartões postais. Com Peyroteo em A Bola, Virgolino em branco com o fundador de A Bola Em A Bola, Ribeiro dos Reis, que até era benfiquista ilustre admitia que a FPF devesse não castigar Peyroteo, lembrando que, no fundo, sendo lamentável o que fizera, o fizera em «legítima defesa», mas castigou mesmo – e por isso não peyroteou na final da Taça contra o Olhanense. Essa Taça, poderia ter sido a final de Virgolino de Jesus – e só não foi porque a lesão grave no jogo em Coimbra, frente à Académica, o impediu, levando Joaquim Ferreira a juntar Veríssimo, o Veríssimo Alves à sua linha de avançados, a Jesus Correia, Armando Ferreira, Albano e João Cruz. A reportagem nas cabinas que saiu em A Bola teve assinatura ilustre, a assinatura de... Fernando Peyroteo - e logo após a vitória no Jamor, a Taça ganha através de um golo de Jesus Correia, Joaquim Ferreira foi assassinado no Parque Eduardo VII. Para treinador do Sporting António Ribeiro Ferreira contratou Cândido de Oliveira, fundador de A Bola com Rioeiro dos Reis e Vicente de Melo. Com Cândido, Virgolino não fez um único jogo na primeira equipa – e essa época de 1945/46 foi a do seu adeus ao Sporting, como jogador. ...
Estrela de Diamante Para muita, muita gente, foi nos pés de Jonas que o Benfica começou a nascer campeão. Para muita, muita mais, teve apenas um pequeno azar: aquele minuto 68 do Benfica-Marítimo poderia ter-lhe marcado a história ainda a mais lustro - mas ao anular-lhe (mal...) um golo, o assistente de Nuno Almeida impediu que a Bola de Prata fugisse das mãos de Jackson Martinez. Por causa disso incendiou-se a luz em apupos e imprecações - e, por entre a euforia da festa do título, Jorge Jesus não calou a mágoa: - O árbitro auxiliar tirou golo limpo ao Jonas, se não ele teria sido o melhor marcador. E merecia-o. Assim como o merece o Jackson, também merecia o Lima. Mas o mais importante foi o troféu do bicampeonato... Não, a ele não se lhe notou grande angústia por não ter sido o que poderia ter sido: - Mais importante é comemorar o título do Benfica, era o nosso primeiro objetivo. Fizemos belíssimo campeonato. O prémio individual? Foi por pouco, aquele golo anulado... Mas estou feliz... Sim, impressionante foi o que foi Jonas até chegar ali - uma vida que é um encanto, um espanto. Por exemplo, aos 18 anos, António Simões já tinha ganho a Taça dos Campeões pelo Benfica (e ainda hoje é o mais jovem campeão europeu da história.) Aos 18 anos, Cristiano Ronaldo já ganhava 150 mil euros por mês no Manchester United (e uma década depois já tinha o salário multiplicado por 10.) Aos 18 anos, Jonas nem sequer estava a jogar futebol (deixara-o para se dedicar ao curso de farmácia) – e, de repente, tudo mudou – e é isso que lhe contamos aqui... No bilhete de identidade de Jonas Gonçalves Oliveira está a data de nascimento: 1 de abril de 1984 e a naturalidade: Bebedouro: - Acontece que quando eu nasci não tinha maternidade em Taiúva, minha mãe foi levada para Bebedouro só para dar à luz mesmo, não fiquei nem uma semana lá. Por isso, o pessoal cobra quando sai em algum lugar que sou de Bebedouro, me trata como o «filho ilustre» de Taiúva... Isso revelou ao Globo quando já estava no Valência e sonhava com o regresso à seleção do Brasil – e a vereadora Maria Rita Brandão propusera que lhe fosse dado o título de Cidadão Taiuvense: - Jonas é o grande embaixador de Taiúva para o mundo. Precisamos homenageá-lo como merece, pois só teremos um novo Jonas daqui a 200 anos. «Está cá e não devia estar, é um predestinado» (foi assim que o irmão lhe percebeu o destino...) Taiúva é cidadezinha do interior, a 360 quilómetros de São Paulo – marcada por passado de grandes plantações de café, em fazendas a perder de vista – e foi numa assim, a Gironda, que Jonas cresceu. Quando ele nasceu Tiago tinha oito anos, Diego tinha cinco – e Diego costuma dizer: - Jonas tinha de ser especial. Um predestinado. Está cá e não devia estar, nossos pais foram surpreendidos com a sua chegada imprevista... Ismael, o pai, era professor de Matemática e de Desenho Geométrico, Maria Luiza, a mãe, era professora de Ciências Naturais. Continuam a sê-lo – e até já foram mais do que isso: ele prefeito de Taiúva, ela vereadora. No campinho de uma baliza só e na rua entre o churrasco (foi assim que Jonas se tornou no que Jonas é...) Da fazenda passaram para a cidade, na casa dos Gonçalves Oliveira não deixou de haver um campinho: - Todos os dias eram dias de futebol. O espaço era pequeno no piso de terra, tinha só uma baliza. Acredito que isso foi determinante para Jonas só ter o que tem: olhos para o golo. Depois, havia outra coisa: na cidade, de 5600 habitantes, toda a rua era um grande família, nos dias de maior calor se fazia churrasco comunitário e entre a coxa de frango e a picanha, a criançada jogava de três para três. A habilidade do Jonas vem daí também, desses jogos curtos, com balizas de 50 por 60 centímetros. Ou seja, o campinho da casa e a rua ensinaram-lhe tudo, deram-lhe o futebol que ele tem... (foi Tiago quem o revelou.) Era nadador excelente, jogava pólo aquático e era capaz de pôr toda a gente a rir à gargalhada (foi assim se lhe saiu da boca: o meninos jesuses...) Mas Jonas não era só bom de bola: - Também era nadador excelente, muito bom no polo aquático. Chegou à escola e logo se percebeu que também aí era ótimo, vivendo sempre de sorriso no rosto, bem humorado – como naquele Natal, pouco antes, que a família nunca mais esqueceu. Estava toda reunida à mesa, na hora da novena, Maria Luiza iniciou a oração – e quando chegou a vez de Jonas, ele, lembrando-se do conselho de todos os dias: - Diga sempre no plural, para a benção vir para todos... recitou: - Ó meninos jesuses... O silêncio e a compostura quebraram-se à gargalhada: - Todo mundo riu muito com a minha oração, e eu mais. Aí respondi: «Ué, não era para falar no plural?». Só que tem um menino Jesus só, né? Não percebi a confusão e me atrapalhei todo Isso é motivo de piada até hoje lá em casa... (Devota de Santo António, o Santo António de Lisboa que em Taiúva tem igreja em sua honra: - Como o padroeiro dos pobres... Maria Luíza nunca deixou de cumprir um ritual: passar por lá, rezar para que Santo António proteja Jonas pelos campos do mundo...) Na praça principal de Taiúva há umex-libris: a estátua de Cristo Redentor, de braços aberto, como no Rio – foi Ismael, o pai de Jonas, quem a mandou construir quando era o prefeito. Por essa altura, os filhos passaram também a organizar todos os anos um jogo de futebol para arranjar dinheiro para os pobres, Jonas leva lá outros craques – e numa das vezes festejou um golo que arrastou espantos e gargalhadas pelo campo: - Puxei mamãe para dançar comigo ali, só ali podia fazer isso, né?! ...