SEGUNDA-FEIRA, 27-06-2016, ANO 17, N.º 5994
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destaques

Para fugir dos tanques soviéticos, treinou em ramos de árvores, levantou sacos de batatas e baixar a cabeça à bandeira da URSS foi o seu crime...
Estrela de Diamante Ainda com os tanques soviéticos a transformarem a Primavera em Inverno (aliás, em Inferno…) Josef Odlozil e Vera Caslavska conseguiram escapar de Praga sem deixar rasto – escondendo-se numa aldeia remota das montanhas de Sumperk. Tinha os Jogos Olímpicos do México à porta – e sem ginásio por perto, os seus treinos foram sobretudo, a levantar sacos de batatas e a utilizar ramos de árvores para exercícios de barra e paralelas. A primeira reação do governo foi retirá-los da equipa olímpica. De súbito se levantou alarido em defesa, sobretudo, de Vera – e para evitar ainda mais escaramuças, quase à última hora, foi-lhe garantida a presença no México. NO OURO O QUE SÓ SE TINHA VISTO NO FUTEBOL... Voltou de lá ainda mais eterna, com mais três medalhas de ouro: no salto, nas paralelas, no solo – e no concurso completo individual. Que fechou, incendiando as bancadas com um fascinante exercício de solo ao som da música Dança do Chapéu Mexicano, que levou a que um jornalista tenha descrito assim o momento: - O ruído era equivalente ao de um golo decisivo na final de um Campeonato do Mundo de Futebol, nunca tal acontecera num pavilhão olímpico, numa prova de ginástica… Não, não foi só: Vera Caslavska também levou medalhas de prata do concurso completo por equipas e da trave. No solo fora dada como vencedora, mas, de um instante o outro, o painel de juízes reajustou as notas – e colocou a soviética Larisa Petrik igualmente em primeiro lugar, ex-aequo com ela. Protestou, mas foi em vão. Pior sucedeu na trave – com o título entregue à também soviética Natalia Kuchinskaya. Protestou, mas foi em vão. Irritada, queixou-se de ter sido vítima de «golpe político» em benefício das russas – e durante a cerimónia do pódio na trave quando tocou o hino da URSS, Vera Caslavska, tirou os olhos da bandeira, deixando-se ficar, ostensiva, com a cabeça inclinada para baixo, de rosto fechado. Claro: esse seu gesto era mais do que a expressão da sua indignação - era também, subtil e poético, um ato político - de denúncia por aquilo que a URSS fizera na Checoslováquia, continuava a fazer... O CASAMENTO QUE TAMBÉM FOI MAIS DO QUE UM CASAMENTO... Não foi só: com os tanques soviéticos a destroçarem a Primavera de Praga, as igrejas que Dubcek permitira reativarem-se, voltaram a fechar-se e em mais um golpe de afronta à ditadura, Vera Caslavska e Josef Odlozil decidiram casar-se na capela cristã da Aldeia Olímpica - num casamento que era, também, ele, mais do que casamento... Ao saberem-no, autoridades mexicanas ofereceram-lhe ainda mais pompa e circunstância: que a cerimónia se fizesse na Catedral do México. Foi o que aconteceu – com a igreja a abarrotar de gente e ao compasso de mariachis. E Vera Caslavska saiu de lá como A Noiva do México – e a Maior Figura Feminina dos Jogos Olímpicos. NO REGRESSO A PRAGA, MAIS DO QUE O PASSAPORTE APRRENDIDO... No regresso à Chescoslováquia, com Dubcek a caminho da desgraça, os simpatizantes da Primavera de Parga - reverenciaram-nam, tornaram-na num dos seus símbolos. Os governantes que Moscovo impusera a Praga não – e usando como pretexto o seu comportamento no pódio, o seu crime, afinal tão grave (ou talvez pior...) do ter assinado o Manifesto das Duas Mil Palavras: - … de desrespeito à bandeira e ao hino de um povo amigo… avisaram-na que estava proibida de voltar a qualquer outra competição de ginástica, apreenderam-lhe o passaporte. Ao longo de dez anos de carreira, Vera Caslavska conquistara sete medalhas olímpicas de ouro e mais quatro de prata - e através do enleio do seu estilo «super-feminino» 10 títulos em 10 possíveis nos Campeonatos da Europa - record nunca mais igualado. (E apenas ela e Larissa Latynina conseguiram vencer por duas vezes consecutivas o concurso individual em Jogos Olímpicos…) A Josef Odlozil fizeram o que fizeram a Emil Zapotek: expulsaram-no de oficial do exército. Vá lá, teve um bocadinho mais de sorte: não o enviaram para trabalhos forçados em minas. Aliás, depois, prometendo-lhes que todas as penalizações que vinham sofrendo se desfaziam se se retratassem, se pedissem desculpa pela ligação ao Manifesto das Duas Mil Palavras, Odlozil fê-lo, Caslavska não. A Josef deram-lhe trabalho como treinador de atletismo no Sparta de Praga, a Vera negaram-lho. A TREINAR CLANDESTINAMENTE ATÉ COMEÇAREM AS CHANTAGENS... O Sparta lançou-lhe o desafio para treinar às escondidas as suas classes de ginástica – e Caslavska aceitou-o. Mas era tudo tão clandestino – que nunca era ela, obviamente, a acompanhar as pupilas a competições, fosse onde fosse. Nasceu-lhe Martin, o primeiro filho - e depois Radka, a filha. Quando a polícia política descobriu que estava a treinar clandestinamente no Sparta, o seu diretor chamou-a à sua sede para lhe repetir a proposta: - Se se desmarcar do Manifesto das Duas Mil Palavras, se admitir o seu erro, se fizer a sua autocrítica, pode voltar a trabalhar. Não o fez – e a 3 de janeiro de 1970 candidatou-se a treinadora nacional de ginástica da Checoslováquia. Repetiu-se o ritual: - Só se disser que não, que nunca assinou, o Manifesto das Duas Mil Palavras, que o seu nome foi lá colocado abusivamente. Se o não fizer, talvez daqui por um ano, quem sabe… Continuou a não fazê-lo – e durante cinco anos, no dia 3 de janeiro, nunca deixou de correr a pedir permissão para o emprego que a federação lhe queria dar - e sabia que não lho davam por não ceder aos seus princípios. ...
