SEGUNDA-FEIRA, 30-05-2016, ANO 17, N.º 5966
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destaques

Os dirigentes da UEFA nem foram capazes de entregar as medalhas aos jogadores do Benfica...
Do Passado para o Presente Giacinto Facchetti começara por ser campeão de 100 metros e Helenio Herrera descobriu-o no Trevigliese. Tinha 18 anos, era extremo – e pediu ao presidente do Inter que o fosse buscar sem demora. No dia da apresentação, HH (uma espécie de Mourinho antes de Mourinho...) atrapalhou-se no nome e num arrevesado sotaque castelhano à moda da argentina, tratou-o como Giacinto Cipelletti. Foi o bastante para ficar de pronto com a alcunha que não mais o largou: Cipe. Outra coisa lhe fez Herrera de pronto: transformou-o em lateral esquerdo com uma ideia: - Para que possa transportar a bola da defesa para o ataque, sempre redondinha, seja defesa que finte, passe, marque golos… Era, pois, o que ele achava que podia ser: o defesa perfeito para o ataque no cattenaccio. Foi o que ele foi – e assim foi campeão de Itália em 1963, no ano seguinte levou a discussão amarga entre Alfredo Di Stéfano e Miguel Munoz, o treinador do Real Madrid. Antes da final da Taça dos Campeões, Munoz achou que, apesar de lateral, deveria ter marcação individual, Di Stéfano discordou: - Não queremos futebol negativo, queremos futebol positivo…Facchetti brilhou, o Inter ganhou, Munoz foi desmoralizado, Di Stéfano foi despedido. PERDEU A BOLA DE OURO PARA EUSÉBIO, APRESENTOU FIGO... Sim, foi ele, o Giacinto Facchetti quem levantou a Taça dos Campeões em San Siro – e nesse ano, perdeu a Bola de Ouro para Eusébio por apenas 8 votos. (Levou a Itália à vitória no Europeu de 1968. Seria o quarto da sua vida, Bearzot não o convocou para o Mundial de 78 – entrou em depressão, deixou de jogar. Em sua memória, o Inter decidiu nunca mais usar a camisola nº 3, Giovanni Arpino transformou-o em personagem de um dos seus romances – e partilhou a presidência do Inter com Massimo Moratti. Morreu em setembro de 2006 – e o seu último ato no cargo foi a apresentação de Luís Figo como jogador do Inter…) O CAPITÃO QUE VIERA DO BOXE E FORA RECORDISTA DE SALTO EM ALTURA... No final da Taça dos Campeões de 1965, levados pelo espírito de Facchetti, os jogadores do Inter ovacionaram os do Benfica - e os dirigentes da UEFA nem sequer cumpriram o protocolo da consagração, depositaram, de escantilhão, as medalhas dos vencidos nas mãos de Mário Coluna - para que ele as distribuísse pelos colegas! Fora na Escola Católica de Santana de Munhuana que Coluna descobrira o jeito para o futebol. Também andara pelo boxe – e pelo atletismo chegou cedo a recordista provincial do alto em altura. Severiano Correia, a exemplo do que fizera a Costa Pereira, convenceu-o a apostar só no futebol. Nem um ano o segurou no seu Ferroviário – o Desportivo de Lourenço Marques ofereceu-lhe 500 escudos por mês, 1500 ganhava como mecânico de automóveis no Almoxarifado da Fazenda. Tinha 17 anos. Um dia, o Desportivo foi jogar à África do Sul – e teve de ficar por causa do apartheid, a sua equipa perdeu por 1-2. Algumas semanas depois, foram os sul-africanos a Lourenço Marques e perderam por... 7-0, sete golos de Coluna! Foi com essas credenciais que aterrou a Lisboa numa manhã de Agosto de 1954, depois de uma viagem de avião que demorou... 34 horas: - Mal cheguei, quis logo ir-me embora, vinha como craque, mas fiquei, não sei bem porquê, com a ideia de que seu Otto não me iria pôr a titular como avançado-centro. Além disso, o principal: quiseram enganar-me no contrato. Meu pai sugeriu-me que voltasse, fiz as malas, só não voltei porque o mordomo do Lar dos Jogadores tinha ordem para me barrar a saída se apercebesse que eu estava no ir... O ÁRBITRO DE FEZ HISTÓRIA (E NA HISTÓRIA FOI SEMPRE CASEIRO...) O árbitro do Inter-Benfica era o suíço Gottfried Dienst – e tornara-se o primeiro árbitro da história a apitar por duas vezes a final da Taça dos Campeões, na primeira também estivera o Benfica, foi a dos 3-2 ao Barcelona, em Berna. (No ano seguinte arbitrou a final do Mundial de 66 - e, depois de consultar o soviético Tofik Bakhramov, deu como válido o golo que valeu o título à Inglaterra na bola que não entrou. (Pior sucedeu no Euro 1968 – na final entre a Jugoslávia e a Itália foi acusado de tremendo «caseirismo», o jogo acabou empatado 1-1, a decisão levou-se para finalíssima, dois dias depois, a UEFA já não o escolheu para a repetição, pôs espanhol Ortiz de Mendibil no seu lugar…) PRESIDENTE DO BENFICA DEU AOS JOGADORES MAIS DO QUE PROMETERA PELA TAÇA... Ouvindo Elek Schwartz queixar-se de que Diesnt deixara um «escandaloso» penalty por assinalar contra o Inter, Mário Coluna juntou à caramunha: - O Benfica provou que é a melhor equipa da Europa, se tivéssemos jogado na Luz, como o Inter jogou em San Siro, teríamos ganho por três ou quatro. Adolfo Vieira de Brito, o presidente do Benfica, prometeu pagar do seu bolso réplica da Taça dos Campeões para colocar na sala de troféus com «dedicatória a preceito aos senhores da UEFA que puseram o Inter a jogar na sua casa» - e sabendo que cada italiano recebeu 235 contos pela vitória, decidiu dar aos seus jogadores não os 40 contos que combinara com eles como prémio de vitória, mas ainda mais – deu-lhes 50! (Um Vauxhall VX 4/90 andava pelos 98 612 escudos – e no dia do jogo A Bola tinha um «reclame» à Velosolex, que «rola e sobe sozinha e consome meio tostão ao quilómetro» - era uma bicicleta com motor, custava 3860 escudos.) ...