Estrela de Diamante Marginalizada pelos comunistas, Vera Caslavska dedicou-se à escrita da sua autobiografia. Quando a tinha pronta, proibiram-lhe a publicação na Checoslováquia. Havendo editora japonesa interessada, um agente dos serviços secretos conseguiu que todas as partes do livro em que denunciava as arbitrariedades do regime ou em que falava da história da cabeça baixa durante o hino soviético nos Jogos Olímpicos do México fossem censuradas: - Muitos anos depois, os japoneses contaram-me que foram abordados por Vladimir Novak de uma forma incrível: chegou para a reunião com uma faca e uma tesoura, encostou, ameaçador, a faca ao editor, com a tesoura cortou a parte em que eu contava a razão de ter feito o que fiz no pódio do México, outras coisas cortou. Ou seja, dessa forma, mesmo que quisessem, os japoneses já não o podiam publicar. Não, não tenho o original, o original perdeu-se numa das várias mudanças de casa a que eu fui obrigada, durante o purgatório em que vivi, depois da Primavera de Praga… NO MÉXICO, COM O TRUQUE DO PETRÓLEO... Sabendo-a proscrita, o governo do México solicitou ao governo de Praga autorização para que Vera Caslavska se tornasse sua treinadora nacional – e a resposta foi de pronto: - Não! Os mexicanos não se conformaram e lançaram em ameaça: - Se não deixarem Vera vir trabalhar para o México, fechamos as exportações de petróleo para a Checoslováquia. Cederam, então, à ameaça - e deram-lhe permissão de saída, a ela e ao marido. E Vera brincou, irónica: - No fundo, para eles, o petróleo valia mais do que eu... Foi tal o frenesim que causou, que chegou a ter um programa na televisão chamado: - Haga Gimnasia com Vera. Lá ficaram dois anos, entre 1979 e 1981. A relação com Odlozil deteriorara-se, porém. E antes do regresso a Praga, pediram divórcio do casamento religioso que lá tinha celebrado. NÃO DEIXARAM QUE SAMARANCH A VISSE, SAMARANCH TROCOU AS VOLTAS AOS SERVIÇOS SECRETOS... Claro, Vera Caslavska poderia ter-se exilado, não o fez – e regressou a Praga, ao seu suplício. Três anos depois, Juan Antonio Samaranch, presidente do COI, pediu que o governo o deixasse encontrar-se com Vera, responderam-lhe: - Não é possível, está a passar por problemas familiares, não quer ver ninguém. Não era verdade, os Serviços Secretos é que impediram o encontro - por receio da imagem que Vera poderia dar do que era o governo que lá se colocara sob controlo da Doutrina Brejnev: - ... que permitia apenas soberania limitada a todos países sobre influência da URSS. Já em 1985, Samaranch voltou a Praga – para entregar a Vera Caslavska a Ordem Olímpica e, sim, dessa vez as autoridades cederam, não tinham como evitá-lo. Outra permissão lhe deram, porém, entretanto: que, apesar de se lhe manter o passaporte apreendido, pudesse deslocar-se ao estrangeiro como juíza internacional de ginástica, «em casos específicos, mas sempre muito bem controlados». Se no México se tinham divorciado seis anos antes, em Praga só o fizeram oficialmente em 1987 – para que Odlozil se casasse em segundas núpcias, ficando Martin e Radka a viver com a mãe. A REVOLUÇÃO DE VELUDO QUE SÓ NÃO A TORNOU MINISTRA PORQUE NÃO QUIS... A 17 de novembro de 1989, Praga voltou ao reboliço: a polícia atacou violentamente uma manifestação de estudantes, causando centenas de feridos, arrastando a Checoslováquia para protestos em vários pontos do países, manifestações a crescerem em multidões de lés a lés. Formou-se um Fórum Cívico para «discussão livre», fizeram-se greve de contestação ao governo comunista – e assim se foi fazendo a Revolução de Veludo. A 29 de novembro, o parlamento aceitou que se retirasse da Constituição a referência ao «papel dirigente do Partido Comunista», a 5 de dezembro começou a retirada de arame farpado na fronteira com a Áustria e a 29 Vaclav Havel foi eleito presidente da República e Alexander Dubcek presidente do Parlamento. Havel desafiou Vera Caslavska para Ministra do Desporto. Não quis. Também não quis ser Embaixadora no Japão - ou candidata a Mayor de Praga. Ficou apenas como Conselheira Presidencial para o Desporto, a Educação, a Saúde e os Trabalhos Sociais – para que pudesse ser também presidente do Comité Olímpico da Checoslováquia. Parecia que lhe tinham, enfim, voltado os tempos felizes, mas afinal não… ...
Estrela de Diamante Apesar de não ter passado as agruras que Vera Caslavska passou durante a ditadura comunista da Checoslováquia – sendo-lhe permitido trabalhar como técnico de atletismo do Sparta, Josef Odlozil só foi reintegrado como oficial de alta patente no Exército na sequência da Revolução de Veludo. Coube-lhe, depois, por exemplo, o comando das forças da ONU na Guerra do Iraque. Do Iraque viera a Praga em férias – e a 7 de agosto de 1993 aconteceu a tragédia. Sabendo que Martin, o filho, resvalara para maus resultados na universidade foi à sua procura a uma discoteca da cidade para o repreender. A discussão azedou – e, o que se contou foi que, vendo o pai pronto para o esbofetear, Martin, descabelado, o empurrou. Na queda, Odlozil bateu com a cabeça no chão – e foi já inconsciente que o levaram para o hospital próximo. Entrou em coma, morreu a 10 de setembro… ATÉ ZATOPEK ESTEVE NO PEDIDO DE AMNISTIA... Martin foi condenado por homicídio involuntário a quatro anos de prisão – mas logo depois, apesar dos protestos das irmãs de Josef Odlozil, foi amnistiado por Vaclav Havel na sequência de uma campanha aberta por cidadãos ilustres e atletas olímpicos, entre eles Emil Zatopek, que consideravam que a morte «lamentável» fora um acidente, que Odlozil só caíra como caiu por estar completamente embriagado: - … quase sem se conseguir manter em pé… A DEPRESSÃO E OS 15 ANOS EM RECLUSÃO... O drama atirou Vera Caslavska para uma depressão profunda. Esteve internada num centro psiquiátrico, mesmo depois de lá sair – não foi capaz de aparecer em público, viveu 15 anos em total reclusão: - Foi terrível. A depressão é completamente diferente de uma perna partida ou até mesmo de um cancro. Nesses casos, pode ser-se otimista, ter bom espírito, não nos submetermos ao destino. Na depressão não, na depressão só se está apático, cansado da vida, a encolhermo-nos na cama, por baixo de um cobertor… Em 2009, regressou à vida – e não, não foi por acaso que Vera falou do cancro. Em meados de 2015, descobriram-lhe um tumor no pâncreas. Operaram-na de urgência: - Estive oito horas a lutar pela vida, mas pronta para vencer mais uma nova desgraça. Revelou-o depois: - A fase da quimioterapia foi horrível, o mais horrível, sim. Mas já voltei a fazer jogging, a nadar. Aliás, vocês sabem: durante o tsunami no Japão eu estava lá. Também foi uma lição de vida para mim, como foram os 15 anos que eu perdi com a depressão – e é por isso que eu, agora, digo que muito pior do que ter um cancro é passar por um tsunami. NÃO AO RIO, AS MENSAGENS VÃO POR EMAIL... O Comité Olímpico da República Checa quis levá-la aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro como «motivadora» da Missão, Vera agradeceu: - Não se preocupem, eu farei o que já fiz em Londres: mando todos os dias por email as minhas mensagens. Mas prefiro ficar em Praga a brincar com os meus netos e a ver as provas na televisão, que, com as repetições, se vê muito melhor… Luta contra o cancro, sem deixar de lutar por outras causas. E, por isso, um destes dias, Vera Caslavska voltou a ser notícia ao lançar-se, fulgurante, entre alguns dos principais escritores checos, numa campanha contra Milos Zeman, o presidente da República que a propósito da «crise dos refugiados» afirmou: - … a entrada deles é como a entrada de um cavalo de Tróia na cidade e eu sinto-me cada vez mais como Cassandra, a filha dos reis de Tróia que não tendo sido ouvida nos seus receios levou a que os gregos entrassem na cidade escondidos num enorme cavalo de madeira. Deu no que deu… E o que Vera lhe deu em troco foi o coração de novo abrir-se: - O povo tem de livrar-se do medo dos refugiados e nós não podemos calar-nos. Seria uma vergonha para os checos que só se ouvissem as vozes dos políticos populistas, extremistas e xenófobos. E, sim, temos a obrigação de ajudá-los – porque quem perde a dignidade não é quem foge da guerra ou da miséria é quem se recusa a ajudá-los, fechando-lhes as portas… ...