Do Passado para o Presente Foi já com a Taça dos Campeões perdida que o Benfica chegou a mais uma final, a final da Taça de Portugal. Avassalador voltara a ser nas meias: ganhou em Braga por 4-1, sete dias depois, na Luz, não se limitou a ganhar de novo ao Braga, esmagou-o – com 9-0. Adversário no Jamor, o Vitória de Setúbal de Fernando Vaz, o Fernando Vaz que era jornalista de A Bola, treinador se tornara como adjunto de Cândido de Oliveira, casapiano como ele. Sim, deu surpresa – o Benfica perdeu por 3-1. Germano foi expulso, um dos golos sadinos foi marcado por Jaime Graça, Carlos Manuel, o mais eufórico dos setubalenses, exclamou: - O Vitória pôs termo ao mito do Benfica, ao mito do Eusébio... mas o que pôs foi fim a Schwartz. Que nesse mesmo dia ficou a saber que seria substituído por Béla Guttmann. O contrato de Guttmann pouco diferente era do de 1963. De luvas recebeu 400 contos, o ordenado mensal manteve-se nos 15 contos. Bónus? A Taça dos Campeões valia 400 contos, o campeonato 250, a taça 100. (Pois, mas nisso nada levaria, porque nada ganharia.) O mais que recebeu foi da cláusula que lhe rendia um por cento em todos os cachets do clube. Que, por tê-la negociado antes da final de San Siro, arrancou do Jamor para digressão pela América do Sul, ainda a 1000 contos o desafio, perdendo-a com o Inter ficou a cobrar 800 contos por jogo. NÃO QUERIA COMPARAÇÕES COM PELÉ, ACHAVA QUE O MELHOR DO BENFICA ERA COLUNA... A caminho Eusébio largou a Cruz dos Santos mais um indício do seu caráter: - Não gosto que digam que sou o Pelé da Europa. Nem o Pelé Número Dois. Para eu ser como Pelé ainda tenho de aprender muito, muitíssimo mesmo, e talvez nem nunca chegue a ser igual a ele. Eu tenho um nome, sou Eusébio. Nem imaginam o desgosto que o caso pode dar à minha mãe. Minha mãe lê mal. Mas à força de lhe mostrarem os jornais, já conhece o meu nome, já sabe como se escreve. De maneira que quando escrevem Eusébio, pensa: estão ao falar do meu filho. Mas quando me chamam Pelé da Europa ou não fica a saber que falam de mim ou fica a saber e não gosta porque não escreveram o nome do filho. Sobre Pelé, não existem dúvidas: é o maior do Mundo inteiro. Agora, em relação a mim, acho que se exagera. Eu entendo que não sou eu o melhor da Europa uma vez que não sou, sequer, o melhor do Benfica. Para mim, o melhor jogador do Benfica é o senhor Coluna. OUVIRAM-SE TIROS EM CARACAS... Era julho e o destino era Caracas. Onde uma série de empresas venezuelanas fabricara com muito dinheiro: um Mundialito de Clubes. Dois anos antes, estando lá o Real Madrid, Di Stéfano, fora raptado por organização apoiada por Fidel Castro que se lançara ao se lançara ao ataque pela esquerda radical ao presidente Rómulo Betancourt. Ao primeiro treino do Benfica, ouviram-se tiros – e temendo-se que acontecesse o mesmo a Eusébio, passou a ter corpo de polícia de metralhadoras em punho a fazer-lhe guarda 24 horas por dia, dentro do hotel, até. Mesmo sem golo de Eusébio, a Taça foi para a Luz, perdeu-a o Atlético de Madrid de Jorge Mendonça, angolano que naturalizando-se espanhol era já Mendoza. SOVIÉTICOS QUERIAM BENFICA EM MOSCOVO, ENTROU A PIDE EM JOGO... Entretanto, surpreendente (ou talvez não...) foi o aceno que chegou de outro lado, do lado de lá da Cortina de Ferro. Fernando Silva Pais, o diretor da PIDE, leu A BOLA e o DN – e abespinhou-se. Contava-se que Albino André, diretor da agência de viagens TurExpresso estivera em Moscovo a preparar a ida do Benfica à URSS. Mandou chamá-lo a interrogatório. Revelou que fora sugestão de Gastão Silva – e que lhe deram garantias de que da parte do governo soviético «não existia a mínima objeção», que até autorizava a que, não querendo fazer-se a viagem na Aeroflot, se abrissem os aeroportos da URSS ao avião da TAP levasse o Benfica. Foi-lhe comunicado que nunca mais ousasse sequer pensar em «coisa assim» - e que descancelasse tudo. (Depois, fábrica de Coina tentou fazer anúncio sobre a exportação de um milhão de gabardinas. Os anúncios também estavam sujeitos a visto da Censura – e a determinação do coronel foi: «dizer que se exportou o milhão sim, mas dizer que vão para a Rússia não»...) ...
Do Passado para o Presente No final da época, Eusébio foi férias a Moçambique – e Rui Martins escreveu em A Bola peça que arrancava assim: O Eusébio não vai ficar nada satisfeito com a inconfidência. Mas eu não resisto a revelar... O que revelou foi que estava oficialmente noivo de Flora Bruheim. Na edição seguinte, mais um segredo desvendou: que, «tentado por proposta italiana», Eusébio «ofereceu 7000 contos pela sua desvinculação, mas o Benfica recusou. E que, no Inter, Eusébio ganharia só em ordenados 100 milhões de liras, cerca de 1500 contos, três vezes mais do que levava num ano do Benfica luvas, prémios e salários. (Entretanto, surgiu notícia de que Manuel Lopes, presidente do Vasco da Gama, oferecera por Eusébio um milhão de cruzeiros, qualquer coisa como 13 mil contos – e também foi em vão...) A MENINA DA GINÁSTICA QUE A BOLA DESCOBRIU... Em A Bola, Flora contou que os bisavós paternos alemães daí o apelido Bruheim. Que em Lourenço Marques trabalhava como operadora de máquinas de contabilidade, recebendo 2500 escudos por mês de ordenado. Que o casamento pelo registo seria a 22, sendo Eusébio representado por procuração por Nuno Abranches, o professor de ginástica de Lolita – e que horas depois partiria para a... «Metrópole». Na antevéspera do Benfica jogar com o FC Porto, Eusébio foi ao aeroporto buscá-la. Chegou com «elegante saia-casaco azul pálido» - e na mão romance de Eric Maria Remarque. À sua espera também estava Mário Zambujal, repórter de A Bola. De lá seguiu, enlaçada a Eusébio, ainda noite cerrada e chovendo, para a vivenda de Coluna em Linda-a-Velha, onde Flora (mesmo estando já casada por procuração) ficaria a residir até que se «consumasse o matrimónio religioso». À entrada para o carro, Zambujal lançou-lhe a questão: - Vai continuar a praticar ginástica? Flora olhou o marido, como quem esperasse que fosse ele a responder, Eusébio limitou-se a sorrir, ela murmurou: - Eu gostava... mas o Eusébio é que decide. Quando vierem os filhos, aí terei mesmo de abandonar. Mas, entretanto, se o Eusébio concordar... CASAMENTO COM GRAVATA QUE TROUXERA DO LUXEMBURGO... O Benfica perdeu nas Antas por 2-0. O casamento foi a 8 de outubro de 1965, três dias depois de Eusébio ter marcado quatro golos aos luxemburgueses do Dudelange, que o Benfica esmagou com 10-0, na segunda mão da primeira eliminatória da Taça dos Campeões. Chovia como chovia quando Flora aterrou na Portela. Multidão apinhou-se na rua para ver os noivos passar. Padrinho de Flora foi Mário Coluna, padrinho de Eusébio foi António Catarino Duarte, eleito, pouco antes, presidente do Benfica. Outros segredos se desfizeram. Que minutos antes do casamento, ao falarem-lhe da sorte que dava casar com coisa emprestada, que o que lhe surgiu à mão foram duas moedas, uma de 5 escudos, outra de 50 centavos - e com elas dentro do sapato disse sim. Que Eusébio viera para a Igreja diretamente do Lar do Benfica com gravata que comprara no... Luxemburgo. Que o Bolo de Casamento tinha 45 quilos e que o Copo de Água para 200 pessoas, no Restaurante Samba custara 30 contos. ...